SEXO E DESTINO 
FRANCISCO CNDIDO XAVIER E WALDO VIEIRA 
DITADO PELO ESPRITO ANDRE LUIZ 
(14) 



Srie Andr Luiz 

1 -Nosso Lar 
2 -Os Mensageiros 
3 -Missionrios da Luz 
4 -Obreiros da Vida Eterna 
5 -No Mundo Maior 
6 -Agenda Crist 
7 -Libertao 
8 -Entre a Terra e o Cu 
9 -Nos Domnios da Mediunidade 
10 -Ao e Reao 
11 -Evoluo em Dois Mundos 
12 -Mecanismos da Mediunidade 
13 -Conduta Esprita 
14 -Sexo e Destino 
15 -Desobsesso 
16 -E a Vida Continua... 


NDICE 

Prece no Limiar 
Sexo e Destino 

PRIMEIRA PARTE -Mdium: WALDO VIEIRA 
CAPTULO 1 
CAPTULO 2 
CAPTULO 3 
CAPTULO 4 
CAPTULO 5 
CAPTULO 6 
CAPTULO 7 
CAPTULO 8 
CAPTULO 9 
CAPTULO 10 
CAPTULO 11 
CAPTULO 12 
CAPTULO 13 
CAPTULO 14 

SEGUNDA PARTE -Mdium: FRANCISCO CNDIDO XAVIER 
CAPTULO 1 
CAPTULO 2 
CAPTULO 3 
CAPTULO 4 
CAPTULO 5 
CAPTULO 6 
CAPTULO 7 
CAPTULO 8 
CAPTULO 9 
CAPTULO 10 
CAPTULO 11 
CAPTULO 12 
CAPTULO 13 
CAPTULO 14 


Prece no Limiar 

Pai de Infinita Bondade! 

Este  um livro em que permitiste ao nosso Andr Luis traar, em lances 
palpitantes da existncia, alguns conceitos da Espiritualidade Superior, em torno de 
sexo e destino  fotografia verbal de nossas realidades amargas que entremeaste 
de esperanas eternas. 

Entregando-o aos companheiros reencarnados no mundo, queremos recordar 
Jesus  o Enviado de Tua Ilimitada Misericrdia  naquele dia de sol em 
Jerusalm... 

Na praa repleta de acusadores, escribas e fariseus apresentaram-lhe 
sofredora mulher que diziam haver apanhado em transgresso, ao mesmo tempo 
que o inquiriam, experimentando-lhe a conduta: 

 Mestre, esta mulher foi encontrada em adultrio... A lei manda apedrejar. Tu, 
porm, que dizes? 
O Mestre contemplou demoradamente os zeladores de Moiss, e, porque nada 
mais adiantaria explicar-lhes ao crebro embotado de preconceitos, disse-lhes, 
alongando a palavra a todos os moralistas dos sculos porvindouros: 

 Quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra!... 
Jerusalm, agora,  o mundo! 
Na praa extensa das convenes humanas, empenha-se o materialismo na 
dissoluo dos valores morais, com escrnio manifesto  dignidade humana, 
enquanto religies venerveis digladiam com a Natureza, tentando, em vo, 
bloquear a vida, qual se quisessem ilaquear a si prprias. Ao tremendo conflito 
dessas foras gigantescas que lutam pelo dominio moral da Terra, enviaste, a 
Doutrina Esprita, em nome do Evangelho do Cristo, para asserenar os coraes e 
comunicar-lhes que o amor  a essncia do Universo; que as criaturas te nasceram 
do lito divino para se amarem umas s outras; que o sexo  legado sublime e que 

o lar  refgio santificante, esclarecendo, porm, que o amor e O sexo plasmam 
responsabilidades naturais na conscincia de cada um e que ningum lesa algum 
nos tesouros afetivos, sem dolorosas reparaes. 
Este volume pretende afirmar, ainda, que, se no podes subtrair os culpados s 
conseqncias do erro em que se tornaram incursos, no permites que os vencidos 
sejam desamparados, desde que te aceitem a luz retificadora para o caminho. 
Mostra que, em tua bno, os delinqentes de ontem, hoje redimidos, se 
transfiguram em teus mensageiros de redeno para aqueles mesmos que lhes 
caram, outrora, nas ciladas sombrias. 

Abenoa, pois, o presente relato estu ante de verdade e esperana, e, ao confilo 
aos nossos irmos do mundo, deixa possamos lembrar-lhes que a existncia 
fsica, seja na infncia ou na mocidade, na madureza ou na velhice,  sempre dom 
inefvel que nos cabe honorificar e que, mesmo detendo um corpo carnal rastejante 
ou disforme, mutilado ou enfermio, devemos repetir diante da tua Sabedoria 
Incomensurvel: 

 Obrigado, meu Deus! 
EMMANUEL 

Uberaba, 4 de julho de 1963. 


(Pgina recebida pelo mdium Francisco Cndido Xavier.) 


Sexo e Destino 

Sexo e destino, amor e conscincia, liberdade e compromisso, culpa e resgate, 
lar e reencarnao constituem os temas deste livro, nascido na forja da realidade 
cotidiana. 

Entretanto, leitor amigo, aps a orao do benfeitor, que se pronunciou no limiar, 
nada mais nos compete que no seja entregar-te a narrativa que a Divina 
Providncia nos permitiu alinhavar, no pelo exclusivo propsito de desnudar a 
verdade, mas sim no objetivo de aprender com a biblioteca da experincia. 

Cremos seja desnecessrio esclarecer que os nomes dos protagonistas desta 
histria real foram substituidos por bvias razes e que a presente biografia de 
grupo no pertence a outras criaturas seno a eles mesmos que no-la permitiram 
redigir, para a nossa edificao, depois de naturalmente consultados. 

Solicitamos, ainda, permisso para dizer-te que no foi retirado um s til das 
verdades que a entretecem  verdades da verdade, que, fremindo de captulo a 
capitulo, carreia consigo, em passagens numerosas, a luz de nossas esperanas e 

o amargo sabor de nossas lgrimas. 
ANDR LUIZ 

Uberaba, 4 de julho de 1963. 

(Pgina recebida pelo mdium Waldo Vieira.) 


PRIMEIRA PARTE 
Mdium: WALDO VIEIRA 



Captulo 1 

Qual acontece entre os homens, no Mundo Espiritual que os rodeia, sofrimento 
e expectao esmerilam a alma, disciplinando, aperfeioando, reconstruindo... 

Enquanto envergamos a veste fsica, habitualmente imaginamos o paraso das 
religies encravado para l da morte. Sonhamos o apaziguamento integral dos 
sentidos, o acesso  alegria inefvel que anestesie toda lembrana convertida em 
chaga mental. No entanto, atravessada a fronteira de cinza, eis-nos erguidos  
responsabilidade inevitvel, ante o reencontro da prpria conscincia. 

Uma vida humana, a continuar-se naturalmente no Alm, assume, assim, a 
forma de partida, em dois tempos distintos. Diferem campos e vestimentas; 
entretanto, a luta da personalidade, de um renascimento a outro na Terra, afigura-se 
laborioso prlio em duas fases. Anverso e reverso da experincia. O bero inicia, O 
tmulo desdobra. Com rarssimas excees na regra, somente a reencarnao 
consegue transfigurar-nos de modo fundamental. 

Deixamos no esquife o casulo mirrado e transportamos conosco, na mesma 
ficha de identificao pessoal, para outras esferas, os ingredientes espirituais que 
cultivamos e atramos. 

Inteligncias em evoluo na eternidade do espao e do tempo, os Espritos 
domiciliados na Moradia Terrestre, em abandonando o invlucro de matria mais 
densa, assemelham-se, figuradamente, aos insetos. Larvas existem que se retiram 
do ovo e revelam-se na condio de parasitas, enquanto que outras se 
transformam, de imediato, em fale-nas de prodigiosa beleza, ganhando altura. 

Encontramos criaturas que se afastam do estojo carnal, entrando em largos 
processos obsessivos, nos quais se movimentam  custa de foras alheias, ao lado 
de outras que, de pronto, se elevam, aprimoradas e belas, a planos superiores da 
evoluo. E entre as que se agarram profundamente s sensaes da natureza 
fsica e as que conquistam a sublime ascenso para estgios edificantes, no Grande 
Alm, surge a gama infinita das posies em que se graduam. 

Emergindo na Espiritualidade, aps a desencarnao, sofremos, a princpio, o 
desencanto de todos os que esperavam pelo cu teolgico, fcil de granjear. 

A verdade aparece por alavanca renovadora. Padecendo ainda espessa 
amnsia, relativamente ao passado remoto, que descansa nos pores da memria, 
somos ento defrontados por velhos preconceitos que se nos entrechocam no 
ntimo, tombando despedaados. Suspiramos pela inrcia que no existe. Exigimos 
resposta afirmativa aos absurdos da f convencionalista e dogmtica que reclama a 
integrao com Deus para si s, excluindo, pretensiosamente, da Paternidade 
Divina, os que no lhe comunguem a viso acanhada. 

De semelhantes conflitos, por vezes terrveis e extenuantes, nos recessos da 
mente, muitos de ns samos abatidos ou revoltados para extensas incurses no 
vampirismo ou no desespero; a maior parte dos desencarnados, porm, a pouco e 
pouco se acomoda s circunstncias, aceitando a continuidade do trabalho na 
reeducao prpria, com os resultados da existncia aparentemente encerrada no 
mundo,  espera da reencarnao que possibilite renovao e recomeo... 

Essas ponderaes afogueavam-me o pensamento, reparando a tristeza e o 
cansao do meu amigo Pedro Neves, devotado servidor do Ministrio do Auxlio. (1) 

Partilhando expedies arrojadas e valorosas em atividade benemrita, ainda 
no lhe vramos hesitaes quaisquer. Veterano de empreendimentos socorristas, 
jamais entremostrara desnimo ou fraqueza, por mais opressivo se lhe evidenciasse 


o peso de compromissos e obrigaes. 
Advogado que fora, na existncia ltima, caracterizava-se por extrema lucidez, 
no exame dos problemas que as eventualidades do caminho apresentassem. 
Sempre denodado e humilde; agora, porm, enunciava sensveis alteraes de 
comportamento. 
Soubera-o com breves encargos, na esfera fsica, para atender, de modo mais 
direto, a necessidades de ordem familiar, cuja extenso e natureza no me houvera 
sido possvel perceber. 

Desde ento, mostrava-se arredio e desencantado, copiando o feitio de 
companheiros recm-chegados da Terra. Isolava-se em funda reflexo. Fugia  
conversao fraterna. Queixava-se disso ou daquilo. E vez por outra, em servio, 
denotava lgrimas que no chegavam a cair. 

Ningum ousava sondar-lhe o sofrimento, tal a fibra moral em que se lhe 
exprimiam as atitudes. 

Provocando, porm, algumas horas de desafogo, num banco de jardim, busquei 
habilmente lan-lo  extroverso, alegando dificuldades que me preocupavam. 
Referi-me aos descendentes que deixara no mundo e s inquietaes que me 
causavam. 

Pressentia-lhe na tristeza a presena de lutas domsticas a lhe torturarem a 
alma, quais ulceraes em recidiva, e no me enganei. 
O amigo absorveu a isca afetiva e desenovelou os sentimentos. 

(1) Organizao de Nosso Lar.  Nota do Autor espiritual. 
A principio, falou vagamente das apreenses que lhe assomavam ao esprito 
agoniado. Aspirava a esquecer, alhear-se; no entanto... a retaguarda familiar no 
mundo lhe infligia dolorosas reminiscncias difceis de extirpar. 

  a esposa quem o aflige, assim tanto? 
 Aventurei, procurando localizar o carnico da mgoa que lhe abria as 
comportas do pranto silencioso. 
Pedro fitou-me com a postura dolorida de um co batido e respondeu: 

 H momentos, Andr, nos quais ser preciso biografar-nos, ainda que 
superficialmente, para vascolejar o pretrito e extrair dele a verdade, somente a 
verdade... 
Meditou, algo sufocado por instantes, e prosseguiu: 

 No sou homem que me deixe governar por sentimentalismos, embora 
aprecie as emoes pelo justo valor. Alm disso, a experincia, desde muito, me 
ensinou a raciocinar. H quarenta anos, moro aqui e, h quase quarenta anos, a 
esposa compeliu-me a absoluto desinteresse do corao. Deixei-a quando a 
mocidade das energias fsicas lhe estuava no sangue, e Enedina, 
compreensivelmente, no pde sustentar-se a distncia das exigncias femininas. 
E prosseguiu esclarecendo que ela se associara a outro homem, num segundo 
casamento, entregando-lhe seus trs filhos por enteados. Esse novo marido, 
entretanto, arredou-a completamente de sua convivncia espiritual. Homem 
ambicioso, senhoreou os cabedais que ele ajuntara, logrando multiplic-los 
imensamente,  fora de astcia em arrojadas empresas comerciais. E agiu com 
tanta leviandade que a esposa, dantes simples, se apaixonou pelas comodidades 
demasiadas, gastando o tempo terrestre em prodigalidades e tafulices, at que se 
rojou s derradeiras viciaes nos desvarios do sexo. Observando o esposo em 


aventuras galantes, de modo permanente, na posio de cavalheiro rico e 
desocupado, quis desforrar-se, estabelecendo para si mesma desordenado culto ao 
prazer, mal sabendo que apenas se transviava, em lamentveis desequilbrios. 

 E meus dois filhos, Jorge e Ernesto, ludibriados pelo fascnio do ouro com 
que o padrasto lhes comprava a subservincia, enlouqueceram no mesmo delrio do 
dinheiro fcil e se animalizaram a tal ponto que nem de leve guardam qualquer trao 
de minha memria, no obstante serem atualmente negociantes abastados, em 
idade madura... 
 A esposa, no entanto, ainda se encontra no mundo fsico?  arrisquei, 
cortando a pausa longa, para que a explicao no esmorecesse. 
 Minha pobre Enedina voltou, h dez anos, abandonando o corpo pela 
imposio da ictercia, que lhe apareceu por verdugo invisvel, evocado pelas 
bebidas alcolicas. Fitando-a, edemaciada, vencida, ensaiei alarmado todos os 
processos de socorro  minha disposio... 
Atemorizava-me a perspectiva de v-la escravizada s foras aviltantes a que 
se jungira sem perceber; ansiava ret-la no corpo de carne, como quem resguarda 
uma criana inconsciente em disfarado refgio. Entretanto, ai de mim! Colhida por 
entidades infelizes, s quais se consorciou levianamente, em vo procurei estender-
lhe algum consolo, porqanto ela mesma, depois de desencarnada, se compraz na 
viciao, tentando a fuga impossvel de si prpria. No h outro recurso seno 
esperar, esperar... 

 E os filhos? 
 Jorge e Ernesto, hipnotizados pela riqueza material, para mim fizeram-se 
inabordveis. 
Mentalmente, no me registram a lembrana. Intentando captar-lhes cooperao 
e simpatia, o padrasto chegou a insinuar que no seriam meus filhos e sim dele 
prprio, atravs de unio com minha esposa. ao tempo de minha experincia 
terrestre, o que Enedina, infelizmente, no desmentiu... 

O companheiro esboou um sorriso amarelo e considerou: 

 Imagine! Na carne, o medo  comum, frente dos desencarnados e, em meu 
caso, fui eu quem se afastou do ambiente domstico, sob sensaes de insopitvel 
horror... Ainda assim, a bondade de Deus no me arrojou  solido, em se tratando 
da ternura familiar. Tenho uma filha de quem jamais me separei pelos laos do 
esprito... Beatriz, que deixei na flor da meninice, suportou pacientemente as 
afrontas e conservou-se fiel ao meu nome. Somos, assim, duas almas, na mesma 
faixa de entendimento... 
Pedro enxugou os olhos e acrescentou: 

 Agora, com quase meio sculo de existncia entre os homens, presa embora 
ao carinho que consagra ao esposo e ao filho nico, prepara-se Beatriz para o 
regresso... Minha filha vem atravessando os derradeiros dias terrenos, com o corpo 
torturado pelo cncer... 
 Mas, atormenta-se voc por isso? A idia do reencontro pacfico no ser, 
antes, motivo para alegrar-se? 
 E os problemas, meu amigo? Os problemas do grupo consangneo? Por 
muitos anos, estive  margem de todas as tricas do navio familiar... Fizera-me ao 
oceano largo da vida... Agora, por amor  filha inesquecvel, sou compelido a topar, 
com esprito de caridade, a irreflexo e o descaramento. Estou inapto, 
desambientado... Desde que me postei  cabeceira da doente querida, vejo-me na 
condio do aluno debilitado pela expectativa de erros constantes.. 

Dispunha-se Neves a prosseguir, mas urgente chamado de servio nos 
impeliu  separao e, conquanto diligenciando acalm-lo, despedi-me, sob o 
compromisso de irmanar-me a ele, nas tarefas de assistncia  enferma, de modo 
mais intenso, a partir do dia seguinte. 


Captulo 2 

Repousava Dona Beatriz no leito bem-posto, patenteando enorme cansao. 

A doena, decerto, consumia-lhe a forma fsica, desde muito, porqanto aos 
quarenta e sete anos de idade mostrava o rosto singularmente engelhado e o corpo 
leve. 

Refletia, ensimesmada, tristonha... Fcil de se lhe ver a preocupao, ante a 
crise iminente. 

Idias a lhe flurem, vivas e nobres, indicavam que se habituara  certeza da 
desencarnao prxima. Notava-se-lhe fixada no pensamento a convico do 
viajante que atingira o trmino de espinhosa trilha, da qual, por fim, lhe competia 
sair. 

Conquanto tranqila, inquietava-se pelos vnculos que a prendiam no mundo. 
Apesar disso, visualizava as portas do Alm, plasmando formosos quadros ntimos, 
como quem sonha  luz da viglia, e recordava Neves, o pai que perdera na infncia, 
qual se visse prestes a recuper-lo, em definitivo, tal a extenso do amor que os 
acolchetava um ao outro. 

Observvamos, porm, sem dificuldade, que a alma afetuosa da enferma se 
dividia mais fortemente, na Terra, entre o esposo e o filho, dos quais se reconhecia 
em gradativo processo de inevitvel separao. 

No aposento acolhedor, que alguns adereos ataviavam, tudo transparecia 
limpeza, reconforto, assistncia, carinho. 

Ante o leito, encontramos sisudo enfermeiro desencarnado que Neves abraou, 
demonstrando guard-lo  conta de imensa estima. 

E apresentou-nos: 

-Amaro, temos aqui Andr Luiz, amigo e mdico que, doravante, nos partilhar 
os servios. 

Saudamo-nos cordialmente. 

Neves inquiriu, atencioso: 

 O irmo Flix veio hoje? 
 Sim, como sempre. 
Informei-me, ento, de que o irmo Flix, desde muitos anos, era o 
superintendente de importante casa socorrista, ligada ao Ministrio da Regenerao, 
em Nosso Lar (2). Famoso pela bondade e pacincia, era conhecido como 
sendo um apstolo da abnegao e do bom-senso. 

No dispnhamos, entretanto, de qualquer tempo para consideraes pessoais. 

Dona Beatriz experimentava dores agudas e o companheiro mostrou o propsito 
de alivi-la, atravs do passe confortativo, enquanto a senhora se via 
aparentemente a ss. Em grande prostrao fsica, revelava profunda sensibilidade 
medinica. 

Oh! os sublimes pensamentos do leito de dor!... De olhos cerrados, a doente, 
embora no assinalasse a presena paterna, lembrava a ternura do genitor, que lhe 
parecia distante e inacessvel no tempo. Identificava-se, de novo, com a 
ingenuidade infantil... Na acstica da memria, ouvia as canes do lar, voltava, 
encantada, s horas da meninice... Reconstituindo na imaginao as relquias do 
bero, sentia-se no regao paternal,  maneira da ave de regresso  penugem do 
ninho! 

Dona Beatriz chorava. Lgrimas de enternecimento inexprimvel perolavam-lhe 
a face. E sem que a boca enunciasse o menor movimento, clamava intimamente 


com toda a alma: pai, meu pai!... 

2) Organizaes no Plano dos Espritos. Nota do Autor Espiritual. 

Meditai, vs que, no mundo, admitis para os desencarnados a indiferena da 
cinza! Para l dos tmulos, amor e saudade muitas vezes se transformam, no vaso 
do corao, em pranto comburente! 

Neves cambaleou, agoniado... Enlacei-o, contudo, a pedir-lhe coragem. A 
ventania da angstia, porm, sobre o nimo do companheiro atribulado, perdurou 
apenas alguns momentos. 

Refeito, a recompor o semblante que o sofrimento transfigurara, espalmou a 
destra na fronte da filha e orou, suplicando o amparo da Bondade Divina. 

Chispas de luz, quais minsculas flamas azulneas, evolavam-lhe do trax, a se 
projetarem naquele corpo fatigado, revestindo-o de energias calmantes. 

Emocionado, observei que Dona Beatriz se acomodava a suave torpor. E antes 
que pudesse enunciar qualquer impresso, uma jovem, figurando-se nas vinte 
primaveras da experincia fsica, entrou cautelosamente no quarto. Renteou 
conosco, sem perceber-nos, de leve, e tomou o pulso da enferma, verificando-lhe as 
condies. 

A recm-chegada esboou o gesto de quem reconhecia tudo em ordem. 
Encaminhou-se, logo aps, na direo de pequenino armrio prximo e, munindo-se 
dos recursos necessrios, voltou  cabeceira da dona da casa, aplicando-lhe 
injeo anestesiante. 

Dona Beatriz no mostrou a mnima reao, continuando a descansar, sem 
dormir. 

O concurso magntico de minutos antes insensibilizara-lhe os centros nervosos. 

Perfeitamente tranqila, a moa, na qual observvamos a posio da enfermeira 
improvisada, retirou-se para um dos ngulos do aposento, a largar-se em 
acolhedora poltrona de vime. Em seguida, descerrou um dos segmentos da janela 
quadripartida, atraindo a corrente de ar fresco que nos bafejou sem alarde. 

Respirando  saciedade, a jovem, com grande surpresa para mim, acendeu um 
cigarro e passou a fumar distraidamente, dando a idia de quem diligenciava fugir 
de si mesma. 

Neves fitou-a, deitando-lhe significativo olhar em que se mesclavam piedade e 
revolta e, indicando-a, discreto, informou-me: 

 Trata-se de Marina, contadora de meu genro, que se dedica ao comrcio de 
imveis... 

Agora, a pedido dele, desempenha funes de assistente... 

Evidente sarcasmo transparecia-lhe da palavra reticenciosa. 

-Imagine!  voltou a dizer  fumar aqui. numa cmara de dor, onde a morte 
est sendo esperada!... 

Contemplei Marina, cujos olhos denotavam recndita inquietude. 

Manifestando ainda alguns laivos de respeitosa estima para com a nobre 
senhora estirada no leito, soprava, para alm da janela, as baforadas cinzentas que 
lhe escapavam da boca. 

Repartindo a prpria ateno entre ela e Amaro, o nosso amigo da esfera 
espiritual, Neves, conquanto mudo e constrangido, parecia querer falar  vontade e 
desinibir-se. 

Tentei, porm, adquirir mais amplo conhecimento da posio. 


Aproximei-me reverentemente da jovem, no propsito de sond-la em silncio 
e colher-lhe as vibraes mais intimas; contudo, recuei assustado. 

Estranhas formas-pensamentos, retratando-lhe os hbitos e anseios, em 
contradio com os nossos propsitos de socorrer a doente, fizeram-me para logo 
sentir que Marina se achava ali, a contragosto. A sua mente vagueava longe... 

Quadros vivos de esfuziante agitao ressumavam-lhe na cabea... De olhar 
parado, escutava, adentro de si prpria, a msica brejeira da noite festiva, que 
atravessara na vspera, e experimentava ainda na garganta a impresso do gim 
que sorvera, abundante. 

Apesar de surgir-nos, superficialmente,  guisa de menina crescida, sob o 
turbilho de nvoa fumarenta, exibia telas mentais complexas, a lhe relampaguearem 
na aura imprecisa. 

Trazido pelas circunstncias a colaborar na soluo de um processo 
assistencial, sem qualquer intuito menos digno, passei a estudar-lhe o comportamento 
isolado. A Medicina terrestre, no futuro, para atender com eficcia, ao 
doente, examinar-lhe-, com mincias, a feio espiritual de todas as peas 
humanas que lhe articulam a equipe. 

Respeitoso, iniciei os apontamentos de ampla anamnese psicolgica. 

Marina apresentou, a princpio, a figura de um homem amadurecido, cunhada 
por sua prpria imaginao, a repetir-se-lhe, muitas vezes, acima da fronte. 

Ela e ele, juntos... Percebia-se-lhes, de pronto, a intimidade, adivinhava-se-lhes 

o romance... 
Fisicamente, semelhavam pai e filha; entretanto, pelas atitudes sentimentais, 
no conseguiam disfarar a estuante paixo um pelo outro. Nos painis sutis que 
surgiam e se desfaziam, alternadamente, mostravam-se ambos extasiados, brios 
de prazer, fosse aboletados no automvel de luxo ou enlaados na areia morna das 
praias, conchegados sob a proteo de arvoredo tranqilo ou sorridentes em tumultuados 
abrigos de encantamento noturno... Deslumbrantes paisagens de 
Copacabana ao Leblon desfilavam por admirvel fundo pictrico. 

A moa entrefechava as plpebras para senhorear, com mais segurana, as 
reminiscncias que lhe empolgavam os sentidos, para, logo aps, mentalizar, 
surpreendentemente, outro homem, to jovem quanto ela mesma, evidenciando-senos 
entregue s cenas de um filme interior, diferente... 

Formava novo tipo de palco para exibir a lembrana das prprias aventuras, no 
qual se destacava igualmente ao p do rapaz, como se estivesse afeioada aos 
mesmos stios, desfrutando companhias diversas... Ela e ele tambm juntos, no 
mesmo carro entrevisto ou na condio de pedestres felizes, saboreando refrescos 
ou repousando em animados entendimentos nos jardins pblicos, sugerindo o encontro 
de crianas enamoradas, a entretecerem aspiraes e sonhos.. 

Naqueles rpidos minutos de fixao espiritual, em que se exteriorizava tal qual 
era, Marina revelava a personalidade dplice da mulher dividida entre o carinho de 
dois homens, jugulada por pensamentos de medo e inquietude, ansiedade e arrependimento. 


Neves, que de algum modo me partilhava a inspeo, quebrou a calma reinante, 
enunciando, abatido: 

 Est vendo? Julga que  fcil para mim, pai da doente, suportar aqui 
semelhante criatura? 
Tratei de consol-lo e, por solicitao dele prprio, passamos a pequeno salo 
de leitura, contguo ao aposento da enferma, a fim de que pudssemos refletir e 


conversar. 


Captulo 3 

Na pea isolada, o amigo cravou os olhos lcidos nos meus e obtemperou: 

 Aps a desencarnao, achamo-nos na segunda fase da prpria existncia e 
ningum, na Terra, imagina as novas condies que nos tomam de assalto. .. De 
comeo, renovamos a vida... 
Equipes salvadoras, apoio na prece, estudo das vibraes, escola da caridade. 
Ensaiamos, felizes, o culto dos grandes sentimentos humanos... Depois, quando 
trazidos, de retorno, ao trabalho mais ntimo, na arena domstica, que supnhamos 
varrida para sempre da memria, como na situao especial de meu caso, a 
didtica  outra...  preciso espremer o sangue do corao para confirmar o que 
ensinamos com a cabea... Avalie que me encontro nesta casa, em servio, apenas 
h vinte dias e j recebi tantas punhaladas na alma, que, no fossem as 
necessidades de minha filha, teria fugido, incontinenti... Sem minhas observaes 
pessoais, no teria admitido tanta leviandade em meu genro... Bilontra, fanfarro 
despudorado. 

Sim, sim...  tentei cortar as doloridas alegaes. 
Comentei, breve, a excelncia do olvido de todo mal, argumentei quanto ao 
merecimento do auxlio silencioso, atravs da orao. 
Neves sorriu, meio desconsolado, e ajuntou: 

 Compreendo que voc se reporta  vantagem do pensamento positivo na 
fixao do bem e creia que, de minha parte, farei quanto puder para no esquec-lo. 
Agora, porm, tolere, por favor, as minhas consideraes talvez descabidas. .. A 
Medicina  cincia luminosa, recheada de raciocnios puros; no entanto, muitas 
vezes  obrigada a descer da alta cultura para dissecar os cadveres... 
Endereou-me o olhar de algum que anseia derramar-se noutro algum e 
continuou: 

 Saiba voc que na quinta noite de minha permanncia aqui, notando Beatriz 
em aguda crise de sofrimento, diligenciei buscar meu genro para assisti-la em 
pessoa... E sabe onde o encontrei? 
Nada de escritrio, segundo a falsa informao que deixara em casa. Indignado, 
fui surpreend-lo numa furna penumbrosa, em plena madrugada, junto da menina 
que voc acaba de conhecer. Os dois unidos, qual marido e mulher. Champanha 
correndo e msica lasciva. Entidades perturbadoras e perturbadas, jungidas ao 
corpo dos bailarinos, enquanto outras iam e vinham, a se inclinarem sobre taas, 
cujo contedo lbios entediados no haviam conseguido sorver totalmente. 

Em recanto multicolorido, onde algumas jovens exibiam formas semi-nuas em 
coleios esquisitos, vampiros articulavam trejeitos, completando, em sentido menos 
digno, os quadros que o mau-gosto humano pretendia apresentar, em nome da arte. 
Tudo rasteiro, imprprio, inconveniente... Fisguei meu genro e a colaboradora, nos 
braos um do outro, recordei minha filha doente e revoltei-me. Sbito desespero 
apossou-se de mim. Oscilou minha razo escurecida, pois cheguei a justificar, de 
relance, a deplorvel atitude dos companheiros desencarnados que se transformam 
em vingadores intransigentes. O homem velho que eu fora e o homem renovado 
que aspiro a ser digladiavam em minhas fibras recnditas... 

Estacou numa pausa, rearticulando os pensamentos, e continuou: 

 Tinha visto, apavorado, em outro tempo, aqueles que se animalizavam, 
depois da morte, nos lares que lhes haviam sido reduto  felicidade, a se 
precipitarem, violentos, sobre os entes amados que lhes desertavam da afeio... 

Funcionara, entusiasmado, em diversas comisses socorristas, procurando 
esclarec-los e modific-los para o bem, a fazer-lhes sentir que as lutas morais, 
depois da desencarnao, se erigiriam igualmente em penosa herana para todos 
aqueles com os quais se desarmonizavam; advertia-os de que o tmulo esperava 
tambm quantos, na Terra, lhes sonegavam lealdade e ternura... E, bastas vezes, 
lograva acalm-los para a retirada benfica. Mas ali.. Imprudentemente agastado 
contra a insensibilidade do homem que me desposara a filha querida, vi-me 
chamado a praticar os bons conselhos que havia administrado... 

Oamigo fez ligeiro intervalo, enxugou as lgrimas que lhe corriam no rosto, ao 
evocar a prpria inconformao, e completou a frase, aditando: 

 Mas no pude. Tomado de clera incoercvel, avancei, qual fera 
desacorrentada, e, irrefletidamente, esmurrei-lhe a face. Ele deixou-se cair nos 
ombros da companheira, acusando agoniada indisposio, como se estivesse sob o 
impacto de sbita lipotimia... Dispunha-me, em seguida, a torcer-lhe o corpo, em 
meus braos rijos; entretanto, no consegui. Uma senhora desencarnada, de semblante 
nobre e calmo, aproximou, desarmando-me o ntimo. No entremostrava 
sinais exteriores de elevao. Patenteava-se, alis, to profundamente humana, 
quanto ns mesmos. Diferenciava-se apenas atravs de minsculo distintivo 
luminoso, que lhe brilhava palidamente no peito, qual jia rara a emitir discreta 
radiao. Afagou-me, de leve, a cabea e induziu-me  serenidade. Envergonhado, 
fitei-a, constrangido. A dama inesperada no me censurou, nem fez qualquer aluso 
ao meu gesto infeliz. Ao revs, falou-me com bondade, quanto  filha doente. 
Demonstrava conhecer Beatriz, tanto quanto eu prprio. E acabou convidando-me a 
sair do recinto, para acompanh-la at ao quarto da enferma. Atendi sem relutncia. 
E porque a gentil interventora, no trajeto, somente se reportasse aos mritos da 
compreenso e da tolerncia, sem qualquer referncia aos desvarios da casa que 
vnhamos de deixar, procurei reprimir-me, para cogitar, exclusivamente, de socorro 
 filha em dificuldade. A mensageira annima recolocou-me no lar, despedindo-se, 
delicada; e depois disso no mais a vi, pelo que, ainda agora, me lembro dela, 
positivamente intrigado... 
Ensaiava alguma observao reconfortante, rememorando minhas experincias, 
quando Neves, interpretando-me os pensamentos, obtemperou depois de longa 
pausa: 

 Voc, Andr, nunca se viu defrontado por acontecimentos assim 
desagradveis? 
Recordei, emocionadamente, as primeiras impresses que me haviam 
transtornado a sensibilidade, aps a desencarnao. Reconstitu na memria todas 
as telas em que me surpreendera desanimado, excitado, dilacerado, vencido... 

As transformaes domsticas, os empeos familiares, os impositivos da luta 
humana e as sugestes da natureza fsica que me haviam alterado a esposa e os 
filhos, na Terra, quando se reconheceram sem a minha presena direta, retornaramme 
ao corao. Senti-me mais estreitamente ligado ao meu interlocutor, 
assimilando-lhe o torturado influxo mental, e comentei: 

 Sim, meu amigo, atravessada a grande barreira, os meus problemas, a 
princpio, foram enormes... 
Entretanto, no foi possvel desabafar-me. Cavalheiro maduro e simptico 
penetrou o recinto, compreensivelmente sem perceber-nos. 
Neves, contrafeito, indicou-o, explicando-me: 

  Nemsio, meu genro... 

O recm-chegado mirou-se, atenciosamente, em espelho prximo, repassou 
leno alvo sobre a testa suarenta e, quando reajustava a gravata bem-posta, 
escutou prolongado suspiro. Lanou-se, incontinenti, para a cmara contgua e 
seguimo-lo. 

Marina veio receb-lo com amvel sorriso, conduzindo-o  cabeceira da 
senhora, que passou a fit-lo entre confortada e abatida. 

Dona Beatriz estendeu a mo descarnada que o marido beijou. Trocando com 
ela enternecido 
olhar, acomodou-se Nemsio rente aos travesseiros, a enderear-lhe perguntas 
carinhosas, ao mesmo tempo que lhe alisava a descuidada cabeleira. 

A doente pronunciou algumas palavras breves, diligenciando agrad-lo, e 
ajuntou: 

Nemsio, voc me perdoar se volto ao caso de Olmpia... A pobre criatura 
perdeu a casa quase que totalmente...  necessrio que voc lhe garanta abrigo 
seguro... Penso nela com os filhos ao desamparo. Tire-me dessa aflio... 
O interpelado mostrou profunda emotividade e respondeu, corts: 
-Beatriz, no h dvida alguma. J enviei um amigo, construtor experiente, ao 
local. No se preocupe, tudo faremos sem qualquer sacrifcio. Questo de tempo... 

Receio partir de uma hora para outra... 
Partir para onde? 
Nemsio acariciou-lhe a fronte descolorida, sacou um sorriso amargo e 
prosseguiu: 

Enquanto voc estiver em tratamento, nossas viagens esto sustadas. No  
hora de So Loureno... 
 Minha estao curativa ser outra. 
 No me fale em pessimismo... Ora, ora... Onde a primavera de nossa casa? 
Voc anda esquecida de que nos ensinou a colocar alegria em tudo? Largue os 
ares sombrios... Ainda ontem, ouvi nosso mdico. Voc entrar em convalescena, 
ja, ja... Amanh, tomarei providncias definitivas para que o barraco seja levantado. 
Voc estar restabelecida em breve e ambos iremos ao primeiro caf em casa de 
nossa Olmpia... 
Dona Beatriz, ante o carinho dele, pareceu reanimar-se. Entreabriu-se-lhe a 
boca num largo sorriso, que se me afigurou uma flor de esperana num cacto de 
sofrimento. 

Aqueles olhos imensamente lcidos derramaram duas lgrimas de felicidade 
que o esposo enxugou com gracioso gesto. Na face amarei ada, lampejaram raios 
de confiana. 

Experimentando-se mentalmente renovada, a enferma acreditou no 
reerguimento do corpo fsico e ansiou viver, viver por muito tempo ainda no 
aconchego familiar. Manifestando o prprio reconforto, solicitou de Marina uma 
chvena de leite. 

A enfermeira atendeu, comovida. E, enquanto a doente sorvia o lqido, gole a 
gole, refleti na bondade daquele homem que a palavra do companheiro me 
apresentara noutras cores. 

O pensamento de Nemsio revelara-se-nos, at ali, claro e puro. Trazia Dona 
Beatriz no crebro, nos olhos, nos ouvidos, no corao. Dispensava-lhe a 
compreenso de um amigo, a ternura de um pai. 

Neves endereava-me estranho olhar, qual se estivesse, tanto quanto eu, 
defrontado por indizvel assombro. 


Alguns momentos escoaram-se, rpidos. 

Quando a enferma devolveu a xcara, outro quadro se nos desdobrou  viso. 

Nemsio levantara-se rente ao leito e, por trs da cabeceira alteada, estendeu  
Marina, que se mantinha do lado oposto, a mo grossa e hirsuta a que ela entregou 
a destra alva e leve. 

O marido passou, ento, a falar brandas palavras para a esposa satisfeita, 
afagando, simultaneamente, os rseos dedos da jovem que, pouco a pouco, se 
desinibia, atravs do olhar brejeiro. 

Contemplei Nemsio, admirado. Alteravam-se-lhe agora os pensamentos, que 
me pareceram, ento, incompatveis com a sensao de respeitabilidade que ele 
nos inspirava. 

Voltei-me, instintivamente, para Neves, e ele, indicando-me as duas mos que 
se acariciavam, uma  outra, exclamou para mim: 

 Este homem  um enigma. 

Captulo 4 

Acomodados, de novo, no aposento prximo. buscava soerguer o nimo de 
Neves, positivamente desapontado. 

Arrojara-se o companheiro ao clima da dignidade ofendida, dando a impresso 
de que a famlia encarnada ainda lhe pertencia. Exprobrava a conduta do genro. 
Exalava os merecimentos da filha. Aludia ao passado, quando ele prprio vencera 
lances difceis na luta sentimental. 

Desculpava-se. 

Ouvia-lhe, condodo, os apontamentos, a refletir, de minha parte, quanto  
dificuldade com que somos todos ns defrontados para dissipar a iluso da posse 
sobre os outros. No fosse a obrigao de respeitar-lhe os sentimentos e, certo, me 
exorbitaria, ali mesmo, em comprida tirada filosfica, recomendando o 
desprendimento: contudo, logrei apenas confort-lo: 

 No se aflija. Desde muito aprendi que para as pessoas desencarnadas, 
quase sempre, as portas do lar se fecham no mundo, quando a morte lhes cerra os 
olhos. 
Entretanto, no pude prosseguir. 
 guisa de duas crianas enlevadas e jubilosas, Nemsio e Marina penetraram 
a cmara, fugindo claramente  presena da enferma. 
Guardavam no semblante a expresso dos namorados felizes, quando 
alimentam o clssico enfim ss, trancando-se contentes. 
Dispus-me, instintivamente, a sair, mas Neves sustou-me o impulso de retirada, 
convidando-me, aturdido: 

 Fique, fique... No louvo a indiscrio; no entanto, estou, ao lado de minha 
filha, em sentido direto, simplesmente h alguns dias e devo saber o que ocorre, 
para ser til... 
A esse tempo, Nemsio enlaara a enfermeira, qual se voltasse, de improviso, 
aos arrebatamentos da juventude. Amimava-lhe as mos midas e os cabelos 
sedosos, reportando-se ao futuro. Justificava-se, copiando as preocupaes de um 
adolescente, interessado em vacinar a escolhida contra o cime. Deveriam ser bons 
para Beatriz, s portas do fim, e agradecer ao 

Destino que os livrava dos aborrecimentos e percalos de um desquite, mesmo 
amigvel... 

Ouvira o mdico, na vspera, informando-se de que a doente no conseguiria 
viver mais que algumas semanas. E sorria, qual menino travesso, explicando que 
no admitia a sobrevivncia da alma; no entanto, a seu ver, se houvesse vida alm 
da morte, no desejava que a esposa partisse, nutrindo por eles ressentimentos 
quaisquer. Apaixonado, procurava convencer-se de que se via correspondido, 
cravando a ateno nos olhos enigmticos da companheira, a quem se reconhecia 
imanizado por intensa atrao. 

Marina retribuia, como quem se deixava querer bem; no entanto, apresentava o 
fenmeno singular da emoo jungida a ele e o pensamento voltado ao outro, 
empenhando-se, por todos os meios, a encontrar nesse outro o incentivo necessrio 
a essa mesma emoo. 

Nemsio comentava os prprios empeos, sensibilizado. 

Confessava-lhe devoo inexcedvel. No a queria de nimo inquieto. De futuro, 
abandonaria os negcios. Viveriam felizes, na casinha de So Conrado, que 
transformaria em bangal confortvel, entre o verde do mar e o verde da terra. 


Mandaria aprestar a reconstruo em estilo novo, a fim de que a moradia os 
recebesse, no momento oportuno. Que ela confiasse. Aguardaria apenas a 
modificao do prprio estado social para conferir-lhe o ttulo de esposa, esposa 
para sempre. 

Isso tudo era dito num jogo de manifestaes carinhosas em que a sinceridade 
prevalecia num lado e o clculo no outro. 

Assinalei, porm, estranha ocorrncia. 

Ele e ela comunicavam-se, entre si, as mais ternas expanses de 
encantamento recproco, sem ser dissoluto, e pareciam aderir, automaticamente, s 
impresses que esbovamos, de vez que acompanhvamos os mnimos gestos 
dos dois, com aguada observao, prejulgando-lhes os desgnios com o fundo de 
nossas prprias experincias inferiores j superadas. 

Semelhantes registros que formulamos, com absoluta imparcialidade, so 
dignos de nota, porqanto, atento qual me achava ao estudo, vimo-nos obrigados a 
reconhecer que a nossa expectativa maliciosa, aliada ao esprito de censura, 
estabelecia correntes mentais estimulantes da turvao psquica de que ambos se 
viam acometidos, correntes essas que, partindo de ns na direo deles, como que 
lhes agravava o apetite sensual. 

O marido de Beatriz acentuava, em transportes de felicidade juvenil, embora a 
voz ciciante, o anseio com que lhe aguardava o carinho permanente no refgio 
caseiro. 

De inopinado, porm, a jovem prorrompeu em pranto copioso. 

O companheiro beijou-lhe a face, aspirando a aliviar-lhe a tenso convulsiva. 

De nosso lado, entretanto, reparvamos que Marina se fixava, cada vez mais, 
no moo cuja figura se lhe engastava  imaginao. 

Escabroso, sem dvida, o conflito de que se verificava possuda,  vista da 
sinceridade inequvoca de todas as promessas que lhe eram endereadas. 

Olvidando os compromissos abraados, perante a esposa, que lhe requisitava, 
naquela hora, mais amplas evidncias de fidelidade e ternura, bandeara-se o chefe 
da casa, apaixonadamente, para ela, entregando-se-lhe sem reservas. Inteligente 
bastante para entender quanto se lhe debilitara o raciocnio de homem circunspecto, 
a menina identificava a fase perigosa da partida infeliz a que se lanara e aturdia-se, 
ali, confundida entre aflies e remorsos a lhe arpoarem o corao. 

Compelidos pelas circunstncias  penetrao dos assuntos em exame, 
assinalvamos as telas mentais da moa, a se lhe derramarem do Intimo, 
irradiando-lhe a histria. 

Fizera-se querida pelo maduro genro de Neves, sem dedicar-lhe outros 
sentimentos que no fossem reconhecimento e admirao... Todavia, agora que os 
acontecimentos lhe impeliam a alma na direo de laos mais profundos, tremia 
pelas indbitas concesses que lhe havia feito. Remoa-lhe no esprito as recnditas 
reminiscncias de sua aventura afetiva, recapitulando todos os sucessos pelos 
quais havia atrado o protetor experiente aos seus mtodos sutis de seduo, para 
concluir, assustada, que amava at  loucura aquele rapaz franzino, que se lhe 
destacava do pensamento, atravs de cativantes apelos da memria. 

Dentro dela, embatia-se guerra terrvel de emoes e sensaes. 

Nemsio consolava-a, formulando frases de paternal solicitude. E, ao responder-
lhe s reiteradas perguntas, quanto ao choro intempestivo, a jovem adotou largo 
processo de perfeita dissimulao, invocando problemas domsticos para articular 
evasivas com que encobria a realidade. 


Tentando esquivar-se de si mesma, reportou-se a supostas agruras do lar. 
Salientou exigncias maternas, falou em dificuldades financeiras, alegou fantsticas 
humilhaes que colhia no trato da irm adotiva, mencionou incompreenses do 
genitor, em rixas constantes nos crculos da famlia... 

O interlocutor reconfortou-a. Que no se amofinasse. No estaria a ss. 
Partilhar-lhe-ia todos os impedimentos e dissabores, fossem quais fossem. Tivesse 
pacincia. O desenlace de Beatriz, indicado para breves dias, ser-lhes-ia o marco 
fundamental da ventura definitiva. 

Exprimia-se Nemsio em tom de splica. E talvez percebendo que apenas  
fora de palavras no conseguiria subtrai-la aos soluos, arrancou de pasta prxima 
um livro de cheques, colocando-lhe expressivo concurso amoedado nas mos que o 
leno molhado umedecera. 

A moa pareceu mais comovida, exibindo no rosto a apreenso de quem se 
recriminava sem qualquer justificativa de conscincia, ao passo que ele a enlaava, 
afetuoso. No silncio que sobreveio, voltei-me para Neves, mas no consegui 
pronunciar palavra. 

No obstante desencarnado, o amigo se me afigurava agora um homem 
positivamente vulgar da Terra, que a revolta azedava. Sobrecenho crispado 
alterava-lhe a feio no desequilbrio vibratrio que precede as grandes crises de 
violncia. 

Receava se lhe transfigurasse a calamidade emotiva em agresso, mas 
sucedeu o imprevisto. 

A sbitas, venerando amigo espiritual penetrou a cmara. 

Arrebatadora expresso de simpatia marcava-lhe a presena. Radioso halo 
circundava-lhe a cabea; no entanto, no era a luz suave a se lhe extravasar 
docemente da aura de sabedoria que me impressionava e sim a substncia invisvel 
de amor que lhe emanava da individualidade sublime. 

Fitei-lhe os olhos, de relance, com a idia enternecedora de quem revia um 
companheiro, longamente esperado por aflitivas saudades acumuladas no corao. 

Fluidos calmantes banhavam-me todo, qual se fosse visitado no mago do ser 
por inexplicveis radiaes de envolvente alegria. 

Onde teria conhecido, nas trilhas do destino, aquele amigo que se me imps ao 
sentimento qual irmo de velhos tempos? Debalde vascolejei a memria naqueles 
segundos inolvidveis. 

Num timo, vi-me recambiado s sensaes puras da infncia. O emissrio, que 
estacara  frente de ns, no me fazia retomar simplesmente a segurana a que me 
habituara, quando menino, ante os braos paternos, mas tambm ao carinho de 
minha me, que nunca se me apartara do pensamento. 

Oh! Deus, em que forja da vida se constituem esses elos da alma? em que 
razes de jbilo e sofrimento, atravs das reencarnaes numerosas de trabalho e 
esperana, dvidas e resgates, se compe a seiva divina do amor que aproxima os 
seres e lhes transfunde os sentimentos numa s vibrao de confiana recproca? 

Levantei meus olhos de novo para o benfeitor que se avizinhava e fui compelido 
a sofrear a prpria emotividade a fim de no ret-lo instintiva-mente em arremessos 
de regozijo. 

Erguemo-nos de chofre. 

Aps cumpriment-lo, disse Neves, ento desanuviado, a apresentar-me quase 
sorrindo: 

 Andr, abrace o Irmo Flix... 

Adiantou-se, porm, o recm-chegado, ofertando-me um abrao e proferindo 
saudao calorosa, com o evidente propsito de frustrar quaisquer elogios no 
nascedouro. 

 Grande contentamento o de v-lo  disse, benevolente. 
 Deus o abenoe, meu amigo... 
A comoo, entretanto, imobilizava-me. No logrei arrancar do corao  boca 
as expresses com que anelava pintar o meu enlevo, mas osculei-lhe a destra com 
a simplicidade de uma criana, rogando-lhe mentalmente receber as lgrimas que 
me caam da alma, por mudo agradecimento. 

Ocorreu, em seguida, algo de inusitado. 

Nemsio e Marina transferiram-se, de repente, a novo campo de esprito. 

Confirmei a impresso de que a nossa curiosidade enfermia e a revolta que 
dominava Neves at ento haviam funcionado ali por estmulos ao magnetismo 
animal a que se ajustavam os dois enamorados, que nem de leve desconfiavam da 
minuciosa observao a que se viam sujeitos, porqanto bastou que o irmo Flix 
lhes dirigisse compassivo olhar para que se modificassem, incontinenti. 

A viso de Beatriz enferma cortou-lhes o espao mental,  feio de um raio. 
Esmoreceram-se-lhes os estos de paixo. Assemelhavam-se ambos 
a um par de crianas, atraidas uma para a outra, 
cujo pensamento se transfigura, de improviso, ante 
a presena materna. 

E no era s isso. No podia auscultar o mundo Intimo de Neves; contudo, de 
minha parte, sbita compreenso me inundou a alma. 

E se eu estivesse no lugar de Nemsio? Estaria agindo melhor?  Silenciosas 
indagaes se me incrustavam na conscincia, impelindo-me o esprito a raciocinar 
em nvel mais alto. 

Fitei o atribulado chefe da casa, possuido de novos sentimentos, percebendo 
nele um verdadeiro irmo que me cabia entender e respeitar. 

Embora confessando a mim mesmo, com indisfarvel remorso, a 
impropriedade da atitude que assumira, momentos antes, prossegui estudando a 
metamorfose espiritual que se processava. 

Marina passou a revelar benfica reao, como me estivesse admiravelmente 
conduzida em ocorrncia medinica, de antemo preparada. Recomps-se, do 
ponto de vista emotivo, patenteando integral desinteresse por qualquer forma de 
entretenimento fsico, e falou, com delicadeza, da necessidade de voltar aos 
cuidados que a doente exigia. Nemsio, a refletir-lhe a renovada posio interior, 
no ofereceu qualquer embargo, acomodando-se em poltrona prxima, enquanto a 
jovem se retirava, tranqila. 

Reparei que Neves ansiava conversar, desabafar-se; no entanto, o benfeitor, 
que nos granjeara os coraes, apontou o esposo de Dona Beatriz e convidou: 

 Meus amigos, nosso Nemsio est seriamente enfermo, sem que ainda o 
saiba. Ignoro se j lhe notaram a deficincia orgnica... Procuremos socorr-lo. 

Captulo 5 

Imperfeitamente refeitos do assombro que semelhante atitude nos causava, 
passamos a colaborar com o irmo Flix, na aplicao de recursos, a beneficio do 
amigo que, embora nos desconhecesse a presena, se mantinha agora em aturada 
reflexo. 

Ao contacto das mos do benfeitor que mobilizava, proficiente, a energia 
magntica, Nemsio expunha as deficincias do campo circulatrio. 

O corao, consideravelmente aumentado, de-notava falhas ameaadoras com 
endurecimento das artrias. 

O examinando, rebuado por fora, era enfermo grave por dentro. Entretanto, a 
caracterstica mais constrangedora que apresentava surgia na arteriosclerose 
cerebral, cujo desenvolvimento conseguamos claramente positivar, manejando 
diminutos aparelhos de auscultao. 

Comprovando longa experincia mdica, o irmo Flix apontou-nos 
determinada regio, em que notei a circulao do sangue reduzida, e informou: 

 Nosso amigo permanece sob o perigo de cogulos bloqueadores e, alm 
disso,  de temer-se a ruptura de algum vaso em qualquer acidente mais importante 
da hipertenso. 
Como se nos percebesse a movimentao e nos registrasse os apontamentos, 

o genro de Neves, na cadeira estofada a que se recolhera, instintiva-mente 
respondia ao inqurito afetuoso a que lhe submetamos a memria, elucidando-nos 
todas as dvidas, atravs de reaes mentais especficas. Acreditava-se afundado 
na imaginao, ignorando que se nos revelava, por inteiro, na feio de um doente 
voltado para os esclarecimentos da anamnese. Rememorou as tonturas ligeiras que 
vinha experimentando amide. Vasculhava a lembrana, atendendo-nos s 
perguntas. Alinhava acontecimentos passados, fixava pormenores. Reconstituiu, 
quanto possvel, as fases do desconforto a que se vira atirado, subitamente, com a 
perda dos sentidos que sofrera, no escritrio, dias antes. Sentira-se desamparado, 
de chofre. Ausente. O pensamento esvara-se-lhe da cabea, como se expulso por 
martelada interior. Pavoroso delquio que se lhe representara infindvel, quando 
perdurara simplesmente por segundos. Retomara a noo de si mesmo, atarantado, 
abatido. Curtira apreenses, ensimesmado, por muitos dias. 
Para desafrontar-se, expusera a ocorrncia perante velho amigo, na 
antevspera, j que no sabia como destrinar o fenmeno. 

A tela rearticulada por ele, na imaginao, salientava-se to ntida que 
logrvamos contempl-los juntos, Nemsio e o companheiro que lhe tomara 
confidncias, como se estivessem filmados. 

O marido de Beatriz, inconscientemente, configurava informes precisos, acerca 
do desmaio experimentado, das inquietaes conseqentes, da entrevista que 
provocara com o colega de negcios e do entendimento cordial havido entre ambos. 

Consignamos os avisos que o interlocutor lhe transmitira. 

No lhe cabia adiar providncias. Devia procurar um mdico, analisar as 
prprias condies, definir os sintomas. Traou advertncias. Verificava-se-lhe 
facilmente a fadiga. No Rio, obteria melhoras em alguma clnica de repouso. Umas 
frias no lhe fariam mal. Qualquer sncope, a seu ver, equivalia a puxo de 
campainha, no apartamento da vida. Srio vaticnio, enfermidade  porta. 

Nemsio, calado, sem perceber que se comunicava conosco, repetia 
espiritualmente as alegaes que formulara. 


Difcil a consulta. Responsabilidades em penca, o tempo escasso. 
Acompanhava a esposa, na travessia das horas derradeiras, em doloroso trmino 
de existncia e no encontrava meios de cuidar de si. No discutia a oportunidade 
das admoestaes, mas admitia-se obrigado a transferir o tratamento para quando 
pudesse. 

No entanto, no mago do pensamento, por noticirio vivo secretamente 
arquivado no cofre da alma, desvelava, para ns, motivos outros que no tivera 
coragem de expender. 

Enternecido ao toqde de amor fraterno do benfeitor que o auscultava, liberou, 
em silnio, as mais fundas preocupaes. 

Semelhava-se a menino peralta, quando espontneo e obediente no clima dos 
pais. 

Aclarou, positivo, a razo da fuga a qualquer assunto relacionado com a 
provvel submisso a preceitos mdicos. Receava conhecer o prprio estado 
orgnico. Amava, novamente, crendo-se de regresso s primaveras do corpo fsico. 
Identificava-se espiritualmente jovem, feliz. Qualificava a afeio de Marina como 
sendo o reencontro da mocidade que ficara para trs. 

Alinhavando recordaes e meditaes, exibia, diante de ns, a trama dos 
acontecimentos que lhe sedimentavam as noes precrias da vida, possibilitando-
nos retratar-lhe a realidade psicolgica. 

Beatriz, a companheira em vsperas de desencarnao, erigia-se-lhe, agora, no 
nimo, em forma de relquia que situaria, reverentemente, em breve, no museu das 
lembranas mais caras. 

Imperturbavelmente correta e simples, transformara-lhe a volpia em admirao 
e a chama juvenil em calor de amizade serena. Estranho ao benefcio da rotina 
construtiva, colocara a esposa no lugar da genitora que a morte levara. Disputava-
lhe, por instinto, o sorriso benevolente e a bno da aprovao. Queria-lhe a 
presena, como quem se acostuma ao servio de um traste precioso. Harmonizava-
se consigo prprio, ao chegar, suarento, em casa, descansando a cabea fatigada 
em seu olhar. 

Entretanto, Nemsio, de formao materialista e de ndole utilitria, conquanto 
generoso, desconhecia que as almas nobres colhem no amor esponsalcio da Terra 

o fruto da alegria sublime, cuja polpa o tempo sazona e torna mais doce, eliminando 
os caprichos transitoriamente necessrios da casca. 
Insistia na conservao de todos os impulsos emotivos da juventude corprea. 
Andava em dia com todas as teorias da libido. 
Vez por outra, demandava cidades prximas, em noitadas bomias, 
asseverando, de retorno, aos amigos que assim procedia para desenferrujar o 
corao. Dessas escapadas, voltava trazendo  esposa corbelhas de alto preo que 
Beatriz acolhia, enlevada. No decurso de algumas semanas, mostrava-se para ela 
mais compreensivo e mais terno. Reconduzido, porm, mais dilatadamente, aos 
freios do hbito, no sabia consagrar-se s construes espirituais que s a 
disciplina favorece e garante. Varava, de novo, as fronteiras que os compromissos 
morais estabeleciam,  maneira de animal arrombando cerca. 

Em determinadas ocasies, acontecia fixar a esposa, invariavelmente abnegada 
e fiel, perguntando  prpria alma o que sucederia se ela adotasse conduta igual  
dele, e aterrava-se. 

Isso nunca, pensava. Se Beatriz pusesse, ainda que de leve, o voto feminino em 
outro homem, era capaz de mat-la. No hesitaria. 


Nesses momentos, impresses contraditrias agitavam-lhe o esprito limitado. 
No se interessava absolutamente pela mulher, mas no toleraria concorrncia  
posse daquela a quem confiara o seu nome. 

Inquietava-se, imaginava coisas, mas recompunha-se, tranqilo, recordando a 
esquisita conceituao de velho amigo que consumira a existncia alcoolizado entre 
os despojos endinheirados de parentes ricos, e que lhe tisnara os sonhos do lar, 
quando menino, a repetir-lhe, freqentemente: Nemsio, mulher  chinela no p do 
homem. Quando no presta mais,  preciso arranjar outra. 

Compreensvel que, regando a raiz do carter com as guas turvas de 
semelhante filosofia, atingisse o genro de Neves o marco dos sessenta anos com os 
sentimentos deteriorados, no tocante ao respeito que um homem deve a si mesmo. 

Por todos esses motivos, na quadra difcil e obscura que atravessava, 
reaprendera os cuidados da preservao individual. 

Readquirira o gosto de vestir-se com distino, selecionando figurinos e 
alfaiates. Refinara a sensibilidade masculina, afeioara-se aos programas 
radiofnicos de ginstica, no que, alis, lograra despojar-se da adiposidade 
oscilante. Disputava o ingresso em agremiaes festivas para atualizar a linguagem 
e requintar o porte. 

No lhe importavam as tochas brancas que lhe esmaltavam de prata a cabeleira 
densa. Elegia nos perfumes raros e nas gravatas coloridas motivos de leveza e 
elegncia sempre novos. 

Pagara habilmente instrues e pareceres de improvisados professores em 
renovao da personalidade e embelezara-se, vaidoso, lembrando antigo edifcio 
sob nova decorao. 

Evidentemente, no  raciocinava, apreensivo , no se resignaria a qualquer 
teraputica que no fosse a de se lhe acentuar disposies ao prazer. Recusaria, 
peremptrio, toda medida endereada a suposto reajustamento orgnico, j que se 
supunha perfeitamente idneo para comandar as prprias sensaes. Euforia, o 
problema. Providncia medicamentosa, apenas a que lhe arejasse o esprito, 
rejuvenescendo-lhe as foras. 

O irmo Flix voltou a dizer-nos: 

 Nemsio demonstra enorme esgotamento, vista dos hbitos demolidores a 
que se rendeu. 
A inquietao emotiva descontrola-lhe os nervos e os falsos afrodisacos usados 
solapam-lhe as energias, sem que ele mesmo perceba. 
Diante da afirmativa, o esposo de Beatriz fixou agoniado vinco mental, 
entremostrando haver assimilado, mecanicamente, o impacto do grave enunciado. 

 E se piorasse?  considerou de si para si. 
A figura de Marina repontou-lhe da alma. 
Nemsio divagou, cismarento. 
Concordaria, sim, em recuperar a sade, mas somente depois... Depois que 
retivesse a jovem no lar, entregue a ele, em definitivo, pelos laos do matrimnio. 
Enquanto no a recolhesse, nos braos, sob regime de compromisso legal, no 
aceitaria proteo mdica. Cabia-lhe sustentar-se capaz e moo aos olhos dela. 
Fugiria deliberadamente de conselhos ou disciplinas tendentes a desvi-lo da ronda 
de passeios, excurses, entretenimentos e bebedices que, na posio de homem 
enamorado, acreditava dever-lhe. 

O irmo Flix no contraps qualquer argumentao. Ao revs, administrou-lhe 
recursos magnticos em toda a provncia cerebral, dispensando-lhe assistncia. 


Ao trmino da longa operao socorrista, Neves, taciturno, no encobria o 
prprio desapontamento. A desaprovao esguichava-lhe da cabea, plasmando 
pensamentos de censura, que, no obstante respeitosa, nos alcanavam em cheio, 
por chuva de vibraes negativas. 
Talvez, por isso, o benfeitor sugeriu ao dono da casa abandonar o recinto, 
solicitao muda que Nemsio atendeu, de pronto, j que se munira das escoras 
que o amigo espiritual espontaneamente lhe oferecia. 

Os trs, a ss, tornamos  conversao. 

Flix, sorrindo, afagou de leve os ombros do meu companheiro e ponderou: 

 Entendo, Neves, entendo voc... 
Encorajado pela inflexo de carinho com que semelhantes palavras eram ditas, 
o sogro de Nemsio desafogou-se: 
 Quem entende menos sou eu. No admito tanto resguardo para um cachorro 
de m qualidade. Um homem igual a este, que me desrespeita a confiana paterna! 
Quem no lhe v no esprito a poligamia declarada? Um sessento desavergonhado 
que enxovalha a presena da esposa agonizante! Ah! Beatriz, minha pobre Beatriz, 
por que te uniste a um cavalo? 
Dementara-se Neves, diante de ns. Retrocedera mentalmente ao crculo 
acanhado da famlia humana e chorava, transtornado, sem que lhe pudssemos 
cercear a emoo. 

 Fao fora  gemia acabrunhado , mas no agento. De que me vale 
trabalhar odiando? Nemsio  um mascarado! Tenho estudado a cincia de perdoar 
e servir, tenho aconselhado servio e perdo aos outros, mas agora... Divididos por 
simples parede, vejo o sofrimento e o vcio debaixo do mesmo teto. De um lado, 
minha filha conformada, aguardando a morte; de outro, meu genro e essa mulher 
que me insulta a famlia. Deus do cu! que me foi reservado? Andarei auxiliando 
uma filha doente ou sendo chamado  tolerncia? Mas, como suportar um homem 
desses? 
No adiantou um aceno  prudncia, na pausa curta. 

 Antigamente  tartamudeou ele, desesperado  acreditava que o inferno, 
depois da morte, fosse pular em vo num crcere de fogo; hoje aprendo que o 
inferno  voltar  Terra e estar com os parentes que j deixamos... Isso  a 
purgao de nossos pecados!... 
Flix aproximou-se e ponderou, segurando-lhe afetuosamente as mos: 

 Calma, Neves. Sempre surge para todos ns o dia de provar aquilo que 
somos naquilo que ensinamos. Alm disso, Nemsio deve ser entendido... 
 Entendido?  entaramelou-se o interlocutor  no chegar ter visto? 
E acrescentou, quase irnico: 
 Sabe o senhor qual  o rapaz que vem ocupando o pensamento dessa 
moa? 
 Sei, mas deixa-me explicar  clareou Flix com brandura.  Principiemos 
por aceitar Nemsio na posio em que se encontra. Como exigir da criana 
experincia da madureza ou pedir raciocnio certo ao alienado mental? Sabemos 
que crescimento do corpo no expressa altura de esprito. Nemsio  aluno da vida, 
qual ns mesmos, sem o benefcio da lio em que estamos sendo instrudos. Que 
seria de ns, na situao dele, sem a viso que atualmente nos favorece? 
Provavelmente, cairamos em condies piores... 

 Quer dizer que devo aprov-lo? 
 Ningum aplaude a enfermidade, nem louva o desequilbrio; no entanto, seria 

crueldade recusar simpatia e medicao ao doente. Consideremos que Nemsio 
no  um companheiro desprezvel. Emaranhou-se em sugestes perigosas, mas 
no fugiu da esposa a quem presta assistncia; mostra-se engodado por 
extravagncias emotivas de carter deprimente que lhe dilapidam as foras; 
contudo, no esqueceu a solidariedade, resolvendo oferecer casa prpria e gratuita 
 senhora que lhe presta servios remunerados; acredita-se dono de juvenilidade 
fsica absolutamente irrisria, quando, na realidade, carrega um corpo em prematuro 
desgaste; dedica-se apaixonadamente a uma jovem que o menoscaba, conquanto 
lhe consagre apreo respeitoso... 

No bastariam estas razes para merecer benevolncia e carinho? Quem de 
ns com a possibilidade de auxiliar? Ele que anda cego ou ns que discernimos? 
No posso enaltecer-lhe as manobras lamentveis, na esfera do sentimento; 
entretanto, sou obrigado a confessar que ele, na ficha de analfabeto das verdades 
da alma, ainda no tombou de todo... 

Com significativo tom de voz, o instrutor acentuou: 

 Neves, Neves! A sublimao progressiva do sexo, em cada um de ns,  
fornalha candente de sacrifcios continuados. No nos cabe condenar algum por 
faltas em que talvez possamos incidir ou nas quais tenhamos sido passveis de 
culpa em outras ocasies. 
Compreendamos para que sejamos compreendidos. 

Neves silenciou, decerto controlado pela influncia do amigo venervel, e, 
quando consegui fit-lo, depois de alguns momentos de expectativa, percebi que se 
pusera, humildemente, em orao. 


Captulo 6 

De volta ao aposento da enferma, certificamo-nos de que Nemsio e Marina 
haviam saido. A camareira da casa velava. 

Neves, desenxabido, absteve-se de qualquer comentrio. Retrara-se no claro 
propsito de sopitar impulsos menos construtivos. 

Recompondo-se, momentos antes, rogara do irmo Flix lhe desculpasse o 
ataque de clera em que extravasara rebeldia e desespero. 

Descera  inconvenincia, acusava-se, humilde. Fora descaridoso, insensato, 
penitenciava-se com tristeza. O irmo Flix, com bastante autoridade, se quisesse, 
poderia demiti-lo do piedoso mister que invocara, com o objetivo de proteger a filha; 
entretanto, pedia tolerncia. O corao paternal, no instante crtico, no se vira 
preparado, de modo a escalar o nvel do desprendimento preciso, declarava com 
amargura e desapontamento. 

Flix, porm, abraara-o com intimidade e, sorridente, ponderou que a 
edificao espiritual, em muitas circunstncias, inclui exploses do sentimento, com 
troves de revolta e aguaceiros de pranto, que acabam descongestionando as vias 
da emoo. 

Que Neves esquecesse e recomeasse. Para isso, contava com os talentos da 
oportunidade, do tempo. Obviamente por isso, o sogro de Nemsio ali se achava 
agora, diante de ns, transformado e Solcito. 

Por indicao do paciente amigo que nos orientava, formulou uma prece, 
enquanto ministrvamos socorro magntico  doente. 

Beatriz gemia; no entanto, Flix esmerou-se para que se aliviasse e dormisse, 
providenciando, ainda, para que no se retirasse do corpo, sob a hipnose habitual 
do sono. No lhe convinha, por enquanto, esclareceu ele, afastar-se do veculo fatigado. 
Em virtude dos rgos profundamente enfraquecidos, desfrutaria penetrante 
lucidez espiritual e no seria prudente arremess-la, de chofre, a impresses 
demasiado ativas da esfera diferente para a qual se transferiria, muito em breve. 

Aconselhvel seria a mudana progressiva. Graduao de luz, intensificando-
se, a pouco e pouco. 

Largamos a filha de Neves em repouso nutriente e restaurador, e demandamos 
a rua. 

Acompanhando Flix, cujo semblante passou a denotar funda preocupao, 
alcanamos espaoso apartamento do Flamengo, onde conheceramos, de perto, 
os familiares de Marina. 

A noite avanava. 

Transpassando estreito corredor, pisamos o recinto domstico, surpreendendo, 
no limiar, dois homens desencarnados, a debaterem, com descuidada chocarrice, 
escabrosos temas de vampirismo. 

Vale assinalar que, no obstante pudssemos fiscalizar-lhes os movimentos e 
ouvir-lhes a loquacidade fescenina, nenhum dos dois lograva registrar-nos a 
presena. Prometiam arruaas. Argumentavam, desabridos. 

Malandros acalentados, mas perigosos, conquanto invisveis para aqueles junto 
dos quais se erguiam por ameaa insuspeitada. 

Por semelhantes companhias, fcil apreciar os riscos a que se expunham os 
moradores daquele ninho de cimento armado, a embutir-se na construo enorme, 
sem qualquer defesa de esprito. 

Entramos. Na sala principal, um cavalheiro de traos finos, em cuja maneira de 


escarrapachar-se se adivinhava, para logo, o dono da casa, lia um jornal 
vespertino com ateno. 

Os atavios do ambiente, apesar de modestos, denunciavam apurado gosto 
feminino. O mobilirio antigo de linhas quase rudes suavizava-se ao efeito de 
ligeiros adornos. 

Tufos de cravos vermelhos, a se derramarem de vasos cristalinos, 
harmonizavam-se com as rosas da mesma cor, habilmente desenhadas nas duas 
telas que pendiam das paredes, revestidas de amarelo dourado. Mas, destoante e 
agressiva, uma esguia garrafa, contendo usque, empinava o gargalo sobre o crivo 
lirial que completava a elegncia da mesa nobre, deitando emanaes alcolicas 
que se casavam ao hlito do amigo derramado no div. 

Flix encarou-o, manifestando a expresso de quem se atormentava, 
piedosamente, ao v-lo, e no-lo indicou: 

 Temos aqui o irmo Cludio Nogueira, pai de Marina e tronco do lar. 
Fisguei-o, de relance. Figurou-se-me o hospedeiro involuntrio um desses 
homens maduros que se demoram na quadra dos quarenta e cinco janeiros, 
esgrimindo bravura contra os desbarates do tempo. Rosto primorosamente tratado, 
em que as linhas firmes repeliam a notcia vaga das rugas, cabelos penteados com 
distino, unhas polidas, pijama impecvel. Os grandes olhos escuros e mveis 
pareciam imanizados s letras, pesquisando motivos para trazer um sorriso irnico 
aos lbios finos. Entre os dedos da mo que descansava  beira do sof, o cigarro 
fumegante, quase rente ao trip ano, sobre o qual um cinzeiro repleto era silenciosa 
advertncia contra o abuso da nicotina. 

Detnhamo-nos, curiosos, na inspeo, quando sobreveio o inopinado. 
Diante de ns, ambos os desencarnados infelizes, que surpreendramos  
entrada, surgiram de repente, abordaram Cludio e agiram sem-cerimnia. 
Um deles tateou-lhe um dos ombros e gritou, insolente: 

 Beber, meu caro, quero beber! 
A voz escarnecedora agredia-nos a sensibilidade auditiva. Cludio, porm, no 
lhe pescava o mnimo som. Mantinha-se atento  leitura. Inaltervel. Contudo, se 
no possua tmpanos fsicos para qualificar a petio, trazia na cabea a caixa 
acstica da mente sintonizada com o apelante. 

O assessor inconveniente repetiu a solicitao, algumas vezes, na atitude do 
hipnotizador que insufla o prprio desejo, reasseverando uma ordem. 

O resultado no se fez demorar. Vimos o paciente desviar-se do artigo poltico 
em que se entranhava. Ele prprio no explicaria o sbito desinteresse de que se 
notava acometido pelo editorial que lhe apresara a ateno. 

Beber! Beber!... 

Cludio abrigou a sugesto, convicto de que se inclinava para um trago de 
usque exclusiva-mente por si. 

O pensamento se lhe transmudou, rpido, como a usina cuja corrente se 
desloca de uma direo para outra, por efeito da nova tomada de fora. 

Beber, beber!... e a sede de aguardente se lhe articulou na idia, ganhando 
forma. A mucosa pituitria se lhe aguou, como que mais fortemente impregnada do 
cheiro acre que vagueava no ar. 

O assistente malicioso coou-lhe brandamente os gorgomilos. O pai de Marina 
sentiu-se apoquentado. Indefinvel secura constringia-lhe o laringe. Ansiava 
tranqilizar-se. 

O amigo sagaz percebeu-lhe a adeso tcita e colou-se a ele. De comeo, a 


carcia leve; depois da carcia agasalhada, o abrao envolvente; e depois do 

abrao de profundidade, a associao recproca. 

Integraram-se ambos em extico sucesso de enxertia fludica. 

Em vrias ocasies, estudara a passagem do Esprito exonerado do envoltrio 
carnal pela matria espessa. Eu mesmo, quando me afazia, de novo, ao clima da 
Espiritualidade, aps a desencarnao ltima, analisava impresses ao transpor, 
maquinalmente, obstculos e barreiras terrestres, recolhendo, nos exerccios feitos, 
a sensao de quem rompe nuvens de gases condensados. 

Ali, no entanto, produzia-se algo semelhante ao encaixe perfeito. 

Cludio-homem absorvia o desencarnadO, a gulsa de sapato que se ajusta ao 
p. Fundiram-se os dois, como se morassem eventualmente num s corpo. Altura 
idntica. Volume igual. 

Movimentos em-crnicos. Identificao positiva. 

Levantaram-se a um tempo e giraram integralmente incorporados um ao outro, 
na rea estreita, arrebatando o delgado frasco. 

No conseguiria especificar, de minha parte, a quem atribuir o impulso inicial de 
semelhante gesto, se a Cludio que admitia a instigao ou se ao obsessor que a 
propunha. 

A talagada rolou atravs da garganta, que se exprimia por dualidade singular. 
Ambos os dipsmanos estalaram a lngua de prazer, em ao simultnea. 

Desmanchou-se a parelha e Cludio, desembaraado, se dispunha a sentar, 
quando o outro colega, que se mantinha a distncia, investiu sobre ele e protestou: 
eu tambm, eu tambm quero! 

Reavivou-se-lhe no nimo a sugesto que esmorecia.. 

Absolutamente passivo diante da incitao que o assaltava, reconstituiu, 
mecanicamente, a impresso de insaciedade. 

Bastou isso e o vampiro, sorridente, apossou-se dele, repetindo-se o fenmeno 
da conjugao completa. 

Encarnado e desencarnado a se justaporem. Duas peas conscientes, reunidas 
em sistema irrepreensvel de compensao mtua. 

Abeirei-me de Cludio para avaliar, com imparcialidade, at onde sofreria ele, 
mentalmente, aquele processo de fuso. 

Para logo convenci-me de que continuava livre, no ntimo. No experimentava 
qualquer espcie de tortura, a fim de render-se. Hospedava o outro, simplesmente, 
aceitava-lhe a direo, entregava-se por deliberao prpria. Nenhuma simbiose em 
que se destacasse por vtima. 

Associao implcita, mistura natural. 

Efetuava-se a ocorrncia na base da percusso. 

Apelo e resposta. Cordas afinadas no mesmo tom. 

O desencarnado alvitrava, o encarnado aplaudia. 

Num deles, o pedido; no outro, a concesso. 

Condescendendo em ilaquear os prprios sentidos, Cludio acreditou-se 
insatisfeito e retrocedeu, sorvendo mais um gole. 

No me furtei  conta curiosa. Dois goles para trs. 

Novamente desimpedido, o dono da casa estirou-se no div e retomou o jornal. 

Os amigos desencarnados tornaram ao corredor de acesso, chasqueando, 
sarcsticos, e Neves, respeitoso, consultou sobre responsabilidade. 

Como situar o problema? Se vramos Cludio aparentemente reduzido  
condio de um fantoche, como proceder na aplicao da justia? Se ao invs de 


bebedice, estivssemos diante de um caso criminal? Se a garrafa de usque fosse 
arma determinada, para insultar a vida de algum, como decidir? A culpa seria de 
Cludio que se submetia ou dos obsessores que o comandavam? 

O irmo Flix aclarou, tranqilo: 

 Ora, Neves, voc precisa compreender que nos achamos  frente de 
pessoas bastante livres para decidir e suficientemente lcidas para raciocinar. No 
corpo fsico ou agindo fora do corpo fsico, o Esprito  senhor da constituio de 
seus atributos. Responsabilidade no  ttulo varivel. Tanto vale numa esfera, 
quanto em outras. Cludio e os companheiros, na cena que acompanhamos, so 
trs conscincias na mesma faixa de escolha e manifestaes conseqentes. 
Todos somos livres para sugerir ou assimilar isso ou aquilo. Se voc fosse 
instado a compartilhar um roubo, decerto recusaria. E, na hiptese de abraar a 
calamidade, em so juzo, no conseguiria desculpar-se. 

Interrompeu-se o mentor, volvendo a refletir aps momento rpido: 

 Hipnose  tema complexo, reclamando exames e reexames de todos os 
ingredientes morais que lhe digam respeito. Alienao da vontade tem limites. 
Chamamentos campeiam em todos os caminhos. Experincias so lies e todos 
somos aprendizes. Aproveitar a convivncia de um mestre ou seguir um malfeitor  
deliberao nossa, cujos resultados colheremos. 
Verificando que o orientador se dava pressa em ultimar os esclarecimentos sem 
mostrar o mnimo propsito de afastar as entidades vadias que pesavam no 
ambiente, Neves voltou  carga, no intuito louvvel do aluno que aspira a 
complementar a lio. 

Pediu vnia para repisar o assunto na hora. 

Recordou que, sob o teto do genro, o irmo Flix se esmerava na defesa contra 
aquela casta de gente. Amaro, o enfermeiro prestimoso, fora situado junto de 
Beatriz principalmente para correr com intrometidos desencarnados. O aposento da 
filha tornara-se, por isso, um refgio. Ali, no entanto... 

E perguntava pelo motivo da direo diversa. Flix expressou no olhar a 
surpresa do professor que no espera apontamento assim argucioso por parte do 
discpulo e explicou que a situao era diferente. 

A esposa de Nemsio mantinha o hbito da orao. Imunizava-se 
espiritualmente por si. 

Repelia, sem esforo, quaisquer formas-pensamentos de sentido aviltante que 
lhe fossem arremessadas. Alm disso, estava enferma, em vsperas da desencarnao. 
Deix-la  merc de criaturas insanas seria crueldade. Garantias 
concedidas a ela erguiam-se justas. 

 Mas... e Cludio?  insistiu Neves. 
 No merecer, porventura, fraterna demonstrao de caridade, a fim de 
livrar-se de to temveis obsessores? 
Flix sorriu francamente bem-humorado e ex-plicou: 

 Temveis obsessores  a definio que voc d.  E avanou:  Cludio 
desfruta excelente sade fsica. Crebro claro, raciocnio seguro.  inteligente, 
maduro, experimentado. 
No carrega inibies corpreas que o recomendem a cuidados especiais. 
Sabe o que quer. 

Possui materialmente o que deseja. Permanece no tipo de vida que procura.  
natural que esteja respirando a influncia das companhias que julgue aceitveis. 
Retm liberdade ampla e valiosos recursos de instruo e discernimento para 


juntar-se aos missionrios do bem que operam entre os homens, assegurando 
edificao e felicidade a si mesmo. Se elege para comensais da prpria casa os 
companheiros que acabamos de ver,  assunto dele. Enquanto nos arrastvamos, 
tolhidos pela carne, no nos ocorreria a idia de expulsar da residncia alheia as 
pessoas que no se harmonizassem conosco. Agora, vendo o mundo e as coisas 
do mundo, de mais alto, no ser cabvel modificar semelhante modo de proceder. 

O tema desdobrava-se, assumindo aspectos novos. 

Curioso, interferi: 

 Mas, irmo Flix,  importante convir que Cludio, liberto, poderia ser mais 
digno... 
 Isso  perfeitamente lgico  confirmou. Ningum nega. 
 E por que no dissipar de vez os laos que o prendem aos malandros que o 
exploram? 
O alto raciocnio da Espiritualidade superior jorrou, pronto: 

 Cludio certamente no lhes empresta o conceito de vagabundos. Para ele, 
so scios estimveis, amigos caros. Por outro lado, ainda no investigamos a 
causa da ligao entre eles para cunhar opinies extremadas. As circunstncias podem 
ser saudveis ou enfermias como as pessoas, e, para tratarmos um doente 
com segurana, h que analisar as razes do mal e confirmar os sintomas, aplicar 
medicao e estudar efeitos. Aqui, vemos um problema pela rama. Quando ter 
nascido a comunho do trio? Os vnculos sero de agora ou de existncias 
passadas? Nada legitimaria um ato de violncia da nossa parte, com o intuito de 
separ-los, a titulo de socorro. Isso seria o mesmo que apartar os pais generosos 
dos filhos ingratos ou os cnjuges nobres dos esposos ou das esposas de condio 
inferior, sob o pretexto de assegurar limpeza e bondade nos processos da evoluo. 
A responsabilidade tem o tamanho do conhecimento. No dispomos de meios 
precisos para impedir que um amigo se onere em dvidas escabrosas ou se despenque 
em desatinos deplorveis, conquanto nos seja lcito dispensar-lhe o auxlio 
possvel, a fim de que se acautele contra o perigo no tempo vivel, sendo de notar-
se que as autoridades superiores da Espiritualidade chegam a suscitar medidas especiais 
que impem aflies e dores de importncia aparente a determinadas 
pessoas, com o objetivo de livr-las da queda em desastres morais iminentes, 
quando meream esse amparo de exceo. Na Terra, a exata justia apenas 
cerceia as manifestaes de algum, quando esse algum compromete o equilbrio 
e a segurana dos outros, na rea de responsabilidade que a vida lhe demarca, 
deixando a cada um a regalia de agir como melhor lhe parea. Adotaremos 
princpios que valham menos, perante as normas que afianam a harmonia entre os 
homens? 
Rematando as elucidaes lapidares que entre-tecia, o irmo Fllx revestira-se 
de um halo brilhante. 

Enlevados, no encontrvamos em ns seno silncio para significar-lhe 
admirao ante a sabedoria e a simplicidade. 

O instrutor fitava Cludio com simpatia, dando a entender que se dispunha a 
abra-lo paternalmente, e, receando talvez que a oportunidade escapasse, Neves, 
humilde e respeitoso, pediu se lhe relevasse a insistncia; entretanto, solicitava 
fosse aclarado, ainda, um ponto dos esclarecimentos em vista. 

Diante do mentor paciente, perguntou pelos promotores de guerra, entre os 
homens. Declarara Flix que a justia tacitamente cerceia as aes dos que 
ameaam a estabilidade coletiva. Como entender a existncia de governantes 


transitrios, erigindo-se na Terra em verdugos de naes? 
Flix sintetizou, reempregando algumas das palavras de que se utilizara: 

 Dissemos cercear no sentido de corrigir, restringir. Assinalamos 
igualmente que toda criatura vive na rea de responsabilidade que a lei lhe delimita. 
Compreendendo-se que a responsabilidade de algum se enquadra ao tamanho do 
conhecimento superior que esse algum j adquiriu,  fcil admitir que os 
compromissos da conscincia assumem as dimenses da autoridade que lhe foi 
atribuida. Uma pessoa com grandes cabedais de autoridade pode elevar extensas 
comunidades s culminncias do progresso e do aprimoramento ou afund-las em 
estagnao e decadncia. Isso na medida exata das atitudes que tome para o bem 
ou para o mal. Naturalmente, governantes e administradores, em qualquer tempo, 
respondem pelo que fazem. Cada qual d conta dos recursos que lhe foram 
confiados e da regio de influncia que recebeu, passando a colher, de modo 
automtico, os bens ou os males que haja semeado. 
Vamos, porm, que Flix no desejava estender-se em mais amplas 
consideraes filosficas. 

Assentando no rosto a expresso de quem nos pedia transferir para depois 
qualquer nova interrogao, acercou-se de Cludio, a envolv-lo nas suaves 
irradiaes do olhar brando e percuciente. 

Estabeleceu-se ligeira e doce expectativa. 

O benfeitor acusava-se emocionado. Parecia agora mentalmente distanciado no 
tempo. 

Acariciou a cabeleira daquele homem, com quem Neves e eu, no fundo, no nos 
afnramos assim tanto, semelhando-se mdico piedoso, encorajando um doente 
menos simptico. 

Aquele momento de comoo, entretanto, foi rpido, quase imperceptvel, 
porque o irmo Flix retomou-nos a intimidade e comentou, despretensioso: 

 Quem afirmar que Cludio amanh no ser um homem renovado para o 
bem, passando a educar os companheiros que o deprimem? Por que atrair contra 
ns a repulso dos trs, simplesmente porque se mostrem ignorantes e infelizes? E 
admitir-se-, porventura, que no venhamos a necessitar uns dos outros? Existem 
adubos que lanam emanaes extremamente desagradveis; no entanto, 
asseguram a fertilidade do solo, auxiliando a planta que, a seu turno, se dispe a 
auxiliar-nos. 
O benfeitor esboou o gesto de quem encerrava a conversao e lembrou-nos, 
gentil, o trabalho em andamento. 


Captulo 7 

Entramos em aposento contguo, onde encontramos jovem franzina, em dorida 
atitude. 

Sentada num dos leitos que se estiravam no quarto gracioso e limpo, refletia, 
torturada, permitindo-nos entre-ver-lhe o drama oculto. 

O irmo Flix apresentou-a. 

Tratava-se de Marita, que os donos da casa haviam perfilhado ao nascer, vinte 
anos antes. 

Bastou uma vista de olhos para que me condoesse ao contempl-la. Rosa 
humana, embora exalasse a fragrncia da juventude, aquela moa, quase menina, 
de mos enclavinhadas sob o queixo, matutando, parecia carregar o peso estafante 
de tribulaes cronicificadas e dolorosas. 

Figurava-se-lhe a cabeleira ondeada lindo toucado de veludo castanho sobre a 
cabea. O rosto esculpido em linhas raras, os olhos escuros contrastando com a 
brancura da tez, as mos pequenas e as unhas rseas complementavam belo 
manequim de carne, apresentando por dentro uma criana assustada e ferida. 

Tristeza maquilada. Aflio no disfarce de flor. 

Obedecendo a instrues de Flix, abordei-a, enternecido, rogando-lhe, 
mentalmente, algo esclarecesse, em torno de si prpria. 

Desde o contacto com Nemsio, o benfeitor ensaiava-me, provavelmente sem 
querer, em novo gnero de anamnese: consultar o enfermo espiritual em 
pensamento, evidenciando a terna compreenso que um pai deve aos filhos, a fim 
de pesquisar concluses para o trabalho assistencial. 

Compelido a operar individualmente, recompus emoes. 

Recobrei os sentimentos paternais que me haviam animado entre os homens e 
cravei o olhar indagador naquela criaturinha cismarenta, imaginando-a por filha de 
minha alma. 

Solicitei-lhe, sem palavras, confiasse em ns, desoprimndo-se. Relacionasse, 
por gentileza, as suas impresses mais recuadas no tempo. Desenovelasse o 
passado. Reconstituisse na lembrana tudo o que soubesse de si, nada 
escondesse. 

Propnhamo-nos auxili-la. No conseguiramos, porm, agir ao acaso. Era 
imprescindvel que ela se nos revelasse, arrancando  cmara da memria as 
cenas arquivadas desde a infncia, expondo-as na tela mental para que as 
analisssemos, imparcialmente, de maneira a conduzir as atividades socorristas que 
intentaramos desenvolver. 

Marita assimilou-nos o apelo, de imediato. Incapaz de explicar a si mesma a 
razo pela qual se via instintivamente constrangida a rememorar o pretrito, situou o 
impulso mental no ponto em que obtinha o fio inicial das suas recordaes. 

Os quadros da meninice se lhe estamparam na aura, movimentados como num 
filme. 

Vimo-la pequenina, hesitante, nos passos primeiros. 

E, enquanto desfilavam os painis ingnuos do que lhe havia acontecido, logo 
aps o soerguimento do bero, ela alinhavava elucidaes inarticuladas, 
respondendo-nos s perguntas. 

Sim  relembrava, supondo falar consigo , no era filha dos Nogueiras. Dona 
Mrcia, a esposa de Cludio, adotara-a. Nascera de jovem suicida. Araclia, a 
mezinha que no conhecera, fora tomada a servio do casal, por ocasio do 


matrimnio daqueles que o destino lhe impusera na condio de pais. Quando se 
entendera por gente grande, a genitora de Marina lhe dera a saber, atravs de 
informaes pessoais, a breve histria da mulher simples e pobre que a trouxera ao 
mundo. Recm-chegada do interior, procurando emprego humilde, Araclia 
acolhera-se-lhe  moradia, encaminhada por senhora de suas relaes. Era bonita, 
espontnea. Brincava, gostava de festas. Findos os compromissos caseiros, 
divertia-se. Pela ternura expansiva, granjeara amizades, passeava, danava. Alegre 
e comunicativa, mas operosa e correta. As vezes, regressava, tarde da noite, ao 
aposento que a famlia lhe destinara; de manhzinha, porm, estava no posto. 
Nunca se queixava. Invariavelmente prestimosa, a desvelar-se do tanque  cozinha. 
A vista disso, embora os patres no lhe estimassem as companhias pouco 
recomendveis, no se sentiam com direito a lanar-lhe reproches. Dona Mrcia era 
habitualmente precisa nas referncias. Lembrava-se dela, enternecida. Por ocasio 
do nascimento de Marina, a filha nica, fizeram-se mais amigas, mais ntimas. 
Araclia desdobrara-se, junto dela, em carinho e dedicao. Contudo, justamente 
nessa poca, verificara-se a grande mudana. A domstica devotada engravidarase, 
com muito padecimento fsico. Por mais se esforassem os donos da casa, 
instando a que se manifestasse quanto ao responsvel pela situao, apenas 
chorava, abolindo qualquer possibilidade de se lhe tentar casamento digno. Sabia-
se que, freqentando bailes a rodo, decerto se precipitara em aventuras diversas. 
Compadecidos, os patres deram  jovem me solteira a mais ampla assistncia, 
inclusive internando-a em estabelecimento adequado, para que a criana nascesse 
sob o amparo possvel. 

Nesse tpico das amargosas reminiscncias, a menina estacou, mentalmente, 
qual se estivesse cansada de pensar no mesmo assunto. Fora assim que ela, 
Marita, chegara ao mundo. 

Marejaram-se-lhe os olhos de lgrimas, estabelecendo confronto entre as 
provaes da mezinha e as dela prpria; no entanto, para no distrair a pesquisa 
em curso, sugeri-lhe continuasse. 

Dona Mrcia contara-lhe  prosseguiu no solilquio  que, retornando a casa, 
mostrara-se Araclia irremediavelmente abatida. Lgrimas incessantes, irritao, 
melancolia. No valeram advertncias, nem cuidados mdicos. Na noite em que 
sorveu grande dose de formicida, conversara animadamente com a patroa, 
fornecendo a impresso de que se recuperava. Entretanto, pela manh, foi achada 
morta, com uma das mos agarrada ao seu bero, como se, na ltima hora, no lhe 
quisesse dizer adeus. 

Fundamente comovida, a jovem procurou, em vo, revisar o comeo, 
interessada em relatar-nos quanto conhecia de si mesma. Certificava-se to-
somente de que despertara para a vida no colo de Dona Mrcia, que considerara, a 
principio, sua me verdadeira, que se ligava a Marina como se lhe fosse irm no 
sangue, apegando-se a ela em todos os brincos da infncia. Juntas freqentaram a 
escola, juntas comungaram a meninice. Partilhavam excurses e entretenimentos, 
alegrias e jogos. Manuseavam os mesmos livros, vestiam cores iguais. 

Processava-se a anlise, normalmente, mas, talvez porque o tempo avanasse, 

o irmo Flix se despediu, alegando obrigaes urgentes. Servios na instituio 
pela qual se responsabilizava no lhe permitiam delongar a visita. 
Asseverou, gentil, que nos hipotecava confiana. Observou, com a delicadeza 
do chefe que solicita, ao invs de mandar, que esperava por zelosa ateno de 
nossa parte, ao p daquela menina inexperiente, enquanto a prestao de concurso 


fraterno se nos tornasse possvel. 

Enunciando a petio, notava-se-lhe o embarao. Compreendi que ele, esprito 
superior, ali se achava por generosidade, feio do professor destacado e 
enobrecido que desce de sua ctedra para alentar o nimo de alunos detidos no 
alfabeto. 

Ele sorriu com desapontamento, percebendo a interpretao que me assomara 
 cabea, e esclareceu, discreto, que possuia fortes razes para consagrar-se  
felicidade daquela casa, com entranhado afeto; entretanto, a famlia teimava em 
fugir de toda atividade religiosa ou beneficente. 

Ningum, ali, se interessava pelo cultivo da orao ou do estudo. Nenhum dos 
quatro componentes da equipe domstica se inclinava para o servio ao prximo.  
face disso, no obstante amasse Cludio com paternal solicitude, no se sentia 
autorizado a localizar-lhe, na residncia, servidores sob sua orientao, sem 
objetivos srios que lhe fundamentassem a atitude. 

No lhe sendo lcito assim proceder, satisfazendo a mero capricho, reconhecia-
se impelido a comparecer, sob aquele teto, exclusivamente de quando em quando, 
ou rogar a colaborao de amigos itinerantes. 

Neves e eu, pesarosos, ao v-lo partir, destacamos nossas deficincias, mas 
prometemos boa-vontade. Permaneceramos de sentinela e, se alguma 
eventualidade ocorresse, apelaramos na direo dele. 

Flix sorriu e informou que Amaro, o enfermeiro de Beatriz, e cooperadores 
diversos operavam nas cercanias. Todos dedicados, amigos, prontos a auxiliar, 
embora sem qualquer obrigao para isso. Otimista, acrescentou que, na hiptese 
de necessidade, o pensamento preocupado funcionar-nos-ia por sinal de alarme. 

Achamo-nos a ss, em servio. 

Findo o ligeiro intervalo, retomamos a anlise em curso. Observei que Neves se 
esmerava, mais atentamente, em ser til. 

Marita, que se alheara das prprias reminiscncias, por instante rpido, voltou, 
automaticamente, a memorizar, expondo-nos  vista as telas do passado prximo, 
que lhe eram abordveis ao conhecimento. 

Mergulhada na imaginao, qual se devaneasse, em conta prpria, surpreendia-
se mentalmente no regao materno ou colada  irmzinha, na segurana inocente 
de quem se supunha plenamente ajustada ao quadro familiar. Revia Cludio, a 
sust-la nos braos, por flor tenra desabotoada num tronco juvenil, transmitindo-lhe 
a impresso de pai legtimo. 

Oh! a felicidade fugidia da infncia!. -. As doces convices dos dias primeiros! 
Como suspirava pelo retrocesso do tempo para dormir na simplicidade! 

Sbito, confrangeu-se-lhe a alma, como se implacvel bisturi lhe retalhasse os 
nervos. Vimo-la cair numa exploso de lgrimas. Coloriu-se-lhe na mente a festa 
distante que lhe havia comemorado o trmino do primeiro curso escolar, nove anos 
antes. Detinha-se no instituto garrido, nos adeuses aos colegas, nas palavras de 
saudao e reconhecimento que proferira, feliz, diante dos mestres, e nos beijos 
que recebera sobre os cabelos a se lhe derramarem nos ombros. 

Depois... em casa, o olhar diferente de Dona Mrcia, no aposento  porta 
fechada. 

Iniciara-se-lhe, desde ento, o conflito da vida inteira. A revelao inesperada 
ferira-lhe o esprito,  maneira de pedra contundente. Esvaecera-se-lhe, de 
improviso, a alegria infantil. Sentira-se criatura humana adulta, amadurecida e 
sofredora, de um momento para outro. No era filha da casa. Era rf, adotada 


pelos coraes queridos, aos quais amava tanto, julgando pertencer-lhes. 

Isso lhe arrebentara o corao. Pela primeira vez, chorara com medo de 
enlaar-se quela a cujo peito se albergava, at ali, nas horas difceis, como se se 
aninhasse no refgio maternal. Sentia-se machucada, sozinha. Dona Mrcia, 
diligenciando esclarecer com evidente bondade, explicava, explicava. Ela, at ento 
menina estouvada e risonha, repentinamente torturada, ouvia, ouvia. 

Ansiava perguntar o porqu de tudo aquilo, mas a voz calara-se-lhe na 
garganta. Era preciso aceitar a verdade, conformar-se, sofrer. Esforara-se a me 
adotiva por diluir a amargura da notificao no blsamo do carinho, mas no se 
esquecera de lhe dizer em tom conselheiral: voc deve crescer sabendo tudo, 
melhor saber hoje que amanh; filhos adotivos, quando crescem ignorando a 
verdade, costumam trazer enormes complicaes, principalmente quando ouvem 
esclarecimentos de outras pessoas)>, e acrescentara, diante do silncio em que ela 
afogava as prprias lgrimas: no chore, estou apenas explicando; voc sabe que 
criamos voc por filha, mas  necessrio que conhea a realidade toda; adotamos 
voc, lembrando Araclia, to amiga, to boa. 

E os informes foram imediatamente complementados com a exibio de 
fotografias e relquias da genitora suicida, arrancadas de pequena caixa de madeira 
que Dona Mrcia trouxera. 

Espantada, revirara nervosamente nas mos aqueles retratos e adereos de 
moa pobre. 

Sensibilizara-se ao ver os colares de fantasia, os anis de plaqu. Era tudo 
quanto restava daquela me que desconhecia. Contemplou a imagem dela nas 
fotos que o tempo amarelecera e experimentou profunda e indizvel atrao por 
aqueles olhos grandes e tristes que pareciam arrebat-la do quarto para um mundo 
diferente. 

No amadurecera, porm, o raciocnio para pensar nas angstias daquela 
mulher que o sofrimento abatera. A reflexo, em torno da mezinha desencarnada, 
durara um momento s. 

Achava-se melindrada em demasia para deslocar-se facilmente da sua dor. 
Ouvira Dona Mrcia, ao despedir-se, arrecadando aqueles ternos vestgios do 
passado, sem prestar-lhe maior ateno. Aquelas palavras: adotamos voc, 
lembrando Araclia to amiga, to boa, percutiam-lhe na cabea. 

Ento, era assim que a despachavam para a estao da orfandade em que lhe 
competia viver? 

E os beijos do lar que admitia lhe pertencerem? E os mimos domsticos que 
julgava partilhar com Marina em partes e direitos iguais? 

Figurara-se-lhe Dona Mrcia decididamente empenhada em falar-lhe sem a 
menor manifestao do efusivo amor que lhe caracterizava os gestos de outras 
horas. Demonstrara-lhe carinho, sem dvida, mas racionava os afagos, qual se 
quisesse traar, dali em diante, severa fronteira entre ela e a famlia. Imaginava-se, 
por isso, esbulhada, ferida. Fora simplesmente albergada, tolerada, enganada. No 
era filha, era rf. 

A inteligncia precoce compreendia toda a situao, conquanto no conseguisse 
inclinar-se, naquele dia, a qualquer agradecimento pela compaixo de que se 
reconhecia objeto, assaltada qual se achava pelo orgulho infantil. 

Em seguida a pausa rpida no curso das comovedoras reminiscncias, Marita 
desdobrou-nos  vista uma cena enternecedora e inesquecvel. 

De minha parte, nunca registrara uma dor de criana, assim, to funda. 


Ah! sim, aquele fato nunca mais se lhe desvinculara da memria. Quando a 
esposa de Cludio a deixou em pranto desconsolado, viu a cadelinha da casa, 
magra e annima, que Marina, semanas antes, recolhera na rua. O animalzinho 
abeirara-se dela, como se lhe aderisse  mgoa, lambendo-lhe as mos. Ela, por 
sua vez, retribuira-lhe a carcia, qual se lhe transferisse toda a carga de amor que 
acreditava lhe fora restituda naquele instante, por Dona Mrcia, e, chorando, 
abraou-se  cachorrinha afetuosa, gritando num desabafo: ah! Jia, no  s 
voc que foi enjeitada! eu tambm... 

Desde esse dia, transfigurara-se-lhe a vida. Perdera, de todo, a espontaneidade. 

A partir da revelao que no mais se lhe desencravou do crebro, conjeturava-
se diminuda, lesada, dependente. 

Semelhante suplcio moral, que adquirira aos onze de idade, atenuava-se to-
somente pela dedicao incessante do pai adotivo que se lhe confirmava mais 
terno,  medida que Dona Mrcia e a filha se lhe afastavam da comunho espiritual. 

Era sozinha em assuntos de seu sexo. 

Me e filha empenhavam-Se, deliberadamente, na absteno de qualquer 
parecer, quando se tratasse das incertezas dela na escolha de figurinos. Deixavam-
na  revelia de qualquer assistncia nos cuidados que uma jovem deve a si mesma, 
embora Dona Mrcia, de quando em quando, a escutasse com ternura maternal, em 
tudo o que se referia s suas indagaes de menina e mulher, necessitada de 
instruo para a vida ntima. 

Quando sobrevinha a possibilidade do intercmbio afetuoso, certificava-se de 
que a esposa de Cludio possua vasto patrimnio de compreenso e carinho, 
abafado sob o peso de convenincias e convenes, semelhando tesouro enterrado 
nas razes de slido espinheiro. 

Aproveitava-se dessas horas de efuso entre ambas, exibindo-lhe todas as 
dvidas e perplexidades que se lhe estacavam na imaginao, aguardando a 
brecha propcia. 

Dona Mrcia afigurava-se largar distncias e respondia-lhe entre beijos, 
demonstrando vivamente que o lume da dedicao e da confiana de outros tempos 
no se lhe arrefecera no corao. Sorria, encantava-se. Expandia-se-lhe a meiguice 
maternal, em apontamentos sbios e doces. Suprimia-lhe a insipincia no trato com 
os problemas comeantes da vida feminina, dando-lhe a impresso de haver 
reencontrado a mezinha, que acreditara possuir ao p do bero, quando aquelas 
mos belas e finas, agora distanciadas, lhe afagavam a cabeleira. 

Entretanto, o momento luminoso escoava-se, rpido. 

Marina chegava e turvava-se o ambiente. 

Assistia, espantada,  transformao que se operava de improviso. A 
interlocutora comprazia-se num espetculo de personalidade dplice. 

Ocultava-se a mezinha espiritual, afvel e acolhedora, e aparecia Dona Mrcia, 
avalentoada e corts, na atmosfera psquica. 

Inventava, de repente, alguma atividade em aposento vizinho, dava-lhe 
incumbncias a distncia, a fim de apart-la. Assumia ares diferentes. Queixava-se 
subitamente de dores que, at ento, Jaziam ignoradas. 

Ante a reviravolta, analisava o reverso do quadro. 

Ambas, unidas, completavam-se em pequeninas torpezas para deprimi-la, 
humilh-la. Diminuta mancha no vesturio constitua razo para sarcasmo; ligeira 
indisposio orgnica atraa-lhe complicada srie de admoestaes jocosas e 
indiscretas. Concediam-lhe, raramente, a honra da companhia para compras no 


centro. E se as casas comerciais visitadas no dispunham, eventualmente, de 
recursos mobilizveis na entrega de encomendas, no se pejavam, me e filha, de 
carreg-la com pacotes diversos, exercitando crueldade risonha nos pejorativos com 
que lhe agravavam o constrangimento e a subalternidade. 

Dona Mrcia e Marina, juntas,  frente dela, significavam provao inqualificvel 
que lhe competia agentar em silncio. Nesses instantes, sentia o corao 
descompassado, em desconforto indizvel, como se estivesse encantoada num teste 
de tolerncia e pacincia, perante examinadores que lhe avaliavam as reaes, 
entre o chiste e a impiedade. 

Cedo percebeu que a irm, filha nica, no abriria mo de nfima parcela dos 
mimos caseiros, de que se supunha senhora. 

Dominado o segredo de sua origem, modificara a conduta para com ela. 
Tramava motivos para biograf-la, nas conversaes com as amigas, suprimindo, 
previamente, quaisquer dvidas, suscetveis de ocorrer, com relao s duas, no 
meio social. Criticava-lhe os gostos, as atitudes. E a genitora no fazia mistrio na 
tomada de posio. 

Em separado, no vacilava ceder-lhe a ternura que vinha do passado, 
enriquecida talvez pela compaixo que ela, moa pobre, inspirava no presente. Isso, 
porm, exacerbava-lhe a secura. 

Ansiava repouso em dedicaes estveis. Pesava-lhe a solido, sem qualquer 
parente consangneo que lhe disputasse os vnculos da amizade. Mensagens aos 
familiares de Araclia nunca mereceram resposta. Informaes procedentes da 
remota cidade em que sua me nascera inteiraram-na, por fim, de que todos eles 
haviam demandado outras regies do pas, apetecendo melhor sorte. 

Retinha suficiente autocrtica e discernia a situao. Estava s. 

Marita, que conjeturava reaver lembranas por impulso deliberado, franqueou o 
propsito de recrear-se para dar conta de si, como quem se prope alijar, por 
momentos, a carga que transporta, a fim de interrogar-se, quanto aos empeos do 
caminho. 

Afrouxamos, com naturalidade, a observao aguda com que lhe 
acompanhvamos a exposio silenciosa. 

Aliviada, indagou de si mesma se no fora o insulamento a causa de exagerar 
to cedo a necessidade de companhias diferentes das que lhe traavam no lar o 
estreito crculo de provas. 

Encerrada nos pensamentos que lhe armavam as fantasias e receando 
exterioriz-los, pelo temor do ridculo, recorrera  evaso. 

Ave cansada pelo exerccio prematuro das prprias asas, inquiria por que se lhe 
recusara alimento afetivo no ninho, onde conseguira distend-las. 

Antes, porm, que se acomodasse em algum esconderijo da mente, para fixar-
se em contristaes inteis, solicitamo-la a que viesse, por gentileza, em apoio da 
anlise que empreendamos, no intuito de auxili-la e proteg-la. 

Docilmente, retomou as elucidaes interrompidas, relacionando os primeiros 
dias de atividade na profisso de comercinia a que se afizera. 

As rememoraes externaram-se em jorro. 

Entremostrou-nos o movimentado estabelecimento comercial em que Cludio 
lhe obtivera a funo de balconista. Pequeno mundo da preferncia feminina. 
Bijuterias, perfumes, tecidos leves, roupas feitas. 

No dia imediato quele em que o pai adotivo lhe trouxera da rua um bolo 
enfeitado com dezessete rosas pequenas, para comemorar-lhe o aniversrio, 


entrara em servio. 

De comeo, tudo hesitao e novidade. 

Vira-se, depois, atirada aos embates do sentimento. Ligaes novas, idias 
renovadas. 

Aliciara relaes confortadoras, expandiram-se-lhe os interesses, permutava 
confidncias, conquistava simpatias. 

A imaginao agora se lhe excitava em descontrole, sugerindo-lhe adornar-se 
com esmero, de modo a se destacar diante do heri que lhe viria, decerto, governar 

o imprio emotivo, oferecendo-lhe um lar, pedao de paraso em que pudesse 
anestesiar o corao, desoprimir-se e achar a felicidade. 
Menina bisonha, circunscrevia, at ento, todos os conhecimentos, em matria 
de amor, aos romances em que cinderelas annimas acabavam em 
deslumbramento, nos braos de prncipes que as arrancavam da obscuridade para 
a glria. Entusiasmava-se com novelas e filmes que terminassem pelo altrusmo 
coroado ou pelas supremas aspiraes humanas, convenientemente atendidas. 

O destino, entretanto, escarnecera-lhe da inocncia. 

Comparava o contacto da vida prtica a podo implacvel que lhe talara todas 
as flores do jardim de sonhos juvenis. 

A principio, a desiluso conturbara-lhe o nimo, atravs de um colega que a 
obsequiava, repetidamente, com entradas de cinema. Conhecia-lhe a noiva, 
professora jovem e distinta que se lhe afeioara ao convvio. 

Que mal em se verem juntos para uma fita simptica, de vez em vez? Iniciaram-
se os momentinhos de encontro fraterno. Intimidade dos minutos propcios. 
Copacabana, aqui e ali. Um cafezinho de bar, nas horas de vento frio, um sorvete 
na praia, quando o calor vinha forte. Mera camaradagem. Amiguinho, fazendo o 
papel do irmo que no tivera. 

Veio, porm, a noite em que ele se apresentou, transtornado. Chegara sem a 
noiva, que se dirigira a Petrpolis. Acontecimento natural, conquanto raro. Nada 
prenunciava sucessos desagradveis, nenhum motivo de inquietao. 

Conversaram, pacificamente, nas areias do Leme. A Lua nascera, plena, 
inspirando-lhes pensamentos mansos e alegres, enquanto se expunham ao sopro 
refrigerante do mar. 

O trabalho na loja fora banho de suor copioso, no dia clido. 

Falavam acerca de freguesas apressadas, mencionando clientes speros. Riam-
se, despreocupados, ao jeito de colegiais, no intervalo das lies. 

Ele, no entanto, comeou o inesperado, reportando-se a medidas. A fita mtrica, 
a seu parecer, no satisfazia, de todo, em casos determinados de atendimento. 
Necessria a adoo de recursos psicolgicos para tranqilizar compradores 
inquietos, quando se interessassem simplesmente por fragmentos de rendas ou 
passamanes. 

Nisso, pediu-lhe a mo pequena para confront-la com a dele e, respondendo, 
espalmara a destra sem qualquer preveno. 

Assustou-se, ao sentir-lhe a mo hirsuta e mscula, comprimindo-lhe os dedos. 

Intentou desvencilhar-se. O rapaz, contudo, fez-se claro nos propsitos infelizes. 
Puxou-a, num gesto brusco, de encontro ao peito, gaguejando declaraes. 

Na vertigem da pessoa atingida pelos efeitos de um raio, em momento de cu 
aparentemente azul, quis gritar, reclamar socorro, mas o sangue turbilhonava-lhe na 
cabea. 

Impetuosamente submetida queles lbios que se colavam aos dela, desfaleceu 


por segundos. 

O hlito sedutor do primeiro homem que a retinha, submissa, destilava o 
magnetismo da serpente, quando hipnotiza o pssaro confiante. 

O desmaio, no entanto, durara um instante s. A profunda e invencvel reao 
da feminilidade unida  conscincia surdiu, rpida. A noo de responsabilidade 
relampagueou-lhe no raciocnio. 

Bastou isso e o impulso sexual esmoreceu, neutralizado. Ideou a imagem da 
amiga ausente, compreendeu todo o perigo a que se expunha. 

Aspirava, sim, a ser mulher de um homem, companheira de algum que lhe 
fosse companheiro. 

Compenetrava-se, com humildade, da sua condio de criatura humana, moa 
sequiosa de afeto, prelibando emoes da maternidade, mas no concordaria com o 
prprio aviltamento em deslealdade ou devassido. 

Apelou para todas as energias de que se reconhecia capaz e, tocada de sbita 
resistncia, arrojou longe o perseguidor que lhe pressionava o busto tremente. 

Desembaraada, o pranto explodiu-lhe quente e doloroso. 

Interpelaes da alma sincera estouraram, contundentes e francas. 

Onde os compromissos do noivado? que fazia da jovem correta que lhe 
empenhara o destino? trazia, assim, o corao rolando to baixo? no possua 
acaso, me e irms, para as quais exigia valimento e respeito? 

Lvido e atarantado, o colega escusou-se, asseverando, impudente, que no a 
supunha meninota antiquada. 

Estava comprometido, noivo h meses, no entanto  sublinhou, cnico , a seu 
modo de ver, era muito natural que ele e ela, Marita, ainda jovens, desfrutassem o 
tempo, acrescentando, ainda, em sua filosofia desabusada, que todo viajante consciente, 
embora conhea o caminho certo,  livre para saborear os frutos que 
pendam de plantas erguidas  margem. 

Zombou-lhe das lgrimas e retirou-se, gargalhando, sarcstico, para depois 
hostiliz-la em servio. 

Ocorreram outros impedimentos e tentaes. 

O sobrinho do chefe, bonito rapago recm-casado, insinuara-se, comeando 
por um presente de aniversrio e terminando por solicitar-lhe colaborao no 
escritrio, onde pretendeu arrancar-lhe atitudes inconfessveis. Angariara inimigo 
novo e amargara preteries. 

Enquanto isso, observava que Marina se alterara, sensivelmente. Favorecida 
pelo devotamento materno, alcanara diploma de contadora, situando-se com 
manifestas vantagens. E, decerto pelo motivo de ganhar expressivas somas na 
profisso, sustinha, desajuizadamente, prodigalidades e excessos. Figurinistas de 
prol, penteados extravagantes, bebedeiras e tafulices. 

Nesse ponto das confidncias mudas, o vulto de um jovem raiou, ntido. Ao 
estamp-lo na paisagem dos mais recnditos pensamentos, transfigurou-se a 
castigada criana. 

Desanuviou-se-lhe o firmamento ntimo. Queixas arredadas, apreenses 
esquecidas. 

Clareou-se a aura de tal modo, ao refletir o rapaz, que o fenmeno induzia s 
mais belas apreciaes do entusiasmo potico. Vaso pensante que incorpora o 
privilgio de esculpir-se e alindar-se,  vontade, para encertar a flor predileta. Lago 
consciente, mantendo a faculdade de esconder, de inopino, todos os detritos de 
suas guas, metamorfoseando-se em espelho suave e cristalino para retratar uma 


estrela. 

Marita amava o escolhido com a firmeza da rvore que se levanta sobre a raiz 
principal de apoio, com a abnegao das mes, que preferem morrer, felizes no 
sacrifcio extremo, se for essa a condio para que os filhos queridos logrem viver. 

Enlevado com o painel, que se configurava qual retbulo vivo, incutindo respeito 
religioso, interroguei-me, quanto ao lugar onde teria visto quadro idntico: jovem 
mulher plasmando aquele rosto no campo mental. 

Vasculhei a memria e identifiquei-o. Era o adolescente cujo semblante 
repontava dos pensamentos de Marina, senhoreando-lhe o corao, de parceria 
com Nemsio. 

Ambas as meninas jaziam espiritualmente imanadas a ele por laos idnticos. 
Cruzavam-se-lhes as preferncias, scias de anlogo destino. 

Relanceei o olhar sobre Neves, que me espreitava, atento, exercitando-se em 
servio de anlise psquica, percebendo-lhe a face transida de mgoa. 

Bastou recolher-me o sinal e aproximou-se, impulsivo, segredando-me, 
transtornado: 

 Ainda no nos entendemos devidamente. Sabe voc quem  este?  meu 
neto, Gilberto, filho de Beatriz... 
Articulei breve aceno, rogando-lhe aguardar ensejo que fosse vantajoso  
conversao, e graduei, dentro de mim, os efeitos do impacto emocional. Eu, que 
me abeirara daquela atormentada criana, imaginando-me na posio de um pai 
socorrendo uma filha, sopitei, a custo, o espanto que me assaltava, para no 
tresmalhar-me na inconvenincia da compaixo destrutiva. 

No sabia de que modo o pesar me doa mais, se ao refletir em Marina, a dividir-
se entre pai e filho, ou se ao concentrar a ateno naquela moa triste, 
profundamente lesada nos tesouros do sentimento. 

Estanquei no Intimo as impresses que me sensibilizavam e prossegui, 
pesquisa adiante. 

A muda confisso da jovem avanou em reminiscncias vivas e francas. 

Conhecera Gilberto, precisamente h seis meses, no gabinete do chefe. Ela 
prestava informaes de servio, ele representava os interesses do prprio pai, em 
negcios alusivos  venda de imveis. 

Com que deslumbramento lhe recebera os primeiros olhares afetuosos e 
indagadores! Elos de intensa afinidade passaram, desde ento, a jungi-los um ao 
outro, sem que lhe fosse possvel justificar a sede crescente de comunho que a 
dominava. 

Para surpresa maior, na excurso inicial que lhes precedera a srie de passeios 
e entretenimentos felizes, soubera, satisfeita, que Marina, recentemente 
empregada, se fizera contadora da firma em que o genitor dele se destacava como 
sendo a figura mais importante. 

Riram-se da coincidncia com a ingenuidade de duas crianas. 

Marita confiara-se a ele, integralmente. Amava-o, sentia-se amada. 

Desde que se lhe apoiara ao brao, pronto a enla-la e proteg-la, mais vastos 

horizontes se lhe descerraram  alma. Tolerava as alfinetadas do cotidiano, 
transformando-as em notas de perdo e alegria. A Natureza desvendava-lhe 
encantos novos. Admitia que outra luz se lhe acendera nos olhos, permitindo-lhe 
descobrir a beleza do mar; detinha, sem explic-la, certa msica nos ouvidos para 
assinalar, contente e embevecida, as ternas arengas das crianas e as vozes dos 
passarinhos. Desligara-se do calvrio domstico; o tempo voava, doce, ao corao. 


O amor correspondido anestesiara-lhe a sensibilidade. Nenhum peso a carregar, 
nenhuma noo de sacrifcio. 

Dera-se a Gilberto, copiando a passividade da planta que se rende ao cultivador, 
da fonte que se entrega ao sedento. 

O filho de Nemsio Torres prometera-lhe casamento. Falava do futuro risonho, 
suscitava-lhe sonhos de maternidade e ventura. Para faz-la integralmente feliz, 
apenas aguardava a melhoria econmica que adivinhava perto. 

Apesar de tudo, tinha agora o corao farpeado, abatido. Convencia-se de que 
Gilberto se enfastiara, que ambos, precipitados  fome de prazer, haviam colhido, 
antes do tempo, a flor da felicidade que parecia frustra. 

Marina adiantara-se. Sempre Marina... 

Na vspera, surpreendera a irm e Gilberto num colquio, que no deixava 
dvidas. Ouvira-lhes a conversao impregnada de ternura ardente, sem ser 
pressentida. 

Nesse ponto das lembranas amargas, ao modo de ave repentinamente ferida, 
estirou o corpo desgovernado, abandonando-se a lgrimas convulsas. 


Captulo 8 

Rematara os apontamentos que me propunha alinhar, e, reconhecendo que a 
paciente chorava, em prostrao, visivelmente distanciada do exame que me fora 
permitido desenvolver, Neves perguntou se podamos trocar entendimento rpido. 

 Como no? 
 Andr  inquiriu ele, sem ocultar a perplexidade  que vem a ser isto, meu 
amigo? Voc percebeu? Meu neto, o moo  meu neto!... Onde estamos? Quatro 
criaturas enoveladas... Mulher entre pai e filho, um rapaz entre duas irms... 
Ignorava o que vemos. H dias, tento confortar minha pobre Beatriz, s isso. No 
fazia a menor idia das perturbaes que a rodeiam... Ah! meu amigo, como pai, 
estaria agora mais consolado se a visse agonizando numa casa de loucos!... 
E apontando Marita: 

 Esta moa disse a verdade toda? 
 Neves  acentuei , voc no desconhece que determinado grupo familiar 
se define como sendo um engenho constitudo de peas diferentes, embora 
ajustadas entre si para a funo que lhe cabe. Cada um daqueles que o integram  
parte das realidades que se entrosam no conjunto. Marita foi sincera. Exps o que 
sabe. Ela  um pedao da verdade que procuramos. 
Para descobrir o que voc conceitua por verdade toda  inevitvel consultar as 
pessoas que ela hospeda no mundo intimo. 

O amigo debuxou o leve sorriso de quem rene compreenso e conformidade. 

Arrojando-se, porm, ao desconforto com que supunha reverenciar a justia, 

lastimou-se, spero: 

 Imagine voc! Gilberto! Um menino... Se o pai auxiliasse!... Mas Nemsio  
um caso de manicmio. No tem jeito... 
Olhou, compadecido, para a moa em pranto e salientou: 

 Veja esta menina. Correta, fiel... Submeteu-se, confiante. Que culpa no vaso 
de porcelana, violentamente destampado por um animal? E esse animal  um 
garoto que eu amo tanto!... Ela poderia ser a esposa que idealiza, me digna, dona 
de casa para um homem de bem... No entanto, l se vai Gilberto, embeiado por 
uma pinia. Marina e Marita... Incrvel hajam crescido sob o mesmo teto! So irms 
adotivas, como acontece  serpente e  pomba... 
Diante da pausa curta, no me fiz tardio nas ponderaes. 

Investi-me, indebitamente, na posio de conselheiro fortuito e roguei ao 
companheiro asserenar-se. 

Achvamo-nos ali para emendar, proteger, realizar o melhor. Certo, o bem 
suscetvel de ser plantado, naquele grupo, redundaria em socorro a Beatriz. 
Colocssemos nela o pensamento. A irritao lhe avinagraria o nimo e ele, Neves, 
de sentimento azedado, lanaria sobre a filha ingredientes fludicos de ndole 
negativa, arruinando-lhe as foras. 

Pacincia e atividade fraterna servir-nos-iam de apoio. 

Alm do mais, no conseguiramos precisar at quando perdurariam os 
sofrimentos fsicos da esposa de Nemsio. E justo prever, calcular. Entretanto. 
poderiam ocorrer determinaes superiores, recomendando lhe fosse prolongado o 
prazo de estada na Terra. Nada impossvel viesse a continuar adstrita ao corpo 
carnal, relativamente melhorada, por meses, anos talvez, conquanto os 
prognsticos enunciassem a desencarnao para breve. Mas, e se acontecesse o 
inverso? Exasperao ou desnimo, de nosso lado, marcariam o trmino das possi



bilidades de cooperao. Os supervisores que nos dirigiam, no obstante 
compassivos e prestimosos, removernos-iam da cabeceira da doente, sem a menor 
dificuldade. Contavam com recursos para localizar-nos em tarefas, at mesmo mais 
suaves e mais reconfortantes, em outra parte, como quem nos agaloava em servio. 
Agiriam, assim, em proveito da prpria doente, impedindo os prejuzos que lhe 
pudssemos acarretar com qualquer carga de vibraes desconcertantes. 

Neves tolerou o aviso com pacincia. 

Acabou rogando compreenso. Retirara-se do convvio familiar, por longo tempo 

 justificou-se , a fim de adestrar-se em cordura e desprendimento. 
Regressando, no entanto, ao abrigo domstico, topava, a cada instante, em si 
mesmo, o homem que fora. Comodista, agarrado s razes consangneas, 
absorvido no bem-estar dos que reputava como sendo flores no tronco do corao. 
Sabia-se em prova rdua. Acusava-se analisado, esqadrinhado, sopesado, na 
prpria assimilao dos princpios de caridade e indulgncia que passara a 
ministrar, sob o influxo dos mentores sbios e amigos que lhe haviam descerrado a 
porta das escolas de aperfeioamento nas esferas superiores. 
Ao jeito de qualquer pessoa terrestre, encerrando consigo mritos e falhas, 
declarou-se disposto a dominar-se, e, impelindo-nos a recordar antigos 
condiscpulos da fase juvenil, quando encorajados e vacilantes ao mesmo tempo na 
soluo dos problemas de autocontrole, solicitou-nos colaborao a fim de que se 
mantivesse calado, tanto quanto possvel, na presena dos instrutores. 

A submisso do companheiro dava para co-mover. 

Acreditava-se temporariamente perturbado, acentuou humilde. Partilhava as 
agruras da filha. 

Voltara instintivamente  agressividade e  extroverso que lhe marcavam o 
temperamento no passado; entretanto, comprometia-se  reviso de atitudes. 
Apesar disso, que lhe relevssemos qualquer desabafo inconveniente, quando nos 
demorssemos a ss. Sempre chegava o momento em que ele, por mais aplicado 
ao burilamento ntimo, sentia que as excitaes, longamente acumuladas, lhe pesavam 
no esprito, qual nuvem de gases comburentes. Desinibia-se ou dementavase, 
ao modo de algum que carregasse bombas estourando no prprio peito. 

Fi-lo sossegar-se. No precisava vexar-se daquela maneira. Entendia tudo, 
perfeitamente. De nossa parte, no apresentvamos qualquer trao de 
superioridade. Tambm ns, criatura humana desencarnada, conhecamos de sobra 
os lances da batalha interior, em que o adversrio somos sempre ns mesmos, na 
arena das qualidades inferiores que nos tocam sublimar. 

Desaconselhvel, porm, prosseguir, conversando  margem do servio. 

A frgil menina desoprimia-se, em pranto. Choro vozeado, no obstante 
discreto. Soluos. 

Dispnhamo-nos a intervir, quando sucedeu o inesperado. 

Cludio batia, de leve,  porta, decerto incomodado pelo som lastimoso 
daqueles gemidos que Marita, em vo, buscava reprimir. 

Respiramos confortados. 

Indubitavelmente, o inquieto corao paternal vinha ao encontro da moa 

desfalecente, ansiando soerguer-lhe as energias, e, ns prprios, atravs de 
estmulos magnticos, insistimos com ela para que atendesse. 
Empregando vontade e foras para vencer a crise de lgrimas, a jovem anuiu 
aos nossos apelos e cambaleou, desaferrolhando a passagem. 
Cludio entrou, mas no vinha s. Um daqueles dois companheiros 


desencarnados que lhe alteraram a personalidade, justamente o que se abeirara 
dele, em primeiro lugar, para o trago de uis que, enrodilhava-se-lhe ao corpo. 

O verbo enrodilhar-se, na linguagem humana, figura-se o mais adequado  
definio daquela ocorrncia de possesso partilhada, que se nos apresentava ao 
exame, conquanto no exprima, com exatido, todo o processo de enrolamento 
fludico, em que se imantavam. E afirmamos possesso partilhada, porque, 
efetivamente, ali, um aspirava ardentemente aos objetivos desonestos do outro, 
completando-se, euforicamente, na diviso da responsabilidade em quotas iguais. 

Qual acontecera, no instante em que bebiam juntos, forneciam a impresso de 
dois seres num corpo s. 

Em determinados momentos, o obsessor afastava-se do companheiro, a 
distncia de centmetros; contudo, sempre a enla-lo, copiando gestos de felino, 
interessado em no perder o contacto da vitima. Achavam-se, entretanto, 
irrestritamente conjugados em vinculao recproca. 

Isso conferia ao semblante de Cludio expresso diferente, O hipnotizador, cuja 
viso espiritual no nos atingia, senhoreava-lhe sentimentos e idias, enquanto ele 
se deixava prazerosamente senhorear. O olhar obediente adquirira a turvao 
caracterstica dos alucinados, O recm-chegado transfigurara-se. Estranho sorriso 
franzia-lhe a boca. Diante das percepes limitadas de Marita, era ele um homem 
comum; no entanto,  nossa frente, valia por duas personalidades masculinas numa 
s representao. Dois Espritos exteriorizando impulsos aviltados, 
complementando paixes idnticas na mesma tnica da afinidade total. 

Neves fitou-me, espantado. Mas, no era s ele, menos experiente, que jazia 
transido, amarrotado. Ns tambm, acostumados, no plano espiritual, aos embates 
do sentimento, alimentvamos aflitivas apreenses. 

Aquele quarto, dantes povoado pelos devaneios doridos de uma criana, 
metamorfoseara-se em jaula, onde Cludio e o vampirizador, singularmente 
brutalizados pelo desejo infeliz, constituam juntos uma fera astuciosa, calculando o 
caminho mais fcil de alcanar a presa. 

Um clarividente reencarnado que contemplasse o dono da casa, naquela hora, 
v-lo-ia noutra mscara fisionmica. 

A incorporao medianmica, espontnea e consciente, positivava-se em 
plenitude selvagem. O fenmeno da comunho entre duas inteligncias uma 
delas, encarnada, e a outra, desencarnada , levantava-se, franco; ainda assim, 
desdobrava-se to agreste quanto o furaco ou a mar, que se expressam por 
foras ainda desgovernadas da Natureza terrestre, no obstante a ocorrncia, do 
ponto de vista humano, efetivar-se na suposta mudez do plano mental. 

Para ns, porm, no se instituam apenas as formas-pensamentos, dando 
conta das intenes libertinas da dupla animalizada, com estruturas, cores, rudos e 
movimentos correlatos; amedrontava-nos igualmente escutar as vozes de ambos, 
em dilogo, claramente perceptvel. 

As palavras escapavam do crnio de Cludio, aparentemente silencioso para a 
filha adotiva, qual se a cabea dele estivesse transfigurada numa caixa acstica de 
aparelho radiofnico. 

Magnetizador e magnetizado denotavam sensualidade do mesmo nvel. 

Refletindo na corrida  garrafa, momentos antes, avalivamos o perigo aberto  
menina indefesa. A diferena, ali,  que Cludio ainda encontrava recursos a fim de 
parlamentar, dentro da hipnose  hipnose que ele, alis, amimalhava. 

Discorria o obsessor, comovendo-o, no intuito patente de arruinar-lhe os restos 


do escrpulo, atravs da emoo: 

 Agora, agora sim!... O amor, Cludio, isto... Esperar, por vezes, anos a fio, 
para dominar a felicidade num simples minuto. Existem mulheres aos milhes; 
entretanto, esta  a nica. A nica que nos poder, enfim, aplacar a sede. Pontos de 
apoio alongam-se em toda parte, mas o pssaro viaja, lguas e lguas, suspirando 
por descansar na penugem do prprio ninho... Na fome fsica, todo alimento serve, 
mas no amor... No amor, a felicidade  semelhante ao aro de que o homem possui a 
metade e a mulher detm a outra. Para que a euforia vibre perfeita no crculo,  imperioso 
que as metades sejam da mesma substncia. Ningum alcana a fuso de 
um pedao de ouro com um pedao de madeira. Paganini tocou numa corda s; 
entretanto, a corda se harmonizava com ele. Jamais arrancaria no mundo o menor 
sinal do prprio gnio, se apenas dispusesse para o violino das cordas de cnhamo, 
ainda mesmo que essas cordas o desafiassem a toneladas. Cada homem, Cludio, 
para realizar-se nos domnios da vitalidade e da alegria, h de encontrar a mulher 
magntica que lhe corresponde, companheira na afinidade absoluta, capaz de lhe 
oferecer a plenitude interior, que transcenda convenes e formas ... (3) 
Pausava-se a voz, por segundos, para continuar, suplicante, proclamando 
sofismas arguciosos: 

 Vamos! Marita  nossa, nossa!... Somos homens sequiosos, sofredores... 
Apiedamo-nos de enfermos abandonados, administrando-lhes remdio seguro; 
somos o apoio certo de mendigos que tropeam 
(3) Compreendemos o carter negativo da linguagem do Esprito 
desencarnado, quando em deplorveis condies de ignorncia, mas 
acreditamos seja nossa obrigao consign-la, nestas pginas, ainda mesmo 
esbatida qual se encontra, prevenindo criaturas senalveis e afetuosas, que, s 
vezes, abdicam impensadamente do prprio raciocnio, arrojando-se em 
profundo sofrimento moral, em nome do corao. (Nota do Autor espiritual.) 
s tontas... Acaso, mereceremos simpatia menor? Os que enlouquecem, 
esfaimados de ternura, sero piores do que os infelizes, a se estirarem na rua por 
falta de po? Voc, Cludio, tem amargado angustiosa carncia. Um pedinte na 
praa no tem leve pitada de suas aflies. De que valem vencimentos fartos e 
experincias de lupanar, quando o amor verdadeiro grita insatisfeito na carne? Voc 
vive no lar,  moda de co na sarjeta. Escoiceado, ferido... Marita  a compensao. 

O cultivador, porventura, no tem direito ao fruto que amadurece? Voc abrigou 
esta menina nos braos, embalou-a no peito; viu-lhe o crescimento, como quem 
acompanha a evoluo da flor que desabrocha, e acabou descobrindo nela o seu 
tipo. No estar voc cansado de v-la e desej-la, ardentemente, todos os dias, 
resignando-se ao suplcio da distncia, vivendo to perto? 

 Criei-a, no entanto, como sendo minha prpria filha...  suspirou Cludio, 
crendo falar para si mesmo. 
 Filha?  insistiu o sedutor.  Mero artifcio social. Apenas mulher. E quem 
assegurar que ela tambm no espera por seu beijo com a sede da cora, presa 
ao p da fonte? Voc no  nenhum nefito; sabe que toda mulher estima render-
se, em trabalhosa porfia. 
Conjeturando-se dividido mentalmente em duas personalidades distintas, a de 
pai e a de enamorado, Cludio argumentou, desencorajando-se. 
No desconhecia que a moa j se revelara. Elegera Gilberto, o rapaz com 


quem se dava a passeios freqentes. Era impossvel que o amasse, a ele, 
Cludio, em segredo. No alentava dvidas. Ciumento, acompanhara-os, 
discretamente, em excurses domingueiras, sem que lhe desconfiassem da 
presena ou do zelo ofendido. Nunca lhes ouvira as palavras; entretanto, apanharalhes, 
s ocultas, os gestos equvocos. Admitia-se com razo para convidar o 
estouvado a compromisso. Calculara, calculara. Todavia, quando se inclinava a 
pedir conselho de autoridades policiais, chocara-se com o imprevisto. Homem de 
prolongada vida noturna, passou a esbarrar com a filha, em recantos de prazer, no 
apenas na companhia de Nemsio Torres, o cavalheiro que desempenhava, junto 
dela, a funo de chefe, mas igualmente com Gilberto, o filho, em posio 
comprometedora. Os desregramentos de Marina, desde muito, se haviam tomado 
para ele em calamidades inevitveis. A principio, atormentara-se. Pai contundido 
pela licenciosidade em famlia. 

Contudo, Mrcia, a esposa, ditava os figurinos. Nos primeiros tempos do 
consrcio, emergira entre ambos a muralha da discrdia, da discrdia que lhes 
emanava do mago, em ondas torvelinhantes de averso instintiva, cuja existncia 
no haviam sequer pressentido, de leve, antes do casamento. 

De comeo, rixas e discusses. Depois, a indiferena, o cansao total um do 
outro. Aventuras unilaterais. Cada qual em seu caminho. 

Marina, evidentemente, seguira a trilha materna. Desligara-se dele. Classificava 
a filha, em seu juzo de homem, por mulher livre; contudo, tolervel no lar, enquanto 
exercesse a profisso que lhe assegurava sustento s fantasias. Em casa, 
habitualmente reuniam-se  mesa, a esposa, Marina e ele,  feio de trs animais 
inteligentes, dissimulando o desprezo recproco, atravs da conveno ou do chiste. 

No conceito dele, porm, Marita definia-se parte. Flor no ramo espinhoso 
daqueles antagonismos flagelantes. 

Afastara-a, intencionalmente, na direo do servio. Inventara meios de obrigla 
a tomar refeies em Copacabana, para que as picuinhas do crculo domstico, 
no Flamengo, no lhe torturassem o esprito. 

Espiava-lhe os passos, ouvia-lhe os chefes. 

Uma vez instalada no exerccio da nova condio, ele mesmo, quanto possvel, 
manter-lhe-ia a independncia. 

Amando-a com entranhado carinho mesclado de egosmo tirnico, feriam-lhe as 
humilhaes que a esposa e a filha no regateavam a ela, no trato mais ntimo. 

Queria-a para ele, com a ternura de um pombo e com a brutalidade de um lobo. 
No concordava lhe dessem a beber afronta ou sarcasmo. Tais atitudes acabaram 
revestindo-a de liberdade mais ampla, que Marita utilizava no culto afetivo a Gilberto, 
de vez que, por vocao, se distanciava de festas. Mrcia e Marina, sempre 
mais absorvidas nas extravagncias em que se inculcavam por duas irms 
doidivanas, nem deram por isso. A ausncia dela como que as aliviava de um peso. 
Certificando-se de que no lhe dobrariam o carter, acusavam-se felizes por no 
serem induzidas a suportar-lhe a fiscalizao. 

Embrenhado nos raciocnios que lhe derivavam, rpidos, do ligeiro auto-exame, 
sob o controle do vampirizador que o influenciava, recordava-se Cludio de que h 
muitos dias conclura que Gilberto no hesitava embair as duas moas, e, depois de 
refletir maduramente, resolvera silenciar. 

No seria conveniente sopesar as prprias vantagens? Denunciar Marita por 
jovem ultrajada redundaria em arredar-lhe a confiana. Apontar Marina no preo 
significava insultar a filha adotiva, aplicando-lhe temveis leses de ordem moral. Ar



diloso, deixava o tempo correr, achando prefervel, a seu ver, fosse Marita 
machucada pelas circunstncias. Quando se voltasse para ele, fatigada e 
desiludida, convert-la-ia, talvez sem dificuldade, na amante a que aspirava. 

Engodado pelo interlocutor que lhe era invisvel, enfileirou as reflexes 
apressadas que lhe vinham  mente; no entanto, assoprado agora por ele, deixava-
se iludir por imaginosa expectativa, formulando-se outra espcie de inquiries. 
Envolvido nas sutilezas do obsessor, esmerilhava o prprio ntimo, tentando saber 
se estava sendo inspirado com segurana naquela hora. Andaria enganado? Acaso, 
Marita entregar-se-ia a Gilberto, pensando nele, Cludio, de quem se afastava por 
escrpulos de conscincia? Semanas havia, fizera-se a jovem mais esquiva. 
Estranhara. Darse-ia o fato de recolher-lhe telepaticamente as apreenses ou deliberara 
fugir-lhe, de propsito, a fim de ocultar a simpatia amorosa que, 
possivelmente, lhe impelia o corao de mulher a quer-lo? 

Ele mesmo fornecia ao perseguidor a argumentao com que se lhe arruinava a 
resistncia. 

At ali, trancara, bem ou mal, diante da jovem, os sentimentos que lhe 
transbordavam do peito. No chegara, porm, aos limites do enigma? Caber-lhe-ia 
sofrear-se at  loucura? 

O hipnotizador, em cujo semblante se podia ler a desmesurada sede de volpia, 
sorriu, satisfeito, e sussurrou, mentalmente, ganhando preponderncia: 

Cludio, compreenda. Iniciativa, em assunto de amor, no  passo feminino. 
Velho rifo: laranja  beira de estrada no tem preo. Disse um filsofo: prazer 
sem conquista  bife sem sal. 
Adiante, adiante! 

Esquadrinhando o imo do companheiro,  caa de recursos com que o prprio 
Cludio lhe pudesse fortificar a posse magntica, o obsessor, por segundos, cravou 
nele o olhar penetrante. E, decerto, exumando-lhe as desrespeitosas iluses em 
matria de ligao afetiva, que ele, Cludio, embutira na cabea, desde menino, 
comeou a martelar: 

 Cigarro! Lembre-se do cigarro e da boca! Manita  mulher igual s outras... 
Cigarro, cigarro na vitrina... Cigarro, cigarreira, piteira e charuto no escolhem 
comprador... A carne  flor desabrochada na terra do esprito, s isso. O cultivador 
no sabe o que seja a formao essencial do canteiro, tanto quanto desconhece o 
que est no fundo da planta. Proclamava Salomo que tudo  vaidade; 
acrescentamos que tudo  ignorncia. Entretanto, na superfcie das situaes e das 
coisas,  possvel enxergar claramente. Flor que ningum colhe  perfume que se 
perde. Hora de amor desaproveitada vem a ser ptala no estrume. Rosa murcha, 
adorno para o cho. Carne sem vio, adubo para a erva. Aproveite, aproveite... 
Percebamos que o desencarnado no era simples dipsomanaco, que o lcool 
apenas lhe constitua porta de escape, de vez que as palavras que selecionava para 
aliciar influncia e o jeito astucioso de sensibilizar o parceiro, antes de empalmar-lhe 

o raciocnio, demonstravam tcnicas de exploradores consumados das paixes 
humanas. 

Aquele perseguidor no era vagabundo acidental. 

O anseio incontido com que impelia Cludio para a jovem e a expresso com 

que a fitava, apaixonadamente, pareciam chegar de muito longe. Mas a ocasio no 
comportava investigaes de retaguarda. O momento reclamava ateno. 
Necessrio contornar obstculos, improvisar medidas socorristas que protegessem 
a triste menina desarmada. 


O excntrico dueto prosseguiu entre os dois amigos que se entendiam, sem o 
concurso da boca. 

O magnetizador pressionava, o magnetizado resistia. 

Por fim, Cludio avanou dois passos, quase vencido. 

Idias, contradies, estmulos e arrebatamentos abalroavam-se-lhe, 
violentamente, no espao estreito do crnio. A terrvel batalha interior de alguns 
instantes esmorecia. A natureza animal ampliara domnio. O sedutor desencarnado 
rematava a obra. 

No mais a gritaria de Esprito. No mais o entrechoque das mudas 
ponderaes entrecortadas a esmo. 

Sim  deduzia, transtornado . ele era homem, homem... Marita, 
incontestavelmente mais jovem, no passava de mulher. No lhe cabia, portanto, 
diminuir-se. Ela chorava, ele podia acalent-la, aquecer-lhe o corao. 

Alucinado de lascvia, envolveu-a em longo olhar, inferindo que, no fossem o 
temor de v-la fugir em definitivo e o receio de verificar-se por ela prpria 
desonrado, tomar-lhe-ia o colo entre os braos, qual guri destemeroso, buscando 
desentranhar-lhe a ternura. 

Entanto, os derradeiros arrazoados esmaeciam. Esbarrondara-se, dentro dele, a 
ltima trincheira que lhe cerceava os impulsos. Sujeitou-se de todo  direo do 
vampirizador que o comandava. Colaram-se, fundiram-se, enfim. 

Marita ergueu para ele os olhos splices, imitando as atitudes da ave 
perseguida, para quem no resta outra alternativa que no seja esperar pela 
piedade do atirador. 

Jungido ao companheiro infeliz, Cludio adiantou-se, acomodando-se, 
assumindo ares de protetor, resolvido a ultrapassar os limites da afeio pura e 
simples. 

 Pelo que vejo, esse pilantra do Gilberto vem abusando...  sussurrou, 
adocicando a voz. 
Em seguida, tomou-lhe a destra pequena entre as suas mos nervosas, mal 
disfarando a lubricidade duplicada que o possua. 
A jovem registrou o impacto das foras aviltadas a lhe requisitarem adeso, 
calando a repulsa. 
Escutara o apontamento, num misto de estranheza e revolta, mas, reprimindo-
se, passou a responder, esforando-se por desculpar o rapaz e atribuindo a si o 
desmantelo emotivo; entretanto,  medida que o pai adotivo dilatava a liberdade das 
atitudes, apagava-se-lhe a energia para a conversao, at que silenciou, como se 

o interesse, ao redor do problema, houvesse desaparecido de chofre. E, num timo, 
realinhou na mente as impresses amargas dos tempos ltimos... 
Assinalara, havia meses, a reservada mudana do trato paterno. Desconcertava-
se ao perceber que Cludio demorava sobre ela o olhar insistente. 
Amedrontara-se. Reagira, porm, energicamente, contra si mesma. Consagrava-lhe 

o respeitoso amor de filha reconhecida e no lhe cabia conspurcar sentimentos 
semore mantidos imculos, desde a intimidade da infncia. Opusera-se  suspeita. 
Lutara, no queria aceitar-se visada por ele, sob a inspirao de qualquer propsito 
menos digno. 
Ainda assim, por mais brandisse argumentos contra si prpria, inexplicvel 
sensao advertia-lhe o esprito, exortando-a a policiar as maneiras com que 
Cludio agora a cercava. Pelos motivos mais fteis, exagerava cuidados, 
multiplicando frases de dbio sentido. 


Torturada pela dvida, afirmava a sua desconfiana e desdizia-se, 
intimamente. 

Naquele instante, porm, o instinto de defesa sentenciava prudncia, 
segredava-lhe vigilncia. 

Pressentindo, em esprito, a presena do outro, arregimentou, sem querer, 
todas as suas foras na posio de alarma. 

O contacto de Cludio comunicava-lhe insegurana. 

Batia-lhe o corao desritmado, ao senti-lo ensaiando meios de enlaar-se a 
ela, vido de carinho. 

 No negue, filha  entaramelou-se o pai, um tanto trmulo , no desejo 
contrari-la, mas venho analisando, analisando... Voc no nasceu para esse 
menino caprichoso. Compreendo voc... No sou apenas seu pai pelo corao, 
sou tambm seu amigo... Esse rapaz... 
Marita cobrou nimo e, antecipando-se-lhe s ilaes reticenciosas, explicou 
ingenuamente que amava a Gilberto, que lhe hipotecava confiana, que o pai 
estivesse tranqilo, e acentuou, sorrindo quase, que as lgrimas daqueles minutos 
no se reportavam a qualquer desgosto e sim a indisposio orgnica indefinvel. 
Deduziu, de relance, que seria justo desvelar-lhe mais ampla zona da alma, 
anulando mal-entendidos no nascedouro, e, intencionalmente, prosseguiu 
confidenciando, a expor-lhe, com lealdade, a expectativa com que aguardava o anel 
esponsalcio, determinada a medir as reaes de Cludio, a fim de orientar, sem 
tergiversaes, a prpria conduta. 
Atrapalhava-se, todavia, ao consignar-lhe a indignao pintada no rosto. Na 
meia-luz do quarto, podia ver-lhe a face congesta, nos esgares da ira. 

Compreendeu que a borrasca naquele esprito voluntarioso se mostrava prestes 

a estalar; no entanto, continuou apresentando razes para colher reaes. 
E a exploso do interlocutor no se fez de-morar. 
Cerrando os punhos, Cludio cortou-lhe a conversa, exclamando, irritado: 

 Percebo, percebo, mas no precisa maar-me... Estimo, porm, que voc me 
conhea melhor o devotamento. 
Avanando na intimidade, qual se aspirasse a enred-la no prprio hlito, 
continuou  agindo por si e pelo outro  na queixa primorosamente lavrada: 

 Filha,  necessrio que voc me oua, que me entenda... 
E, assaltando-lhe a emotividade para esbater-lhe a resistncia: 
-Voc no desconhece o que sofro. Imagine a tragdia de um homem que 
morre, a pouco e pouco, desolado, sozinho... de um homem que d tudo, sem nada 
receber... Voc cresceu, vendo isso... Infelicidade, solido.  impossvel que no se 
condoa. Esta casa  meu deserto. Chego esfalfado, diariamente, sem achar mo 
amiga. Mrcia, embora quarentona, vive de jogatinas e festas... Voc est moa, 
inexperiente, mas deve saber. Desculpe-me o desabafo, mas os prprios amigos 
me lastimam o drama... Estar voc em condies de avaliar os conflitos de um 
pobre diabo algemado a companheira de vida irregular? Ela, porm, no me fere 
com isso. No comeo, o corte sangrava, mas corao calejado no sente. Habituei-
me a detest-la. Dar-lhe o dinheiro que exige, para que suma depressa,  hoje o 
que me consola... Por outro lado, Marina, cujo afeto poderia proporcionar-me algum 
reconforto, faz empenho de humilhar-me com a prpria devassido! Sou um homem 
falido. Dias surgem, nos quais me reconheo o palhao mais desditoso da Terra... 

Nesse ponto, sob o governo do obsessor, a voz de Cludio entravara-se na 
garganta. 


Alterara-se de todo, comovido na aparncia. 

Com isso, amolgara-se a jovem, sinceramente compadecida, e, concluindo que 
atingira o alvo a que se propunha, acrescentou, exaltado: 

 S voc, somente voc me prende ao lar infeliz. Ainda agora, o Banco me 
props excelente comisso em Mato Grosso; entretanto, pensei em voc e desisti... 
Por voc, filha, tolero os insultos de Mrcia, as ingratides de Marina, os dissabores 
da profisso, os aborrecimentos cotidianos. Conseguir voc compreender-me? 
A moa suspirou, diligenciando expulsar de si as vibraes de sensualidade 
com que a dupla lhe envolvia a cabea, e falou, calma: 

 Sim, papai, entendo as dificuldades que so nossas... 
 Nossas!  repetiu ele, ganhando novas energias para chegar  meta , sim, 
minha filha, as dificuldades so nossas, mas  preciso que voc saiba que nossas 
tambm devem ser as esperanas e as alegrias. Anseio pelo instante em que voc 
me veja no exclusivamente por pai... 
Atentando no olhar da infortunada menina que se tocara de imenso espanto, 
acentuou num supremo esforo por revelar-se: 

 Marita, pareo um velho, mas voc me far jovem... O corao  seu, seu... 
O obsessor, com trejeitos de lascvia, prelibava o lance final. 
Marita, no entanto, percebendo a inteno inequvoca do homem apaixonado, 
que arrojava o rosto maduro e bem tratado sobre o dela, intentou recuar. 

 No, no!  gemeu, suplicante, ao sentir-lhe o hlito. 
Cludio, porm, cujas foras jaziam somadas valentia do outro, enlaava-lhe 
o busto, copiando o procedimento de um jovem mal comportado. 
Qual se houvramos combinado previamente a defesa. Neves e eu saltamos na 
direo dela, ofertando-lhe as mos, para que pudesse arrancar-se, e a vitima, 
crendo apoiar-se nos prprios recursos, conseguiu levantar-se num prodgio de 
ligeireza, estacando,  frente dele, que a fitava, agora, com a expresso 
desconfiada de um animal repentina-mente ferido. 

 Papai, no me faa mais infeliz... Poupe-me a humilhao!... 
O dono da casa, ao impacto da recusa imprevista, pareceu desligar-se do amigo 
desencarnado, lembrando a fera que se desvencilhasse, de inopino, do 
encantamento mantido pelo domador; entretanto, o parceiro trazia uma carga de 
paixo vigorosa demais para desistir facilmente. Retomou, impetuoso, o prprio 
domnio, a ponto de antepor a mscara fisionmica ao semblante de Cludio. Cerrava 
os punhos, despedia clera letal. Estabelecia-se pavoroso conflito na mente de 
cada um. Num deles, o desapontamento e o desespero, no outro, a malignidade e a 
agresso. 

O pai adotivo, carregando o estranho fardo de angstia, mesclada de revolta, 
incapaz de compreender os sentimentos contraditrios que o faziam avizinhar-se da 
loucura, passou a clamar, inconsiderado: 

 Isto  a exploso de muitos sofrimentos acumulados. Fiz tudo para esquecer 
e no pude... 
Que fazer com esta inclinao que me arrasta? Sou palha no vento, minha filha! 
Desde que a vi menina, carrego esta idia fixa... Se eu fosse religioso, diria que um 
demnio mora dentro de mim. 

Um demnio que me atira constantemente sobre voc. Em sua presena, quero 
pensar em voc, como sendo minha filha, crescida em meus braos e no posso... 
Li muitos livros de Cincia para saber o que se passa, mas o enigma continua. Quis 
procurar um mdico; entretanto, senti vergonha de mim prprio...  s voc que eu 


vejo em tudo! Odeio Mrcia, desprezo Marina... 

Tenho acalentado a esperana de uma viuvez que nunca chega, a fim de 
oferecer-me a voc, sem condies... Tenho cimes, cimes que me afogam a alma 
em labaredas... Detesto esse rapaz leviano, inconsciente... 

A voz de Cludio amaciara-se, adquirindo tom lacrimoso. Identificava-se-lhe o 
abalo sentimental. O perseguidor duplicou em desprezo tudo o que ele exprimia em 
emotividade, provocando inesperada reviravolta. O pai enternecido deu lugar ao 
enamorado violento. 

Avinagrara-se a ternura, semelhando calda azedada. Revelando sbito transtorno, 
deitou  filha adotiva um olhar de escrnio, traumatizando-a de horror, a 
esbravejar, dementado: 

 No, no posso humilhar-me assim. Voc sabe que no sou nenhum tonto. 
H quinze dias, acompanhei vocs dois a Paquet, sem que me vissem... Seguilhes 
o passo descuidado e feliz, como se eu fosse um co escoiceado pelo 
destino... Ao cair da noite, vi quando vocs dois se enlaaram, trocando promessas 
e falando bobagens, na Ribeira... Arrastei-me no matagal e vi tudo... Desde ento, 
enlouqueci... Pelo jeito, vocs andam acanalhados, h muito tempo... Voc! voc, 
que eu supunha intangvel, entregue a um menino doido!... Ingnua! Julga que no 
tenho motivos para expuls-la! Voc imagina que me falta coragem para chamar s 
contas esse dilho de papai rico? 
Alterando o tratamento paternal de que se valia, rugiu, brutalizado: 

 Marita, fique sabendo que voc agora no  mais criana! Voc  apenas 
mulher, no passa de mulher, mulher... 
A jovem soluava. Reconhecendo-se descoberta nas mais ntimas nuanas da 
conduta impensada, no ousava erguer a fronte. 
Neves, incapaz de remover o prprio assombro, abeirou-se de mim, rezingando: 

 Voc est vendo? Este homem ser louco ou desbriado? 
Temendo-lhe a impulsividade, fi-lo recordar as atitudes ponderosas e crists do 
irmo Flix, informando, discretamente, que me achava em orao, a exorar o 
auxlio da esfera superior, porqanto, ali, no dispnhamos de maiores recursos 
para impedir um assalto passional de penosas conseqncias. 

 Orao?  chasqueou o companheiro, positivamente desencantado  no 
creio que os anjos se ocupem de casos como este. Aqui, meu amigo, e em outros 
lugares onde tenho visto muito bicho velho fantasiado de gente, s a polcia... 
Efetivamente, os anjos pessoalmente no nos atenderam s rogativas 
silenciosas, enunciadas desde o incio da cena desagradvel; no entanto, o socorro 
apareceu. 

Ouviu-se barulho de ferrolho em ao e algum penetrou em casa, 
ruidosamente. 

Sobreveio o choque providencial. 

Cludio, em sobressalto, desligou-se do hipnotizador, que se lhe postou de lado, 

um tanto desenxabido. 

 Que  que h? 
Marita cobrou energias, regressando ao leito, enquanto o chefe do lar se 
recompunha  pressa. 
Espantados, notamos, porm, a surpreendente capacidade de fabulao da qual 
Nogueira dava mostras. Ele prprio, sem qualquer ingerncia do obsessor, comeou 
a tramar em pensamento a desculpa com que se justificaria. 

Agindo quase que mecanicamente, libertou a porta que havia prendido, 


perspicaz, abriu janela prxima e, de imediato, esbelta senhora surgiu, indagando, 
apreensiva: 

 Que  que h? 
Tratava-se da esposa que voltara, de imprevisto. 
Dona Mrcia alegava susto, asseverando ter ouvido um vozeiro ao chegar. 
Cludio, no entanto, repondo a mscara das convenincias, entornou pela boca a 
verso que inventara, ali, naquele momento, diante de ns. 

Fixou a moa, de modo significativo, e tranqilizou a senhora, dizendo-lhe, com 
a maior sem-cerimnia, que chegara a casa, momentos antes, encontrando o gs 
do fogo a volatilizar-se. 

Fechara as sadas que a cozinheira deixara abertas e exortou a que se lhe 
chamasse a ateno, no dia seguinte. Dona Justa, a companheira do servio 
domstico, devia examinar os aparelhos da casa, minuciosamente, antes de se 
retirar. Acentuou que, atemorizado, descerrara as janelas, arejando o ambiente. 
Quando envergava o pijama, aduziu com absoluta seriedade a lhe transparecer do 
semblante, ouvira gemidos agoniados. Correu ao aposento das meninas, 
surpreendendo Marita a gritar, inconsciente. Sonmbula, sonmbula como sempre... 
Acordara-a, atarantado, averiguando, porm, que tudo estava em ordem. 

A jovem, mergulhada na penumbra, cobriu o rosto com o leno para ocultar as 
lgrimas, abandonando-se  inrcia, como se transferisse a cabea de um sono 
para outro. 

A recm-chegada riu-se, sem suspeitar, de leve, do vulco que faceava, e, qual 
se desejasse compensar-lhe a indiferena, Cludlo, de volta ao salo, esboou um 
aceno gentil, convidando Mrcia a descansar. 


Captulo 9 

Instalados na sala de visita, os cnjuges entrefitaram-se de estranha maneira. 
Adversrios declarados, em trguas cordiais. 

Dona Mrcia definia-se. Espcime comum das damas que lutam, garbosas, 
contra as arremetidas do tempo. Ningum lhe atribuiria os quarenta janeiros 
integralmente dobados. Os cabelos abundantes, que os lqUidos medicinais 
mantinham perfeitamente escuros e brilhantes, acomodavam-se num penteado 
gracioso que lhe guarnecia o rosto, semelhante ao das pessoas que se maquilam 
para efeitos de arte e que nunca se deixam analisar realmente sem que a gua 
quantiosa lhes restitua os poros  carcia da Natureza. Delgada, na magreza 
caracterstica dos que usam moderadores do apetite para a manuteno do peso 
ideal, apresentava-se em figurino da alta. 

O fundo alvo do linho, ligeiramente estampado de pequeninas flores rseas, 
dava-lhe ao vestido primoroso certa diafaneidade que lhe realava a beleza quase 
outonia. 

Era a mesma criatura das telas mentais de Marina, exibindo-se, porm, de 
modo diverso, espcie de livro, claramente identificvel, mas exposto numa 
encadernao mais viva e mais rica. 

Pela herana e pela convivncia, talhara, sem dvida, o aspecto da filha nica, 
porqanto, sentada agora, lembrava Marina em todos os traos, conquanto muito 
mais asserenada e amadurecida. Longe de aparentarem a verdadeira condio de 
me e filha, podiam ser interpretadas  conta de irms, salientando-se que Dona 
Mrcia se revelava talvez mais simptica, pela brandura estudada dos gestos. 

Via-se-lhe com tranqilidade o sorriso espontneo, sorriso, no entanto, que 
mostrava o engenhoso artifcio dos que se distanciam deliberadamente dos 
problemas alheios para que no lhes constituam empeo ao avano. Doura 
trabalhada do egosmo atencioso, pronto a sorrir, nunca a se incomodar. 

Ainda assim, os olhos, ah! os olhos traam-lhe a alma sibilina. Fisgados no 
esposo, pareciam interessados em agarrar-lhe as mnimas reaes, em proveito 
prprio. 

Ela no aspirava a conhecer qualquer vestgio da conduta dele, anelava 
encobrir-se. Serena e bem-posta, renteando o marido, dava a impresso de um 
viajante hbil, preocupado em ilaquear o guarda-barreira, a fim de seguir, inclume, 
caminho adiante, sem largar as aquisies clandestinas. 

Por outro lado, o marido assemelhava-se ao guarda-barreira, calejado no 
suborno, mais aplicado em resguardar-se, que em denunciar viajores, to matreiros 
quanto ele prprio. Naquela hora, sobretudo, em que fora quase detido em culpa 
flagrante, esmerava-se em mesuras. 

Amodorrava-se para ouvi-la, com a pachorra de um co astucioso que parasse 
de caminhar, atento s falcatruas do gato. 

Para Cludio, em tal circunstncia, valia estudar tudo, ouvir tudo. Afinal, aquilo 
era inevitvel. Mrcia chegara ao quarto de Marita num momento psicolgico. 
Imperioso esfumar-lhe qualquer dvida ocorrente,  custa de uma tolerncia que 
no mais praticava, desde muito. Para isso, estirava-se, ali, sossegado e 
complacente. 

Nos dois, porm, flutuava a desconfiana recproca. Duas bocas que se 
entendiam, duas cabeas que discordavam uma da outra. Cada frase vinha prfabricada 
na garganta, dissimulando o pensamento. 


Adocicando a voz, a esposa comentou os aborrecimentos no bufete do baile 
beneficente em que havia funcionado. Muita gente. Alguns jovens embriagados, 
forjando obstculos. Garotos furtando. Por tudo isso, estafara-se. 

Desconfiando que o marido, no obstante mostrar-se quase afetuoso, no se 
inclinaria a longa conversao, quis reter o momento raro, tornando-se mais terna. 

Afvel, estendeu-lhe prateada carteira. 

Cludio agradeceu. No queria fumar. Ela, no entanto, bateu, vrias vezes, a 
ponta do cigarro, de encontro a pequenina bolsa metlica, fez fogo num isqueiro 
diminuto, e, aps envolver-se em baforadas, relaxou-se na poltrona, sugerindo a 
inteno de exprimir-se mais  vontade. 

 Imagine voc  aduziu, cuidadosa , que embora o sarau esteja longe de 
terminar, larguei tudo. O leilo de prendas esperava por mim, qualldo senti um 
constrangimento esquisito. 
Tive medo. Passei minhas obrigaes para Dona Margarida e voltei. 
Atormentava-me, supondo houvesse algo atrapalhado em casa, alguma ligao 
eltrica esquecida, a presena de algum malfeitor. Vejo, porm, que voc talvez 
tenha tido o mesmo palpite e chegou antes, retificando o fogo... Felizmente, tudo 
passou... Mesmo assim, reconheo que o meu regresso foi providencial, pois, desde 
muitos dias, venho espreitando um momentinho em que voc esteja calmo e bemhumorado, 
como agora, para tratarmos, juntos, de assunto srio... Coisa que nos 
toca de perto, que no posso decidir sem voc... 

Neves e eu notamos, para logo, o regime de choques e contrachoques em que 
respiravam aquelas duas almas adversas, aprisionadas socialmente uma  outra, 
por exigncias da provao. 

Inferindo que a companheira se lhe aproveitaria da benevolncia eventual para 
cham-lo a questes de responsabilidade, Cludio despiu a mscara afetiva com 
que a brindara, de inicio, e, taciturno, colocou-se em guarda. Do sorriso, tornou ao 
sobrecenho. Fino sarcasmo tisnou-lhe os modos. Comandou a palavra, buscando, 
em vo, disfarar o azedume. Afirmou-se fadigado, alegou esgotamento adquirido 
em horrios de servio extra e rematou, pedindo  esposa resumisse, quanto 
possvel, o que tinha a dizer-lhe. Queria ler, pensar, refazer-se. 

A esposa fingiu no ver o olhar irnico que ele lhe endereava e comeou 
referindo-se ao cansao de que se sentia possuda. 

Possivelmente, ele prprio ignorasse; entretanto, submetera-se a vrios 
exames, por solicitao do ginecologista. Desde muito, atravessava as noites em 
claro, sofria palpitaes, sufocaes, sensao estranha de peso, calores no peito. 
O mdico acreditava em menopausa precoce e receitara. Ela, contudo, supunha-se 
depauperada, neurastnica. Exauria-se nos problemas domsticos. A arrumadeira 
despedira-se. E, desde que se fora, via-se obrigada a passar roupa, encerar, e, de 
certo modo, auxiliar no fogo para que Dona Justa no esmorecesse. O conserto da 
geladeira custara um dinheiro. As contas, no fim do ms, haviam aumentado. 
Marina trouxera duas gratificaes que recebera em servio extraordinrio, mas, 
ainda assim, estava onerada. Tinha necessidade de quinze mil cruzeiros. 

Nesse tpico da entrevista, o interlocutor fitou-a, sarcstico, e indagou: 

  s? 
A interrogao, carregada de zombaria, pairou no ar da mesma forma que uma 
chicotada cortante. 
Dona Mrcia emudeceu, ao impacto da desconsiderao inesperada. 
O marido no dispensara sequer a mnima ateno aos padecimentos orgnicos 


de que se queixara. Desconhecia-lhe, de propsito, os achaques. Enquanto 
relacionava os incmodos de que se via acometida, assustara-se ao divisar-lhe a 
dura expresso dos olhos frios. Conhecia aquela atitude gelada de profundo 
desdm. Ao passo que se lamentava, tinha a impresso de que ele, Cludio, lhe 
perguntava em pensamento: por que no acaba voc de morrer? Em outras 
ocasies, chegara a enunciar semelhante inquirio, com palavras redondas, claramente 
pronunciadas e repetidas. Por que tanto dio? indagava a si mesma. No 
contava receber uma ternura que os atritos incessantes haviam incinerado entre 
ambos; contudo, cria-se com direito a pequeno retalho de acatamento. Se ele 
adoecia, de leve, conquanto no o amasse, vigiava-lhe a cabeceira. Zurzia o clnico 
da famlia pelo telefone. Todas as providncias  hora. Entretanto, ao referir-lhe o 
tratamento que reputava importante, a fim de evitar uma cirurgia comprometedora, 
recebia dois monosslabos secos que o marido lhe pespegava no rosto, como se a 
repelisse com dois calhaus. 

Persistindo o silncio que se alongava, Cludio fez meno de retirar-se; 
contudo, a esposa frustrou-lhe o impulso, exclamando, agora irritadia: 

 No saia.  preciso que voc fique. Esta casa no  minha s. Acaso, no 
est vendo? 
Marina e Marita... Criam-se os filhos com desvelo, com carinho... Em crianas, 
so anjos; crescidos, so pesadelos. Tenho sofrido calada, mas agora... Isso no 
pode continuar sem que voc se mexa. Entre uma e outra, no  possvel a 
indiferena. Acolhi essa menina estranha em meus braos como se fosse minha 
prpria filha. Suportei afrontas, esqueci minha sade, meu tempo... No me poupei, 
fiz o que pude... Nada lhe faltou, entretanto, hoje... 

 Hoje, o qu?  revidou o esposo, admirado. 
 Pois voc no percebe a humilhao a que Marina se expe?  acentuou a 
companheira, em lgrimas sbitas, qual se estivesse habituada a chorar, quando 
quisesse.  Voc no enxerga as dificuldades de nossa filha? 
Cludio riu-se, como quem decidira zombetear. 

 Mrcia, deixe de cenas... Voc fala em Marina, como se a nossa desmiolada 
estivesse na forca. No entendo. Vejo-a feliz e desorientada, como nunca. Se me 
detiver em qualquer problema dela, ser para admoest-la, reprimi-la. No fosse 
voc com o desregramento de suas concesses e com os seus maus exemplos, 
haveria de corrigi-la, ainda que obrigado a intern-la no hospcio... 
 Que ouo, meu Deus?  gritou a senhora. 
Estancara-se-lhe o pranto, alarmada que se achava, ao verificar o rumo 
improviso do entendimento. 

 Voc ouve a pura verdade  prosseguiu Cludio, implacvel.  Ainda 
anteontem, impelido por dever da profisso a comparecer num coquetel, oferecido a 
um dos chefes, numa casa de regalias noturnas, fui constrangido a pretextar uma 
enxaqueca e afastar-me. Sabe por qu? 
Nossa filha, que voc pretende inculcar por santa, estava l, positivamente nos 
braos de um cavalheiro maduro e bem-posto, que no a beijava paternalmente. 
Senti tanta vergonha, que pedi a um colega me representasse, e sai,  pressa, 
antes que Marina me percebesse. 

 Oh! a pobrezinha! ...  objetou Dona Mrcia, faces em fgo, tremendamente 
revoltada. 
Naquele instante, os dois tiravam, mecanicamente, os ltimos disfarces. 
Postavam-se, em esprito, um  frente do outro, com rudeza indissimulvel. Dois 


inimigos soberanos, averso contra averso. 
E o dilogo azedo continuou: 

 Pobrezinha, por qu? 
A esposa mediu-o, de alto a baixo, com um olhar de zombaria, e passou a 
acus-lo: 

 No quero discutir agora a sua presena de homem velho e casado, numa 
casa de tolerncia, pois no acredito nessa histria de homenagens a chefes, em 
horas avanadas da noite. 
Voc foi sempre imoral, indigno, mentiroso, mas, por amor famlia, esqueo 
tudo isso, para que voc conhea toda a situao... 

Refletindo na convenincia de sensibiliz-lo para os efeitos a que se propunha, 
Dona Mrcia baixou calculadamente a escala de rispidez, abrandando a inflexo da 
voz que se tornara por demais agressiva. 

 Cludio, atenda  continuou quase melflua , Marina, obediente, nunca me 
ocultou a verdade. No proceda com malcia; desde a piora da esposa do senhor 
Nemsio, vem repartindo, caridosamente, o tempo, entre as obrigaes do emprego 
e o lar do chefe, onde a infeliz senhora vem morrendo, pouco a pouco... Impossvel 
que voc no lhe admire a abnegao, porque, de modo algum, precisaria 
interessar-se pela vida ntima da famlia Torres, a ponto de velar junto deles, por 
vrias noites consecutivas, por simples esprito de sacrifcio... No sei se voc 
chega a v-la, quando volta de manh, mostrando fundas olheiras e faces pisadas. 
Na mente inventiva do interlocutor, entretanto, operava-se complicada 
reviravolta. Assinalando as palavras injuriosas de Dona Mrcia, sentira mpetos de 
esbofete-la. A indignao ruborizara-o; todavia, conteve-se. No que desistisse de 
revidar chasqueando, mas permanecia convicto de que Marita escutava. Aspirava a 
conquist-la a qualquer preo. Mormente agora que se declarara, no estava 
inclinado a recuar. Prosseguiria. 

Dona Mrcia, enganada, aceitara a verso do pesadelo e acreditava que a moa 
dormisse, de vez que lhe recebera a presena no quarto sem dizer palavra. 

Ele, porm, sabia-se ouvido, examinado. No adotaria qualquer procedimento 
incompatvel com a galanteria que comeara a desenvolver. Se esbravejasse, 
agravaria a distncia. Deliberou agentar remoques e insultos, fossem quais 
fossem, estudando como orientar-se na conversa para tirar o melhor partido. 

Alm disso, o amigo desencarnado, ao lado dele, acalentava-lhe a rijeza de 
alma, insuflando-lhe idias. A fabulao de um complementaVa-Se no outro. 
Concluam, juntos, que se fazia mais razovel para eles examinar minudncias e 
falar com inteno. Manejariam Mrcia para alcanar Marita. A interlocutora serlhes-
ia instrumento. Us-la-iam por trampolim, rumo ao alvo. 

Todas essas consideraeS relampeavam no esprito de Cludio, enquanto a 
senhora se empenhava justificar-se, na defesa da filha. Dominado pelos novos 
pensamentos, no sorriu, mas suavizou a expresso, como quem se resigna aos 
ditames da pacincia. 

Algo desarmada por aquela impassibilidade que se lhe figurava benevolncia, 
Dona Mrcia continuou: 

 Acontece que o senhor Torres se encontra francamente desarvorado, diante 
da tragdia que a fortuna dele no pode conjurar. Dinheiro farto e corao abatido, 
negcios prosperando e morte  vista. Nossa menina compadeceu-se. Tanto amparou 
a doente que acabou descobrindo os sofrimentos do homem que se 
aproxima, conscientemente, da viuvez...  por isso que vem buscando revigor-lo, 

como pode... 

 Mas, assim como esto fazendo? Afogando-se em bebidas e prazeres 
noturnos, em que os dois se assemelham a duas crianas destemperadas? No os 
vi rezando pela tranqilidade da enferma... 
 Deixe de ironias. Voc, com toda a certeza, numa situao igual, no se 
consolaria com lgrimas, procuraria distraes. No h inconveniente algum em que 
o senhor Torres, numa hora dessas, se dirija para um ambiente alegre, a fim de 
ganhar foras, e no vejo maldade em que trate Marina por filha dele prprio, 
afagando-a por boneca mimada que sempre foi. Muito justo, muito claro. Dona 
Beatriz e o esposo conseguiram somente um filho, no tiveram, como ns, a ternura 
de uma filhinha no lar e nem adotaram alguma pequenina estranha a eles. Marina 
d conta a mim, que sou me, de tudo o que se passa. Voc sabe que ela  
profundamente sensvel e carinhosa. Tem muita pena do chefe e tenta reconfortlo... 
 Reconfort-lo?  gracejou Cludio, retomando a galhofa. 
 No adiantam sarcasmos  rogou Dona Mrcia, afetando desapontamento. 
 Nossa filha vem agindo corretamente. Tanto assim que a nossa conversa deve 
esclarecer grave assunto. 
E, alterando o tom de voz, que se fez mais persuasivo e mais doce: 

 Voc no ignora que Marita se enamorou, h meses, de Gilberto, o filho dos 
Torres. 
Vendo, de minha parte, os dois, em ligao constante, acreditei piamente que o 
jovem nutrisse por ela uma inclinao segura. 
Misturando reserva e malcia, passou a historiar-lhe as entrevistas, os passeios, 
os telefonemas, os bilhetes... Salientou que se afligira ao apanhlos, a ss, numa 
excurso domingueira, em plena floresta da Tijuca, dias atrs. Admitia que seria 
preciso examinar-lhes o caso. Aborrecera-se ao descobri-los, assim, positivamente 
isolados, sob as rvores. Mulher e me, inquietava-se ao pensar na filha adotiva... 

Cludio, nessa altura, marcava-lhe os avisos, de olhos em fogo e corao aos 
saltos. 

Ento Mrcia tambm sabia... Aquele jeito arisco da esposa nas confidncias 
no o enganava. 

Indubitavelmente, ela senhoreava mincias que preferia esconder. No chegava 
Paquet. A mataria, igualmente, fora teatro dos colquios e beijos que detestava. 
No esperava aquele noticirio mido na prpria casa. No supunha a mulher, 
assim, consciente da situao de que se conjeturava exclusivo conhecedor... 
Naquele minuto, olvidava a menina que se lhe desenvolvera nos braos, anulava-se 
na condio do pai, chamado a zelar-lhe o nome. Irrompia nele o animal ferido, o 
homem selvagem que lhe drmia habitualmente na polidez, espicaado pelo cime. 

Esfregando os dedos contra as palmas das mos, num gesto que lhe 
particularizava o desagrado, levantou-se, deu alguns passos pela sala e resmungou: 

 Ingratido! 
A esposa usufruia a cena com a volpia de quem alcanava os prprios fins, 
porqanto, desde o princpio da conversao, aspirava a estabelecer um clima 
favorvel  filha legtima, a detrimento da outra. Julgava que o marido, com 
semelhante exprobrao, resumia numa palavra o asco que provavelmente 
albergaria contra o procedimento da pupila que desejava arredar. Muito distante da 
realidade, no percebia que a indignao dele se arraigava no azedume do 
apaixonado que se v preterido e, por isso, ensaiava um sorriso triunfante... 


Ns, porm, conseguamos analisar-lhe as telas mentais e verificar quanto lhe 
doa o desprezo. 

Via-se, espiritualmente, ao p do jovem, medindo foras. Ah! se lhe fosse dado 
enxerg-lo, naquela hora, ao alcance das mos! Certo lhe despejaria todo o peso da 
clera na constituio de menino e moo, esfrangalhando-lhe os ossos... 

 Comove-me a sua reao contra Mana!... Registrando a frase retcenciosa da 
companheira, deu-se conta do papel desaconselhvel que comeava a assumir. 
Quase que se denunciara, de todo. Ultrapassara os limites da circunspeo que lhe 
cabia conservar no prprio interesse e deliberou recompor-se. Reconheceu que 
Mrcia lhe apreciava a repulsa, crendo v-lo unicamente no lugar de pai, 
machucado pelas circunstncias, e deixou que ela se acomodasse a essa 
interpretao, encastelando-se, mentalmente, na defensiva. Reprimiu o desespero 
que o possuia, sentando-se, de novo, a relaxar os nervos tensos. Apagou 
exteriormente todos os sinais de excitao, aparentou calma sbita. 
A senhora, que ambicionava amontoar vantagens para a filha, longe de 
imaginar-se iludida naquele jogo, em que marido e mulher se nos representavam 
dois parceiros astuciosos, nos golpes estudados um contra o outro, falou serena, 
presumindo controlar agora toda a situao: 

 Sua atitude respeitvel de pai me encoraja e me alegra. Graas a Deus, sinto 
em voc o chefe da casa e da famlia. 

Cludio ouvia, atento. 

 necessrio que voc saiba  prosseguiu ela  que Gilberto no quer coisa 
nenhuma com Marita, que vive a derreter-se sem razo, O rapaz  apaixonado por 
Marina e tudo indica possibilidades de um casamento vantajoso, que no podemos 
jogar fora. 

O interlocutor ardiloso deduziu que chegara para ele a oportunidade da 
vingana. Fingindo desconhecer a trama de sentimentos em que ambas as jovens 
se enredavam, comentou, em voz alta, os novos aspectos do problema, a fim de ser 
claramente escutado por Marita, que sabia de atalaia, no quarto prximo. Depois de 
encarecer a excelncia do carter da filha adotiva, destacando o apreo e a ternura 
com que se dedicaria a proteg-la, acentuou, jocoso: 

 Ah! o biltre!... ento, essa farsa de vaguear com Marita, arrastando-a por a, 
no  seno alcovitice e trampolinagem... O peralta est carambolando. E o bilhar 
dos namorados, bate-se numa bola para acertar em outra... 
E relacionou pobres moas, tradas na confiana, explicou que Marita era 
suscetvel de uma psicose de duras conseqncias. Se Gilberto estava propenso a 
desposar Marina, que se manifestasse. No oporia embargos, no entanto, exigia 
franqueza. 

Dona Mrcia, repentinamente lisonjeada, ao colher-lhe as disposies to 
favorveis, arrolou as confidncias da filha. 

O rapaz confessara-se. Admirava-lhe no s os encantos pessoais, mas 
gabava-lhe a educao fina. De comeo, apenas se cumprimentavam, de quando 
em quando. Ele, porm, tivera necessidade da cooperao de algum que o 
auxiliasse na traduo de alguns textos franceses. 

Marina expusera a competncia adquirida, O trabalho realizado erigia-se em 
caractersticos to primorosos que obtivera louvor na Embaixada. Desde essa 
empresa, trabalhavam quase que unidos. Marina revelara-lhe que o prprio senhor 
Nemsio, sempre solcito, passara a nome-la por nora. 

Cludio, acintosamente, dizia, de quando em quando: 


 Mrcia, no estou ouvindo bem, fale um pouco mais alto. 
A companheira, elevando sempre a modulao da voz, contou que os dois, 
embora a situao constrangedora da sade de Dona Beatriz, no momento, 
traduziam poesias deliciosas de autores ingleses, marginando-as de trechos 
sentimentais que lhes expressavam a ternura recproca, compondo lindo lbum cuja 
leitura lhe arrancara lgrimas de enternecimento. O amor entre ambos era claro 
como gua. Indispensvel apoiarem a filha, na concretizao de suas esperanas. 

Afirmava-se confortada em reconhecer, a tempo, que a cultura de Gilberto no 
se compadecia com as deficincias de Marita, para quem o moo no seria, por 
isso, um partido feliz. Asseverava, convicta, que competia a ele, Cludio, e a ela a 
orientao do assunto. Ponderou ainda que o auxlio dispensado por Marina a Dona 
Beatriz estreitara as relaes entre os jovens, e, supondo o esposo agastado  vista 
de contrariedades provveis para a filha adotiva, acrescentou, entre desabrida e 
chistosa, que Marita se arranjaria, na poca oportuna. Inclinaes de moas, 
problemas delas. 

O marido no acreditou em tpico nenhum do que ouvira. Pai, desiludira-se com 
a filha. As investidas noturnas pelos recantos bomios, as maneiras inconfessveis, 
no trato com o chefe de servio, no lhe deixavam dvidas. Ao revs, as noticias 
entusisticas de Mrcia acordavam-no para realidades mais agressivas. Inferia que 
Marina andava sem escrpulos entre o velho e o moo. De outro modo, na condio 
de esposo, no lograria embair-se. A companheira figurava-se-lhe a mulher desleal 
aos compromissos domsticos, mulher que ele mesmo plasmara com os seus 
exemplos de homem refratrio ao equilbrio emotivo. Impossvel queixar-se. Com a 
tarimba da sociedade menos digna, fizera-se Mrcia astuciosa, cruel. Dissimulava 
para ganhar. Certamente, no lhe confiava quanto sabia. Estaria informada de todas 
as ligaes escusas da filha com o senhor Torres, tanto quanto ele prprio. 
Capearia as inconvenincias, incentivaria, talvez, a leviandade com propsitos de 
lucro; entretanto, aquele era o momento de atrair a confiana de Marita e,  face 
dessa razo que se lhe alteava no nimo empedernido, calou a revolta e partilhou a 
farsa, afianando confiar na menina que amavam por filha. Tentaria distra-la, 
renov-la, e, de acordo com ela, Mrcia, procuraria inclu-la num roteiro de turismo a 
Buenos Aires, para o qual fora convidado por amigos, no banco. Marita esqueceria, 
esqueceria. 

O entendimento avanava, mas o servio nos convocou ao aposento prximo, 
onde a mgoa da jovem explodia, inarticulada, em vibraes de intensa dor. 


Captulo 10 

Estirada no leito, chorava Marita, desconsolada. As revelaes ouvidas naquele 
dilogo, a curta distncia, revolviam-lhe o corao, quais pinas de fogo. Sentia-se 
abandonada, desejava morrer. 

Ento  confirmava-se , todo aquele devotamento de Gilberto no passava 
da superfcie. 

Apropriara-se-lhe da alma, empolgara-lhe os sentimentos, para deix-la sem 
comiserao. 

Recordava-se de que, realmente, semanas antes, indagara-lhe ele que outros 
idiomas conhecia. 

Algo vexada, informara que somente conseguira o curso primrio. O moo 
retirara da algibeira uma composio de Shelley. Lera o ingls e traduzira para ela 
os vemos lindos. Em seguida, aconselhara-lhe estudos suplementares  noite. 
Poderia auxili-la, relacionava-se com professores distintos. Ela rira-se, queria o lar, 
a escola do lar com ele. Apenas ali, na decepo que a molestava, compreendia a 
extenso do arrufo com que se despedira. Ah! sim, aspirava ao casamento com 
moa culta. Ignorante!  dizia para si mesma  no passo de uma ignorante. 
Marina era diferente, dominava outras lnguas. 

Tudo j estava tramado, deliberado. 

 vista disso, a irm recusava-lhe intimidade nos dias ltimos. Por mais a 
rodeasse de mimos, mais se afastava. 

Agora reconhecia igualmente a causa de mostrar-se o rapaz enfastiado e 
irritadio. Entretanto  perguntava-se, triste , se ele a desprezava, assim, por que 
lhe abusara da confiana? Por que o arrebatamento com que lhe acorrentara a alma 
s inesquecveis impresses da menina que se faz repentinamente mulher? No 
selara com ela um ajuste de matrimnio? No lhe testemunhava extrema ternura 
nos encontros domingueiros, quando se entregavam a comunho mais ntima? 

Incapaz de duvidar da legitimidade do carinho que recebera, voltava-se 
mentalmente para a irm que lhe surrupiava as mnimas alegrias. A nova 
infelicidade  conjeturava  seria culpa dela. 

Com toda a certeza, Marina cobiara o rapaz, a envolv-lo na teia de artimanhas 
que entretecia como ningum. Gilberto cara-lhe no engodo. Ave no visco. Contudo, 
ao descobrir toda a trama, reconhecia-se irremediavelmente lesada. Debatia-se em 
pranto, sob o peso das consideraes familiares. Era imperioso certificar-se de que 
era enjeitada e ignorante. Nada sobraria para ela, tudo para a outra. Marina possua 
mritos, ela no. 

A exposio de Dona Mrcia, naquela hora, insuflara-lhe a tortura do ru que 
ouve sentena inapelvel. Ainda assim, chorava, inconformada. A contingncia de 
perder Gilberto induzia-lhe o sentimento a matar ou desaparecer. Rememorou as 
tragdias, lidas na imprensa, mas o fratricdio repugnava-lhe ao corao. A idia do 
suicdio, contudo, qual semente a se lhe ocultar no imo do ser, evocada pelo esboo 
ligeiro da alma, como que germinara, de sbito. Acariciou-a, de leve, e a sugesto 
infeliz ganhou corpo. Divagaes negativas tomaram-na de assalto. Renunciar a 
Gilberto e largar os planos feitos doeriam muito mais que morrer 

 pensava, desolada. Mas seria justo acovardar-se, assim tanto? Repeliu o 
estranho apelo e, conquanto as lgrimas, prometeu coragem a si prpria. Lutaria 
pela felicidade. Explicar-se-ia com o rapaz, baniriam, juntos, a ameaa pendente. 
Entretanto, se Gilberto no lhe aceitasse os argumentos, que fazer do destino, se, 

com o golpe sofrido  frente, percebia tambm o fantasma da esquisita inclinao 
do pai adotivo pela retaguarda? 

Por que a pea que a vida lhe pregava? Devia esquivar-se ao afeto do jovem 
que amava, numa consagrao natural, para ganhar a paixo do homem maduro 
que se habituara a respeitar como pai e que lhe acenava com uma espcie de unio 
para ela inaceitvel? Estarrecia-se ao ouvi-lo naquela hora. Identificava-lhe o tom de 
alegria triunfante, ao dar-se conta da felicidade com que se desembaraaria de 
Gilberto, no campo em que se prometia apres-la. 

Cludio como que lhe falava de longe, ao dirigir-se  esposa. Aquelas 
referncias louvaminheiras com que a obsequiava, perante Dona Mrcia, 
confirmavam-lhe a deciso de dobr-la, demov-la. Entre o asco e a piedade, 
rememorava-lhe as carcias, que somente naquela noite conseguira compreender. 

Como desvencilhar-se? 

Flor sacudida no vento da provao, perguntava por qu, por qu?... 

Sopesando as ocorrncias, pela primeira vez sentia medo daquele ninho familiar 
a que se reconhecia encadeada por filha do corao. 

De repente, elevou o pensamento  memria materna... Ah! nunca imaginara 
que um corao feminino pudesse encontrar dilemas to aflitivos, quanto aqueles a 
que se via largada, de instante para outro! Que no teria sofrido sua prpria me, 
que a deixara no instante do alvorecer? Nunca soubera, ao certo, as circunstncias 
que lhe haviam rodeado o nascimento. Conclua agora, porm, que talvez a genitora 
tivesse conhecido o clice que ela agora amargava! Que noites de agonia moral 
atravessara, sozinha, ao acarici-la no ventre! Que injrias padecera, que privaes 
experimentara? Ela, que tudo desconhecia acerca do pai, refletia no martrio da 
genitora, jovem e abandonada, quando, provavelmente, lhe aguardava, em vo, o 
carinho e a proteo, noite a noite. 

Dona Mrcia, ao biografar-lhe a mezinha, dissera moa brincalhona. Teria 
sido mesmo? 

Possivelmente, gargalharia para no soluar, ansiando abafar em rudos de 
festa os gritos da prpria alma... Quem sabe ter-se-ia dedicado a algum homem 
proibido, empenhado o corao a algum moo que lhe fora roubado  ternura de 
menina e mulher? 

Nas lgrimas que lhe corriam, suspirava pr fazer-se criana... Por que no 
vivera a mezinha, a fim de lutarem juntas? Consagrar-se-iam uma  outra. 
Permutariam as prprias mgoas... 

Muita vez, na loja a que servia, escutava apontamentos sobre comunicaes de 
mortos, inteirava-se de experincias sobre a continuao da vida no Alm... Seria 
aquilo verdade?  indagava-se. Se Araclia, libertada, estivesse em alguma parte, 
indiscutivelmente lhe acompanharia o calvrio, compartilhar-lhe-ia o infortunio... 

Mecanicamente, implorava ao Esprito materno a abenoasse, fortificasse, 
protegesse... 

Conquanto sem qualquer idia religiosa definida, formulava prece muda, que 
valia por funda invocao... 

Intentvamos consol-la, buscando asserenar-lhe a mente, quando duas 
senhoras desencarnadas penetraram no quarto, de improviso. 

Saudaram-nos, afetuosamente, revelando a condio de entidades familiares, 
vinculadas quele refgio domstico. 

Das recm-chegadas, a que nos pareceu menos experiente adiantou-se para a 
menina em orao. Controlava-se, dificilmente. Tremia, ao enxugar o pranto 


silencioso. Inclinou-se para o leito, como qualquer me desventurada e aflita da 
Terra, quando teme acordar um ser querido... 

Embora sem elucidaes prvias, no nos era licito alimentar qualquer dvida. 
Aquela, era a jovem do retrato que Marita conservava, em imagem, nas telas do 
pensamento. Araclia, amparada pela doce afeio de venervel amiga, ali estava, 
diante de ns! Me amorosa, vinha talvez de muito longe para acudir s angstias 
da filha... Enternecendo-nos, a pobre me ajoelhou-se para beijar-lhe os cabelos... 
E, oh! segredos insondveis da Providncia Divina!... Quem conseguir definir com 
palavras humanas a essncia do amor que Deus situou nas entranhas maternas?... 
A dama inclinou-se, muito de manso, e abraou-a, com ternura,  maneira de planta 
que se fechasse sobre a nica flor que lhe nascera... 

A castigada menina acalmou-se, de sbito. Adivinhando a visita pela qual 
suspirava, alijou a tenso, percebendo-se mentalmente ocupada pela presena da 
genitora, cujos traos tentava, afetuosa, lembrar e reconstituir. 

Outro quadro, entretanto, superps-se, comovedor. 

Araclia, que orava e chorava em profundo silncio, buscava em pensamento 
outra mulher, cuja evocao lhe renovava as energias. 

A me desencarnada via-se pequenina, junto da lavadeira singela que a 
trouxera, na reencarnao ltima, para o teatro da vida humana. Identificava-se 
criana, agarrada  saia daquela moa doente, que mergulhava as pernas no rio 
para ganhar o po... To fundo atingia a acstica da memria, que chegava a 
escutar o rudo daquelas mos midas, esfregando as peas ensaboadas... 
Recolhia-lhe, de novo, o olhar meigo, em que lhe pedia paciencia... Calada, na 
areja, por vezes esperava, esperava, depois que a mezinha lhe repunha o corpo 
frgil,  curta distncia, a fim de atender ao servio... E rememorava o enlevo e o 
jbilo que sentia, quando os braos maternos a retomavam, para faz-la dormir, ao 
som do velho estribilho, a que se acostumara no lar de telha v.... 

De olhos parados, como se buscasse, alm, no espao infinito, o colo 
agasalhante que o tempo arrebatara, assumiu nova posio, colocando a cabea da 
jovem no prprio regao e, emocionando-se at s lgrimas, qual se tivesse nos 
lbios aqueles lbios de me, humilde e enferma, que jamais esqueceria, Araclia, 
em pranto resignado, cantou suavemente diante de ns: 

Lindo anjo de meus passos, 

Descansa, meu doce bem; 

Dorme, dorme nos meus braos, 

Enquanto a noite no vem. 

Dorme, filhinha querida; 

No chores, encanto meu; 

Dorme, dorme, minha vida, 

Tesouro que Deus me deu... 

Qual se fora repentinamente magnetizada, Marita caiu em pesado sono. 

Isso feito, a senhora, que tutelava a companheira, atraiu-a brandamente de 
encontro ao peito, no manifesto propsito de consol-la e, segurando-a, falou-nos, 
triste: 

 Irmos, nossa Araclia ainda no est em condies de amparar a filha. 
E, ajuntou, entre gentil e desapontada: 
 Perdoem-nos a interferncia. Ns, as mes, em certas dificuldades, nada 

mais temos que alguma velha cano para dar aos nossos filhos!... 

Em seguida, retirou-se, sustendo Araclia, que se lhe refugiara nos braos, 
soluando... 

Ainda no nos refizramos da emoo, quando vimos Marita, em esprito, 
afastar-se do corpo denso, guardando a inquietao da criana que anseia 
inutilmente pelo calor materno... Qual ocorre, porm,  maioria das criaturas 
encarnadas, no plano fsico, mostrava lucidez oscilante, insegura... Cambaleou no 
quarto e, percebendo eu que Neves se dispunha a amim-la, sustive-lhe o impulso, 
fazendo-lhe sentir que a nossa interveno direta poderia frustrar-lhe os desejos e 
que, a fim de prestar-lhe auxlio eficiente, era mister deix-la  vontade, sob 
vigilncia discreta, de modo a examinar-lhe as necessidades mais ntimas. 

Sucedeu, quase que de imediato, o que no prevzamos. 

Esfumaram-se os arroubos da filha saudosa, esmaeceram-se atitudes infantis, a 
menina de Araclia desaparecera e ressurgiu nela a personalidade feminina, 
estuante e clara. 

A moa no nos via. Guardava a mente nebulosa que caracteriza os pequeninos 
ainda tenros, incapazes de particularizar as impresses, quando se transferem de 
lugar; entretanto, qual lhes acontece, quando ao reterem idias fixas, quais sejam o 
brinquedo ou a guloseima, concentraramse-lhe todos os pensamentos num ponto 
s: Gilberto. 

Queria ver Gilberto, ouvir Gilberto. 

Semelhantes impulsos a se lhe conglomerarem na cabea, repetidamente 
emitidos, galvanizavam-lhe a vontade, revestindo-lhe o pensamento de uma certa 
clareza, que a favorecia, porm, to-s na direo dos seus anseios de mulher. 
Essa penetrao parcial como que lhe conferia agora seguro apoio ntimo, e Marita, 
figurando-se-nos senhora de si, conquanto absolutamente presa ao desejo ardente 
em que se obstinava, largou o aposento e, descendo os largos trechos da escadaria 
que contornava o elevador, deixou para trs o enorme edifcio, qual sonmbula, 
magnetizada pelos prprios reflexos. 

Seguimo-la, atentos, no obstante confiando-a  prpria discrio. 

Cabia-nos estudar-lhe os mpetos extrovertidos, consultar-lhe as inclinaes. 
No tivemos, todavia, qualquer dificuldade para adivinhar-lhe o rumo. 

Em tempo reduzido, a filha adotiva de Cludio alcanou a residncia de 
Nemsio, que j se nos fizera conhecida. 

Na certeza instintiva de quem se enderea a determinada pessoa, pelos 
recursos do olfato, sem atender a quaisquer convenes de forma e nmero, 
avanou casa a dentro, acalentando a imagem de Gilberto, que lhe substancializava 

o pensamento dominante. 
Impulsionada pelas percepes indefinveis da alma, demandou amplo 
dormitrio, localizado nos fundos da moradia, e, sem que nos fosse possvel avaliar, 
de pronto, a resoluo de garantir-lhe a liberdade, a fim de analisar-lhe as reaes, 
sobre-veio o choque doloroso. 

Naturalmente sobressaltados, apenas conseguimos ampar-la pela retaguarda. 
Entrando no quarto, Marita surpreendeu Gilberto nos braos da irm, e bradou, 
estarrecida: 

 Canalha! Canalha!... 
Aquelas imprecaes, entretanto, nem de longe atingiram o jovem par, 
completamente absorto na permuta de gratificaes afetivas. 


Neves e eu no trocamos palavra. Precipitamo-nos, automaticamente, para a 
menina atribulada, intentando anular-lhe a agitao convulsiva. 

Mais alguns minutos e despertou no corpo denso, obrigando-nos a pensar numa 
pequena fera aguilhoada, retornando  gaiola. Descerrando as plpebras, 
vagarosamente, denotava no olhar a feio dos loucos, quando relaxam os 
msculos em seguida a perigoso acesso de fria -Tateou, espantada, a fronte 
suarenta. Fez luz, com fome de realidade fsica. Atarantada, sentou-se para fixar as 
paredes, com mais segurana, e certificar-se de que se achava no leito e no lar. 

A pouco e pouco, readquiriu a confiana, acalmou-se, refazendo energias; no 
entanto, acusava uma espcie de tranqilidade constrangida e amarga. 

Pesadelo?  indagava-se, aterrada  ou quem sabe os padecimentos 
simultneos lhe acarretavam crises de loucura? 

Doa-lhe a cabea, sentia-se desajustada, febril. Marita regressara ao agasalho 
fsico, sob pressa demasiada, sem que nos fosse possvel adotar qualquer 
providncia para anestesiar-lhe a memria. 

Retinha no pensamento particularidades do quadro visto e ouvido, e 
encarcerada, de novo, entre as impresses superficiais dos sentidos corpreos e a 
noo da verdade profunda, que no lograva apalpar, entrou em pranto agoniado, 
para somente dormir, com relativa calma, aos clares do dia. 


Captulo 11 

Colaborando ns na assistncia a Dona Beatriz, que enlanguescia sempre, 
tornamos a ver Marita, no encerramento da tarefa diria. 

Chegara novembro com chuvas torrenciais. 

Naquele dia, depois de algumas horas marcadas de cancula intensa, nuvens 
gigantescas ocultaram os picos, abreviando o crepsculo, que se adensava, 
abastecido de gua e nvoa. 

Copacabana molhada, nas horas de movimentao culminante, acentuara a 
algazarra. Todo o povo que transitava nas ruas parecia disputar a melhor num 
concurso de pressa. Maratona improvisada. Veculos despejavam filas enormes de 
pessoas, evidentemente sequiosas de tranqilidade domstica, que vinham do norte 
e do centro, carros fonfonavam no espelho irrigado do asfalto, pedindo vez. 
Transeuntes encapuzados acotovelavam-se, esperando as condues que vinham 
do extremo sul. 

A filha adotiva de Cludio alcanou o vasto edifcio, arrostando o aguaceiro. 

De Copacabana ao Flamengo, o trajeto de nibus, to logo iniciado, fora rpido, 
e do coletivo at a casa o trecho de caminho constara simplesmente de alguns 
passos; contudo, mesmo assim, despiu a capa, diante do elevador, como quem deixava 
a piscina. 

Tudo frio e sombra, em torno; entretanto, mais dolorida que a tarde caliginosa, 
surgia-lhe a alma atormentada, atravs dos olhos pisados de cansao e viglia. 

De subida, a vizinha solicitou-lhe a ateno para os adornos leves que 
carregava numa cesta de arame. A jovem, chamada a si, examinou ligeiramente os 
papis pintados para festiva noite de aniversrio, em apartamento prximo, pronunciou 
automaticamente breves palavras de admirao e ensimesmou-se, abafada, 
para somente aliviar-se, de algum modo, ao reconhecer-se no recanto familiar. 

Ningum a esperava. 

Sozinha, estirou-se no leito, procurando recapitular os acontecimentos da 
vspera, mas o estmago reclamava alimento. Recordou que varara o dia em 
absoluto jejum. Levantou-se. 

Consultou os recursos da copa; entretanto, os pratos que haviam sobejado no 
lhe acordaram o apetite. No obstante a temperatura baixa a se lhe refletir nas 
mos lgidas, sentia excitao, calor. Fatigara-se de pensar, trazia os nervos 
tensos. Desejou mate frio. Abriu a geladeira e serviu-se. Parou os olhos 
pestanejantes no telefone a distncia curta. No se conteve. Discou. Da residncia 
dos Torres, porm, uma voz imprecisa informou que Gilberto sara, no estava. Ela 
esmoreceu ainda mais ... 

Arrastou-se, tornando ao quarto, e descerrou a janela. Queria desafogar-se no 
ar fresco. 

Debruou-se no parapeito, contemplando a cidade, l em baixo -Sob a chuva, 
os automveis figuravam-se animais fugitivos. 

A moa refletia, refletia... Mirando o casario iluminado, deduziu que milhares de 
pessoas a se aglomeravam, suportando talvez problemas piores ou semelhantes 
aos dela, inquirindo, em vo, de si mesma, o porqu de encontrar-se to 
entranhadamente agrilhoada a Gilberto, quando centenas de rapazes respiravam, 
no longe, com excelentes predicados para lhe interessarem o corao. 

Sentia-se desalentada, insatisfeita. Aspirava a entreter-se, fugir de si mesma. 

Inutilmente fez meno de envergar um casaco e descer  rua, a fim de se 


distrair, apesar do mau tempo. Entretanto, no era apenas a chuva copiosa que 
lhe frustrava os impulsos. O esprito almejava deslocar-se, o corpo no. Exacerbao 
e fadiga. Tentou engolfar-se na leitura, reacomodando-se no leito, depois de 
apanhar uma novela, em que o marcador lhe indicava o lance interrompido, mas 
lembrou-se de Cludio. O pai adotivo raramente atrasava e, desde a vspera, no 
conseguia record-lo sem temor. Reergueu-se e preparou-se para o descanso. 
Precavida, apagou todas as luzes. Quando chegasse, decerto acredita-la-ia 
distante. 

Trancada agora na sombra, atirou-se  cama, com o abandono de quem larga 
um fardo importuno, e passou a meditar... Realinhavou na memria todas as 
esperanas e sonhos, provas e inibies da existncia curta, deitando lgrimas no 
linho do travesseiro. 

Da a instantes, escutou os passos do chefe da casa, que se movia de uma pea 
para outra. 

Pela sutileza do andar, percebeu quando Cludio veio, muito de leve, espreitar-
lhe o aposento. 

Experimentou a maaneta, mas no insistiu. Ela e Marina guardavam o hbito 
da vedao, ao se ausentarem  noite. Ouviu o barulho inconfundvel da garrafa em 
atividade e, logo aps, assinalou-lhe o regresso  rua, ao mesmo tempo que lhe 
notava o nervosismo pela maneira violenta de cerrar a porta, ao sair. 

Aliviada, fez-se menos inquieta. 

Marita achava-se realmente s, de vez que at mesmo os dois vampirizadores 
do apartamento, ao que presumamos, andavam fora, ajustados ao companheiro. 

Horas passaram, lentas, difceis... 

Onze em ponto, quando Neves e eu nos dispusemos ao socorro magntico. 
Oramos, exorando a bno do Cristo e o concurso do irmo Flix, a beneficio da 
moa exausta. 

Mobilizamos as possibilidades de nosso mbito estreito. 

Ela, a princpio, reagiu negativamente, empenhando-se na vigilia, mas cedeu, 
enfim. 

Operamos, cautelosos, reduzindo-lhe a capacidade de movimentao, 
obrigados que nos vamos a prever-lhe o intento de reunir-se a Gilberto, qual 
sucedera na vspera. 

Efetivamente, desligada do corpo, expressou completo alheamento, sem 
manifestar o mnimo interesse pelo ambiente. 

Absorvida na paixo que lhe empalmava todas as foras, monologava, ideando 
alto: 

 Gilberto! Onde est Gilberto? 
Tentou equilibrar-se; entretanto, rodopiou, vacilante. 
 Algum que me ampare!  mendigou, aflita  preciso encontr-lo, encontrlo!... 


Apoiamo-la, prestos. 

Inicivamos a sada quando se abeirou de ns simptica senhora 

desencarnada, declarando-se mensageira do irmo Flix, que nos esperava num 
posto socorrista. 
Prestimosa, abraou a paciente com o jeito caracterstico da mulher e pusemonos 
mais facilmente a caminho. 
Demandaramos bairro prximo, onde respeitvel instituio esprita-crist nos 
ofereceria aconchego  instruiu a recm-chegada, que se nos apresentara sob o 


nome de irm Perclia. 

Notei que Neves e ela permutaram delicadezas mudas, revelando conhecimento 
anterior. 

Perclia, contudo, no se demorou em qualquer considerao individual. Mais 
entregue ao trabalho que a si mesma, conversou com a frgil menina, encorajando-

a. Esforava-se por descentralizar-lhe a ateno, apontando quadros e ocorrncias 
do trajeto, sem resultado. A moa no apresentava outros pensamentos, palavras e 
objetivos que no fossem Gilberto. Fascinao, enredando todos os reflexos. A 
cada apontamento afetuoso, revidava perguntando em que lugar e a que instante 
seria finalmente conduzida  presena dele, ao que a benfeitora respondia, com 
admirvel senso materno, sem a menor expresso de chiste ou desagrado, qual se 
palestrasse com uma filha doente, procurando reajust-la dentro de amorosa 
solicitude, comportamento esse com que nos impelia  imitao. Nem Neves e nem 
eu nos sentamos, dessa forma, inclinados a considerar, de maneira negativa, 
nenhuma daquelas frases francas de menina e moa, que lhe denotavam os 
estmulos sexuais, limpos e inocentes, convertendo-a, naquela hora, em criana 
extrovertida. 
Alcanando o recinto de atividades espirituais que se nos erguia por meta, 
fomos acolhidos pelo irmo Flix, em pessoa, acompanhado de mais dois amigos. 

O instrutor inteirou-nos de que nos recebera o comunicado, acentuando, 
modesto, que, dispondo de algum tempo, deliberara vir, ele prprio, examinar o que 
sucedia. 

Marita contemplou-o exttica, indiferente, figurando-se aparvalhada, 
absolutamente inepta e distante para avaliar a importncia do sbio que a brindava 
com paternais gentilezas. 

Mentalmente encravada nas recordaes do jovem Torres, as indagaeS que 
propunha dariam decerto para escandalizar, no estivssemos preparados a fim de 
auscultar-lhe os conflitos. 

Amparada por Flix que nos dirigia, tolerante, entrou no edifcio, inquirindo se 
havia chegado, por fim, ao clube onde comumente surpreendia Gilberto; 
encaminhada ao compartimento espaoso, em que recolheria o necessrio socorro 
magntico, quis saber o motivo pelo qual se imprimira tanta mudana ao salo de 
baile; mirando, distanciada, pequena equipe de servidores desencarnados, que 
desenvolvia tarefa assistencial, em ngulo oposto, alegou que a orquestra no devia 
adotar silncio contnuo, e, escutando as buzinas que guinchavam, na rua, procurou 
descobrir se Gilberto vinha chegando para danar. 

De raciocnio obliterado, qual se achava, lobrigava por fora as criaes mentais 
que arquitetava por dentro, sem ligeira noo da realidade exterior. 

Flix, no entanto, ouvia-lhe todas as manifestaes inconsideradas, com a 
ternura de um pai. Grave sem aspereza, compreensivo sem atitudes aucaradas 
que lhe comprometessem a autoridade de educador. Replicava sempre entre a 
bondade e a circunspeo devidas a um enfermo, abstendo-se de melindrar-lhe os 
sentimentos ou de encorajar-lhe as iluses. 

Instalando-a em ampla cadeira, f-la descansar na hipnose tranqila. 
Calou-se Marita, ilhada nas memorizaes em que se comprazia, ao passo que 


o instrutor lhe ministrava passes balsmicos. 
A operao magntica foi longa, minuciosa. 
Em seguida, Flix rogou-lhe falar, expondo o que mais anelasse de ns, ao que 
a moa gaguejou acanhada, suplicando a presena de Gilberto e asseverando que 


alimentava dvidas sobre se aquele era realmente o grmio em que se 
entrevistavam... Pediu socorro, proteo... Inclinou-se para Perclia, no impulso da 
criana, quando tem fome do colo materno, e chorou, de manso, como a implorar 
que no a detivssemos. 

O irmo Flix, compassivo, informou-nos, sem que a paciente lhe penetrasse o 
fundo das elucidaes, que, infelizmente, a interveno efetuada em favor dela no 
poderia ultrapassar a superfcie, prevalecendo to-s para a sustentao do repouso 
fsico; que a paixo juvenil se convertera em psicose grave; que a pobre menina 
se deixara arrastar pelo desvario afetivo, a ponto de cair no pior tipo de possesso, 
aquele no qual a vtima adere, gostosamente, ao desequilbrio em que se consome. 

E acentuou que lhe consultara o organismo, no sentido de se lhe atalhar a 
alienao mental comeante, com o socorro de alguma enfermidade sria que, ao 
arroj-la no leito, lhe modificaria a mente, predispondo-a a diferentes impresses; 
entretanto, o corpo da jovem no se mostrava habilitado a receber esse gnero de 
amparo. Marita, sumamente desorientada e enfraquecida, desencarnaria no 
desajuste orgnico mais pronunciado que viesse a sofrer, em carter providencial. 

No surgia outra alternativa, seno a de esperar pela resistncia moral dela 
prpria. 

Convidados a escolt-la at a casa, Neves, Perclia e eu colocamo-nos, de volta. 

Marita no revelava aspecto algum para melhor, quanto  condio mental, mas 

o auxlio magntico surtira efeito imediato e salutar, porqanto, reajustada ao corpo 
denso, passou a repousar sem agitao, pelo que deixamo-la a dormir profundamente. 
Despedimo-nos de Perclia, ante o cu estrelado, e, de novo a ss, talvez 
porque me sentisse a indagao inarticulada, Neves confidenciou: 

 Andr, voc conhece essa senhora? 
E, ao meu sinal negativo: 
 Essa  a mesma que eu vi no cabar, quando agredi meu genro, num gesto 
impensado; a desconhecida que me apoiou, no regresso ao aposento de Beatriz, 
apenas com a diferena de que hoje no traz consigo o distintivo luminoso... Mas, 
no tenho dvida alguma.  a mesma pessoa... 

Captulo 12 

Neves e eu permutvamos conjeturas, quando algum nos abraou, de afetuosa 
maneira. 

Era o irmo Flix, a despedir-se. 

Esprito admirvel pela abnegao e pela cincia, reverenciado por todos os 
seareiros do bem, onde passasse, em se referindo aos protagonistas do drama 
familiar que se nos oferecia  ateno, apresentava os olhos marejados de pranto. 

Via-se-lhe, no somente a piedade fraterna, mas tambm o imenso amor 
quelas quatro almas, reunidas ali, naquele aprazvel recanto do Rio. 

Parados, agora, respirando as aragens que encrespavam docemente as guas 
da Guanabara, enquanto o cu da madrugada imprimia mais amplo realce s 
estrelas, enternecia-nos reconhecer-lhe o paternal carinho, qual se fora um homem 
comum descansando conosco,  frente do mar. 

To grande e to puro o devotamento de que dava mostras, ao descerrar-nos 
os tesouros do corao, atravs das palavras, que o prprio Neves, irrequieto s 
vezes, ao escutar-lhe as apreciaes, cumpria espontaneamente o que prometera. 
Nenhuma observao impulsiva, nenhuma interjeio impensada. 

A atitude do instrutor, ao deter-se nas lutas escabrosas do plano fsico, educava 
cativando. 

Elevao em cada frase, luz do sentimento em cada idia. 

Conquistava, sem pedir, o nosso interesse na prestao de assistncia 
voluntria ao lar de Cludio, cuja estabilidade periclitava, na conceituao dele 
mesmo. 

Compadecia-se  elucidava, prestimoso  daquelas quatro criaturas, atiradas 
ao oceano da experincia terrestre, sem a bssola da f. A princpio, esforara-se 
por abrir-lhes um caminho espiritual, mas debalde. Afundavam-se em profunda 
nvoa de iluso, hipnotizados pelas gratificaes transitrias dos sentidos carnais, 
ao jeito de passarinhos agarrados  casca apodrecida de um fruto, sem a mnima 
disposio de consultar a saborosa riqueza da polpa. 

Descobrindo algo mais  prpria intimidade, relatou-nos que vira Cludio 
renascer, que acompanhara Dona Mrcia no bero, que seguira, de perto, a 
reencarnao de Marina e Marita, deixando ver nas reticncias as lgrimas que 
semelhantes realizaes lhe haviam custado, sem alardear virtude ou superioridade, 
em torno dos empeos vencidos. 

Hipotecara dedicao, amizade, confiana e tempo, a fim de entros-los em 
alguma obra de benemerncia, de maneira a cultivar-lhes a espiritualidade latente; 
no entanto, Cludio e Mrcia, de novo no estgio fsico, sob o esquecimento inevitvel 
e providencial do pretrito, haviam recapitulado certas experincias infelizes. 

No mundo espiritual, antes de recomearem o trabalho terrestre, analisando as 
necessidades e os remorsos que lhes atenazavam as conscincias, haviam 
prometido empregar o prmio da internao no veculo carnal, edificando a 
sublimao ntima e corrigindo excessos de outras pocas, atravs do suor no 
servio ao prximo; contudo, imperfeitamente chegados  juventude das foras 
corpreas, tinham abraado paixes que lhes frustravam todas as possibilidades de 
libertao prxima. Ele, Flix, e outros companheiros empenhavam-se em auxililos, 
mas infrutiferamente. Os quatro resistiam a toda espcie de sugesto 
reparadora; repeliam, de pronto, qualquer projeto construtivo. 

Nobres amigos de outras eras, aplicados a estender-lhes apoios preciosos, 


acabaram desiludidos, largando-os ao prprio arbtrio. 

Cludio e Mrcia, principalmente, ao elegerem o dinheiro e o sexo 
desgovernados por chaves dos prprios dias, nada mais estavam conseguindo que 
desajustar os fundamentos da tranqilidade domstica. Em razo disso, Marina e 
Marita no obtinham alicerces para a felicidade real. Jovens ainda, complicavam-se 
as duas em perigos e tentaes, de que muito dificilmente se desvencilhariam, sem 
dolorosas marcas na alma. 

Tamanha se evidenciara a rebeldia de Cludio que, naquela hora significativa e 
ameaadora da existncia, no contava, alm da Providncia Divina, seno com 
raros amigos. Ainda assim, esses amigos  acrescentava modesto, certamente 
ponderando quanto s dificuldades dele mesmo  no se viam com direito a 
solicitar socorros especiais e, absorvidos por responsabilidades numerosas, achavam-
se na contingncia de apenas dispensar-lhe auxilios espordicos, incertos. 

Compreendemos onde o benfeitor categorizado e humilde se propunha chegar e 
adiantamo-nos, prometendo nossa adeso decidida ao programa assistencial que 
ele delineasse. 

Dispnhamos de oportunidade, no nos seria difcil. 

Alm do tempo que me era licito despender, atento  concesso dos meus 
superiores para colaborar em apoio de Neves, possua um requerimento em 
trnsito, junto das autoridades competentes, para que me fosse concedido um 
estgio de dois anos, em alguma das organizaes destinadas, em Nosso Lar (4), 
aos servios de psicologia sexual, com finalidades reeducativas, e ciente de que ele, 

(4) Cidade consagrada  educao e ao reajustamento da alma, no Plano 
Espiritual.  (Nota do Autor espiritual) 
irmo Flix, responsabilizava-Se pela direo de um dos melhores institutos desse 
gnero, pedia-lhe, por minha vez, me endossasse a petio. 

Sentir-me-ia feliz com o ensejo de estudar e trabalhar, assimilando-lhe a 
experincia e recebendo-lhe o patrocnio. 

O instrutor reafirmou a sua simplicidade, declarando que a obra pela qual 
respondia talvez no pudesse satisfazer-nos a expectativa, mas obrigava-se  
acentuava Flix, sem alarde  a favorecer-nos os estudos que intentaramos. 

Notando-me o entusiasmo, Neves no vacilou compartilhar-me os propsitos. 

Faria requisio idntica. 

Nosso interlocutor, comovido, esclareceu que isso vinha reconfort-lo, 
sobremaneira, porque, atendendo a ditames de afetividade e reconhecimento, 
alcanara permisso para recolher Beatriz, em sua prpria residncia, to logo a 
esposa de Nemsio pudesse retirar-se da esfera fsica, depois da desencarnao. 

Hosped-la, junto de Neves, o genitor que a filha jamais apartara da lembrana, 
ser-lhe-ia contentamento enorme. 

Ambos desfrutariam abenoada convivncia, regozijar-se-iam unidos, 
recordando o passado e articulando novos planos de trabalho e alegria. 

Enquanto o devotado corao paterno se desmanchava em agradecimentos, 
Flix se despediu, afetuoso. 

Demandando algum refazimento, esbovamos projetos, ideando medidas de 
ao. 

Manifestava-se Neves tocado de energias e esperanas novas. Aguardaria a 
filha, sim, confiante no futuro. Almejava o reequilbrio total, ansiava reeducar-se, a 


fim de lhe ser mais til. 

Empregaria todos os recursos, de modo a ampar-la, fortalec-la. 

Eufricos, deliberamos concentrar, a partir do dia que se anunciava, todas as 
nossas atividades de vigilncia ao lado de Dona Beatriz, prestes a se desobrigar 
das clulas doentes, e, certificando-nos de que a moradia dos Nogueiras reclamava 
planto, urgia revezar-nos em servio. 

O amigo, contudo, ponderou com razo que a filha se abeirava do transe final, 
que receava no dispor da serenidade precisa, caso fosse defrontado, sozinho, por 
obstculos constrangedores. 

Era humano, adorava aquela filha padecente. Queria afag-la, alent-la, 
conquanto no se presumisse com merecimento bastante para estender-lhe apoio e 
consolao. 

No seria recomendvel se mantivesse, em carater permanente, no lar dos 
Torres, ao passo que me reservaria o compromisso de cooperar na pacificao dos 
Nogueiras. 

Isso apenas por alguns dias, enquanto a liberao de Beatriz estivesse 
pendente. 

Tanto quanto possvel, por outro lado, poderia, de minha parte, tornar para junto 
dele, partilhando-lhe o clima da filhinha agonizante, onde nos acomodaramos aos 
imperativos de nossa edificao moral, estudando e servindo, para mais amplo rendimento 
das horas. 

Aquiesci, contente, quelas ntulas sensatas. 

Foi assim que, refeito, regressei, manh alta, ao apartamento de Cludio, no 
intuito de investigar, a ss, a paisagem que me pautaria o quadro fundamental de 
aplicao ao dever assumido. Cabia-me conhecer as minudncias, suscetveis de 
adquirir maior importncia, de momento para outro, esquadrinhar pontos de apoio, 
tomar contactos, e, se possvel, ouvir pessoalmente os dois irmos desencarnados, 
que ali desempenhavam lamentvel papel. 

Entrei. Apenas Dona Mrcia, conversando com a senhora que se incumbia das 
mais pesadas obrigaes no recinto domstico, a comentarem os tpicos 
engraados de certo programa de televiso, que a famlia acabava de instalar, com 
esprito de novidade e alegria. 

Tudo calmo, os vampirizadores ausentes. Limpeza e ordem. 

Em dado instante, a figura de Marita invadiu-me o crebro. Afeioara-me  
pobre menina. Era uma filha espiritual que me tocava resguardar solicitamente. 

Desassossegado, precipitei-me para a rua e, a breve trecho, vi-a na loja colorida 
e simptica, ensaiando sorrisos para as freguesas bem-postas. 

Abracei-a, paternalmente, expressando-lhe em silncio votos de paz e 
otimismo. Ela respondeu, de modo instintivo, acalentando vagas idias de reequilbrio 
e esperana. 

Registrava-se-lhe a melhora inequvoca. 

O amparo magntico assimilado funcionara, eficiente. Ignorando por que motivo, 
acusava-se tranquila, mais forte. Repousara, reconstitura-se. Retomara o gosto 
pelo trabalho, palestrava animadamente, selecionando algodes estampados. 

Nossa presena passou a despertar-lhe reflexes. No obstante opinasse nisso 
ou naquilo, entre as clientes amigas, comeou a pensar, pensar... 

Depois de alguns minutos, pressionada pelas lembranas, caminhou para o 
telefone e chamou Dona Mrcia, perguntando se ela viria, na parte da tarde, a 
Copacabana, e, informada afirmativamente, rogou  mezinha adotiva a procurasse, 


se possvel, s quatro. Lanchariam juntas, tinha algo a dizer-lhe. 

Conclu que significaria abuso incomod-la no trabalho, em que se obrigava a 
retalhar atenes, atravs dos pensamentos descontnuos, e aguardamos a ocasio 
adequada, a fim de inteirar-nos acerca de atividades ou problemas em que nos 
fosse possvel desenvolver algum prstimo. 

No horrio previsto, acompanhamos me e filha at pequenino recanto de 
hospitaleira sorveteria, considerando a gravidade da tarefa de que framos 
investidos. 

Postadas ambas em clima de segredo, Marita desafogou-se com dificuldade, 
comeando a falar, discreta e humilde. 

Que Dona Mrcia lhe perdoasse os aborrecimentos daquela hora; entretanto, 
no tinha culpa. 

No desconhecia a extenso da mgoa que lhe cortaria a alma, daria tudo para 
no feri-la, mas sentiria remorsos se no lhe contasse o sucedido. Hesitara muito, 
antes de resolver situ-la no assunto, adiantou, acanhada. Sentia-se, porm, sua 
filha pelo corao, devia confiar-lhe tudo. 

E, na ingenuidade de moa inexperiente, relatou a confisso que Cludio lhe 
fizera, a descrever-lhe os modos, lance por lance. Espantara-se, sofrera muitssimo. 
Jamais esperava por semelhante ocorrncia. Tivesse parentes e no vacilaria mudar-
se para evitar escndalos. Era, contudo, dependente, sozinha. A nica famlia 
que possua eram eles mesmos, os Nogueiras, cujo nome usava, orgulhosa, desde 
a infncia. Andava desorientada, receosa. Pedia conselhos. 

A interlocutora, todavia, escutara sorrindo, nem mesmo interrompendo, de leve, 
a deglutio da taa de creme, que saboreava, com requintes de paladar. 

Tamanha impassibilidade esfriou a disposio da jovem, que passou a resumir, 
quanto pde, as confidncias e alegaes que se inclinava a expender; e, com 
indizvel surpresa, no somente para Marita que lhe aguardava, ansiosa, a palavra, 
mas igualmente para ns, que no contvamos com o ardiloso expediente de 
Cludio, defendendo-se previamente, Dona Mrcia patenteou, no semblante sereno, 
absoluta incredulidade e participou que o marido, na vspera, a convidara para 
conversao,  parte, comunicando-lhe certas apreenses. Dissera-lhe que,  noite, 
no entendimento mantido, no tivera coragem de mencionar o assombro que o perseguia, 
porqanto julgara prudente refletir sobre o acontecimento que tanto o 
penalizava, antes de avanar em qualquer concluso. Entretanto, aps meditar, 
aturadamente, deduzira que ela, Marita, necessitava da proteo de um psiquiatra. 

Dona Mrcia perfilhou um tom de voz em que se conjugavam inquietao e 
advertncia, e continuou informando, informando... 

Dissera-lhe Cludio haver experimentado imenso alvio, ao v-la penetrando no 
quarto, na noite da antevspera, porqanto, momentos antes, ao despertar a filha 
adotiva sonambulizada, fora assaltado por ela com muitos beijos, que lhe ouvira frases 
inconvenientes, que se forara  reao, pelo que a esposa percebera as vozes 
com as quais tanto se assustara. Anunciara-lhe ter refletido suficientemente e 
acabara aceitando a hiptese de um desequilbrio. Rogara-lhe concurso para que 
um psiquiatra interferisse no problema. Assumiria ele a responsabilidade das 
despesas e, preocupado qual se achava, faria mais ainda... Envidaria esforos para 
que uma excurso  Argentina lhe restaurasse as energias, evidentemente 
alteradas. 

Diante da estupefao que nos dominava, a senhora Nogueira tomou posio 
conselheiral. 


Recomendou  menina procurasse esquecer, distrair-se. Explicou que no 
viera ao encontro, no intuito de abordar o caso. Ante as alegaes da filha, 
entretanto, no encontrava outra sada, alm daquela em que lhe abria o corao. 
Esposa e me, defenderia a paz de todos. No concordava em que se tomasse 
partido. Cludio, efetivamente, contrara contas com ela, Dona Mrcia, nas 
ingratides de marido. Isso sim. Mas, no tocante s filhas, sempre tivera a conduta 
de pai exemplar. Nada justo incrimin-lo. Tudo no passava de imaginao enfermia 
dela prpria, Marita. Fase de moa namoradeira. 

E o martelo verbal tornou aos estribilhos do passado. As festas de Araclia, as 
companhias de Araclia, as desiluses de Araclia... 

Verificando no olhar da jovem a penosa impresso com que era obrigada a 
recolher tais lembranas, a interlocutora, sem mais fundo lastro de amor para 
comov-la, modificou a ttica afetiva e alinhou histrias de seu conhecimento, em 
que sonmbulos realizavam proezas diversas. 

Argumentou que ela e Cludio, perante a ocorrncia, que analisavam com o 
carinho de pais verdadeiros e no com qualquer esprito de censura, haviam 
recordado que ela, em criana, muitas vezes acordava aos gritos, pela madrugada, 
fazendo birra e queixando-se de inexplicveis terrores. 

Levada ao mdico, o facultativo receitara calmantes. Rememorou, bemhumorada, 
a opinio de velho amigo da famlia, que dissera a ela e a Cludio andar 
a menina atacada de nictofobia, e que, somente depois, ambos recorreram ao 
dicionrio, a fim de aprenderem que a palavra significava medo da noite. 

Dona Mrcia riu-se quelas chistosas evocaes, completamente alheia  
importncia do assunto. Afagou os ombros de Marita e aconselhou-lhe juzo. 

A jovem, perplexa, tanto quanto ns mesmos, no teve nimo para desmentir. 
Ignorava como deslindar a meada que o sedutor entretecera. Preferiu acrianar-se, 
aparentando aprovao com o silncio. 

No ntimo, contudo, revoltava-se. 

Cludio trapaceara e a me adotiva cara no logro. 

No possua recursos para demonstrar a verdade. Tocava-lhe to-somente 
suportar e esperar. 

Dona Mrcia, no claro propsito de evitar o problema e, alis, denotando 
naquela hora elogivel sinceridade na compaixo pela moa que supunha doente, 
convidou-a a examinarem, juntas, o primoroso estoque de boutique vizinha. 

Marita aquiesceu, conformada, e o entendimento malogrado passou, 
superficialmente, valendo para ns por aviso grave, a fim de que reforssemos 
todo o sistema de vigilncia, no compromisso assistencial. 

Transcorreram cinco dias, sem que aparecessem acontecimentos dignos de 
meno. Contava justamente uma semana de contacto com os novos amigos, 
quando, ao partilhar as inquietaes de Neves, fui procurado por atencioso 
companheiro a quem solicitara cooperao. Avisava-me de que certa senhora 
demandara o banco, procurando Cludio no assunto que nos tomava a ateno. 

Ao sol da manh em giro alto, dirigi-me para o local, encontrando-a em pequena 
sala de espera, contgua a extenso escritrio, no qual operosa equipe de 
funcionrios desdobrava operaes de contabilidade interna. 

A dama aguardava Nogueira, ausente em servio. 

A recm-chegada trajava-se com primor, exibindo, porm, o ar das mulheres 
que, depois de perderem as iluses, acabam fazendo negcio dos prazeres que j 
no so mais capazes de usufruir. 


Detnhamo-nos no exame despretensioSO da personagem que tangenciava 
com a nossa histria, quando Cludio se apresentou, lpido e bem-posto. Junto 
dele, o acompanhante desencarnado, qual se lhe fora a sombra, no mais me 
admirando v-los visceralmente associados, pensando e falando em absoluta 
simbiose. 

Conheciam-se os dois, porqanto ele a nomeou, para logo, de madame 
Crescina, inclinando-se, familiar, para a conversao cochichada, demonstrando-se 
ambos naturalmente acostumados aos segredos que se transmitem, da boca ao 
ouvido. 

Alguma novidade?  indagou ele, esfregando as mos uma na outra, com o 
sorriso brejeiro de quem prelibava festas. 

A visitante, contudo, falou, encabulada, dos motivos que a traziam. 

Recebera-lhe Marita, a filha adotiva, horas antes, e, sinceramente  informava 
, no conseguira subtrair-se ao obsquio que lhe suplicara com lgrimas. 

Diante do interlocutor, atento, prosseguiu comumcando que a moa desejava 
encontrar-se, na noite prxima, com Gilberto, um rapaz que, vez por outra, lhe 
freqentava o casaro. Escolhera para isso o compartimento separado, nos fundos, 

o nmero quatro, por mais reservado e acolhedor. A pobre criana  acentuava, 
compadecida  formulara-lhe o apelo, em carter confidencial. Propusera-lhe a 
concesso, muito abatida, nervosa. No pudera alhear-se ao pedido. 
Tambm tinha duas filhas no mundo, tambm era mulher. Acedera. 

Mas, no era s isso. Marita remunerara-a, com bondade, para encarregar-se 
de entregar um bilhete ao filho dos Torres. 

E, perante os olhos espantados do amigo, que acumulava na curiosidade o 
anseio do vampirizador, a confidente arrancou da bolsa o documento pequenino, em 
que a jovem implorava ao namorado fosse v-la, s oito da noite, no lugar indicado. 
Saberia no incomod-lo, no tivesse receio. Rogava-lhe a presena e solicitava 
resposta. 

Cludio lia, lia, entre ciumento e indignado. Sim  refletia , era o cmulo do 
sarcasmo. Gilberto a govern-la daquela maneira! O compartimento dos fundos, o 
nmero quatro!... 

Conhecia-o. E esquisita coincidncia! Era o recanto que ele tambm, por vezes, 
elegia para si prprio, quando buscava a penso alegre de Crescina, para entreter-
se, descansar... Marita, sem saber, compartia-lhe as preferncias!... O despeito 
comprimia-lhe o corao, enquanto o outro se demorava a enla-lo, estampando 
no rosto larga expresso de astcia. 

A empreiteira de regalias noturnas cortou a pausa longa, repetindo que no lhe 
era lcito esquivar-se; entretanto, acrescentou, ladina, que ele, Cludio, era cliente 
de sua casa e, por isso, colocava-o ao corrente dos fatos, no s por dever de 
lealdade aos fregueses, como tambm para evitar aborrecimentos, suscetveis de 
atrair os olhos da polcia que nunca interferira nas acomodaes e negcios que lhe 
diziam respeito. 

Para isso, inteirava-o de tudo e pedia conselhos. Nogueira reprimiu a clera e 
vimo-lo interessado em concentrar-se mentalmente, esquadrinhando a cabea,  
cata de idias. 

Ignorando embora que se acostumara a absorver-se nas sugestes de uma 
inteligncia estranha  dele, buscava-lhe, sequioso, os estmulos, supondo 
naturalmente que batia s portas da imaginao para desencravar os pensamentos. 

Obsessor e obsidiado passaram a trocar impresses, de crebro a crebro. 


Alguns momentos de ajuste silencioso e mecnico, que um observador terrestre 
interpretaria como sendo vertiginosa fabulao, e os dois entraram em acordo 
implcito. 

Alcanamos semelhante concluso, pela rama, ao v-los repentinamente 
asserenados, j que no me sentia capaz de verificar-lhes planos e intentos, forado 
que me reconhecia a dividir atenes, entre eles e a recm-vinda, cujos informes e 
apontamentos no me cabia perder. 

Cludio esboou um sorriso amarelo. Em seguida, agradeceu a gentileza de 
que se tornava objeto, passando a extravasar as alegaes fantasiosas que 
comeara a elaborar. Disse  amiga, surpresa, que Marita realmente assumiria, 
talvez em dias breves, compromisso de matrimnio com o rapaz e que, no 
obstante considerasse a entrevista mencionada pura irreflexo de jovens, 
concordava em que madame Crescina levasse o bilhete, alcovitando a conferncia 
afetiva. 

Logicamente, acrescentou a mascarar-se de bom-humor, que os meninos 
teriam entrado em arrufo e aspiravam  reconciliao. Sim, no iria pessoalmente 
criar qualquer obstculo. Preferia aconselhar a filha, no dia seguinte. 

Entretanto, aduziu aps refletir um minuto em consonncia com o amigo 
invisvel, gratific-la-ia por um obsquio, de vez que tendo paternal interesse em 
que se efetuasse o encontro dos jovens, aos quais se permitia chamar quase 
noivos, solicitava-lhe fosse o bilhete entregue somente s duas da tarde, horrio 
em que Gilberto estaria no escritrio com toda a certeza. 

Dona Crescina prometeu satisfaz-lo, recolhendo a gorjeta e anunciando que 
telefonaria para a moa, depois do ajuste, a sorrirem-se ambos no aperto de mos. 

Restitudo a si prprio, Nogueira, sempre enlaado pelo obsessor, no se deu 
tempo a maiores reflexes. 

Aproximou-se do telefone e vacilou um instante. Pensou consigo que essa era a 
primeira vez que se dirigiria ao rapaz que detestava. 

A hesitao, porm, no passou de segundos. Discou, resoluto, para Gilberto. 

Atendido, prontamente, formulou a consulta, untando a voz de cortesia. Se 
possvel, desejava v-lo e ouvi-lo, solicitar-lhe um favor com vantagens mtuas, mas 
rogava-lhe a gentileza da discrio. Entendimento pessoal para aquele instante. 

O rapaz gaguejou do outro lado, denotando viva emoo, e aquiesceu sem 
muitas palavras. 

Ambos consultaram o relgio. Onze em ponto. 

Ele, Cludio, seguiria de txi para o almoo, em casa, no Flamengo, e esper-loia 
no Lido. 

No se preocupasse o interlocutor. Conheciam-se bastante, embora sem 
contactos pessoais. 

Alm disso, abord-lo seria fcil para ele. Conhecia-lhe o carro. 

Efetivamente, escoados que foram alguns minutos, achvamo-nos os quatro, 
Cludio, Gilberto, o assessor espiritual de Nogueira e eu, no lugar indicado. 

O jovem, muito plido, assemelhava-se ao aluno culpado que comparece diante 
do professor, mas o sorriso largo e calculado com que era recebido colocou-o  
vontade, mais apressadamente que supunha. 

Caminharam, lado a lado, permutando banalidades sobre o tempo, at que se 
instalaram num recanto de bar,  frente de um guaran que tocaram, de leve. 

Cludio, aparando as cinzas do cigarro, de momento a momento, esforava-se, 
quanto possvel, por parecer natural. 


Invariavelmente ligado ao vampirizador que o no perdia, comeou dizendo 
ao filho de Nemsio que lhe entendia a situao com clareza; que o sabia, de certo 
modo, inclinado para Marina, a filha legtima, e que, na condio de genitor, 
conquanto se visse na obrigao de preservar-lhe a felicidade, no devia bisbilhotar, 
 margem de assuntos privativos deles dois; entretanto, acentuava, dramtico, 
criara Marita, igualmente por filha; amava-a, enternecidamente, e anelava para ela o 
bem-estar que sonhava para a outra. 

Gilberto, inexperiente, escutava embasbacado, comovido. 

O antigo bancrio, aparentando elevada condescendncia, asseverou que, em 
verdade, somente atribuiria ao destino a coincidncia que vinha de observar, 
porqanto se achava convencido de que ambas as meninas queriam o moo, talvez 
com anlogo afeto. 

Verificava, assombrado, a mscara de paternal ternura com que Nogueira 
recobrira o semblante. 

No ntimo, acalentava a repulso, dura, violenta. Dissimulava, habilmente, os 
mpetos de amarrotar o filho de Beatriz que, satisfeito e acalmado, lhe agasalhava 
as afirmaes. 

Reprimindo-se, prosseguiu astucioso. 

Salientou que, decerto, a menina bisonha, ao albergar-lhe os testemunhos de 
apreo, escorregara na paixo, que lhe devastava, agora, a juventude em psicose e 
doena. Preocupava-se, afligia-se. Encontraria recursos para sanar as dificuldades, 
mas, para isso, constrangia-se a solicitar-lhe concurso, a fim de que Marita sofresse 
menos. 

Contaria com ele e, ao registrar-lhe as primeiras palavras de assentimento, 
baixou o tom de voz, anunciando-lhe em carter confidencial que a filha adotiva lhe 
escrevera um recado. Sabia disso. Compondo o quadro estudado de interesse 
paternal, indagou se ele havia recebido. Ante a resposta negativa, explicou que a 
moa lhe endereara um papelucho, no qual lhe rogava um encontro para a noite. 
Sem que lhe suspeitasse do zelo, conseguira ler o petitrio, tanto assim que poderia 
repeti-lo. E recitou de cr o pequeno texto, slaba a slaba, dando a impresso de 
proceder assim para exteriorizar com mais segurana o prprio enternecimento. 

Depois de caracterizar o papel, rogava ao rapaz dois favores: responder 
afirmativamente, por escrito, que estaria no local indicado, atendendo ao horrio 
certo, e abster-se de comparecer no momento preciso. 

Fantasiou que a menina andava desorientada, enferma -Temia um choque. No 
dispunha de outro remdio seno pedir-lhe aquele tipo de cooperao. Isso porque, 
naquele mesmo dia, estava providenciando a aquisio dos documentos 
necessrios, para que ela fosse  Argentina, em companhia de Mrcia, numa 
viagem de refazimento e recreio. No seria prudente estragar-lhe o nimo, naquela 
hora, com uma negao formal. Naturalmente que o interlocutor era dono de si. 

Agisse como melhor lhe parecesse. Ele, porm, nos sentimentos de pai que o 
moviam, receava conseqncias. Nada custaria satisfazer-se quela particularidade 
que considerava providencial. Se Gilberto aprovasse a idia, ele prprio, Cludio, se 
incumbiria de busc-la, no endereo marcado, no s com a noticia positiva da 
viagem, no bolso, de modo a proporcionar-lhe renovadora alegria, ao mesmo tempo 
que poderia apresentar a ela as desculpas dele, quanto  ausncia. 

Compreensvel que, com a autoridade afetuosa de pai amigo, se 
responsabilizasse pelas escusas do moo, de vez que usaria o tato imprescindvel. 

Por fim, consultava-o como justific-lo, no instante oportuno, se devia alegar a 


razo do bolo como sendo negcios, servios, empeos domsticos ou 

inesperado afastamento do Rio. 

Ofilho dos Torres ouviu tudo, encantado. 

A proposta pareceu-lhe uma pea vazada em profundo bom-senso. Alm disso, 
respirava feliz. Verificava haver encontrado algum que o levaria, passo a passo, a 
libertar-se de um compromisso que lhe pesava demasiado na conscincia. 

Chegado a esse ponto, desinibiu-se. Perdera os derradeiros resqucios da 
desconfiana com que iniciara a conversao. E, ao desembaraar-se, afixou a 
mscara fisionmica que julgou cabvel  defesa das prprias convenincias, 
asseverando que dedicara a Marita uma boa amizade, de irmo para irmo, nada 
mais. Destacou que, efetivamente, notara nela determinadas alteraes que o 
haviam desgostado, e, j que se sentia inequivocamente atrado para Marina, 
afastara-se, cauteloso, na expectativa de que tempo e distncia funcionassem. 

Cludio escutava, boquiaberto, admirando-lhe a delicada frieza das justificaes 
e indagando a si mesmo qual deles dois seria maior na arte de fingir. 

Francamente encorajado, Gilberto declarou que Lhe compreendia as 
apreenses, quanto lhe aceitava conselhos e bons ofcios. Escreveria, obrigando-se 
a comparecer, mas no arredaria p de casa, mesmo porque Marina fora a 
Terespolis, pela manh, a servio da companhia, e talvez s regressasse no dia 
seguinte. O senhor Nogueira, qual o chamava, em buscando a menina, s oito, 
estaria autorizado a comunicar-lhe, da parte dele, o agravamento da sade materna. 
No seria falso, ajuntou, porqanto a genitora extinguia-se, lentamente. 

Cludio, obtendo o que desejava, refletia no rosto a satisfao que, somada ao 
voluptuoso prazer do obsessor que o assessorava, parecia interesse afetivo, 
devotamento. Finalizando, asseverou-se notificado quanto  viagem da filha, e 
reportou-se, em termos carinhosos,  situao de Dona Beatriz, que ele e Mrcia 
visitariam. Destacou as acerbidades dos impedimentos em famlia, durante as molstias 
longas, apelou para o otimismo necessrio e, ateu confesso, chegou at 
mesmo a exalar a confiana que se deve ter em Deus, no decorrer de tais 
circunstncias. 

Montada a obrigao que os jungia, separaram-se com abrao efusivo, 
enquanto, de nossa parte, rumamos do Lido para o Flamengo, penosamente 
intrigados, conjeturando sobre o que estaria por suceder. 


Captulo 13 

Tornei ao Flamengo, apreensivo. 

No conseguira auscultar as minudncias do plano obscuro que se formava. Os 
pensamentos de Cludio e do vampirizador entrelaavam-se em estranhos 
propsitos imprecisos. 

Expedi comunicao, em despacho rpido para o irmo Flix, salientando a 
necessidade de nosso encontro, recolhendo-lhe a resposta, que no me alentava 
(5). Viria  noitinha, no mais cedo, vista de inadiveis obrigaes. 

Seria desaconselhVel qualquer recurso a Neves, que sabia ocupado e, talvez, 
providencialmente ocupado, j que as dificuldades morais se esboavam em 
labirinto e alguma ameaa de irritao nos frustraria objetivos e movimentos. 
Amigos outros, de cujos prstimos seria licito dispor, jaziam longe do assunto. 

Era foroso agir s, trabalhar por mim mesmo. 

O momento no comportava aflies inteis. Necessrio manejar os recursos 
em mo. 

Para intervir sem vacilaes, julguei prudente ouvir o acompanhante 
desencarnado, de Cludio, que eu desconhecia de todo. A princpio, encontrramos 
dois. Entretanto, apenas um deles se mantinha 

(5) Diante dos microaparelhos existentes no Plano Fisico para emisso e 
recepo de mensagens, a longas distncias,  desnecessrio comentar as 
facilidades de intercmbio no Plano Espiritual.  (Nota do Autor espiritual.) 
constante, aquele cuja inteligncia aguada me ferira a ateno. 

No seria justo investig-lo, perquirir-lhe os anseios? 

Rememorei experincias anteriores, em que juntamente de outros amigos 
desencarnados modificara a apresentao externa, atravs de profundo esforo 
mental. 

Aspirava a fazer-me visvel  frente daquele amigo enigmtico que claramente 
habitava o lar dos Nogueiras. 

Poderia transfigurar-me, adensando a forma, como algum que enverga roupa 
diversa. 

Recolhi-me em ngulo tranqilo,  frente do mar. Orei, buscando foras. 

Meditei, fundo, compondo cada particularidade de minha configurao exterior, 
espessando traos e mudando o tom de minha apresentao habitual. 

Quase uma hora de elaborao difcil esgotou-se, at que me percebi em 
condies de empreender a conversao cobiada. 

No me autorizava a perder um minuto. 

Avancei, prdio acima, batendo  porta, cerimonioso. 

Aconteceu como previa, porque o parceiro invarivel de Cludio veio atender. 

Olhou-me, desconfiado, de alto a baixo, esquadrinhou-me os intuitos. 

Humilhei-me, vulgarizei a linguagem quanto pude. 

Semelhante atitude era indispensvel pela minha necessidade de informaes. 
Atento a isso, afetei absoluto desinteresse pelos moradores do apartamento, 
centralizando nele o ncleo natural de minha ateno. 

Expliquei andar procurando um amigo e perguntei pelo outro camarada que vira, 
ali, dias antes. Vira-os, juntos, precisamente naquele local, quando transitava no 
corredor; entretanto, passava, apressado, a peso de obrigaes. Guardara, porm, 


a impresso de que o companheiro cujo encontro ambicionava era ele. 

Esse o expediente mais simples que me ocorreu para cativ-lo, conversando 
com esprito de submisso e fraternidade naturais, de modo a ganhar-lhe alguma 
confiana e carinho. 

Ele pareceu sensibilizar-se, tratou-me com a generosidade acidental de um 
fidalgo que no se desmerecia por dar migalha de considerao a um mendigo. 

Compleio robusta e enorme, tocou-me o ombro com a destra, ensaiando o 
gesto de quem se prepara a despachar, polidamente, uma pessoa importuna, e 
catou minudncias. AnaliSou-me, perscrutou-me, repisando inquiries. 

Inteirando-se do exato momento em que os vira reunidos e reconhecendo os 
detalhes que conseguira, de minha parte, mencionar, esclareceu tratar-se de um 
amigo, que costumava hospedar, de vez em vez, para o reconforto de uns 
drinques. Naquele momento, contudo, no estava. Ao que sabia, recreava-se 
numa casa, em Braz de Pina, cujo endereo indicou. 

Lamentei. Solicitei-lhe o nome, estava reconhecido  gentileza do acolhimento 
e tornaria ao Flamengo em outra oportunidade. Estimaria nome-lo com a possvel 
intimidade quando voltasse, na hiptese de ser constrangido a perguntar por ele a 
desconhecidos. 

Ele no se fez de rogado. Respondeu, corts. Chamava-se Ricardo Moreira. 
Em alguma necessidade, porm, bastaria que o designasse to-s por Moreira. Era 
estimado, possua numerosas relaes, contava com muitas afeies no prdio. Se 
chegaSSe a v-lo, de nOVO, em companhia do colega ao qual me reportava, que o 
sacudisse, despertando-lhe a ateno. 

At ali, tudo bem. Era necessrio, entretanto, que eu lhe examinaSse as mais 
ntimas reaes. 

Imprescindvel conheCdO, sopes-lo. 

Acusei-me cansado, deprimido. Se ele era ali o mordomo, que me permitisse 
entrar, por gentileza, ainda que por instantes breves, a fim de que me fosse possvel 
refazer as foras. Ato de bondade fraterna. Nada alm de alguns minutos. Carecia 
de ambiente humano, amigo. 

Operou-se, entretanto, a reviravolta. 

Vi perdida a posio que granjeara. 

Moreira arremessou-me olhar terrvel, que funcionou sobre mim qual punhalada 
vibratria. 

Ajuntou frases irnicas e gritou que a casa tinha dono; que, diante dos 
descascados (6), quem mandava ali era ele; que, para atravessar a porta, seria 
preciso remov-lo; que eu dispunha da rua larga para dormir; e finalizou, agressivo: 

 Que tem voc aqui? D o fora, que no vou com sua lata! V se catar, v se 
catar!... 
Nenhuma outra alternativa seno descer escadas, desabaladamente, porque 
avanou em minha direo, arregaando punhos decididos. 

Regressei ao aconchego do mar, entrando em prece. 

Reavendo a condio que me  peculiar, voltei ao mesmo ponto. 

No interior da pea, o casal acomodara-se para o almoo, com as atenes de 
Dona Justa, em servio. 

Moreira, que no mais me assinalava a presena, instalara-se na cadeira de 
Cludio e com Cludio, de tal modo, que, certo, se alimentava to claramente 
quanto ele, atravs de um dos numerosos processos em que se catalogam as 
aes da osmose fluidica. 


A conversa entre os cnjuges deslizava, banal, mas, consultando o crebro 
de Nogueira, convencemo-nos para logo de que o tema do dia circulava, 

(6) Um dos pejorativos pelos quais a gria dos planos Inferiores designa os 
Espritos desencarnados.  (Nota do Autor espiritual.) 
ativamente, no sistema de conjugao mental que prevalecia entre ele e o 
acompanhante. 

Registrava-se-lhes o anseio por notcias que lhes facultassem conexes para o 
objetivo inconfessvel, que comeavam a entremostrar em esprito. 

Agora,  mesa, a dupla exteriorizava os intentos escusos, nas formas-
pensamentos em que as duas mentes enfermias se revelavam. Tudo se aclarava, 
de sbito. Digeriam o plano em silncio. 

Abordariam Marita,  feio de dois caadores, colhendo uma lebre. 
Antegozavam o assalto, articulavam-se-lhes os pensamentos em lances dissolutos. 
Determinavam-se a surpreend-la, em casa de Crescina, como se apanha um fruto 
resguardado na rvore. 

Perplexo, decifrei a trama inteira. 

Cludio ergueu a voz e, fingindo ignorar a viagem da filha, perguntou  mulher 
por Marina, de vez que, no fundo, queria notcias da outra. 

Dona Mrcia caiu, de imediato, na induo. Respondeu que ele, provavelmente, 
se havia esquecido de que a moa avisara, na vspera, que iria a Terespolis, a 
servio da imobiliria. O chefe, impedido, indicara-a para represent-lo em algumas 
transaes importantes. Voltaria, sem dvida, na manh seguinte. Quanto a Marita, 
horas antes telefonara de Copacabana, solicitando para que no a esperassem ao 
jantar. Talvez demorasse em servio extra, na contabilidade da loja, at mais tarde. 

O marido pigarreou, mudou de assunto, comentou alguns sucessos polticos e a 
refeio terminou sem maiores delongas. 

No intuito de colaborar com eficincia, na preservao da harmonia geral, 
demandei a habitao de Crescina, onde no tive qualquer dificuldade para 
identificar o apartamento nmero quatro. Recanto isolado para casal, 
completamente desligado da comprida construo de um pavimento s. 

A vivenda, pela extenso enorme, aparentava profunda calma; entretanto, pela 
ruidosa conversao dos desencarnados menos felizes, que a bulhavam, 
desocupados, era possvel imaginar as agitaes da noite. 

Depois de atenciosas idas e vindas pelo terreno, examinando situaes, vi a 
dona da casa tomar o fone. Aproximei-me. Crescina perguntava por Gilberto, no 
escritrio dos Torres. 

Atendida, combinou visit-lo s duas, da precisamente a meia hora. 

O programa foi cumprido em todas as seqncias previstas. 

De retorno, Crescina chamou para a loja e comunicou  jovem que o rapaz 
escrevera. Tudo certo. Leu o bilhete, em que lhe participava a resoluo de estar 
firme, no lugar indicado, s oito. 

Que ela aguardasse, confiasse. 

A pobre menina exultou e as minhas inquietaes doam agigantadas. 

Necessitava desdobrar medidas de proteo; entender-me com algum amigo 
encarnado, em ligao com o grupo; sugerir providncias que evitassem a 
consumao do projeto; criar circunstncias em que o socorro chegasse em nome 
do acaso, entretanto... Debalde, girei da penso alegre ao escritrio, do escritrio  


loja, da loja ao banco, do banco ao apartamento no Flamengo... Ningum 
estendendo antenas espirituais, com possibilidades de auxlio, ningum orando, 
ningum refletindo... Em todos os lugares, pensamentos entouados sobre razes 
de sexo e finana, configurando cenas de prazeres e lucros, com receptividade 
frustrada para qualquer interesse de outro tipo. At mesmo um dos chefes de 
Marita, do qual me acerquei, tentando insuflar-lhe a idia de reter a jovem, no 
servio, at altas horas da noite, ao sentir-lhe a imagem, na tela mental, transmitida 
por mim, para inicio de entendimento, acreditou estar pensando consigo mesmo, 
inclinando o assunto para questes salariais; concentrou-se, de pronto, nas 
vantagens econmicas, agarrou-se a cifras, encheu a cabea com pargrafos da 
legislao trabalhista e expulsou-me a influncia, sumariamente, monologando no 
intimo: essa moa j percebe o suficiente, no lhe darei nem mais um centavo. 
Nenhum outro recurso seno permanecer no casaro, de sentinela. 

Inteis as diligncias. 

s sete e trinta da noite, Cludio apresentou-se com esmero, sem mesmo 
esquecer-se de uma peruca leve que lhe remoava as linhas fisionmicas. 

Solerte, espiou a vivenda de Crescina, a pequena distncia. Ele e o outro. 
Moreira no parecia menos interessado. 

Acompanhei-os. 

O marido de Dona Mrcia, aperaltado, buscava um telefone, que no teve 
dificuldade para encontrar. Caf vizinho facilitava. Discou, chamando Faf, o 
porteiro da penso, que ficramos conhecendo em nossas investigaes cordiais, 
durante o dia. Atendido, rogou-lhe que fosse encontr-lo, confidencialmente. 
Questo de negcio. No se arrependeria do segredo. Riram-se pelo fio. 

O empregado, velho bonacho que o lcool j comeava a excitar naquelas 
horas verdes da noite, veio  pressa. Atencioso e sabido, conquanto guardasse um 
sorriso de bondade, parado no rosto, que tanto podia ser para o bem como para o 
mal, inclinou o ouvido para a boca de Cludio, a fim de escutar melhor. Nogueira 
cochichou, solene. Solicitava-lhe concurso urgente. Precisava esclarecer-se quanto 
aos jovens que se reuniriam no quatro. A moa era sua filha. No faria barulho, 
no escandalizaria a ningum, mas desejava certificar-se. Nada de complicaes. 

Necessrio reconhecer o desencaminhador, de maneira a solucionar o 
problema de famlia, sem alarde. Recorria aos prstimos dele, companheiro 
dedicado. No lhe dispensaria a colaborao. 

Faf disse compreend-lo e participou que a menina esperada j se instalara. 
Vira-a sozinha, atravs da porta semicerrada. Estava sentada no leito, folheando 
revistas. E, ante as perguntas que se acumulavam, confirmou que era a jovem, vista 
por ele, cedinho, em conversao com a mundana. Sim, guardara-lhe o nome. Era 
Marita, sim. 

Fez-se Cludio mais reservado e pediu-lhe blecaute. Que o porteiro lhe 
fizesse o favor de desajustar o fusvel, na instalao eltrica, O conserto exigiria uns 
quinze minutos de sombra. Isso bastava para que se inteirasse de tudo, sem que a 
patroa e os hspedes lhe percebessem a presena. Colocar-se-ia no escuro, em 
ngulo oposto  iluminao pblica, e, assim, facilmente identificaria o rapaz. 

O serventurio, no obstante semi-embriagado, fixou expresso matreira e 
salientou que era problema srio, aquele. Satisfaria ao chefe, mas bico calado. 
Nada de envolver-se com os tiras. 

Cludio deixou escorregar para a mo dele duas cdulas de quinhentos 
cruzeiros, e Faf, menos inquieto, indagou pelo horrio exato, ao que Nogueira 


aclarou, afirmando faltar unicamente dez minutos, de vez que aguardaria a luz 
apagada, as oito em ponto. 

Separaram-se os dois e, quando me perdia em dolorosas conjeturas, 
revigoradora surpresa me visitou o esprito. Dera apenas alguns passos na rua e fui 
agradavelmente defrontado pelo irmo Flix, que me abraava. 

Comovi-me. Rev-lo e confiar-lhe todas as inquietaes foi trabalho de 
segundos. 

Nas minhas frases curtas, o instrutor recolheu todo o material informativo. 

Sem detena, rumamos para a vivenda coletiva, cujas lmpadas esmoreceram, 
de chofre, quando lhe transpnhamos a entrada. Tive a idia de que o 
acontecimento era comum, porqanto a escurido no estabeleceu o menor alarme. 
Velas bruxuleantes piscavam, aqui e ali. 

Tomamos a direo do aposento isolado. 

Cludio estacara  porta, enlaado pelo vampirizador. Ambos justapostos um ao 
outro. Dupla de sentimentos e propsitos iguais. Ambos emocionados, coraes 
pulsando precipites, prelibavam a caa que no lhes escaparia. A distncia 
reduzida, notei que os dois se postavam sob o halo das energias balsnlicas de 
Fllx; entretanto, o admirvel fenmeno para eles era como se no existisse. 

Diante do quadro inquietante e enternecedor, imaginei comigo fitar dois lobos 
humanizados, aos quais piedoso emissrio dos Cus tentasse, inutilmente, entregar 
a palavra e a inspirao de Jesus-Cristo. 

Enrodilhavam-se os dois num charco mental de lascvia, com tamanha 
sofreguido, que no cabia ali, naquele vulco de apetites sexuais, a menor frincha 
pela qual se pudesse arremessar alguma idia de elevao. 

Agressivo perfume de cravos me invadiu o olfato desprevenido. Onde sentira, 
naquele dia, um cheiro igual? Recordei, espantado. Aquele era o extrato usado por 
Gilberto. Conhecera-O, na palestra do Lido. Minudenciei observaeS e reconheci 
que Nogueira tivera igualmente o cuidado de usar indumentria, em tudo 
semelhante  do moo, inclusive a gravata, quanto ao n e ao tamanho. Nenhuma 
particularidade fora esquecida. 

Antes que Flix e eu pudssemos estudar medidas de conteno, a dupla 
avanOU quarto a dentro. 

Ns, que podamos enxergar na obscuridade, vimos a pobre menina levantar-
se, sussurrando frases de arrebatadora paixo e de intensa saudade, abrindo, 
ansiosa, os braos, sem guardar para si o mnimo resqucio de vigilncia... 
Acreditava-se diante do amado... Era ele, no devia recear... 

Naquele instante, em todas as suas intenes e em todos os seus nervos, um 
pensamento s, um apelo s entregar-se... 

Cludio e o outro, a fremirem de emoo, mantinham absoluto silncio. 

Nada que pudesse evitar a integrao indesejvel. 

Nogueira, agindo por si e pelo acompanhante, atraiu-a, de encontro ao peito, e 
beijou-a, convulso. 

A indefesa criana, hipnotizada pelos prprios reflexos, abandonou-se, 
vencida... 

Irmo Flix, tangido por sentimentos que eu no poderia avaliar, deixou o 
recinto e acompanhei-o. 

Atingindo o degrau externo da porta de entrada, vi que o benfeitor, transido, se 
deteve, de olhos fitos no cu... Quanto a mim, conturbado, no me sentia capaz de 
articular uma prece. Nada pude fazer seno calar-me, reverente, perante o 


agoniado corao paterno, que vinha das esferas superiores para desmanchar-se 
ali, em suplcio indizvel, velando, atravs da orao muda que lhe extravasava 
agora em grossas lgrimas!... 

Homens, irmos, ainda que no possais viver santamente,  face dos instintos 
inferiores que nos atenazam as almas, animalizadas ainda por duros gravames do 
passado culposo, reduzi, quanto puderdes, as quedas de conscincias! quando no 
seja por vs, fazei-o pelos mortos que vos amam de uma vida mais bela!... 
Disciplinai-vos, em respeito a eles, guardies invisveis que vos estendem as 
mos!... Pais e mes, esposos e esposas, filhos e irmos, amigos e companheiros, 
que supondes perdidos para sempre, em muitas ocasies vos acompanham de 
perto, acrescentando-vos a alegria ou partilhando-vos a dor!... Quando estiverdes a 
ponto de resvalar, nos despenhadeiros da delinqncia, pensai neles! Ser-vos-o 
generosos, indicando-vos o caminho, na noite das tentaes,  feio das estrelas 
que removem as trevas! Vs que sabeis reverenciar as mes e os mestres 
encanecidos na abnegao, que ainda respiram no mundo, compadecei-vos 
tambm dos mortos, transfigurados em afetuosos cireneus, a nos compartirem as 
cruzes das provaes merecidas, em dorido silncio, quando, muitas vezes, no 
somos dignos de oscular-lhes os ps!... 

Diante de Flix, em pranto amargo, meu corao, imperfeito e pobre, passou 
ento a recorrer ao Evangelho e confortei-me ao lembrar que Jesus, o Divino 
Mestre, fora tambm o amigo sensvel e carinhoso, ao chorar, um dia, na Terra, 
ante Lzaro, morto!... 

Decorridos quase vinte minutos de expectao, a luz reapareceu e ouviu-se um 
grito agoniado, em que o espanto e a dor se mesclavam com terrvel acento. 

Marita, com a rapidez de uma cora dilacerada, saltou a janela, em sentido 
oposto, e disparou em desalinho... 

Antes, porm, que nos fosse possvel esboar qualquer socorro, algum 
chegou, apressadamente, e abordou a porta do solitrio aposento, espancando-a 
com fria. Esse algum era Dona Mrcia. 

Nogueira, assistido pelo amigo desencarnado, recomps-se num timo e, ao 
esbarrar com a esposa, fez um risinho ridicularizador, exclamando, mordaz: 

 Era s o que faltava!... Voc tambm? Aqui?... 
Dona Mrcia, que costumava entreter-se no pquer, junto de amigas, no longe 
da penso de Crescina, com quem mantinha relaes de amizade, fora 
imediatamente informada por ela quanto  chegada do marido, com a observao 
de que ele talvez entrasse em rixa acirrada com os jovens. 

O porteiro, receando complicaes, aviara-se, diligente, comunicando  patroa 
quanto sabia, e a patroa, a seu turno, julgando que a moa e Gilberto estivessem 
reunidos, no hesitara invocar a presena da amiga, no intuito de conjurar possveis 
desastres. 

A senhora Nogueira, ao chegar, inquieta, vira a filha adotiva que debandava e, 
em topando o marido, desapontado, saindo a ss, entendeu, num relance, tudo o 
que se passara... 

 Canalha!  bradou, indignada  eu no acreditei nessa menina infeliz! Eu 
que poderia ter evitado!... 
E a voz da recm-chegada assumiu dolorosa inflexo: 

 Como  que voc no pensou? Tenho comigo todos os papis de Araclia, 
todos os seus bilhetes... Ela nunca esteve com outro homem, a no ser voc 
mesmo!... Voc nunca soube da ltima carta, em que ela me entregava a menina, 

dizendo que preferia morrer para que eu fosse feliz!... A memria dessa moa 
pobre e leal  a nica coisa boa que eu tenho no corao... O resto voc destruiu... 
Ah! Cludio, Cludio!... a que baixezas descemos ns?... Louco! Voc ultrajou sua 
prpria filha!... 

Ele apoiou-se, cambaleante, na porta, como que fulminado por um raio, Dona 
Mrcia prorrompera em soluos; entretanto, de nossa parte, era foroso sair. 


Captulo 14 

Adiantamo-nos, Flix e eu, ao encontro da jovem. 

Marita estugava o passo, amarfanhada, aturdida. 

Da Lapa, onde se localizava a habitao coletiva que vnhamos de deixar, at  
Cinelndia, correra quase. 

Sentia-se tangida por todos os ventos da adversidade, expulsa da Terra. Trada 
nos mais ntimos sentimentos de mulher, a injria experimentada transcendia para 
ela toda a noo de sofrimento. Teria agradecido ao homem que conhecera por pai 

o punhal ou o veneno, mas no dispunha de foras para perdoar-lhe aquela afronta. 
A revolta sacudia-lhe os membros. Tremia, desesperada. Na cabea, uma idia s, 
ganhando extenso: o suicdio. Ansiava atirar-se sob os carros que deslizavam  
frente. Morrer... desaparecer... meditava, chorando. Entretanto, era preciso viver um 
tanto mais. Restava um enigma: Gilberto. Por que se esquivara, a substituir-se, 
cruel? Que trama teria havido entre eles? Lera-lhe a missiva, conhecera-lhe a letra. 
Escrevera, afirmando vir... Por que desistira? Como soubera Cludio do encontro? 
Atravs de Crescina? 
As interrogaes sem resposta convulsionavam-na toda. Desvairava. Rangia os 
dentes, querendo gemer. 

A morte, a morte!...  pedia, mentalmente, tentando apertar os lbios que se 
abriam sem voz. 

Ainda assim iria consultar Gilberto, sugeriam as ltimas rstias do sonho 
desmantelado. Sim, aprovava no turbilho dos pensamentos em descontrole, era 
necesssrio ouvir Gilberto... Uma vez s que fosse. Imperioso conhecer a verdade, 
morrer com a verdade... 

Quem saberia? Talvez que o rapaz lhe estendesse um fio de luz, por onde se 
desvencilhasse da sombra... Se ele dissesse: vive, vive para mim, conseguiria 
esquecer o insulto daquela noite, continuando a viver... Ao contrrio, tudo extinto... 

Caminhando apressada e indiferente  aragem que lhe acarinhava os cabelos, 
repelia-nos, em esprito, as maiores demonstraes de ternura e consolo. 

Nenhuma idia que se lhe no afinasse com a repulso. 

Decididamente, se Gilberto participara da armadilha a que se arrojara, inocente, 
estava tudo acabado. To-somente lhe restaria o desprezo final. 

Alcanou o Largo do Passeio e parou um momento... Fitou, angustiada, aquelas 
rvores frondejantes que tanto amava... Galharias balouadas ao vento pareciam 
cham-la para abraos de adeus... Marita soluou, teve medo, mas seguiu adiante... 
Varou a massa risonha que deixava os cinemas, recordou Gilberto e a menina feliz 
que ela fora, vendo namorados saboreando pipocas; contudo, seguiu, seguiu 
sempre, vencendo encontres. Atingindo a Praa Marechal Floriano, abancou-se, 
vasculhando o crebro atormentado... 

Sentia-se, enfim, absolutamente sozinha, completamente desamparada. 
Comprimindo a cabea entre as mos, queria idias, alguma idia que lhe ofertasse 
sada do antro pungente da angstia. 

Debalde, irmo Flix, ao enla-la, lhe assoprava conceitos de pacincia e 
cordura, inutilmente se referia  bondade e ao perdo. Aquele corao juvenil, 
conquanto bondoso, figurava-se, agora, um lago lmpido que vulco oculto, de 
inesperado, fazia referver. Todas as orlas abertas, em bocas de incndio, pelas 
quais as ondas do pensamento fugiam, precipitadas. Nenhum lugar exposto  
receptividade, nenhum ponto marcado ao equilbrio e ao silncio. 


No crnio tumultuado, uma idia surdiu, ensejando-lhe tnue fio de 
esperana. Telefonar!... 

Poderia telefonar para a residncia dos Torres. Gilberto, indubitavelmente, 
estaria ao p da genitora enferma. Alm disso, Marina viajara pela manh. Uma 
razo a mais para que se no retirasse do carinho necessrio  doente. Ainda assim 

 refletiu , seria muito provvel que ele, a distncia, lhe embasse a boa-f. 
Insopitvel desconfiana amargava-lhe o corao qual raiz espinhosa. No 
descortinava, contudo, sada melhor. Conversar! Ouvi-lo! Tinha sede da verdade, 
ansiava saber, saber!. 
Raciocnios contundentes entrechocavam-se-lhe na cabea atribulada... No, 
no retornaria ao lar do Flamengo... Entre voltar  casa dos Nogueiras e morrer, 
preferia morrer... 

Perscrutou circunstncias, analisou-se, meditou, meditou... 

Pensamento estranho assomou-lhe, de sbito. Disfarar-se, fingir. Para 
alcanar a verdade, mentiria. 

Entraria, sim, no jogo com aquilo que se lhe apresentou  imaginao, como 
sendo a cartada final. 

Marita conclua que ela e a irm, pela intimidade e pela convivncia, tinham 
vozes semelhantes, maneiras afins. Chamaria o rapaz como sendo Marina, imitarlhe-
ia, quanto possvel, o tom de palestra, repetir-lhe-ia as palavras de uso mais 
freqente no trato domstico. Simularia estar voltando, inopinadamente, de 
Terespolis. O moo, assim abordado, confessaria, de modo inequvoco, tudo o que 
sentisse, com respeito a ela prpria. 

A sofredora criana consultou o relgio-pulseira. Dez minutos para as nove. 

Desejava ambiente familiar para a ligao. Lembrou-se de Dona Cora, cliente 
da loja em Copacabana, que se lhe fizera amiga ntima e em cujo apartamento 
costumava telefonar, quando inevitvel. Levantou-se, algo reanimada, para a busca 
de conduo; entretanto, somente a deu pela falta da bolsa que largara na fuga. 
Faltava o dinheiro, mas no desistiu. Acenou da calada ao primeiro txi disponvel. 
Consultou o motorista se lhe podia fazer o favor de atender, com pagamento  porta 
de casa. Estava sozinha e esquecera-se do horrio, O profissional correto notou-lhe 

a tristeza e o acanhamento. Compadeceu-se. Alegou que recusava, 
sistematicamente, conduzir pessoas que encomendavam servio, criando 
problemas; entretanto, no caso, faria exceo e aquiesceu. 
A breve trecho, seguamos, junto dela, para Copacabana. 

No endereo indicado, saltou, fez-se acompanhar pelo condutor ao apartamento 
da amiga, sendo recebida com a lhaneza que esperava. Segredou, envergonhada, 
para Dona Cora que se achava em apuros, se ela no dispunha, naquela hora, de 
algum dinheiro para emprestar. Pagaria no dia seguinte. A dona da casa, 
espontnea e bondosa, no titubeou.. Abriu pequena gaveta e falou sorrindo: s 
quatrocentos cruzeiros, O marido no estava. Marita, reconhecida, explicou que a 
importncia bastava. Depois da corrida paga, disse para a senhora que andara em 
servio extra, fora em seguida ao Leblon visitar um doente, afetando que somente 
naquele instante conseguiria tomar o nibus para casa. Antes disso, porm, tinha 
necessidade de um telefonema. 

Conversao com pessoa muito ntima. Dona Cora cedeu-lhe a pea inteira e 
acrescentou, gentil, que ia arranjar um cafezinho. Falasse  vontade, ningum a 
interromperia. As duas filhinhas dormiam, h muito, e o esposo que substituia um 
colega, no trabalho, no regressaria to cedo. A dona da casa afastou-se para a 


cozinha, isolando a sala. 

E, ali, diante de ns, sem que nos percebesse, de leve, os coraes solidrios, 
Marita discou, sofreando a emoo de modo a fantasiar a alegria da outra. 

Escutamos, transidos, o dilogo juvenil que nos ficaria, ento, na memria, 
gravado frase a frase: 

 Da residncia dos Torres? 
 Sim. 
 Quem no aparelho? Gilberto? 
 Sim, sim. 
 Oh! meu bem, pois voc no est conhecendo? 
 Conhecendo quem? 
 Eu, eu... Marina. Acabo de chegar... 
 Ah! ah! Marina!... que surpresa boa!... por que essa demora? ....... Estamos 
todos em casa, esperando... Telefonar por qu? 
 Quis saber, meu amor, se voc est bem, se passou bem o dia... 
 Saudades! 
 Eu tambm... Muita saudade... 
 Venha. 
 E a mame? Melhor? 
 Pouquinho. 
 Escute... 
 Para que conversar? Corra para c, venha logo... 
 Um momentinho s... Escute. Passei rapidamente em casa, no Flamengo, 
para conversar com mezinha certas coisas... Estive com duas amigas em 
Terespolis que me encheram a cabea.. 
Estou perturbada, ciumenta... 

 Que  que h? 
 Marita... 
 Ora... Marita! Tenho nada com ela. 
 Mas eu soube... 
 Soube o qu? 
 Que vocs dois esto em compromisso. Sei que vocs andavam juntos, mas 
tanto assim no sabia... 
 Bobagem! 
  muita conversa que no pude desmentir... 
 Perda de tempo.  muita gente biruta... Morou? (7) 
 Estive com papai ainda agora... 
Nesse ponto da conversao singular, a voz dela titubeou. Ouvira o bastante 
para reconhecer-se desdenhada, batida. Entretanto, aspirava  lia do clice. 
Necessrio inteirar-se acerca de quanto Gilberto havia descido. Receava descobrir-
se. Indispensvel toda precauo, a fim de escalpelar o insulto de que fora vtima. A 
pausa, no entanto, foi curta. Gilberto, no outro lado, pronunciou a deixa oportuna: 

 Ento... 
 Explique-se. 
 Bem, voc naturalmente deve saber agora o que aconteceu. O velho me 
procurou... Ele mesmo telefonou, sabe? Conversamos pessoalmente, acertamos 
tudo. 
 Quer dizer que Marita... 
 Imagine! escreveu-me pedindo encontro. O velho soube de tudo antes e me 

pediu dizer que iria, mas que eu no fosse. Entende? 

 No fim de contas, como  que voc se arranjou? 
 Escrevi um bilhete, prometendo v-la, mas combinei com o velho para que 
ele mesmo fosse busc-la. Ele mesmo  quem props a soluo. Voc sabe, no 
podia deixar de atend-lo... Primeira vez. 
 Estou perplexa, nervosa... No compreendo... 
(7) Expresso de gria. Morar significando compreender.  (Nota do Autor 
espiritual.) 
 Ele me pediu escrever aceitando, para que Marita no ficasse chocada. Disse 
que ela tem estado borocox e prometeu que ele iria procur-la, de modo a dar 
conselhos e a reanim-la com uma boa notcia, uma excurso  Argentina... 
 Como? 
 Olhe l, Argentina... Uma viagem para a Argentina... 
Uma risada seguiu-se e, depois dela, a considerao sarcstica: 
 Sanatrio, meu bem. Sanatrio ou hospcio. Para Marita, s sanatrio e, 
quanto mais longe, melhor!... Argentina para uma e Petrpolis para dois... 
Nesse ponto da entrevista, a jovem baqueou. Debruou-se na cantoneira, 
inabilitada a retomar o fone,  vista dos soluos que lhe rebentavam do peito. 
Escutvamos, nitidamente, a voz do rapaz, a distncia, gritando: 

 Marina! Marina! diga o que h, diga, diga!... 
A pequenina mo encharcada de lgrimas, no entanto, reps o fone no gancho, 
com a tristeza de quem cerrava, em definitivo, as portas do corao. 
A moa dedicou alguns minutos ao refazimento, reconstituiu, quanto possvel, a 
tranqilidade fisionmica e tornou  sala. 
Embaraada, referiu-se ao dinheiro emprestado. Que Dona Cora lhe perdoasse 

o incmodo. 
Se no pudesse voltar em pessoa, no dia seguinte, a companheira de seo na 
loja, Nli, que lhes era tambm ntima, faria o pagamento, considerando-se a 
hiptese de ela, Marita, no se achar em servio. Bastaria procurar. 

Dona Cora riu-se, cordial. No pensasse naquilo. 

Prestimosa, estendeu-lhe o caf que ela aceitou, constrangida. Conversa vai, 
conversa vem, a amiga estranhou-lhe o abatimento, a palidez, os olhos que no 
cessavam de chorar. Marita explicou-se, ensaiando um sorriso que no chegou a 
debuxar-se. Alegou-se gripada. Tinha coriza renitente, coriza brava. E, a propsito, 
indagou se ela julgava possvel encontrar ainda o senhor Salomo, naquele 
instante, depois das dez, na farmcia vizinha. Gostaria de se aconselhar com ele 
sobre um antigripal. Trazia a cabea pesada, os pulmes doloridos. 

A delicada anfitri pediu um momento e correu ao telefone para voltar, quase de 
imediato, dizendo que o farmacutico a esperaria. Estava a sair do planto, que ela 
no se delongasse. 

Marita agradeceu, despediu-se e seguimo-la, passo a passo. 

O senhor Salomo, velhinho calmo e complacente, em cujo olhar se adivinhava 
a brandura dos que se fazem servidores espontneos da Humanidade nos encargos 
que exercem, acolheu-a, solcito. 

Ocultando os intentos recnditos, a recm-chegada falou-lhe do resfriado. 
Afirmou sentir dores, vertigens. O boticrio, de modos antigos, habituado ao ofcio a 
representar-se de mdico para os amigos, nos casos sem maior importncia, pediu



lhe mostrasse a lngua. Examinou-a com a prtica de muitos anos, ao p de 
enfermos, sem achar motivo de preocupao. Aplicou o termmetro. Nenhuma 
febre. 

Sorriu, paternal, e aconselhou-a a ir para a casa, descansar. No deveria aceitar 
servio extra, at aquela hora da noite, comentou bonacho, e acrescentou que ela 
facilmente encontraria remdios para comprar, mas no a sade. Indicou-lhe 
aspirina para a nevralgia, que supunha em ao, e... repouso. 

A jovem recolheu os medicamentos, fez o gesto de quem se inclinava a retirar-
se, satisfeita, e voltou  carga, aparentando recordar uma providncia esquecida. 

 Salomo  disse com decidida curiosidade a transparecer-lhe da voz -, no 
sei se voc est lembrado de Jia, a minha velha cadelinha, que os meninos 
algumas vezes abraaram na praia... 
 Como no? Aquela inteligncia de animal, brincando de esconder!... At 
hoje, os netos imitam o andar de gatinhas que ela inventou... 
 Pois   prosseguiu Marita, afetando pena -, nossa pequena Jia est no 
fim... 
 Que foi? 
 O veterinrio explicou, mas no guardei o nome da molstia, doena 
incurvel. Grita sem pausa, um martrio. 
Continuando, falou para Salomo que o bichinho se tornara problema no 
apartamento. O sndico reclamara vrias vezes. Vizinhos andavam contrafeitos. Os 
pais aguardavam que o veterinrio amigo voltasse de So Paulo, a fim de que se 
aplicasse a eutansia; entretanto, haviam autorizado tanto a ela, quanto  irm, o 
emprego de algum remdio que pudesse trazer o descanso final. Jia estava 
abatida, gasta. Lamentava perd-la, fora-lhe companheira, no Flamengo, desde 
quando se ausentara da escola, simples menina. Ainda assim, aditava, era preciso 
enfrentar os fatos e poupar ao animalzinho maiores sofrimentos. No teria o amigo 
algumas plulas adequadas? 

Ouvira referncias a comprimidos que, administrados em dose alta, propiciavam 
a morte, absolutamente sem dor; no entanto, no lhes conhecia o nome. 

O farmacutico, sem qualquer preveno, confirmou. Sim, talvez tivesse no 
estoque alguns desses anestsicos de elevada potncia e salientou que se a 
cadelinha fora condenada pelo veterinrio no deveria ser conservada. 

Convencido pelas informaes reiteradas da moa, dirigiu-se a pequeno 
depsito, procurando, procurando... 

Nisso, Flix e eu abordamo-lo, mentalmente. 

O paternal benfeitor rogou-lhe examinasse a situao. Fitasse aquela menina, 
assim fatigada e s, alm das dez horas da noite, longe de casa. Despenteada, 
olheiras fundas, sem bolsa, sem agasalho. Ele tambm, Salomo, era pai e av 
sensvel. No desse orientao em torno de venenos. Tivesse cuidado. Sossegasse 
aquela criana abatida com algum soporfero, fazendo-a admitir que levava o agente 
letal. Mentisse por piedade, mostrasse compaixo, adiando entendimento mais claro 
para depois. 

Aquele homem, com toda a certeza, se agrisalhara em rudes experincias para 
adquirir a sensibilidade aguada com que nos assimilou os apelos, porque, de 
imediato, se enterneceu. Voltou-se, discretamente, para o balco e mirou a 
freguesa, pela porta semicerrada, espantando-se ao v-la, num instante como 
aquele em que no se supunha observada. 

Marita afigurou-se-lhe uma pea do museu de cera, amarrotada, inerte. 


Somente os olhos, embora parados, se evidenciavam ativos, em razo das lgrimas 
copiosas. 

Oh! meu Deus  refletiu ele, desconsolado 
, isso no  coriza, isso  dor moral, dor terrvel!...) 

Salomo renunciou  pesquisa iniciada e sacou de largo recipiente de vidro 
alguns sedativos comuns e tornou-lhe  presena. Fingiu despreocupao e 
apresentou-lhe os comprimidos, asseverando: 

 So estes. Para a cachorrinha, no estado de que voc fala, basta um. 
 To violento assim?  perguntou a jovem, diligenciando reanimar-se. 
 Isso  uma bomba de aplicao muito rara. 
Aparentando-se embado, para angariar-lhe a confiana, o boticrio paternal 
alegou, porm, que s forneceria ante a receita mdica. A responsabilidade pesava-
lhe, muito grande. 

Ela, contudo, insistiu. Que o farmacutico no duvidasse. O veterinrio assinaria 

o papel. 
Consultou se poderia adquirir dez unidades. Melhor agir na certa. No 
agentava mais os gemidos ao p do leito. 
Salomo refletiu, refletiu... Voltou ao depsito e escolheu dez comprimidos 
calmantes, de potencialidade suave. Se ingeridos por ela, funcionariam 
beneficamente, prodigalizando-lhe sono reparador. 

Marita agradeceu e despediu-se. 

Salomo recomendou-lhe repouso, juzo. 

Seguimo-la, de perto. 

Vagarosa, atravessou dois quarteires pela frente, ganhou a Avenida Atlntica e 
acolheu-se num bar. 

Solicitou um copo de gua simples, sem gs, em recipiente de plstico. 
Delicadamente atendida, transps o asfalto, pulou do calamento de pedra no lenol 
argenteado de areia e acomodou-se no lugar que lhe pareceu mais escuro... 

Aspirava a morrer, ao p do mar, daquele mar sereno e bom que nunca a 
enjeitara, refletia com lgrimas... Queria partir, contemplando aquele mar que a 
beijava sem malcia... 

Antes do gesto que considerava supremo, recordou a mezinha que no 
conhecera e sups-se mais infeliz. A genitora, no obstante desprezada pelo 
homem a quem se entregara, conseguira um teto para o momento do grande adeus. 
Ela no. Fora maltratada, espezinhada, escorraada. Devia partir do mundo com um 
nome emprestado que detestava, agora... Classificava-se por lixo da terra, supunha 
desafogar a todos, renunciando  existncia. Rememorou as manhs felizes em que 
desfrutara, ali mesmo, tantas vezes, o ar puro que vinha das guas e o agasalho do 
Sol. Parecia rever a massa domingueira, fraternalmente confundida na carcia da 
espuma. Atenta, imaginava-se ouvindo, de novo, a algazarra das crianas, lanando 
a bola ou manejando a peteca... Sim, no possua um lar para morrer, mas 
dispunha da praia, hospitaleira e amiga, que reunia desconhecidos, aos milhares, 
sem nunca fazer-lhes perguntas indiscretas, a todos abraando por verdadeiros 
irmos... 

Lamentou-se e chorou, longo tempo, enquanto Flix e eu espervamos que 
dormisse para enfrentarmos os problemas eventuais. 

Marita despejou os dez comprimidos na boca e engoliu-os de um sorvo com 
gua pura. Em seguida, arrimou-se no encosto do passeio de pedra, qual se se 
dispusesse a meditar... Dos olhos, penderam as lgrimas que ela acreditou fossem 


as ltimas e deixou que a brisa lhe afagasse os cabelos. 

Brando torpor anestesiou-a. 

Consultamos o horrio. Cinqenta e cinco minutos depois da meia-noite. 

Flix orou por instantes. 

No pude compreender, de imediato, se por obrigaes de vigilncia ou se 
correspondendo aos apelos do instrutor, dois rondantes desencarnados 
apareceram, ofertando servio. Flix aceitou, reconhecido, e, enquanto os recm-
chegados passaram a velar, ele e eu empreendemos a tarefa restaurativa. 
Providncias para que a jovem no se afastasse, em esprito, do corpo 
desgovernado, passes reconfortantes nos centros de fora, estmulos variados em 
diversas sees do campo cerebral, insuflaes nos vasos sangUneos. Operaes 
minuciosas e demoradas. 

Acupuntura magntica do plano espiritual, em que o orientador patenteava 
notvel mestria. 

Quase quatro horas foram despendidas, ao fim das quais, Marita repousava 
tranqilamente. 

Reconfortado, via nos olhos do benfeitor a esperana luzindo... Nisso, porm, 
um gari asselvajado largou a rua e caminhou em nossa direo, regando a areia... 
Dando com os olhos na menina adormecida, sentiu-se mordiscado de curiosidade. 
No valeram recursos manobrados pelos vigias. O fanfarro, relativamente moo, 
avanou para ela e sacudiu-a, rouquejando: acorda, vagabunda, acorda, 
vagabunda. 

Feriram-se-me as fibras do sentimento, no s pela criana injustamente 
maltratada, mas tambm pela imensa dor que se estampou no semblante de Flix 
que, pela expresso agoniada, tudo daria para materializar as mos e impedir 
aquele assalto. 

Acorda, vagabunda, acorda, vagabunda... As palmadas estalavam no 
rosto, cujas lgrimas o vento enxugara, piedosamente. 

Frustrados, vimo-la abrir os olhos, estarrecida. Que homenzarro aquele que, 
ao v-la estremecer, no se pejava de comprimir-lhe o busto com as mos 
libidinosas? 

No obstante atordoada, perguntava a si mesma se teria morrido, se estaria no 
inferno renteando com um demnio... 

Intentou gritar, mas a garganta esmorecera. Mesmo assim, ergueu-se, 

aterrada, e aligeirou 

o passo, cambaleante. Superando embaraos, ganhou a calada em que um banco 
orvalhado convidava ao repouso, porm, no dispunha de serenidade para 
assimilar-nos as sugestes. Pisou, atarantada, no asfalto, indiferente aos princpios 
do trnsito... Oscilou, aqui e ali, estremunhada... 
Automveis deslizavam velozes, lambretas estrondeavam em correria. 
Pedestres iam e vinham, diligenciando alcanar o trabalho a distncia ou 
regressando ao aconchego domstico, depois das atividades noturnas. Agitavam-se 
funcionrios da limpeza e veculos ocupados em servios da madrugada. 

Preparava a cidade o dia novo. 

Seguamos a pobre menina, espritos contundidos por amargos pressgios. 

Parecia-me Flix um educador venerando, repentinamente descido a 

saracoteios na via pblica, no propsito de salvar uma criana querida. Entre 
simpatia e respeito, eu acompanhava, penalizado, o grande instrutor que se 
apequenava e se afligia por ajudar... 


Rapazes semi-embriagados na esquina prxima, ao fitarem Marita, vacilante, 
gargalharam, invectivando: tipa de pileque! tipa de pileque! Motoristas de 
passagem gritavam-lhe injrias, e, sem que aparecesse algum brao humano que a 
sustentasse no atordoamento que lhe impunha reitera-dos tropees, foi colhida e 
projetada a pequena distncia, por automvel em velocidade excessiva, qual trapo 
de carne que se arremessasse, violentamente, no cho. 

Ocarro chispou, transeuntes acorreram. 

Moas que regressavam de excurses alegres gritaram, alarmadas. Uma delas 
prorrompeu em choro histrico, sendo contida  fora. No trnsito interrompido, em 
que debalde se buscava positivar responsabilidades, todos os veculos despejavam 
curiosos que se reuniam em torno da jovem, inerme. 

Ocorpo planara, a cabea batera contra a pedra e, em seguida a curta 
reviravolta, cara de bruos. 

Pessoalmente, achvamo-nos atnitos. No contvamos com experincia 
bastante para ocasies qual aquela em que o desastre consumado exigia 
improvisaes. Todavia, entre os clamores de quantos apelavam para o socorro 
policial, irmo Flix sentara-se no asfalto. Aplicando vigorosos estmulos magnticos 
sobre a cabea da menina acidentada, f-la cobrar energias para ganhar, mecanicamente, 
o decbito dorsal, a fim de que respirasse indene de maiores 
dificuldades, atravs de movimentos que, para muitos dos circunstantes, 
significavam esgares da morte. 

Marita aquietara-se de todo. 

Tive a ntida impresso de que a base do crnio se fraturara, mas no me era 
lcita qualquer inquirio. A carga emocional pesava em demasia, para que me 
fossem possveis quaisquer consideraes de ordem tcnica. 

Oirmo Flix, na atitude dos pais, profundamente humanos e sofredores, 
acomodava-se de tal modo que a cabea da jovem se lhe estendia no regao. 
Erguendo as mos sobre as narinas em sangue, levantou os olhos e orou em voz 
alta, que eu destacava da multido em crescente vozerio: 

 Deus de Infinito Amor, no permitas que tua filha seja expulsa da casa dos 
homens, assim, sem nenhuma preparao!... D-nos, Pai, o benefcio do sofrimento 
que nos consinta meditar! O Deus de amor, mais uns dias para ela, no corpo 
dolorido, algumas horas s que sejam!... 
Calou-se o instrutor, como qualquer criatura terrestre, machucada de angstia... 

Logo aps, acenou para mim e recomendou-me demandar o apartamento do 
Flamengo, para observar o que seria razovel obter, no tocante a medidas de 
auxlio. Que eu procurasse Cludio ou Mrcia, que lhes suplicasse apoio, 
compaixo. Ele, Flix, inspiraria algum a telefonar. Os Nogueiras estariam entre 
ele e mim, a fim de que se inteiras-sem do acidente e fossem mentalmente movidos 
 piedade... Permaneceria ali, velando, fazendo quanto pudesse para que a 
desencarnao imediata no se verificasse... Quando eu voltasse do Flamengo, 
reunir-nos-amos de novo... 

Ao v-lo assim humilhado na abnegao de que dava testemunho, arranquei-me 
 pressa, no s para atender  incumbncia, mas tambm para desabafar-me. s 
vezes,  preciso que as lgrimas nos sirvam de confidentes, quando no haja 
algum que nos oua... Tanto trabalho daquele benfeitor sublime para salvar uma 
criana gravada de duras provas!... Tanto sacrifcio de um orientador, cuja grandeza 
se quintessenciara nas Esferas Superiores, para ofertar-lhe os braos; entretanto, o 
malogro de tudo se me afigurava inevitvel... 


Antes que me arremessasse, da Avenida Atlntica para o Tnel Novo, ouvi 
muitas vozes que se elevavam, exclamando: morta!... morta!... Incapaz de sopitar 
as lgrimas, voltei-me para contemplar no rosto do irmo Flix o efeito de semelhante 
notcia, conclundo comigo mesmo: tudo intil, tudo intil!... Mas, 
vigoroso impacto de esperana me banhou o corao!. .. Tive a idia de que fontes 
imponderveis de energia jorravam do firmamento claro e estrelado sobre aquele recanto 
de Copacabana, que o mar acariciava de perto, como a rogar-nos confiana 
em Deus, na linguagem ciciante das ondas!... 

No!... A batalha no arrefecera!... 

Tnhamos conosco o suprimento do amor e a luz da orao!... Nem tudo estava 
perdido... 

O benfeitor, guardando paternalmente nos braos aquela criana desfalecida, 
fixava os olhos nas alturas e, recolhido a profundo silncio, parecia agora falar com 

o Infinito. 
FIM DA PRIMEIRA PARTE 


SEGUNDA PARTE 
Mdium: FRANCISCO CNDIDO XAVIER 



Captulo 1 

Quase cinco da manh, quando nos vimos na intimidade dos Nogueiras. 

A casa jazia quieta. Peas mudas, silncio. 

Agitava-se, porm, Dona Mrcia, sob a colcha leve, cansada de viglia. Varara a 
noite em aflio. Na penumbra do quarto, apoiava o cotovelo no travesseiro e a 
cabea na mo, de pensamento longe. Tinha os olhos empapuados de chorar. A filha 
adotiva no voltara. Ansiosa, esperava que o dia se levantasse... Telefonaria 
para a residncia dos Torres, para saber do regresso de Marina. Se preciso, 
chamaria Terespolis. Queria comunicar-se com algum, desentranhar-se. Sentia 
medo, o corao palpitava catstrofe. 

Consultei-a mentalmente, procurando noticias de Cludio. 

Alcancei-lhe a resposta inarticulada. Supondo reconsiderar os sucessos da 
noite, passou a lembrar-lhe o retorno, horas antes, totalmente embriagado. Chegara 
tateando paredes, esbarrando com os mveis. Inferira que ele tentara afogar o remorso 
em copzios de usque. Ouvira-lhe os vmitos, escutara-lhe as 
descomposturas  porta, mas trancara-se, precavida. Carraspana e ressaca rematando 
a criminosa aventura... No desejava cenas. 

Sbito, quebrou a linha de reflexes em que penetrara. Repeliu-me a influncia, 
convicta de estar reafirmando para si mesma que atingira o ponto final da 
tolerncia... Nada mais com Cludio. 

Convertera a mgoa em nojo. Aspirava a nova atitude, suspirava por desquitar-
se, fugir... 

Deixamo-la engolfada nas alegaes negativas, buscando o aposento dos 
fundos. Nogueira a se despejara em cama de solteiro, completamente equipado, 
sem alijar nem mesmo o palet. 

Estirava-se de lado, a expelir saliva grossa pelo canto da boca, ressonando, 
tranqilo, e, com ele, o vampirizador, relaxado sob os efeitos do lcool. Ambos 
largados, embrutecidos. 

Demorava-me na inspeo, quando a campainha do telefone retiniu. 

Com certeza, irmo Flix obtivera meios de abrir-me alguma porta, a fim de que 
me fosse possvel atuar, favoravelmente. Imprescindvel atacar o problema, advogar 
a proteo de que fora incumbido. 

Tornei  sala. 

Dona Mrcia, em baby-doll, punha o fone ao ouvido, carregada de escuros 
pressentimentos. 

A voz de um homem simples repontou no auscultador: 

 Estou falando com o seu Cludio Nogueira? 
 Na casa dele. 
 Ele est? 
Dona Mrcia reconhecia de todo impraticvel o ensaio de qualquer conversao 
com o esposo, escornado quela hora, e respondeu, positiva: 

 No, no est. 
 Quero falar com ele ou com a madama. 
A interlocutora, experiente demais em trotes e adestrada no jogo das 
convenincias sociais, pressups estar em contacto com algum novo despropsito 
do marido, e indagou, prudente: 

 Com quem estou falando? 
 Com Zeca, lixeiro. Estou em Copacabana, preciso dar notcia de um 

desastre. 

 Que desastre? 
 A senhora  a dona da casa? 
 No sou, mas trabalho aqui. Sou empregada... 
Dona Mrcia receava cair em complicaes, na hiptese de transpor as raias do 
anonimato, e, a vista disso, antes que o desconhecido revidasse, acrescentou: 

 Os patres esto ausentes, mas posso dar o recado. 
 Olhe  gaguejou o informante , o caso  com Dona Marita, a moa da loja. 
-Que h? diga, por favor, que h? 
A senhora Nogueira sentiu-se traspassada de angstia, enquanto, de minha 
parte, conclua que Flix angariara o concurso de um lixeiro prestimoso para 
transmitir a notcia, preparando o terreno que me cabia encaminhar ao plantio da 
compaixo. 

 Diga aos patres que ela foi atropelada... 
 Onde? como? quando? 
 Bem, eu no sei como foi, mas vi que era ela... 
 Agora? 
 H uma boa meia hora, aqui perto, na Avenida Atlntica... 
 Est a? 
 No est, a ambulncia j levou. 
 Mas o senhor tem certeza? 
 Tenho toda a certeza... Ela estava sem bolsa, ningum a reconheceu... Mas 
eu conheo Dona Marita, foi sempre amiga de minha mulher desde que veio para 
c. Minha mulher  empregada no edifcio da loja... Coitada de Dona Marita, moa 
to boa! Ela  que conseguiu lugar para minhas duas filhas na escola!... 
 Mas, escute  Dona Mrcia cortou as referncias, terrivelmente chocada , 
como est ela? 
 Dizem que morreu... 
Embora calejada contra as emoes, a esposa de Cludio abandonou o fone e 
afastou-se, plida. 
Arremessou-se  cama e agarrou a prpria cabea, entre as mos, julgando 
enlouquecer... 

 Morta! Marita morta!  refletiu, atribulada. 
Recordou o ultraje que a pobre menina experimentara naquela noite que o dia 
nascente esfumara, qual se expulsasse um pesadelo, e a mente divagou... Araclia, 
a servidora e amiga... 

Vinte anos antes. O suicdio!... E agora a filha, na mesma tragdia, com o 
mesmo homem... 

Decerto, Marita, envergonhada, procurara a morte. Inexperiente, sucumbira. 
Ajustava argumentos por deduo. Crescina falara-lhe de encontro com Gilberto, no 
entanto, apanhara Cludio em desconcerto flagrante. Tudo indicava a intromisso 
dele em algum arranjo dos jovens, para infligir  filha o imperdovel insulto... 
Indubitavelmente, a desventurada menina preferira morrer... 

Nesse entretempo, intervim. Assimilei-lhe os pensamentos de simpatia e fi-la 
meditar nas tribulaes de Marita, dentro da noite, esforando-me por inclin-la  
compaixo... Largasse o marasmo, sacudisse Cludio, chamasse, implorasse... Se 

o marido no estivesse em condies de compreend-la, que ela prpria sasse  
rua... Procurasse a moa... Telefonasse  Polcia, refletisse nela, como sendo sua 
prpria filha... Corresse ao Pronto Socorro da Zona Sul, inquirisse funcionrios, 

ouvisse mdicos, visitasse a morgue... Algum auxiliaria, encontraria a criatura 
que a Providncia Divina lhe pusera nas mos... Quem saberia? Talvez que ela 
ainda estivesse nas raias do fim a esperar-lhe as mos piedosas, como quem 
aguarda uma bno!... 

Dona Mrcia ouviu mentalmente. Ao recolher-me as sugestes, imaginou a filha 
estendida no necrotrio, comoveu-se e chorou... 

Entretanto, a senhora Nogueira no era pessoa que renunciasse a peso e 
medida, em matria de questes sociais e domsticas. Reagiu para logo, crendo-se 
piegas. No queria afundar-se em sentimentalismo, confessou, na suposio de que 
falava consigo mesma. Era necessrio sopesar prs e contras. 

Do pesar ao clculo, mediaram apenas alguns instantes. 

Efetivamente, lastimava Marita e enojava-se de Cludio, monologou, todavia, 
era me. Nada de alhear-se ao destino da filha. Marina aprumava-se. Os Torres 
eram ricos, talvez riqussimos. 

Ambas as moas disputavam Gilberto. Afinal, a morte de Marita surgia por 
soluo. Assim que pudesse chamar o esposo a brios, combinariam plano certo 
Levantariam a hiptese de acidente, inventariam verso plausvel. Ela prpria 
afirmaria que concedera  jovem permisso para pernoitar em casa de parente 
enfermo, recomendando-lhe o regresso to cedo quanto fosse possvel para a 
obteno de notcia urgente. 

Indispensvel maquinar situaes, engenhar detalhes. Os chefes da loja, 
amigos de Marita, se interessariam pelos fatos. A imprensa tomaria ateno. Cabia-
lhe preparar-se a fim de facear reprteres e fotgrafos. Pensou no modelo azul com 
que se apurava na representao a funerais e vasculhou a memria para saber 
onde colocara, distrada, os culos escuros. 

Quando a manh se adiantasse, despertaria o esposo, com vista ao ajuste. 
Conversariam seriamente. At l, fantasiaria a histria convinhvel ao pblico, em 
funo da felicidade e do futuro de Marina. Se a outra estava morta, para que 
preocupar-se? Importava-lhe agora a filha, somente a filha... E, depois que a filha se 
casasse.. nada de Cludio. No se sentia intil, mas andava cansada de dar no 
batente, suportando inibies e contrariedades pr um esposo que, desde muito, se 
lhe fizera detestvel. No se escravizaria. Recebera um convite de Selma, 
companheira de infncia, para negcio que considerava lucrativo, na Lapa. Na 
frente um caf, acompanhado de aperitivos e guloseimas e, nos fundos, quartos de 
aluguel... 

Reconhecendo que Dona Mrcia se imobilizava, mentalmente, em digresses 
esconsas, tornamos presena de Flix para a obteno de roteiros precisos. 

Acomodada num leito de emergncia, Marita figurava-se em coma. 

Flix, assistido agora por dois mdicos desencarnados, em servio na grande 
instituio socorrista, se mantinha sereno, apesar da tristeza que lhe velava o 
semblante. 

Acolheu-me, paciente. Ouviu-me. 

De posse das informaes de que me fizera mensageiro, recomendou-me 
esper-lo alguns minutos. Sairamos,  cata de reforo. 

Enquanto isso, auscultei a jovem acidentada, que jazia inconsciente, em terrvel 
depresso. 

Escassas reaes dos centros nervosos, anoxemia, sensveis alteraes dos 
capilares, leses no peritnio. Os esfincteres descontrolados davam passagem a 
lquidos e excrementos que empastavam a veste. 


Flix mobilizou as providncias cabveis e rogou aos colegas desencarnados 
nos substituissem por instantes. 

Demandamos a residncia de Cludio. 

A caminho, notei que o benfeitor, em silncio, adensava a prpria forma, 
transfigurando-se na apresentao. A ocorrncia, que eu conseguia apenas depois 
de paciente elaborao mental, obtinha-a Flix com esforo ligeiro. Rpidos 
momentos e imprimiu ao corpo espiritual novo ritmo vibratrio. 

O instrutor assumira as caractersticas de um homem vulgar. 

Por que a transformao? 

 Andr  respondeu, assimilando-me os pensamentos , ningum pode 
fazer tudo seno Deus. Voc  tambm mdico e no ignora que, em certas 
ocasies,  imperioso pedir remdio ao pilriteiro. Na Terra, s vezes, para socorrer 
um santo  necessrio dosar um veneno. Marita, em sbita decadncia fsica, 
precisa agora dos prstimos de algum que a ame infinitamente. Chegou a hora de 
esmolar para ela o socorro dos que a feriram amando... 
A voz do amigo carregava-se de pesar; contudo, no nos era possvel comentar 
a filosofia que enunciava, de vez que atingramos o prdio em que se dependurava 

o ninho dos Nogueiras, banhado pelo sol recm-vindo. 
Subimos. 
Qual aconteceu comigo na vspera, o instrutor bateu  porta semicerrada. 
Aps reiterados chamamentos, Moreira veio atender, como qualquer ser 
humano estremunhado. 

No me via, porqanto de tempo no dispusera eu para a metamorfose 
necessria, mas, renteando com Flix, desenrolou comprida fieira de insultos, que o 
benfeitor recebeu com humildade. 

Quando terminou, algo desenxabido pela ausncia de qualquer resposta que lhe 
alimentasse a ira gratuita, Flix comunicou-lhe o acidente. Sabia-o interessado na 
proteo da moa, rogava-lhe amparo. Diante da incredulidade com que era 
acolhido, solicitou-lhe fizesse a gentileza de verificar se a menina amanhecera no 
lar. 

Moreira correu ao interior e voltou, coando a cabea. Sim, atenderia ao apelo, 
mas no despertaria o dono da casa enquanto no averiguasse a realidade. 

Carrancudo, ladeou o instrutor, sem dizer palavra, do Flamengo ao 
estabelecimento de socorro pblico, mas, topando a moa, entregue  
miserabilidade orgnica, o peito se lhe explodiu numa torrente de lgrimas, 
semelhante a rocha que se partisse de repente para revelar uma fonte. . 

Rodou sobre os calcanhares e arrancou-se qual flecha. 

Flix, confortado, explicou que, pelo visto, Cludio no tardaria, informando-me 
de que, segundo lhe era lcito ajuizar, Marita conseguira pequena moratria. Mais 
alguns dias no corpo amarfanhado, quinze a vinte no mximo... Tempo de meditao, 
preparo valioso ante a vida espiritual... O crebro seria protegido, mas no 
recuperado. Desorganizara-se. Dentro de algumas horas, a moa poderia pensar e 
ouvir com regularidade, reaver alguns recursos da sensibilidade e enxergar imprecisamente; 
entretanto, no mais contaria com o centro da fala. Naquele estado, 
aditou ele, permaneceria facilmente, na esfera fsica, por muito tempo ainda, mas o 
peritnio sofrera contuses de efeitos irreversveis. No valeriam antibiticos, por 
maior fosse a carga. Ainda assim, sentia-se reconhecido aos supervisores 
espirituais, que haviam advogado a pequena dilao. As horas finais ser-lhe-iam 
preciosas. Desfrutaria o ensejo de aprontar-se para a renovao, enquanto que 


Cludio, Mrcia e Marina talvez reconsiderassem caminhos. 

Arrecadava-lhe o otimismo, comovidamente. Transcorridos pouco mais de 
cinqUenta minutos, Cludio, seguido por mdico que se lhe afeioara  famlia e 
que conhecia Marita, desde muito, deu entrada no posto de assistncia. Mrcia, sob 
a presso de Moreira e interrogada pelo marido, liberara as informaes de que 
dispunha. 

O facultativo recm-chegado deixou o bancrio no vestbulo para efetuar a 
inspeo, identificando a menina sem maiores dificuldades. Feito isso, tomou 
providncias, junto aos colegas, para que a Jovem fosse imediatamente transferida 
para o Hospital Central dos Acidentados, com vistas ao tratamento urgente e 
minucioso. E depois de ligaes telefnicas, no preparo da instalao necessria, 
determinou as medidas inadiveis. Que limpassem Marita, que se lhe purificasse o 
ambiente, que mesmo acreditada em coma fosse tratada com o mximo apreo. 

Seja dito, no entanto, que no se registrara, ali, qualquer desleixo. As condies 
precrias da moa exigiam repouso, quietao. Justo observ-la, antes de qualquer 
alterao suscetvel de agravar-lhe os constrangimentos. 

Com efeito, iniciada a laboriosa remoo que Cludio e Moreira seguiram, de 
longe, a cabea, pendida para trs, impeliu o sangue a movimento retrgrado e 
surgiu a possibilidade de asfixia. 

lix controlou, quanto pde, as mos dos condutores, e, to logo a vimos 
ajustada em novo leito, vali-me do socorro magntico de profundidade que as 
circunstncias exigiam. Sentei-me, de maneira a guardar aquele corpo abatido em 
meus braos, envolvendo-o no meu prprio hlito, numa operao que nos 
permitiremos nomear aqui por adio de fora, cujos resultados se destacam 
surpreendentes, quando a criatura retida no envoltrio fsico se mostra nos ltimos 
lances da resistncia. 

Nesse nterim, Flix aconselhou que eu me adensasse na apresentao, a fim 
de que Moreira me enxergasse os exerccios. Conservava a esperana de v-lo 
oferecer-se para manter a respirao da moa em boa ordem. 

Orei, empenhando-me na consecuo do objetivo, e quando Nogueira e o 
acompanhante vararam a porta do quarto em que a administrao nos localizara, o 
vampirizador deitou-me olhar espantadio. 

Cambalearam sensibilizados, aflitos... 

Incoercvel emoo me tomou a alma. 

Cludio abeirou-se, trmulo, da filha e rompeu em soluos. 

Tanto quanto me era dado perceber, aquela hora significava para ele doloroso 
balano de conscincia. 

Instintivamente, tornou  infncia e  mocidade... Lembrou as leviandades 
primeiras. 

Irreflexes do passado corporificaram-se-lhe na memria. Enfileirou na 
imaginao os desvarios sexuais das trilhas percorridas. Cada jovem que iludira, 
cada mulher de cujas fraquezas abusara repontavam-lhe na tela mental, como que 
a lhe perguntarem pela filha que a vida lhe trouxera... 

Aquele homem que me inspirava sentimentos contraditrios e de quem teria 
desejado distanciar-me, tocado de averso, me insuflava agora um enternecimento 
que somente as lgrimas exprimiam!... 

Perante a enfermeira impressionada, Cludio ajoelhou-se e, com ele, ps-se 
Moreira genuflexo... Em choro convulso, o pai alisou aqueles cabelos despenteados, 
contemplou a fisionomia de cera que a morte parecia estar modelando, mirou a face 


e os lbios intumescidos por equimoses, aspirou o ar deteriorado que se lhe 
exalava dos pulmes e, mergulhando a cabea nos lenis, gritou, vencido: 

 Ah! minha filha!... minha filha!... 
Quase no mesmo instante, a fronte de Moreira vergou, como se esmagada de 
sofrimento... 
Ambos jaziam, ali, debruados, rente aos meus joelhos, com a mesma rendio 
dentro da qual Marita se me conchegava ao regao. 
Reconheci que a Providncia Divina, em seus desgnios, no me aproximava 
unicamente da vitima. Os verdugos tambm pediam amor. Segurando a moa 
inerme,  altura do peito, afaguei-os com a destra, sustentando-me em prece... E a 
prece clareava-me o pensamento, corrigindo-me a viso!... Sim, tentando consolar 
aqueles dois homens que o remorso dobrava em tormento indizvel, refleti nos meus 
prprios erros e compreendi os propsitos da vida!... No!... Eles no eram os 
estupradores, os obsessores, os inimigos, os carrascos que eu detestara na 
vspera!... Eles eram meus amigos, meus irmos!... 


Captulo 2 

Confrangido, mas sereno, Flix acercou-se de Nogueira, administrou-lhe 
energias de refazimento e, aps levant-lo, despediu-se, asseverando que voltaria. 

Que no me inquietasse, falou, bondoso. Estaramos juntos, enviaria 
cooperadores, tomaria providncias. 

Respondi, sossegando-o. Afeioara-me quela menina que, afinal, era nossa 
filha em esprito. 

No, no a deixaria na dura fase da desencarnao. 

Entrementes, Cludio afastou-se, buscando o especialista. 

Moreira, que me observava desde a chegada, fitava-me agora com simpatia, 
que me empenhava em conservar. 

Em dado momento, interpelou-me. Amaciou o tom de voz e disse reconhecer-
me. Queixou-se. 

Vira diversos irmos desencarnados, avizinhando-se da porta e acenando com 
asco. 

Apontavam Marita com desprezo, referiam-se a figuraes despudoradas, 
traavam gestos no ar, sugerindo quadros obscenos, e um deles chegara ao 
desplante de abord-lo, indagando quem era aquela mulher que transpirava carnia. 

Tratei de consol-lo. Aquilo passaria. Espervamos companheiros, abastecidos 
com os recursos necessrios, a fim de que isolssemos o recinto. 

Satisfazendo-lhe as perguntas, esclareci que, sem querer, assistira ao desastre 
e condoera-me daquela moa sozinha, jogada no asfalto. 

Quis saber minudncias; contudo, temendo mbaraos, prometi-lhe que, logo 
aparecesse oportunidade, colheria informes seguros para ns ambos. 

Tentando harmoniz-lo com as exigncias do servio que nos defrontava, 
roguei-lhe permisso para cooperar. Ficaria contente se ele me aceitasse o 
concurso, ali, ao p daquela jovem que a provao humilhava. Colhera alguma 
experincia em hospitais e poderia ser til. 

Moreira comoveu-se e aprovou a idia. Sim, aclarou, devotava-se a ela, com 
ardente afeio, e me reconhecia o desinteresse em servi-la. Contaria comigo, 
reportou-se a compensaes. 

Conhecia meios de auxiliar-me, defender-me-ia, ser-me-ia companheiro fiel. 

Em seguida, examinou curiosamente o processo pelo qual a respirao de 
Marita era auxiliada e pediu-me instrues. Queria substituir-me. E com tanta 
diligncia e humildade se colocou no meu posto que, em minutos breves, atendia  
manuteno da jovem, com segurana superior quela que me esforava em 
cultivar. 

Procurei adestr-lo. Obedeceu docilmente e guardou nos braos aquele corpo 
amarrotado, que se transfigurara num fardo de dor, salpicado de fezes. O 
perseguidor da vspera, tocado no mago, enlaou-a com a dignidade de um 
homem piedoso que socorre uma irm, empregando-se no trabalho de instilar-lhe 
energias e reaquecer-lhe os pulmes com o prprio hlito. 

Sensibilizado, ao identificar-lhe a transformao, conclu que nem sempre  o 
salva-vidas, tecnicamente construdo, a pea que assegura a sobrevivncia do 
nufrago, e sim o lenho agressivo que teimamos em desdenhar. 

Retirei-me, por instantes,  busca de Cludio e encontrei-o em compartimento 
prximo. Valia-se do intervalo, em que era constrangido a esperar pelo mdico, para 
telefonar. 


A voz inconfundvel de Dona Mrcia vinha do outro lado. O esposo falava, 
sob traumatismo evidente; ela, no entanto, no respondia fora da destreza mental 
que lhe conhecamos. Folgava em saber que a filha estava ainda viva. Melhor 
encerrassem o assunto. Se a Medicina j estava em cena, desistia de aumentar as 
aflies que lhe inavam a casa. 

Nogueira passou do noticirio s splicas. Seria conveniente que ela viesse 
amenizar a situao. 

A senhora, porm, mencionou compromissos inadiveis. Estava de sada para a 
aquisio de linhas, destinadas  confeco de vrios enfeites encomendados por 
Marina. Compreendia que a moa talvez no se recuperasse; entretanto, inclinava-
se a crer que tudo no passava de episdio sem importncia. Marita sempre fora 
exagerada em questes de sensibilidade, gostava da ostentao de ridculo. Alm 
disso, se estivesse to mal quanto o marido supunha, ele, na condio de pai, se 
achava lealmente junto da filha, eximindo a ela, Dona Mrcia, de sacrifcios maiores 
do que aqueles que j lhe sobrecarregavam os ombros. Fez chiste, mascarando de 
sarcasmo o desapontamento com que recolhia a informao de que a filha adotiva 
no estava morta, impelindo todos os constrangimentos da famlia  estaca zero. 
Recordou ao esposo que o Rio no era interior e que doente algum se podia dar ao 
luxo de contar com mais de uma pessoa, acalentando o leito, numa capital que 
excedia o tamanho de Babilnia. Declarou-se cansada de bobagens e arrufos entre 
jovens namorados e afirmou preferir tricotar a fazer adulao para uma filha que no 
era dela e que sempre timbrara em loucura e faniquito. Rematava, aconselhando 
para que no se complicassem com despesas. Que ele ouvisse os mdicos e removesse 
a menina, quanto antes, para casa. 

Nogueira, desolado, insistiu, pintando o quadro em que se contristava; 
entretanto, a senhora encerrou a conversao, atirando-lhe uma frase que lhe 
despedaou as ltimas esperanas: 

 Bem, Cludio, tudo isso  problema seu. 
Nogueira discou para a residncia dos Torres. 
Marina ainda no voltara. 
Desacorooado, chamou para a casa do chefe. Atendido, prestou sucinto 
relatrio da apertura, indagando sobre a concesso de frias no banco. O diretor 
sossegou-o. Compreendia a emergncia, tambm era pai. No apenas despacharia 
favoravelmente a petio, mas se colocava igualmente ao dispor dele para qualquer 
eventualidade. 

Tornando ao aposento onde Moreira velava, entrou em conversao com a 
facultativo de servio. 

O mdico registrou-lhe a inquietude e compadeceu-se. Asseverou que era cedo 
para um pronunciamento mais claro. Empreenderia exames, prescrevera 
transfuses de sangue e antibiticos, estudaria as reaes. Mesmo assim, no 
dispensaria a considerao de um neurologista, na hiptese de surgirem 
complicaes, em vista da pancada forte, havida no crnio. 

Nogueira concordou e, humilde, solicitou permisso para instalar-se junto da 
filha. No se queixaria de preos, advogava para ela o melhor tratamento. 

O clnico prometeu cooperar, favorecer. 

Da a instantes, Marita foi novamente transferida de quarto, onde Cludio, 

Moreira e eu passamos a intimidade mais ampla. Aqueles dois Espritos, que se 
avalentoavam por bagatela, manifestavam -se agora diferentes, submissos. 
O esposo de Dona Mrcia trazia os olhos marejados de pranto. Partira-se-lhe a 


alma. A convico de que a filha tentara o suicdio, por culpa dele, requeimava-
lhe o corao, qual lmina esfogueada que se lhe enterrasse no peito. De tantos 
escndalos escapara, de tantas proezas se ocultara, impassvel; entretanto, aquele 
corpo abatido que a morte espreitava parecia encerrar-lhe o destino. Sentia-se 
arrasado, a ponto de no lhe importar nem mesmo a confisso de todos os delitos 
da existncia, em praa pblica... Delitos que supunha para sempre esquecidos, 
nos escaninhos do tempo, assomavam-lhe agora  lembrana exigindo reparao... 
Sobretudo, Araclia!... A genitora de Marita que ele prprio aniquilara, a peso de 
sarcasmo e ingratido, parecia alcan-lo pelo tnel da conscincia... A imagem 
daquela moa inexperiente da roa crescia-lhe por dentro. Lastimava-se, acusava, 
perguntava pela filha, pedindo-lhe contas!... 

Conjeturava-se Nogueira s portas da loucura. No fosse a resoluo de 

recuperar a filha 
prostrada, usaria o revlver contra si mesmo. Afigurava-se-lhe o suicdio como 
sendo a vlvula de livramento. Adot-lo-ia, raciocinava, taciturno. Se Marita 
morresse, no desejava sobreviver. 

Cerrar-lhe-ia os olhos e destruir-se-ia sem compaixo. Ao passo que as 
reflexes amargas lhe obscureciam a mente, colava-se Moreira aos pulmes da 
triste menina, num espetculo comovedor de pacincia e dedicao. De minha 
parte, assinalava-lhe o devotamento sincero, os propsitos puros. O corpo injuriado 
no lhe inspirava repugnncia. Enlaava Marita com a venerao de quem se consagra 
a uma filha padecente para quem todos os cuidados e todos os carinhos so 
sempre escassos... De quando em quando, passava uma das mos no rosto para 
enxugar as lgrimas... 

Aquele Esprito que eu conhecera spero e agreste amava profundamente, 
porque  preciso amar a algum, com extremada ternura, para sorver-lhe com alegria 
o hlito ftido e acariciar-lhe a pele manchada de excrementos, com o enlevo 
de quem preserva um tesouro imensamente querido ao corao... 

O silncio era apenas cortado, de vez em vez, pelos movimentos da enfermeira 
que vinha fiscalizar o soro a descer no brao, gota a gota, ou aplicar injees, 
segundo os avisos mdicos. 

O dia avanava. Trs da tarde. Calor. Para Cludio, as horas assemelhavam-se 
a correntes que arrastava no crcere do remorso. A noo de isolamento agigantouse-
lhe no esprito. Voltou ao telefone e procurou por Marina. 

A filha atendeu. Palestraram. 

Cientificara-se do acidente por Dona Mrcia; no entanto, esperava que a 
ocorrncia desagradvel no passasse de susto. No, no lhe era possvel 
comparecer no hospital. Dona Beatriz, que passara a considerar igualmente por 
me, piorara muitssimo. Aguardava-se-lhe o fim, a qualquer hora. Que o pai a 
desculpasse; entretanto, admitia que a irm devia estar satisfeita ao saber-se 
assistida por ele. Impossvel pedir mais. 

Nogueira regressou ao quarto, esmagado pelo desnimo. 

Ningum para migalha de apoio, ningum a entender-lhe o suplcio moral. 

s cinco, no entanto, algum apareceu, um velho que solicitara a recomendao 
de clnico prestimoso. 

A ss com Nogueira, apresentou-se. 

Era Salomo, o farmacutico. 

Declarou-se amigo da moa acidentada. Estimava-lhe a lhaneza de trato, 
apreciava-lhe as gentilezas. Vizinho da loja, partilhava com ela o caf, quando 


obrigado ao lanche fora de casa. 

Surpreendera-se com a notcia do atropelamento e deliberara visit-la, mesmo 
porque acreditava tivesse sido um dos ltimos amigos que Marita ouvira na vspera. 

E, diante da curiosidade e do reconhecimento do interlocutor, narrou quanto 
sabia, pormenor a pormenor. 

Evidente, concluiu, que alguma desiluso recndita lhe ditara o gesto 
desesperado. Recordava-se, perfeitamente, de lhe haver notado o pranto que ela, 
em vo, buscava disfarar. Teria ingerido os soporficos que lhe dera, e, 
identificando-lhes o carter inofensivo, certamente que se projetara sob um 
automvel em disparada... 

Cludio ouviu, chorando... Intimamente, aceitou a hiptese. Sem dvida, a filha 
no pudera sobreviver ao insulto de que ele prprio se acusava. Aquele 
desconhecido confirmava-lhe as impresses. Refletiu no suplcio moral da jovem 
humilhada, antes de se lanar ao gesto infeliz, sentiu-se o mais abjeto dos homens, 
no arrependimento que lhe azorragava todas as fibras da conscincia, e agradeceu 
ao interlocutor, sofreando os soluos. Abraou Salomo, num impulso de louvvel 
sinceridade, e salientou que ele, o visitante gentil, era o verdadeiro e talvez o nico 
amigo daquela criana que procurara a morte e que tudo fariam para reaver. 

O farmacutico apiedado arriscou um alvitre. Confessou-se esprita e assinalou 
que os passes, sob a cobertura da orao, beneficiariam a menina prostrada. 
Ignorava quais os princpios religiosos de sua famlia; entretanto, possua um amigo, 

o senhor Agostinho, a quem poderiam recorrer. Confiava na prece, no amparo 
espiritual. Se Cludio permitisse, busc-lo-ia. Nogueira aceitou com humildade. 
Afirmou-se sozinho. No lhe seria lcito recusar um auxlio que lhe era oferecido 
com tanta espontaneidade. Apenas admitiu que se via na obrigao de rogar o 
consentimento das autoridades. 
O facultativo, que lhes atendeu ao chamado, ouviu a petio. Homem 
experimentado em angstias humanas, fitou Marita, no s com a inteligncia do 
tcnico que observa um aparelho, a caminho do desmonte para verificaes finais, 
mas tambm com o sentimento de um pai afetuoso, e asseverou que Cludio 
dispunha do direito de prestar  filha a assistncia religiosa que desejasse, e que, 
em se abstendo de ferir o regulamento da instituio, fora do quarto, ali estava como 
em sua prpria casa. 

Compadecido, ele mesmo favoreceria a vinda de Salomo com o esprita que 
indicasse. E, s oito da noite, o boticrio de Copacabana entrou com o amigo que 
carregava pequeno pacote, em que se encontrava um livro. 

Nogueira espantou-se. Aquele homem, que o saudava fraternalmente, e que lhe 
era apresentado por senhor Agostinho, freqentava o banco, onde se alinhava entre 
os clientes mais respeitados. Conhecia-lhe a posio de comerciante distinto, conquanto 
no lhe desfrutasse a intimidade. Entretanto, se o recm-chegado o 
reconhecia, no dava qualquer mostra. 

Interessou-se delicadamente pela moa e inteirou-se de todas as minudncias 
do desastre, com as atenes de quem escuta a prpria famlia. 

Logo aps, entre Cludio e Salomo, orou, emocionado. Suplicou a bno do 
Cristo para a menina atropelada, qual se expusesse, diante de Jesus invisvel, uma 
filha profundamente cara, e, em seguida, ministrou-lhe passes de longo curso com o 
devotamento de quem lhe transferia as prprias foras. 

Cooperamos com ele, sob o olhar penetrante de Moreira, que tudo anotava 
como que sequioso de aprender. 


A operao, saturada de agentes reconstituintes do plano fsico, infundiu 
grande bem  moa, melhorando-lhe a condio geral. Relaxou-se-lhe mais 
intensamente o esfncter da mico, a respirao desoprimiu-se e conseguiu entrar 
em sono calmo. 

Cludio solicitou a presena da enfermeira e, enquanto a servial modificava a 
rouparia, os trs conversaram em saleta prxima. Informado, ento, de que 
Nogueira jamais tivera contacto com princpios religiosos, Agostinho ofereceu-lhe o 
livro que trazia, um exemplar de O Evangelho segundo o Espiritismo, e prometeu 
voltar na manh seguinte. 


Captulo 3 

Nogueira, reinstalado no aposento, ensimesmou-se, refletindo, refletindo... 

L fora, a noite de chumbo e, com ele, o silncio, apenas entremeado pela 
respirao sibilante da filha... 

Se fosse unicamente Salomo o interventor inesperado!  pensava, cismarento 
, e talvez no se permitiria maior deteno no assunto. Aquele vendedor de 
remdios que lhe confidenciara os sucessos da noite, inspirando-lhe, alis, gratido 
e simpatia, parecera-lhe excelente pessoa; entretanto, na simplicidade bonachona 
com que se apresentava, poderia no passar do crente de boa-f, lamentavelmente 
emblocado na superstio... Agostinho, no entanto, agitava-lhe o esprito. 

Comerciante abastado e instrudo, no se deixaria enrolar em tapeaes. 
Conhecia-lhe a agudeza de raciocnio, a honestidade. Alm disso, possuiria ocupaes 
mais vantajosas em que aplicar ateno e tempo. 

Que doutrina aquela, capaz de induzir um cavalheiro dinheiroso, a entrar em 
prece, num quarto de hospital, chorando de compaixo por arrasada menina,  beira 
da sepultura? Que princpios impeliam, assim, um homem educado e rico a esquecer-
se, no socorro aos infelizes, a ponto de tocar-lhes as matrias fecais, imbudo 
daquele amor, que somente os pais conhecem nas entranhas do corao? 

Fitou Marita que dormia, calma, e recordou os dois homens abnegados que lhe 
haviam trazido alvio, sem nada perguntar... Ele que jamais se aproximara de 
ensinamentos religiosos, habitualmente tratados por ele com manifesta desconsiderao, 
acolhia-se agora a vasta srie de porqus. 

Abafado, agoniava-se com a sede de algo... Sem o apoio fludico de Moreira, 
que dedicava todas as energias  moa em decbito, lembrou o cigarro, mas dizia 
de si para consigo que no era mais o cigarro o objeto que desejava. 

Aspirava a sair, correr ao encontro de Agostinho e Salomo, a fim de perguntarlhes 
pela f em Deus. Anelava inteirar-se de como conseguiam entesourar tanta 
crena. Ambos haviam suavizado a opresso que lhe supliciava a filha... Naquele 
instante, indagava a si mesmo se no era igualmente digno de piedade. Marita 
repousava no sono das vtimas, que a justia resguarda na paz inviolvel da 
conscincia, enquanto que ele se atormentava na viglia dos rus!... Reconhecia-se 
enfermo da alma, nufrago que afundava no redemoinho do desespero... Queria 
agarrar-se a algum, a alguma coisa. Singela raiz de confiana mant-lo-ia  
margem da queda total!... A solido asfixiava-o. Tinha fome de companhia. 

Sugeri-lhe a leitura. Que ele abrisse o volume com que fora brindado. O livro 
conversaria em silncio, ser-lhe-ia companheiro. No se comprometesse a digerir-
lhe, de vez, todas as instrues. 

Consultasse trechos, aqui e ali. Respigasse idias, selecionasse conceitos. 

Assimilou-me a induo e tomou a brochura, compulsando-a. Ainda assim, 
tentou reagir. 

Acusava-se incapaz, inquieto. No retinha a menor parcela de serenidade para 
ler com aplicao ao assunto. 

Insisti, porm. 

Os dedos nervosos tatearam o ndice. Relanceou o olhar, atravs das legendas. 
No captulo 11, esbarrou com um item sob o ttulo: Caridade para com os 
criminosos. Aquelas slabas invadiram-lhe o crebro atribulado quais gazuas de 
fogo. Sentia-se descoberto por tribunal invisvel. Sim!  monologou, desconsolado 

  imprescindvel examinar-se. Na prpria conceituao, qualificava-se por 

malfeitor, foragido da grade. Durante o dia inteiro fora visto e acatado, ali, sob 
aquele teto, como sendo pai carinhoso, mas sabia-se estuprador, filicida... 

Carregava a dor irremedivel de haver impelido a filha querida  loucura e  
morte!... Que condenaes enfileiraria aquele volume contra ele? Merecia escutar a 
prpria sentena, junto daquela que lhe cara sob o golpe aniquilador... 

Procurou a folha indicada e oh! surpresa!... O livro no lhe amaldioava a 
presena. Leu e releu, chorando, aquelas frases que ressumavam brandura e 
entendimento. Identificou-se  frente de um apelo  fraternidade e  compaixo, que 
no pintava os delinqentes por seres infernais, ausentes da rbita do Amor Divino. 
A pequena mensagem concitava  tolerncia e terminava rogando preces, a 
benefcio dos que sucumbem na voragem do mal. 

As lgrimas borbotaram-lhe mais profusamente dos olhos!... Aquelas palavras 
chamavam-no a razo. Percebia que o mundo e a vida deviam estar banhados de 
profunda misericrdia. 

Classificava-se por matador e achava-se ali, reconsiderando o prprio caminho, 
com suficiente lucidez para analisar-se e pensar... Aquele primeiro contacto com as 
verdades do esprito fendia-lhe, de alto a baixo, a cidadela do atesmo. Com a 
sofreguido do sedento que atravessa longo deserto, mortificado de sede, atirou-se 
aos textos, de cujos caracteres ideias esclarecedoras e balsmicas vertiam, 
sublimes, lembrando torrentes de gua pura. Esquadrinhou vrios temas... 

Adquiriu conhecimentos rpidos acerca da reencarnao e da pluralidade dos 
mundos, meditou nas maravilhas da caridade e nos prodgios da f, atravs das 
chamas imortais do Cristianismo que ali renasciam para ele, reaquecendo-lhe o 
corao!... 

Quando olhou o relgio, os ponteiros marcavam duas da madrugada. 

Varara quatro horas, mergulhado no livro, sem perceber. Sentia-se outro, O 
crebro clareara-se, crivado de pensamentos renovadores que lhe suscitavam 
ardentes inquiries. Aquela era uma doutrina que lhe permitia sentir e indagar 
livremente, qual filho no regao de me... Em verdade, conjeturava, se Deus no 
existisse, se no houvesse uma vida, alm da Terra, por que se entregava, daquele 
modo, a to funda compuno? Se tudo na existncia acabaria em animalidade e 
lodo, que razes lhe ditariam o suplcio moral, diante da filha, que lhe inspirava 
contraditrios sentimentos? 

Amava tanto aquela menina desventurada!... Por que no lograra sustentar-se, 
na posio de pai, infeno aos impulsos do sexo? que foras o haviam arrastado 
at  condio do verdugo em que se aviltara? A idia da reencarnao relampejou-
lhe na cabea. Ele e ela remanesciam de experincias anteriores... 
Indubitavelmente, algemada a dominadoras alucinaes afetivas, teriam vivido no 
passado, padecido e chorado juntos!... Aquela devoo por Marita era para ele 
comparvel ao iceberg que mostra reduzido fragmento, ocultando o peso enorme na 
vastido das guas... Naquele momento, algo lhe dizia, na acstica do esprito, que 
ele, Cludio, a trouxera, de novo, para o mundo, atravs da paternidade, a fim de 
orient-la com limpeza e abnegao!... A sabedoria da vida restituira-lhe o carinho, 
no sorriso filial, por algum tempo, para que retificasse os erros do tirano amoroso 
que deveria ter sido em pocas passadas e as paixes cujos rescaldos lhe 
calcinavam agora o corao... As realidades do destino se lhe alteavam do 
pensamento, belas e difusas, como o brilho dos raios de luz ao fundirem a nvoa... 

Ainda assim, no se desculpava. Reconhecia ter agravado os prprios dbitos. 

Entrevendo as realidades da vida Alm-Tmulo, apelava para os amigos que 


vira partir!... Que se apiedassem dele e de Marita! que suplicassem a Deus para 
trocar-lhe a existncia pela dela... 

Ele que se classificava pai criminoso expiaria, no mundo espiritual, as prprias 
faltas, para, em seguida, renascer na Terra, mutilado, ressarcindo os dbitos 
contrados. Que ele se afligisse, expungindo as ndoas da alma; entretanto, que a 
filha vivesse e fosse feliz!... E, se lhe cabia continuar, ainda, no mundo, 
transportando no peito a angstia daquela hora, que a deixassem mesmo assim, 
abatida e muda, em seus braos! Teria foras para carreg-la Ser-lhe-ia apoio, 
refgio!... Que ela ficasse! que se lhe desse oportunidade de transfigurar, junto dela, 
todos os caprichos de homem rude em manifestaes de amor puro... Aconchegla-
ia, de algum modo, ao corao. Obteria uma cadeira de rodas, conduzi-la-ia a 
qualquer parte. Acolheria sem reclamar quaisquer obstculos; entretanto, implorava 
 Providncia Divina poupasse Marita ao gldio da morte para que no faltasse a 
ele o ensejo de reajuste e reparao!... 

Abracei-o, sugerindo-lhe esperana. Que no esmorecesse. Confiasse. Quem 
estaria na Terra, sem problemas? Quantos, naquela mesma hora, em outros 
lugares, se achariam em lutas semelhantes? Aquele volume, que lhe sacudia o 
pensamento, se mantinha, ali, qual sinal de trnsito, na estrada do destino. Valia 
interpretar o remorso por marca vermelha, suscitando parada. 

Conviria frear o carro dos prprios desejos e pensar, pensar!... Todos atingimos 
um dia de reconciliao com a prpria conscincia; que no desertasse da luz que 
lhe acendiam na marcha. 

Compreendesse que a lei de Deus no se afirma em condenao, mas sim em 
justia e que a justia de Deus nunca se expressa sem piedade. Que ele meditasse, 
conclundo que se ns outros, os homens imperfeitos, j conseguamos adicionar 
compaixo  justia, por que motivo Deus, que  o Amor Infinito, haveria de exercla, 
implacvel? Ali, transpnhamos a escurido da noite... a alvorada no tardaria e, 
com ela, o sol diurno que chegava sempre novo!... Que levantssemos todos os 
sentimentos para a renovao que comeava!... 

Moreira, que me avistava enlaado a ele, endereou-me ansioso olhar, como a 
inquirir pelas idias que eu lhe insuflava. Antes, porm, que me viesse substituir, 
cioso do lugar de conselheiro que me permitia ocupar, apelei para Cludio, inclinando-
o a iniciar, ali mesmo, a obra reparadora. 

O bancrio no vacilou. 

Fundamente enternecido, levantou-se, caminhou na direo da cama e 
ajoelhou-se  cabeceira. 

Confessava a si prprio que, pela primeira vez, depois de muito tempo, fitava o 
semblante da filha, sem que a mais leve tisna de fascinao sexual lhe alterasse os 
sentimentos. 

Tremeu-lhe o corao, atormentado. 

Acariciou-a com uma espcie de ternura que jamais experimentara, deixou que 
as prprias lgrimas lhe orvalhassem o rosto e suplicou, em surdina: 

 Perdo, minha filha!... Perdo para seu pai!... 
A rogativa desfaleceu na garganta que os soluos embargavam... 
Marita evidentemente no respondeu; no entanto, o afago paternal instilou-lhe 
energia diferente e tanto Moreira quanto eu prprio registramos, espantados, o 
gemido que ela desferiu, denotando sinais de retorno a si mesma. 
Cludio, esperanado, desligou-se. O carinho impregnara-se nele de sbito 
respeito. 


Intimamente comparou aquele afeto imaculado que lhe nascia ao lrio alvo 
que desponta num charco. 

Outros gemidos repetiram-se imprecisos, dolorosos... 

O genitor escutava-os, ralado de angstia. Daria o que tivesse para traduzir 
aqueles vagidos de criana inconsciente... Conjeturou, porm, que eles exprimiam 
padecimentos fsicos inenarrveis e agoniou-se em choro convulsivo. O exvampirizador, 
transfigurado em servo diligente, ergueu-se, presto, e veio abra-lo, 
no intuito de propiciar-lhe reconforto, mas notei que os dois amigos jaziam, agora, 
perto e longe um do outro. Juntos por fora e distantes por dentro. Ombros unidos e 
pensamentos opostos. Moreira fora atingido pelos acontecimentos, mas no tanto. 
Patenteava enorme afeio por Marita, lutava por ela, mas, no fundo, no escondia 

o propsito de seguir controlando Cludio, no resguardo de seu prprio interesse. 
Identificando o parceiro tocado no corao pelos sentimentos edificantes que a 
leitura lhe sugerira, revelava o desapontamento semelhante ao de um pianista que 
surpreendesse o instrumento favorito com as teclas mudas. 
Alarmado, desfechou-me perguntas. Sosseguei-o, afirmando que o crebro de 
Nogueira se anulava, naquele instante, por arrasadoras comoes; entanto, no 
ntimo, certificara-me de que ele havia dado um passo adiante e de que o companheiro 
menos feliz deveria elevar-se no mesmo diapaso para desfrutar-lhe a 
convivncia, se no quisesse perder-lhe a companhia. 

A mente do bancrio emergia daquelas horas reduzidas de estudo compulsrio, 
sob a tormenta moral, ao jeito de paisagem, quando varrida de terremoto. Nenhuma 
analogia com o que era antes. 

Em razo disso, enfadava-se o outro, melindrado, triste. 

Mesmo assim, Moreira retomou o trabalho de manuteno da jovem prostrada. 

Nisso, porm, chegaram dois auxiliares, Arnulfo e Telmo, que vinham, da parte 
do irmo Flix, colaborar no auxlio  menina. 

Ambos simpticos, espontneos. 

Apresentei-os ao mantenedor magntico, surpreso, cuja posio espiritual 
reconheceram, de pronto; contudo, na gentileza caracterstica dos coraes 
generosos, envidaram todos os esforos para no constrang-lo com qualquer linha 
divisria de tratamento. Rodearam-no de otimismo e bondade, qualificando-o na 
categoria de colega estimvel. 

Na antevspera, aquele irmo, que se avalentoava no Flamengo, no aceitaria 
tal camaradagem; todavia, Marita ali respirava, entre dois mundos... Fatigada, 
dispneica... 

Por Marita, suportava as alteraes, sofreava os impulsos. 
A madrugada abeirava-se do dia. 
Acercamo-nos de Cludio. 
Indispensvel faz-lo descansar, dormir. 
Moreira, com iniludivel desgosto a se lhe estampar na fisionomia, observou-nos 


o cuidado, na administrao dos passes balsmicos, aos quais o paciente 
aquiesceu sem qualquer contradita. 
Alis  de mencionar-se a sensao de alvio com que Cludio nos respondeu 
ao toque sugestivo. Acabava de viver minutos de martrio inominvel. Aspirava ao 
repouso, mendigava esmola de paz. 

Todavia, enquanto se lhe relaxavam os nervos tensos  presso do sono que 
lhe impnhamos, brandamente, Moreira a tudo assistia, no crescente desagrado da 
pessoa que contempla a agitao e a mudana de sua casa, conturbada em 


servios de reforma que no pediu. Lanava ondas de azedia e amargura no 
sorriso amarelo. Tudo para ele surgia deslocado, revirado... Entre o amigo que lhe 
fugia ao comando e a jovem, cujo corpo fsico se decidia a preservar, sentia-se 
atnito, desenxavido... 

Compreendendo que no lhe seria lcito incompatibilizar-se conosco, 
simplesmente  face da assistncia que o esposo de Dona Mrcia recolhia de ns, 
aplicou-se com mais veemncia s atenes para com a moa, cujos pensamentos 
mais profundos empenhava-se agora por auscultar. 

Marita, a seu turno, porque assimilasse mais amplo montante de fora, acabou 
reassumindo o leme dos centros cerebrais, que ainda se lhe mantinham  disposio. 
Recuperou a sensibilidade olfativa, percebia, raciocinava e ouvia com relativa 
segurana; contudo, estava hemiplgica, nada enxergava e extinguira-se-lhe a fala, 
de modo irreversvel. A princpio, admitiu-se acordando no sepulcro. Ouvira muitas 
narraes, alusivas a mortos que despertavam no tmulo, lera depoimentos 
relacionando sucessos dessa ordem e assistira a vrios filmes de horror. De alma 
opressa, supunha-se num transe desses, estendida ali no leito que tomava por atade, 
no silncio de aflies inapelveis... Forcejava por gritar, reclamando socorro; no 
entanto, veio-lhe a idia de haver esquecido o processo de articular as palavras. 
Sabia-se pensando com a prpria cabea, mas ignorava agora os movimentos coordenadores 
da voz. Apesar de tudo, reconhecia-se consciente. 

Sentia, memorizava. Recordou os acontecimentos que lhe haviam inspirado o 
propsito de morrer. Arrependia-se. Se a vida continuava, para que provocar o fim 
do corpo?  considerava, desditosa. Lembrou as ocorrncias da Lapa, a entrevista 
com Gilberto pelo telefone de Dona Cora, os comprimidos de Salomo, o sono  
frente do mar, o desconhecido prestes a assalt-la, a corrida para o asfalto, a queda 
sob o automvel em movimento... Depois, aquilo ali... O corpo estatelado que lhe 
parecia de pedra, a conscincia ativa, as percepes aguadas e a incapacidade de 
expresso... Intimamente, o esforo desesperado para fazer-se notar; no entanto, 
sentia-se entalada por gargalheira de chumbo. Irritou-se, debalde. Fremia de 
impacincia, de espanto, de dor... Mgoa e revolta, petitrios e indagaes 
esmaeciam-se-lhe, imanifestos, no mago do ser. 

Por mais se empenhasse a chorar, desoprimindo-se, as lgrimas se lhe 
represavam no peito, sem nenhum canal que lhe extravasasse as agonias. Os 
olhos, tanto quanto a lngua, se lhe figuravam desligados do corpo... 

Estaria morta  perquiria a jovem num misto de perplexidade e sofrimento , 
ou quase a morrer? 

Escutou os passos da enfermeira de planto e registrou a respirao sibilante do 
pai, sem a possibilidade de identificar-lhes a presena e, em vo, tentou pedir 
explicao para o cheiro nauseante que a cercava. 

Transcorridas duas horas de angstia recndita, que Moreira assinalava com 
acuidade e preciso, a moa como que se aquietou, mentalmente, e perscrutando-
lhe, por minha vez, o campo intimo, notei que se fixava lamentavelmente em Marina. 

O companheiro desencarnado que, at ento, se fazia suporte psquico de 
Cludio e que necessitava de base moral para garantir o prprio reequilbrio, 
encontrou pasto robusto a nova desorientao. 

Descobri o perigo, sem poder conjur-lo. 

Percebendo-se demitido da complacncia do amigo que se lhe transformara em 
joguete, procurava-lhe na filha motivos outros em que se lhe facultasse permanecer 
atrelado  demncia. 


De nossa parte, no era possvel pressionar a menina acidentada, no sentido 
de lhe sustar as lamentaes. Qualquer dispndio de energias, alm das 
estritamente necessrias ao seu sustento, poderia precipitar-lhe a desencarnao. 

Insciente das complicaes que gerava com semelhante procedimento, a filha 
de Araclia reconstituiu na imaginao as aperturas da existncia. Acusava a irm 
por todos os infortnios. Exibia-lhe a figura na tela da memria como sendo a 
inimiga imperdovel... Marina a furtar-lhe as carcias maternas, Marina a surripiarlhe 
as oportunidades, Marina a roubar-lhe as afeies. Marina a subtrair-lhe o eleito 
dos sonhos juvenis... 

No valeram ponderaes que lhe enderevamos, inquietos. 

A influncia de Moreira, que lhe amimalhava as incriminaes, surgia 
naturalmente muito mais vigorosa para ela, que diligenciava encontrar simpatia e 
adeso. 

Aquela desventurada menina desconhecia os poderes do pensamento. No 
sabia que, fora da indulgncia e da brandura, invocava desagravo e, assim 
procedendo, no apenas enredava a famlia em duras provaes, mas igualmente 
punha a perder o valioso trabalho de recuperao daquele amigo necessitado de 
afeio e de luz. 

O ex-assessor de Cludio, ao absorver-lhe as confidncias mudas, em que 
relacionava os pesares mais ntimos, dos quais no tivera ele conhecimento, 
retomava, a pouco e pouco, a brutalidade que, anteriormente, lhe marcava a 
expresso. 

Esvaeciam-se-lhe as melhoras de esprito. 

A pretexto de auxiliar a protegida, reavivava os instintos de vingador. 

O olhar que se adoara de compaixo, readquiriu a lividez dos alienados. 
Sumiram-se todos os indcios de retorno  sensatez e  humanidade que 
patenteava, desde o momento em que renteara com a moa abatida. 

Intil seria qualquer tentame para reconduzi-lo  serenidade. Embebendo-se 
nos queixumes daquela que classificava como sendo para ele a mulher querida, 
restaurava em si mesmo a selvageria da fera sequiosa de sangue. Respondendo-
nos s peties de calma e tolerncia, clamava que no, que no... Ningum o faria 
renunciar  guerra pela tranqilidade daquela que amava; alegava desconhecer, at 
ento, o martrio que a irm lhe aplicara durante a vida inteira e insistiria no das-
foro... 

Ao v-lo abandonar o servio a que voluntariamente se impusera, incapaz de 
refletir nas conseqncias da prpria desero, compreendi que o ex-obsessor 
convertido em amigo fora assaltado por crise de loucura e inclinei-me a considerar 
se o irmo Flix no errara solicitando a permanncia de Marita no corpo 
desarticulado, tal a extenso dos males que o ex-vampirizador seria capaz de 
estender, a partir daquela hora; no entanto, reprimi-me... No! eu no detinha o 
direito de julgar o companheiro destrambelhado que se afastava de ns, enquanto o 
sol da manh se aprumava no cu. O irmo Flix sabia o que fizera e, com certeza, 
em outro tempo, no me desequilibrara e nem desacertara em ponto menor... 

Competia-me simplesmente trabalhar, socorrer. Transferi nossos encargos s 
atenes de Arnulfo e Telmo e demandei a residncia dos Torres, o nico lugar para 
onde Moreira, a nosso ver, decerto rumaria. 

Entrei... 

Na casa silente, cochichava-se a medo. Lgrimas no semblante dos servidores 
humildes. 


Dona Beatriz, em coma, esperava a morte. 

Neves e outros afeioados do mundo espiritual rodeavam o leito. Dedicada 
enfermeira observava a senhora prestes a mergulhar no grande repouso, diante de 
Nemsio, Gilberto e Marina, que se acomodavam a pequena distncia. 

Aturdido, porm, verifiquei que Moreira no se achava ainda a. A surpresa, 
entretanto, se desfez para logo, de vez que, transcorridos alguns momentos, o exacompanhante 
de Cludio, seguido por quatro camaradas truculentos e 
carrancudos, penetrou, desrespeitosamente, o recinto... E, sem a menor 
comiserao pela agonizante, acercou-se da filha de Dona Mrcia e gritou, 
encolerizado: 

 Assassina!... Assassina!. 

Captulo 4 

Debaixo da agresso, Marina experimentou irreprimvel mal-estar. Empalideceu. 
Sentia-se sufocar. Registrava todos os sintomas de quem recebera pancada forte 
no crnio. Jogou a cabea para trs, na poltrona, esforando-se por esconder a 
indisposio, mas debalde. Os Torres, pai e filho, perceberam-lhe a vertigem e 
acorreram, pressurosos. 

Nemsio tomou a palavra, atribuindo o desmaio  fadiga de quem se 
movimentara durante a noite inteira, sem o mnimo descanso no decorrer do dia 
anterior, ao redor da dona da casa, cujo corpo se consumia com dolorosa lentido, 
ao passo que Gilberto trazia gua fresca, antes de telefonar para o mdico. 

No ambiente espiritual, o impacto no foi menos constrangedor. 

Neves fitou-me, irrequieto, como a rogar socorro para no explodir. Conhecia 
Moreira, de nossa primeira visita ao Flamengo; entretanto, ignorava os 
acontecimentos que nos apoquentavam, desde a antevspera. Pelo olhar de 
censura que nos arremessou, conclu que julgava o aposento da filha invadido por 
malfeitores desencarnados, numa investida sem qualquer significao, incapaz de 
ajuizar quanto s causas que impeliam o ex-conselheiro de Cludio quele gesto de 
revolta, para o qual arrebanhara colegas infelizes, efetuando um ataque 
categorizado por ele  conta de empreitada punitiva e justiceira. 

Uma das senhoras desencarnadas, que aguardava o momento de acolher 
Beatriz, liberta, abordou-me, pedindo providncias. 

Moreira e os aderentes despejavam ditrios e obscenidades, injuriando a 
dignidade do recinto, depois de haverem burlado a vigilncia mantida em torno da 
casa. No formulava o pedido para que se articulasse a conteno deles, a 
propsito de preconceitos humanos. Aceitava os recm-chegados na posio de 
credores da maior comiserao; no entanto, a senhora Torres estava nas derradeiras 
oraes, em vias de partir. Esmolava tranqilidade, silncio. 

Em determinadas teraputicas, no se pode restabelecer a normalidade 
orgnica seno removendo o centro de infeco, e, ali, o piv da desarmonia era 
Marina. 

Afastada a moa, retirar-se-iam com ela os agentes da desordem. 

Abeirei-me da menina carecedora de piedade. Supliquei-lhe saisse. Fosse 
repousar. No teimasse ante a solicitao nossa em seu proveito. 

Ela obedeceu a contragosto. 

Pediu licena aos amigos, a fim de esperar o mdico na dependncia dos 
fundos, e acompanhei-a. 

O bando, porm, renteou comigo e Moreira interpelou-me. Queria saber de 
minha simpatia pela jovem que ele hostilizava. Indagava, desabrido, se eu no a 
conhecia suficientemente, se no lhe assistia s bacanais entre pai e filho e por que 
me interessava de modo to especial por aquela a que ele chamava bisca, bonita 
por fora e devassa por dentro. 

Ironizando-me a escassa inclinao  conversa, reportou-se, com enrgicas 
rabecadas,  dama que nos havia rogado a execuo de medidas para afast-lo do 
quarto, declarando que no era covarde para incomodar moribundos, e perguntou, 
insolente, por que razo as entidades venerveis e amigas, que ele apelidava por 
aquelas mulheres, nos compeliam a retir-lo, quando ali deixavam Marina respirar 
 vontade, acentuando que, por ser franco e spero, no se considerava pior. 

Crivou-me de objurgaes repassadas de fel. Desafiando-me, por fim, a 


enunciar o meu ponto de vista, utilizando palavras que colocavam em jogo a 
confiana com que me honrava, desde a vspera, arrisquei-me a ponderar que 
Marina, apesar de tudo, era filha de Cludio Nogueira e irm de Marita, aos quais 
tributvamos ambos calorosa afeio. Qualquer fracasso em prejuzo dela seria 
desastre para eles. No me cabia reprovar corrigendas, capazes de lhe fortalecer a 
vigilncia, com manifesta vantagem para ela; no entanto, por amizade aos 
Nogueiras, no concordaria em que fosse massacrada. 

Ele sorriu e obtemperou que as apreciaes no eram de todo desprovidas de 
senso, prometendo que amainaria o desforo, mas no desistiria da correo. 

Despachou os cooperadores, recomendando aos quatro lhe aguardassem as 
ordens no ptio lateral, e acompanhou-nos, segurando-a, descorts. 

Indiferente a qualquer idia de companhia espiritual, Marina penetrou na 
cmara, encostou a porta e ajeitou-se no leito, cerrando os olhos. 

Relaxou-se. 

Aspirava a dormir, descansar... Mas no conseguiu. 

Moreira, insensvel, indicando o propsito de arrasar em mim qualquer simpatia 
pela contadora indefesa, participou-me que ia submet-la a interrogatrio, em torno 
de Marita, para que eu lhe ouvisse o depoimento inarticulado e avaliasse o caso por 
mim mesmo. 

Suspirei pela obteno de respostas que enobrecessem o inqurito mental em 
preparo; contudo, minhas esperanas se desvaneceram no nascedouro. 

O indesejvel patrocinador de Marita, erguido por si mesmo  condio de juiz, 
pespegou um pejorativo contundente aos ouvidos da moa e reclamou-lhe a 
opinio, sobre a irm hospitalizada. 

Que se manifestasse, que expusesse o seu ponto de vista, quanto quele 
suicdio comovedor. 

Marina, embora debilitada, conjeturou-se tangida pelos prprios pensamentos a 
lhe buscarem ateno para a irm acidentada e, presumindo monologar, deixou que 
os pensamentos lhe pululassem do crebro, sem o travo da autocrtica. 

Compadecia-se da irm  parafusava, calculista , no entanto, confessava-se 
agradecida ao destino por se ver livre dela. Indiscutivelmente, no teria tido 
coragem de impeli-la  morte; todavia, se ela prpria deliberara desaparecer, 
cedendo-lhe posio, sentia-se aliviada. Gilberto interara-a de um telefonema que 
recebera na noite da antevspera. Confiara-lhe as impresses. 

Nada de trote. Pelo jeito, deduziram que Marita lhe imitara a voz, efetuando 
sondagem... 

Convencida de que o rapaz no a desejava, preferira morrer. Gilberto fora claro. 
Pelos tpicos da conversao pelo fio, dos quais lhe transmitira os mnimos 
pormenores, Marita investigara-lhe os sentimentos, no intuito de arrancar-lhe uma 
declarao indireta. Desiludida, optara pela renncia. Em razo de tudo isso, no 
lhe cabia perder-se em divagaes. Se o jovem Torres a amava, no mesmo grau de 
carinho com que se lhe entregara, e se a outra resolvera sumir, nenhum motivo para 
ralar-se, O prprio Gilberto, semanas antes, perguntara-lhe, de estranha maneira, 
pelas esquisitices da irm. Julgava-a desequilibrada, neurtica, ao que se lhe 
referira  paternidade annima. O filho de Nemsio acreditava em sfilis na cabea, 
asseverando que Marita no servia para casar. 

Aps ligeira pausa no pensamento, como quem apaga uma luz e a reacende, 
alterando o cenrio, a jovem do Flamengo seguiu pensando, memorizando... 

Telefonara para casa, durante a noite, e a mezinha informara que Manta ainda 


no havia morrido; contudo, o mdico esclarecera a ela, Dona Mrcia, em 
ligao confidencial, que a Cincia no dispunha de meios para recuper-la e que o 
bito era questo para da! a alguns dias. O facultativo solicitara-lhe atenes 
especiais para Cludio, esmagado de angstia. Recomendara-lhe nada dizer ao 
marido, quanto  opinio aberta que expunha, parecer que formulava apenas para 
com ela, ao reconhec-la mais calma, diante do sofrimento. Que ela, na condio de 
me, se premunisse contra emoes muito fortes, a fim de sustentar a famlia, no 
transe que sobreviria, a qualquer momento. 

Aquelas elucidaes, no silncio, feriram Moreira nas ltimas fibras. 

As notcias mdicas, assim desdobradas, portavam para ele os efeitos de um 
tiro. 

No se resignava  idia de perder Marita, no plano fsico. Ela, 
inconscientemente, despendia recursos fludicos que se casavam com os dele, fornecendo-
lhe sensaes de euforia, robustez. 

Retirava dela os estimulantes mentais que lhe vigorizavam a masculinidade, 
tanto quanto se valia habitualmente de Cludio, para viver sobre a Terra como 
qualquer ser humano. 

Entre a frustrao e a inconformidade, designou Marina com um nome chulo e 
justificou-se, diante de mim, quanto  determinao de puni-la. Infantilizado, 
colrico, bradou que ns ambos vamos, juntos, o regozijo com que cismava no 
infortnio da outra; que eu no lhe podia negar a frieza de sentimentos; que a minha 
palavra apoiasse a dele, em momento oportuno; que eu lhe servisse de testemunha. 

Marina, porm, continuava meditando, aclarando, qual se aditasse, 
espontaneamente, impresses marginais ao tema que Moreira lhe propusera. 

Amava a Gilberto, sim. Apenas a ele. Descobriria recursos para desvencilhar-se 
de Torres, pai. Quanto mais corria o tempo, com maior segurana afianava a si 
mesma pertencer ao rapaz. 

Anelava despos-lo, ser-lhe a mulher em casa e me de seus filhos... 

No entanto, quando o esboo do lar futuro se lhe configurou na imaginao, o 
meu interlocutor arremeteu-se contra ela e bramiu: 

 Nunca!... Voc nunca ser feliz!... Voc matou sua irm... Assassina! 
assassina!... 
Agredida sem que me fosse permitido proteg-la, porqanto a minha 
interferncia isolada se fazia desaconselhvel, a benefcio dela mesma, a jovem 
experimentou-se invadida de estranho mal-estar. 

Aquelas incriminaes percutiam-lhe fundo, qual se algum lhe varasse o 
pensamento. 

Ofegou em desassossego. 

Comeou a refletir, acerca de Marita, sob novos aspectos, estabelecendo 
confrontos. Debalde esgrimia idias, tentando impugnar o remorso que se lhe 
infiltrava na conscincia. Julgava contraditar-se. Gemia em desconforto. Ignorava-se 
em luta com uma Inteligncia que se lhe mantinha invisvel, a pedir-lhe contas do 
proceder.  medida, porm, que o adversrio martelava as censuras, s quais 
aderia por saber-se culpada, passou a perder posio. Enevoava-se-lhe o 
raciocnio, mobilizou todas as energias para no desmaiar, temia a loucura... 

O contendor desafiara a fortaleza, proclamando-lhe as brechas. A fortaleza 
resistiria, inclume, se fosse inteiria; entretanto, as brechas existiam e, por elas, o 
inimigo lanava petardos de maldio e sarcasmo, gerando a demncia e invocando 
a morte. 


Em vo, diligenciei no silncio, articulando agentes mentais de auxlio para 
que a vtima se libertasse; contudo, a menina, bastante hbil para movimentar-se, 
entre os homens, sem comprometer-se na superfcie das circunstncias, jazia 
desarmada de conhecimento enobrecedor, com que se advertisse, recuando na 
trilha percorrida para adotar direo diferente. 

Marina,  merc da fora que lhe espatifava os recursos psquicos, sentia-se 
derrotada... 

Da impassibilidade ante o desastre ocorrido com a irm, transferiu-se  
opresso, ao temor... 

Ao toque do inquisidor que lhe vasculhava a cabea, comeou a imaginar que 
Marita, em verdade, no intentaria o suicdio, se nela houvesse achado uma 
companheira honesta e piedosa. 

Rememorou a noite em que divisara Gilberto pela primeira vez. O jovem saa de 
um cinema, em companhia da irm, amparando-a contra a chuva. Tamanha a 
doura daqueles olhos, to grande o carinho daqueles braos!... Julgou encontrar 
Nemsio mais moo. Comprometida com Torres, pai, presumia enxergar no filho os 
atributos de juvenilidade que lhe faltavam... Capricho ou afeio, apaixonara-se pelo 
rapaz, cortejara-o abertamente. Enlaara-o com os dotes de inteligncia, at acender-
lhe na alma entusiasta o anseio de compartilhar-lhe sonhos e emoes. 

Convidara-o a entretenimentos, agarrara-lhe o corao. Instalara nele a 
necessidade dela, tornara-o dependente, escravo. Manobrava-o, inteiramente, o que 
a irm, inexperiente e sincera, no se animara a fazer, conquanto lhes conhecesse, 
atravs dele prprio, o compromisso oculto. 

Ao sab-lo aprisionado  outra, requintara-se, alis, nos processos de seduo. 
Acariciava-o, impunha-se, manetava-o,  maneira da aranha entretecendo o fio 
veludoso para cativar o inseto que se dispe a devorar... 

Perante o libelo do juiz inesperado, perguntava-se pela tranqilidade prpria. 
Examinando escrupulosamente, as atitudes que assumira, verificava, espantada, 
que lesara a si mesma. O remorso figurou-se-lhe trado invisvel a verrumar-lhe o 
crnio. Lgrimas abundantes lhe subiram do peito aos olhos, lembrando jorros de 
gua que a broca somente consegue arrancar, ao subsolo, ao tatear lenis mais 
fundos. 

O mdico, assistido pessoalmente pelo dono da casa, apanhou-a em crise de 
pranto. No obstante apreensivo, consolou-a, erguendo-lhe o nimo. Falou em 
cansao. Elogiou-lhe a pontualidade e o devotamento de enfermeira, prescreveu-lhe 
tranqilizantes. Que ela repousasse, que no desamparasse a si mesma. 

Marina, porm, no ignorava que a conscincia se debatia em pnico, que era 
intil qualquer tentame para largar o foro ntimo. Quando o facultativo se despediu, 
retomou o choro convulso, diante de Nemsio que, intimidado, trancou a porta e se 
abicou, junto dela, no intuito de confort-la e confortar-se. 

Constrangido a facear com a cena de ternura, sem fundamentos de afeio 
recproca, inquietei-me por Moreira, que zombeteava, lanando frases ultrajantes. 

Nemsio rogava  moa tratar-se, refazer-se. Tivesse pacincia, que se 
regozijassem ambos. 

Nada alm de mais alguns poucos dias e estaria em pessoa, no Flamengo, para 
os derradeiros arranjos do casamento. Contava com ela e queria faz-la feliz. 
Encantado, beijava-lhe o rosto molhado, qual se aspirasse a sorver-lhe as lgrimas, 
enquanto que a jovem, francamente conturbada, lhe arremessava olhares de 
esguelha, entremeados de compaixo e repulsa. 


Convidei Moreira  retirada. Ele, porm, desapiedado, indagou se me falhava 
a coragem para conhecer Marina, tanto quanto ele, e, porque me inclinasse a 
defend-la, acrescentou que no se achava ali na posio de carrasco. Escarninho, 
recomendou-me no acus-lo, asseverando que detinha tanta culpa na indisposio 
da jovem quanto aquela que teria um bisturi na ablao de um tumor. 

Pedi-lhe, em considerao a Cludio, nos auxiliasse a proteger-lhe a filha, 
menina recruta na guerra contra o mal, embora se acreditasse suficientemente 
sabida. 

Por que no nos conservarmos a porta, resguardando-a? Um momento talvez 
chegasse em que passaramos a rogar-lhe concurso. No obstante alegar que 
nunca se acomodara  alcovitice, que no tinha vocao para capa de malfeitores, 
aquiesceu e samos. Do lado externo, porm,  vista de referir-me  hipnose, no 
campo afetivo, expendendo consideraes ao redor da pacincia, que nos toca 
exercer, junto de todas as pessoas em distrbios do sexo, ele riu-se abertamente e 
comentou, galhofeiro, que no me adiantava falar grego, diante de obscenidades 
que para ele possuam nomes prprios, e advertiu-me que quando o pai se retirasse 
viria o filho e que eu perderia a graa e o latim de qualquer jeito. 

Efetivamente, quando o chefe da casa se retirou, o rapaz, cansado da viglia 
noturna, veio em nossa direo e entrou no quarto. 

O colega endereou-me olhar significativo; contudo, antes que se desregrasse 
na crtica, apareceu algum com bastante simpatia e piedade para desfocar-nos a 
mente. 

Era o irmo Flix. 

Atravs da expresso, dava-me a perceber que se inteirara de todos os 
sucessos em curso; no entanto, abriu os braos para Moreira,  feio do pai que 
reencontra um filho. O amigo, que volvera ao desequilbrio sentimental, por sua vez, 
reconheceu-se invadido por eflvios regenerativos e recordou, sensibilizado, o 
primeiro encontro em que o benfeitor lhe solicitara colaborao para Marita, e 
enterneceu-se. 

Flix, sem um gesto que lhe exprobrasse a desero, apelou para ele com 
absoluta confiana: 

 Ah! meu amigo, meu amigo!... Nossa Marita!... 
E, ante as indagaes do interlocutor, que o tratava como de igual para igual, 
esclareceu que 
a menina piorara. Dores agudas lhe mortificavam o corpo. Afligia-se, fatigada. 
Desde o momento em que ele, Moreira, se afastara, tudo indicava que a pobrezinha 
entrara em regime de carncia. A sofredora criana necessitava dele, esperava por 
ele, a fim de aliviar-se. 

Ante as frases sinceras que o atingiam no fundo, o ex-assessor de Cludio 
acudiu, incontinenti, regressando em nossa companhia para o hospital, onde 
realmente a moa se estirava em situao lastimvel. 

Quatro horas haviam escoado, modificando-nos a tela de servio. 

Averiguamos que o pedido de Flix no se alicerava num artifcio piedoso. 
Escorada por Telmo, que lhe insuflava energias, Marita no lhe assimilava a 
influncia com tanta segurana. 

Sem qualquer propsito de censura,  licito registrar que faltava entre eles 
aquela harmonia necessria s crenas das rodas de engrenagem determinada, num 
plano de sustentao. Telmo, rico de foras, apoiando-a, lembrava um sapato novo 
e precioso em p doente. Cedendo lugar ao recm-chegado que o rendeu, pronto, 


verificou-se, de imediato, alguma desopresso. Marita ajustou-se, mecanicamente, 
aos cuidados que Moreira lhe oferecia. Ainda assim, a peritonite 
instalava-se, dominante. 

Aumentara o mal-estar. 

A filha de Araclia gemia sob a ateno atribulada de Cludio, que a observava, 
azorragado de sofrimento ntimo. Entretanto, agora, o ex-vampirizador do Flamengo 
encontrava enorme diferena. Acicatada pelos padecimentos fsicos, Marita no 
dispunha de facilidades para pensar seno nas prprias dores, contundida, 
suarenta, amarfanhada... E o martrio corporal que lhe transfundia todos os 
impulsos, num gemido que no conseguia articular, provocava em Moreira, 
unicamente, simpatia e compaixo. 


Captulo 5 

No entardecer do dia imediato, enquanto seguamos de perto a crescente 
renovao ntima de Cludio que, por algumas vezes, j conseguira se entender 
com Agostinho, adquirindo mais amplos recursos de cultura esprita, a filha de 
Araclia repousava, sob o patrocnio de Moreira, que se reconfortava ao identificar o 
resultado compensador do prprio esforo. Ele mesmo, agora, compreendia que a 
moa se lhe afinava, com mais segurana, ao apoio fludico. E regozijava-se com 
isso. 

A Providncia Divina abenoava o lavrador bisonho, propiciando-lhe a ventura 
de contemplar os grelos promissores das primeiras sementes do bem que ele 
plantava. 

Se algo distante do posto, durante alguns minutos, a jovem, cujo corpo espiritual 
se revestia de inexprimvel suscetibilidade, em vista do desgaste fsico, passava a 
gemer, denotando sofrimento agravado, para calar-se, em sbita acalmia, to logo o 
sustentador retomasse a posio. 

Moreira sentia-se til, orgulhava-se. Encontrava motivos para conversar 
conosco, permutando impresses. Solicitava esclarecimentos, a fim de entrar em 
processos mais eficazes de auxlio. 

Adquirira interesse para o trabalho. Assemelhava-se a um homem que 
houvesse debalde suspirado, muito tempo, pela condio de pai e, tendo achado 
uma criana, conseguira com ela ocupar o vazio do corao. 

Cludio, a seu turno, no se circunscrevia prpria transformao. Desdobrava-
se por dispensar  filha todo o carinho e toda a assistncia de que se via capaz. 

O facultativo amigo trouxera pela manh um neurologista. Falou-se em 
modificao do tratamento e na conseqente internao da menina numa casa de 
sade em Botafogo; entretanto, a peritonite desaconselhava a mudana rpida. Por 
essa razo, concordou-se na aplicao macia de antibiticos, at que a melhora 
esperada autorizasse a medida. 

O genitor no regateava cuidados, nem desencorajava qualquer providncia 
tendente a scorr-la, custasse o que custasse. 

Chegada a noite, o irmo Flix veio at ns e, aps felicitar Moreira pela tarefa 
que realizava, participou-nos a desencarnao de Dona Beatriz. 

A esposa de Nemsio desligara-se, enfim, do corpo que o cncer combalira. 

Verificada a estabilidade dos servios em andamento, o instrutor convocou-nos 
a tomar-lhe o rumo, na direo dos Torres. 

Seguimos. 

De jornada, conquanto discreto, desabafou-se. Preocupava-se por Marina. 
Indispensvel proteg-la contra a obsesso comeante. 

Afastara-se Moreira; no entanto, permaneciam l, no ptio interno, os 
arruaceiros e vampirizadores que ele contratara. Perseguidores gratuitos e infelizes 
que, inevitavelmente, trariam outros para tumultuar a vida mental da moa, 
comprometida pelo remorso. 

Os termos e a inflexo de voz do irmo Flix acentuavam-lhe a grandeza de 
alma. Ele no via na filha de Dona Mrcia a jovem corrompida que ns mesmos, em 
alegaes destitudas de qualquer malcia, no hesitvamos enquadrar nas linhas 
da prostituio, nem lhe conferia certificado de aviltamento nas idias recnditas. 
Reportava-se a ela, como quem menciona terra nobre que a desdia do cultivador 
entrega  serpente. Marina, na conceituao dele, era uma filha de Deus, credora 


de venerao e ternura. Confiava nela, esperaria o futuro. 

Antes, porm, que as circunstncias me exigissem algum pronunciamento, 
esbarramos com a moradia da famlia que a morte visitara. 

Entramos atentos. 

Lustres providos de luz intensa punham  mostra a reduzida assemblia que se 
habilitava ao velrio. 

Aqui e ali, frases convencionais, atiradas sem maior sentimento aos ouvidos do 
esposo e do filho da senhora desencarnada. 

Nemsio e Gilberto no entremostravam grande pesar nas fisionomias cansadas 
e impassveis. 

A molstia prolongada no reduto domstico estragara-lhes a resistncia para a 
representao de peas sociais, mesmo singelas. Amarrotados pelas viglias 
consecutivas, no ocultavam a prpria desopresso. Referiam-se  morta, no feitio 
de um viajor atormentado que, de h muito, deveria ter ancorado no porto do 
extremo refrigrio. 

O invlucro abandonado por aquela alma boa e veneranda recolhia atenes 
especiais, para apresentar-se no catafalco de luxo, ao passo que ela mesma, 
inconsciente, se asilava nos braos de irms afetuosas, sob o olhar comovido de 
Neves e de outros familiares em carinhoso desvelo. 

O irmo Flix, assumindo o comando, deu instrues. 

Beatriz, que se preparara laboriosamente para aquela hora, seria conduzida, 
com presteza,  organizao socorrista do plano espiritual, no prprio Rio, at que 
restaurasse as foras, de modo a seguir viagem. 

Tudo harmonia nas disposies traadas. 

Entretanto, quando o triste retrato fsico de Dona Beatriz foi trazido ao estrado 
de repouso que se lhe improvisara, Marina apareceu em pranto de compuno. 
Chorava, tocada de dor sincera e inexprimvel. Parecia, naquela reunio de etiqueta, 
a nica pessoa ligada por laos de amor  piedosa dama, que encerrava, calada e 
humilde, a derradeira pgina da existncia naquela casa que a fortuna abrilhantava. 
Ao fitar aquele corpo hirto, caiu de joelhos, em lgrimas copiosas. Invejou aquela 
cujo ltimo sorriso de complacncia ali se estampava sereno, qual se estivesse 
satisfeita por deix-la no lugar que ocupara, durante tantos anos, ao p de um 
esposo que a enganara sempre. 

Ah! Dona Beatriz!... Dona Beatriz!... 

As palavras soluadas escapavam daquele peito juvenil, como se quisessem 
traar uma longa confisso. 

Acercamo-nos da moa, no propsito de auxili-la; entretanto, Flix considerou 
que o desafogo lhe faria bem. 

Marina, fatigada de insnia e desgastada pela ao dos obsessores que lhe 
exauriam as foras, sentia medo. 

Contemplava o envoltrio descarnado de Dona Beatriz, atravs das lgrimas, 
refletindo nos segredos da morte e nos problemas da vida... 

Se a alma sobrevivia ao corpo  pensava, inquieta , decerto que a senhora 
Torres v-la-ia agora sem o mnimo subterfgio. Certificar-se-ia de que ela fora, ali, 
no a enfermeira espontnea e sim a mulher que lhe dominava o esposo e o filho... 

Atemorizada, rogava-lhe entendimento, perdo. 

Que diria aquela boca silenciosa para ela, se pudesse falar, depois de auscultar 
a verdade?... 

Beatriz, porm, naquele instante conduzida ao refazimento, jazia inacessvel s 


complicaes da sociedade terrestre. E, em lugar dela, era o prprio remorso 
que se lhe alteava na imaginao, acusando, acusando... 

A mgoa da jovem provocava simpatia nos circunstantes e despertava, tanto em 
Nemsio quanto no filho, novos motivos de atrao. A frente do choro pungente, 
ambos fitavam-na, enternecidos, exprimindo reconhecimento nos olhos, cada qual 
desejando nela a companheira ideal para casamento prximo, sem a menor 
suspeita, quanto s convices um do outro. 

Naquela mesma noite, assinalei a falta de Dona Beatriz no ambiente caseiro. 

O afastamento da filha de Neves e dos amigos espirituais que lhe freqentavam 
a companhia deixara a vivenda qual praa desarmada de quaisquer recursos que 
lhe garantissem a ordem. 

Transcorrido algum tempo sobre o velrio em si, vagabundos desencarnados 
nele tiveram acesso livre. 

O nvel dos pensamentos descambou para a conversao libertina. Nem 
mesmo a dignidade que a morte infundia ao recinto foi acatada. Relatos jocosos 
irromperam, suplementados pela chacota dos prprios anedotistas. Um dos 
presentes comentou, entusiasta, os espetculos debochados de que fora 
testemunha, em recente viagem ao estrangeiro, suscitando o interesse de 
vampirizadores que ouviam as narraes, seduzidos pela tentao de repet-los, na 
verso deles prprios. 

No contentes, por fim, com os licores aristocrticos, desde muito guardados 
nos armrios da famlia, beberres encarnados e desencarnados impeliram 
Nemsio  encomenda telefnica de vinhos e usques, rapidamente gorgolejados 
por gargantas sequiosas. 

O irmo Flix, prevendo a leviandade, recomendara se aplicasse,  matrona 
desencarnada, recursos anestesiantes, a fim de que se lhe mantivesse o isolamento 
do licencioso festim, praticado em nome da solidariedade afetiva perante a morta. 

Os derradeiros afeioados de Beatriz, no plano espiritual, se retiraram, 
discretos, e ns mesmos no tivemos outro recurso seno largar a residncia, alta 
madrugada, depois do socorro a Marina, relegando os despojos da nobre senhora 
s grossas nuvens de emanaes alcolicas que instalavam, por toda a habitao, 
atmosfera dificilmente respirvel. 

Somente no dia seguinte, acabados os funerais, voltei do hospital ao ninho dos 
Torres, onde a filha de Cludio se demorava. 

Telefonemas diversos, entre me e filha, examinavam a nova situao. Dona 
Mrcia reclamava o regresso, Nemsio desejava que a secretria lhe amparasse a 
moradia. Ele prprio, em dado momento, chamou Dona Mrcia pelo fio, solicitando-
lhe concesses. Que Marina permanecesse orientando as servidoras que lhe 
atendiam a casa. Mais algumas semanas e tudo se aclararia satisfatoriamente. 

A senhora Nogueira, honrada com a gentileza, no vacilava confiar. Aquiesceu 
lisonjeada, feliz. 

Em cada frase que o chefe lhe deitara de longe aos ouvidos, pressentia a 
aliana de Nogueiras e Torres pelo casamento entre os jovens. 

Marina, entretanto, explorada nas prprias energias pelos agentes da 
perturbao que Moreira lhe pespegara, definhava no leito. Trancara-se no quarto. 
Doa-lhe a deslealdade que cultivara, incessantemente, diante da filha de Neves, 
culpava-se pelo desastre que arruinara Marita, a quem no tinha coragem de visitar 
ou rever. Ela que se vira, at ento, vitoriosa em todas as partidas, sentia-se 
derrotada,  feio de contendor arredado da arena pela prpria impercia. Chorava. 


Ouvia vozes, declarava-se perseguida por vultos estranhos. Fugia de todos, 
enfadada, nervosa. Se recebia Nemsio ou Gilberto, caa em crise de pranto que os 
conselhos no removiam e nem os medicamentos conseguiam sedar. 

Escoados cinco dias de apreenses, Nemsio telefonou para Dona Mrcia, com 
mais clareza, rogando-lhe permisso para um entendimento pessoal, no Flamengo, 
na manh seguinte. Informado de que o chefe da famlia Nogueira no poderia 
afastar-se do hospital, insistiu com a interlocutora para que lhe acolhesse a visita. 
Marina andava abatida. Tencionava lev-la a Petrpolis. Mudana de ares, 
renovao de paisagem. A menina tombara em prostrao,  face dos sacrifcios 
que lhe exigira a esposa morta. Pretendia homenagear-lhe a dedicao, com a 
permanncia de alguns dias no clima serrano, mas, para isso, estimaria ouvir a 
famlia, fazer planos. 

Dona Mrcia, aspirando a expor respeitabilidade familiar, indagou se Gilberto iria 
tambm, como que temendo acumpliciar-se em alguma ligao indesejvel e 
prematura entre os jovens. 

Nemsio, porm, apaixonado bastante pela moa, no era capaz de penetrar a 
sutileza da esposa de Cludio, que assim se exprimia no intuito de fazer-se passar, 
diante dele, por severa guardi das virtudes domsticas; e a senhora Nogueira, 
aguardando Gilberto para genro e ignorando a intimidade entre a filha e Torres, pai, 
no atinava, em toda a extenso, com aquele efusivo atestado de garantia moral 
que Nemsio, automaticamente, lhe oferecia, pedindo-lhe confiana. 

Estivesse tranqila. A moa seguiria exclusivamente com ele e uma governanta. 
Mais ningum. 

Dona Mrcia louvou a medida, agradeceu. 

Mesmo assim, a entrevista ficou marcada para o dia seguinte. 

No momento aprazado, acompanhamos Nemsio ao Flamengo, como quem 
estuda ingrediente perigoso, antes de adit-lo a processo curativo em andamento. 

A recepcionadora no esqueceu particularidade alguma do bom-tom,  vista do 
luto em que os Torres haviam entrado. 

Enfeites discretos na sala, hortnsias azuis, conjunto de peas em roxo para o 
caf. 

O negociante quedou agradavelmente surpreendido. Cumprimentando a anfitri 
bem-apessoada num modelo de algodo transparente e suave, no sabia se a 
progenitora era uma segunda edio da filha ou se lhe cabia interpretar a filha por 
segunda edio dela. 

Comodamente sentados, a palestra comeou pela troca de sentimentos 
recprocos. Psames pela morte de Dona Beatriz, pesar diante do acidente ocorrido 
em Copacabana. Molstia de Marita, cansao de Marina. Devotamento de Cludio 
pela filha hospitalizada. Elogio a parentes. 

Apontamentos ao redor das apertras da vida. 

Dona Mrcia, com requintes de apresentao, comentava todos os assuntos 
propostos, com aprumo de inteligncia. Otimismo irradiante, finura de trato. 

Nemsio, encantado, fumava e sorria, admirando-lhe a personalidade. 

Conversa vai, conversa vem, a viagem a Petrpolis surgiu  tona e o dilogo 
mais vivo desenrolou-se entre aquela que o visitante esperava para sogra e aquele 
com quem a interlocutora no contava para genro. 

 A senhora descanse  recomendava Torres, eufrico , Marina seguir em 
minha companhia, tudo em ordem. Creia que a mudana de ares a teraputica 
adequada. A pobrezinha merece repouso, excedeu-se em trabalho... 

 No tenho objees  acentuou a genitora de Marina, estranhando o 
lume daqueles olhos percucientes que lhe investigavam as reaes ; no entanto, 
o senhor sabe... Sou me. Alm disso, tenho o marido ocupado com a outra filha 
que, apesar de adotiva,  para ns um pedao do corao... Uma viagem, assim,  
pressa... 
 Oh! mas no se preocupe, de modo algum; afinal, no sou mais uma 
criana... 
 Sim, mas o senhor compreende... Enquanto sua esposa estava de cama, a 
permanncia de minha filha em sua casa era justa, mas agora... Sei que Marina no 
se encontra no convvio de estranhos, o senhor para ns no  somente o diretor da 
firma em que ela trabalha, o senhor para ela  tambm um amigo, um protetor, um 
pai... 
 Muito mais do que isso!... 
A senhora Nogueira estremeceu. Que projetava dizer o entrevistador com 
semelhante afirmao, diante das frases que articulara intencionalmente 
reticenciosas, aguardando que ele lhe fornecesse alguma esperana positiva no 
enlace prximo dos filhos? Sem querer, tornou a refletir, de escantilho, nas 
suspeitas de Cludio. Os passeios e divertimentos do abastado comprador de 
imveis com a menina, que ela admitira fossem apenas motivos de consolao para 
um velho sofrido, assumiriam o aspecto inconfessvel que o marido lhes conferia? 
Muito mais do que isso!... Aquelas palavras, no tempero de ternura com que eram 
ditas, varavam-lhe a cabea. 

Acordavam-na para a realidade que nem de leve pressentira. Ainda assim, no 
se dispunha a acreditar. Impossvel! impossvel que Marina... 

Num timo, empregou toda a sua curiosidade feminil no rico negociante, 
fisgando-o, de alto a baixo. Excessivamente humana para no examinar o jogo em 
que se encontrava sem conhecer exatamente a posio que lhe competia na defesa 
do prprio interesse, descobriu no vivo, que supusera arcaico e patriarcal, atrativos 
marcantes, suscetveis de impressionar favoravelmente qualquer moa 
desprevenida. Conhecia Gilberto em pessoa, classificando-o, alis, como sendo um 
rapaz notvel; entretanto, conclua, ali, que o velho ganharia do moo em qualquer 
torneio de seduo. Ela que se orgulhava de experincias avantajadas, em matria 
de ligaes afetivas, receava agora... Quis falar, inventando uma sada brilhante, 
mas engasgava-se. Os olhos conquistadores, na elegncia daquele Brummel 
amadurecido e circunspecto, perturbavam-na. 

Tremeu, desconcertou-se. 
Nemsio sorriu, atribuindo-lhe a emoo ao contentamento de me que se 
garante, quanto ao futuro da filha, e observou: 

 A senhora no tem razes para afligir-se. Marina  credora de minha melhor 
considerao. 
Esteja convicta de que, nestes dois meses de trato dirio, ela vem desfrutando a 
maior liberdade em minha casa.  hoje dona de nossa absoluta intimidade. Estou 
certo de que a senhora  dama de nossa poca, sem clausura e sem preconceitos. 
No se agastar, desse modo, ao saber que Marina em meu lar faz o que quer, 
gasta o que quer, dorme onde quer, sem que ningum a incomode... 

Dona Mrcia escutou as alegaes com deferncia e inferiu que Nemsio lhe 
estimava a filha desinibida, liberta. Mesmo assim, ficou sem saber onde Torres, pai, 
diligenciava chegar, em se reportando  independncia que Marina usufrua... No 
lograva perceber em que situao o cavalheiro a desejava mais livre, se junto dele 


ou se junto do filho... Hbil o suficiente para no se arriscar a qualquer 
apreciao capaz de arruinar-lhe vantagens futuras, recomps as energias, esboou 
um sorriso brejeiro e falou, afvel: 

 Bem, eu no tenho uma filha namorando, no tempo dos mrtires; no entanto, 
gostaria que o senhor fosse mais explcito... 
E, deixando-a quase a estatelar-se de pasmo, Nemsio copiou a doura de um 
menino e confessou-lhe o prprio romance. Amava-lhe a filha, aspirava ao 
matrimnio. Enlutara-se, mas, em breves semanas, o tributo social desapareceria. 
Que ela, Dona Mrcia, conservasse o segredo perante o marido. Rendera-se-lhe ao 
entendimento afetuoso e extravasara o corao, solicitando-lhe auxlio. 

Ante aqueles olhos dominados de assombro, que ele interpretava por jbilo 
materno, relacionou parte da fortuna que amontoara. Enumerou seis dos melhores 
apartamentos que possua, alugados em condies excelentes, salientou os 
negcios da imobiliria, cujos lucros eram satisfatoriamente compensativos, embora 
manejasse capitais alheios, a juros mdicos, para os empreendimentos de maior 
vulto. 

A senhora Nogueira sentia-se perplexa, esmagada. 

No sabia em que pensar, se no inusitado da situao, se na sagacidade da 
filha. Reconhecia-se excedida em astcia, atirada para trs. 

Em frao de segundos, imaginou a posio de Gilberto. Como estaria o rapaz, 
arrebatado  outra? 

Mulher experiente, conquanto, por vezes, chegasse a concluses tardias 
quanto ao esposo e  filha, em matria de inclinao e conduta, no se enganava 
sobre as ligaes que Nemsio intentava esconder na conversao deleitosa. A 
inflexo apaixonada com que o vivo esmaltava cada frase, no momento em que as 
flores no sepulcro da morta no haviam emurchecido, dispensava para ela quaisquer 
circunlquios. Aquele homem lhe mencionava a filha, no na expectativa do 
admirador ingnuo, mas sim com a certeza do amante consolidado. 

A que estouvamentos se entregara Marina, no lar dos Torres?  conjeturava, 
inquieta. Se empolgara o prprio chefe, enredando-lhe o esprito nas teias de 
lamentvel alucinao, que procedimento adotara perante o jovem, alterando-lhe os 
rumos? Inferindo, porm, que as qualidades de Nemsio, com os cabedais 
financeiros de que se seguiam, no eram, em seu conceito, um partido para 
desprezar, ouvia tudo, imobilizando um sorriso complacente no rosto. 

Quando se dispunha, no entanto, a mergulhar no assunto, o telefone chamou. 

A campainhada valeu-lhe por desafogo. Intervalo providencial que lhe 
modificava o pensamento, conferindo-lhe trguas para analisar os episdios em 
curso. 

Era o mdico amigo, em aviso confidencial. 

Satisfazendo-lhe a solicitao, formulada dias antes, participava-lhe a piora de 
Marita. Se desejasse v-la com vida, no atrasasse a visita. Cludio no 
compreendia a gravidade do problema e ainda sonhava com o reerguimento da 
moa; entretanto, nele, cnico amadurecido, j no havia lugar  esperana. 
Reportou-se  peritonite, ao processo renal,  caquexia, s feridas que haviam surgido 
das contuses... 

Dona Mrcia agradeceu e fez-se plida, a tal ponto, que Nemsio se viu forado 
a correr de um lado para outro, a fim de ampar-la. Inteirando-se do que ocorria, 
ofereceu-se para conduzi-la at o leito da filha. Explicou que usufruiria no somente 
a satisfao de acompanh-la, como tambm aproveitaria o ensejo para 


cumprimentar a jovem acidentada e levar um abrao pessoal ao pai de Marina, 
que considerava, antecipadamente, um amigo e familiar. 

Assustada, aflita, a senhora Nogueira aceitou e, a breves instantes, os dois se 
punham de automvel, a caminho do hospital, com as aparncias de um casal 
elegante e feliz, rolando sobre o asfalto para uma visita de cerimnia. 


Captulo 6 

Valendo-nos da conduo, seguiamos igualmente para o hospital, em objetivo 
de servio. 

Enquanto o automvel chispava, a senhora Nogueira fitava Nemsio ao volante, 
apreciando-lhe a sisudez aparente e o porte desempenado. Inquietava-se consigo 
mesma, de vez que refletia naquilo em que no queria pensar.  vista daquele tipo 
galhardo, indagava-se por que razo Marina preferira o filho ao pai, se o genitor, 
cavalheiro dinheiroso e simptico, era, em tudo, a pessoa capaz de assegurar-lhe 
independncia e posio. 

De quando em quando, envolvia-lhe o perfil numa olhadela mais comprida e 
conclua, de si para consigo, que a juventude no tinha lgica. 

Mais alguns minutos e penetramos no estabelecimento, onde o par foi 
recepcionado pelo facultativo com quem Dona Mrcia se comunicara, momentos 
antes. 

O mdico, gentil, notificou ter avisado Cludio quanto  possibilidade da 
surpresa, mas Dona Mrcia desconversou, para no dar ao pai de Gilberto a 
impresso de que se dispusera a vir at ali pela primeira vez. Referiu-se  
temperatura, comentou particularidades do ambiente, qual se repetisse observaes 
corriqueiras. E o clnico, longe de perceber-se a servir de instrumento, respondia-lhe 
s perguntas calculadas, atendendo-lhe, involuntariamente, aos fins em pauta. 

Foi assim que, ao transpor a entrada do aposento indicado, Nemsio guardava a 
convico de acompanhar um smbolo vivo de ternura materna. 

Cludio, abatido, acolheu, a seu turno, os recm-chegados, entre sbrio e 
atento. A princpio, o desconforto ntimo... Depois, a conformao. Sofria demais 
para escolher discutir e aprendera o suficiente, naqueles dias de angstia, para inclinar-
se a reclamaes. Alis, ao facear com Nemsio, endereou-lhe o olhar do 
homem atribulado que roga a outro homem comiserao e socorro. 

Recebeu-lhe o amplexo franco, depois das apresentaes promovidas pela 
mulher, e imaginou-se na condio de um aluno em exame. 

Torres, que ele conhecia to bem, conquanto a distncia, figurou-se-lhe 
diferente. Sabia-o ostentando-lhe a filha em noitadas vadias e vezes diversas 
sopitara o mpeto de esmurr-lo, ao retirar-se humilhado de recintos alegres para 
no agentar desacatos; entretanto, agora lhe contemplava o rosto, imbuido de 
sentimentos novos. Identificava-se num teste de compreenso e de tolerncia. Num 
timo, associou os ensinamentos espritas-cristos que lhe metamorfoseavam o 
ntimo com Marita em decbito, fixou Nemsio e Mrcia, e deduziu que no lhe 
competia julgar aquele homem que lhe explorava a famlia. Mecanicamente recordou 
Jesus e a lio da primeira pedra... Estabeleceu confronto rpido e 
catalogou-se em nvel inferior. Torres entretinha-se com uma jovem que lhe dava 
liberdade, e filha de outro homem. Ele, porm, no vacilara em abusar da prpria 
filha, depois de encanto-la na sombra, atravs de embuste soez. Com que direito 
assumiria, ante a prpria vtima tombada, o papel de censor? 

Indubitavelmente  conclua em reflexes instantneas , amigos espirituais 
traziam-lhe o negociante detestado, experimentando-lhe a renovao. E a ele 
prprio, tambm  considerou, humilde  cabia o dever de sopesar as prprias 
reaes, categorizar-se tal qual era, no fundo da conscincia. 

Naquela prova de segundos, volveu o olhar para a esposa e no mais encontrou 
em Dona Mrcia a inimiga cordial de tantos anos. Aquele semblante embonecado 


por excessiva maquilagem, na presena das concepes novas que passara a 
nutrir, mascarava um corao insatisfeito, cujos desastres haviam sido provocados 
por ele mesmo. Exterminara-lhe os sonhos, logo aps o casamento. Recordou-se 
de como se enfadara, desapiedado, da esposa, ento menina cndida e 
espontnea, to-s por v-la disforme, na gravidez de que Marina sobreviera, e de 
como transferira, na direo de Araclia, os instintos de homem selvagem. Desde o 
choque em que se vira coagida a criar duas filhas, em vez de uma, a personalidade 
real de Mrcia desaparecera. 

Desequilibrara-se. E ele, ao invs de regenerar-se, recuperando-a, jamais 
regressara da caa de aventuras. Como exigir contas da mulher, se devia acusar-
se? Nada lhe impedia fugir do auto-exame, abraando conversas triviais; entretanto, 
inferiu que no conseguiria ausentar-se da prpria alma. Mais justo esquadrinhar-
se, suportar-se... Percebeu que Nemsio e Mrcia, expectantes, lhe estranhavam a 
atitude e, muito mais para no incomod-los que por subtrair-se a qualquer crtica, 
dirigiu o olhar para a filha desfigurada, que somente as energias de Moreira conjugadas 
com a alimentao artificial retinham no corpo fsico, e falou para o genitor de 
Gilberto, com inflexo de profundo sofrimento: 

 Veja o senhor... Nossa filha est muito mal... 
Os recm-chegados fitaram, atnitos, aquele cadver que ainda respirava... 
Sentiu-se Dona Mrcia esmagada de assombro, mesclado de piedade, mas 
reprimiu-se. 

Torres, por sua vez, apertou os dedos contra as palmas das mos, num gesto 
peculiar de nervosismo. A moa descarnada devolvia-lhe a imagem de Beatriz. 
Recuou, automaticamente, procurando o pai de Marina a fim de exprimir-lhe 
amizade, mas deparou com Cludio, de leno ao rosto, tentando, debalde, sofrear o 
pranto que lhe escorria do queixo hirsuto. 

A senhora Nogueira fez as honras. 

Conquanto abalada, no somente ao consignar a decadncia da pupila, mas 
igualmente ao testificar a inesperada sensibilizao do marido, controlou-se o 
bastante para falar com desembarao. 

Doseou as verdades que ouvira do mdico, respeitando o pesar do esposo, 
recapitulou a verso do acidente que ela mesma engenhara, para satisfazer aos 
amigos, e rogou desculpas pelo traumatismo com que Cludio se apresentava. 
Confessava-se tambm machucada  observou, polidamente ; contudo, ao ver o 
marido subjugado pelo desgosto, no tivera outro recurso seno reabilitar a 
resistncia prpria, a fim de que no escasseasse comando  situao. 

O esposo, em lgrimas copiosas, compreendeu que ela mentia para 
impressionar e que enfileirava frases bem-postas, no intuito de dar a entender que 
no arredava p do hospital; no entanto, no lhe rebateu as afirmativas. 

Limitava-se a chorar em silncio. Em lugar da indignao a que se rendia, em 
outros tempos, quando a via fingir, penalizava-se agora. Imaginava-se na posio 
do viajor que houvesse espalhado farpas em todo o caminho, por onde seria 
fatalmente impelido a regressar... 

Confirmando-lhe as impresses, Dona Mrcia levantou-se e, contendo a 
repugnncia que o cheiro desagradvel do leito lhe causava, ajeitou os travesseiros 
da filha inanimada, derramou algumas palavras de carinho e, verificando que 
Nemsio se mantinha constrangido no ambiente que as exalaes do processo 
renal tresandava, conclamou ao regresso. 

No seria licito reter o senhor Torres por mais 


tempo, alegou. Quanto a ela, que Cludio a esperasse. Voltaria mais tarde. 

Despedidas e protestos de solidariedade surgiram  tona. 

O irmo Flix, presente, seguira o encontro em todas as mincias e ponderou 
que se eu volvera ao estabelecimento, em objeto de servio, pela mesma razo me 
aconselhava o retorno ao lar de Nemsio, a fim de socorrer Marina, cujo problema 
obsessivo se agravava. Conviria, porm  acrescentou , acompanhar ambos os 
visitantes, de maneira estudar-lhes as reaes, com fins de auxlio. 

Aboletei-me no carro para a volta. 

Torres, dominando-se, escolheu caminho mais longo, em marcha lenta. 

A tortura de Nogueira suscitava-lhe falsas impresses. Cotejando-se com ele, 
qualificava-se por homem de rija tmpera que, dias antes, assistira morte da 
prpria companheira, sem quebrar-se, ao passo que o genitor de Marina se derretia 
ao p de uma filha adotiva, cuja situao, naquela hora, pedia a tranqilidade do 
necrotrio. 

De vez em vez, deitava olhares furtivos para Dona Mrcia, supondo 
compreend-la melhor. A mezinha daquela que pretendia desposar, perfeitamente 
comparvel  filha em beleza e inteligncia, no seria feliz junto daquele cavalheiro 
choro. 

O comerciante esperto retomara as caractersticas prprias. A pouco e pouco, 
olvidou a menina acidentada e o bancrio arrasado que classificava por marico e 
passou a exaltar o encantamento do dia em curso, qual se aspirasse a despertar 
Dona Mrcia para a convico de que se achava no auto, sob o patrocnio de um 
companheiro compreensivo e vigoroso, capaz de assegurar-lhe a euforia. Indagou 
se ela freqentava os passeios cariocas mais estimveis. Referiu-se aos almoos 
suculentos das Paineiras, aos piqueniques da Pedra do Conde, aos banhos em 
Copacabana,  vista inigualvel no Pico da Tijuca nos dias ensolarados, onde o 
binculo parecia trazer a restinga de Marambaia para dentro dos olhos... 

Dona Mrcia conhecia todos os stios mencionados, quanto a palma das mos; 
contudo, fez-se de ingnua. Sabia, de experincia prpria, que os homens da casta 
de Nemsio preferem as mulheres frgeis e acanhadas, que se voltem para eles 
com a bisonhice das criaturas necessitadas de proteo. Declarou nada conhecer 
dos pontos guanabarinos mais freqentados, alm do Po de Acar, que visitara 
numa excurso, alis muito rpida, junto das filhas ainda pequeninas. 

Afetando-se novata, em matria de experincias romanescas, informou que se 
casara muito nova e que, desde ento, a existncia lhe fora um suplcio entre 
escoves e panelas, com a obrigao de tolerar um marido resmelengo, segundo 
ele prprio, Nemsio, pudera verificar. Que lhe avaliasse o martrio de mulher 
acorrentada a um matrimnio infeliz pela mostra de Cludio choramingas, a receblos 
sem uma palavra de cordialidade e de apreo. 

Torres gostou das definies. Riu-se. Falou em psicoses. Reportou-se a 
neurologistas distintos. 

Dona Mrcia debuxou um sorriso malicioso, fitou-o demoradamente, e disse que 
era muito tarde para tratamentos, que havia muito tempo vivia separada do esposo, 
embora continuassem sob o mesmo teto. 

Acostumara-se a sofrer, declarava suspirando. Nemsio entendeu a insistncia 
daqueles olhares e experimentou recndita satisfao ao averiguar-se reqestado. 

A presena da futura sogra no lhe desagradava. No fosse Marina  pensou 
, e no hesitaria atra-la a convvio mais ntimo. A manh toda, na companhia 
daquela mulher que reputava formosa e inteligente, constitura-lhe um tnico. 


Esquecera-se, distraira-se. Mesmo assim, no julgou conveniente precipitar-se. 
Puxou o relgio e, verificando que faltavam apenas cinco minutos para meio-dia, 
convidou-a para o almoo. Conhecia excelente restaurante no Catete. 

A senhora Nogueira aceitou. E a refeio transcorreu alegre. 

Esforava-se a convidada em pressentir as escolhas do anfitrio, de modo a 
compartir-lhe os pratos prediletos. Sbria, acomodou-se  gua mineral e, no 
cardpio, comeu pouco. Em compensao, pensou muito e falou o possvel, no 
intuito de cativar o companheiro. Em dado momento, refletiu nos riscos a que 
Marina se expunha e, abemolando a voz, provocou a deixa. 

Prevendo a despedida prxima, asseverou no desejar o encerramento daquele 
encontro feliz sem agradecer-lhe o devotamento  filha. Alm disso, rogava-lhe permisso 
para assinalar que a moa era demasiado jovem, que temia pela 
inexperincia dela... 

Torres, lisonjeado, reiterou a confiana na escolhida, no sem um gesto 
significativo para a interlocutora, como a dizer-lhe que, embora lhe aguardasse a 
filha, no lar, no queria que a sogra lhe olvidasse a dedicao de amigo certo. A esposa 
de Cludio apanhou a sugesto no ar e asseverou, de modo galante, que, na 
qualidade de me abnegada, anelava para a filha a felicidade que o mundo no lhe 
pudera conceder. 

Entre ambos, o contrato afetivo no apresentava qualquer dvida, apesar de 
todos os itens do acordo se evidenciarem por entrelinhas e aluses, suspiros e 
reticncias. 

Quando o genitor de Gilberto disse adeus, no Flamengo, retomou o volante 
admitindo-se visitado mentalmente pela imagem da senhora Nogueira. Fugindo-lhe 
 influncia, opunha-lhe a figura da filha.  face disso, entrou em casa, decidido a 
encontrar-se com Marina, de pronto. 

Recolhido ao quarto particular, tomou o pijama, calou os chinelos silenciosos e, 
absorto, andou, de manso, na direo do compartimento, em que pretendia 
surpreend-la, comunicar-lhe impresses e, sobretudo, dissipar os pensamentos 
intrometidos que Dona Mrcia lhe suscitara. 

Empalmou, de leve, a maaneta e abriu a porta, sem rudo; no entanto, fez fora 
para no cair, garroteado de assombro. Gilberto e a moa beijavam-se em amplexo 
apaixonado, efusivo. De costas para a entrada, o filho no lhe assinalou a presena; 
todavia, Marina, a situar-se de frente, cruzou o olhar com o dele, viu-lhe o rosto crispar-
se, esverdinhado, e desmaiou. 

A cena foi rpida. 

Retirou-se Nemsio,  maneira de um co espancado, arrastando-se em terrvel 
asfixia. 

Dificilmente, ganhou o quarto e precipitou-se no leito, a sentir-se arrasado de 
sofrimento. 

Ponderaes contraditrias vararam-lhe o crnio -Como deslindar o enigma 
doloroso? Teria Gilberto abusado da menina enfraquecida ou dividia-se a jovem 
pelos dois? Intentou erguer-se, mas, como se houvesse recebido uma pedrada por 
dentro do corao, doa-lhe o peito, suava frio, sufocava-se. 

Decorrido um quarto de hora, Gilberto, insciente do vulco de lgrimas que o pai 
se empenhava a esconder, veio participar-lhe que Marina piorara, depois de ligeiro 
dellquio. Voltara da sncope, francamente possessa. Gritava, chorava, mordia-se, 
feria a si mesma... 

Nemsio, porm, pousou nele os olhos magoados e pediu-lhe comandar as 


medidas necessrias. Chamasse o mdico, telefonasse para o Flamengo e 
insistisse com a genitora para vir, e explicou, no sem esforo, que ele tambm 
tornara da rua, incompreensivelmente abatido... 

Aplicando-me a socorrer Marina, reconheci a obsesso instalada. Os 
vampirizadores que Moreira trouxera, coadjuvados por outros, haviam dominado, de 
todo, a jovem desprevenida. O choque experimentado esbarrondara-lhe as ltimas 
resistncias. Marina, sob o jugo dos malfeitores desencarnados, jazia hipnotizada, 
vencida... 

Em breve tempo, Dona Mrcia, em pessoa, renteava com a filha, que a recebeu, 
dementada, irreconhecvel. 

O mdico optou pela hospitalizao imediata, que Nemsio declarou patrocinar 
com a impassibilidade de quem cumpre um dever. Dona Mrcia, por desencargo de 
conscincia, entendeu-se com Cludio pelo fio, suavizando a notcia. Inteirava-o de 
que a filha se extenuara em trabalho excessivo, arrojara-se a grande fadiga mental 
e o facultativo indicava ligeira estao curativa, numa clnica de repouso. Ela, com a 
responsabilidade de me, no opunha qualquer embargo; entretanto, no lhe seria 
lcito deixar de ouvi-lo, aguardava-lhe a opinio. 

Nogueira no contraditou e Dona Mrcia deu-se pressa em confiar Marina a 
estabelecimento psiquitrico de nomeada, cujos portais a menina transps, 
inspirando cuidado e compaixo. 

Regressando  bela vivenda, depois de dois dias, encontramos Gilberto 
atarantado e infeliz; contudo, mais dedicado  moa que antes. Nemsio, porm, 
ruminava a antiga concepo do amor como sendo chinelo no p e, apenas 
decorridas quarenta e oito horas sobre o acontecimento, j permutava confidncias 
com a senhora Nogueira, em torno dos fatos novos, e ambos, na maior intimidade, 
j haviam encontrado motivos para desculpar aquilo a que chamavam doucuras da 
mocidade, cultivando consolaes um no outro. 


Captulo 7 

Duas semanas precisamente sobre o desastre em Copacabana e Marita 
amanheceu preparada  desencarnao. 

Moreira inspirava piedade. Aqueles dias abenoados de ensinamento e dor lhe 
haviam alterado a vida ntima. Percebendo que a menina entrara nos derradeiros 
lances da decadncia orgnica, chorava, consternado. 

Marita desligava-se, a pouco e pouco, de toda a relao com o mundo corpreo. 
Nem mesmo o calor daquele amigo generoso que a sustentava, qual se lhe 
ofertasse um pulmo suplementar, a interessava mais... 

Conquanto imvel, sentia-se agora lcida, profundamente lcida. Os olhos 
quedavam quase apagados; no entanto, o apoio magntico incessante lhe 
descerrava a luz da viso espiritual. 

Nos ltimos dois dias, atingira avanada renovao. Assinalava com absoluta 
clareza as palestras freqentes que Cludio mantinha com mdicos e enfermeiros, 
gravava as preces e os comentrios de Agostinho e Salomo, na hora do passe. 

De comeo, ao experimentar que as mos paternas lhe asseavam o corpo, 
desesperava, clamando de si para consigo que no se conformava com tanta 
humilhao... Lanava pensamentos de revolta contra o destino que a jungia 
daquele modo a um homem que odiava; entretanto,  fora de perceber-lhe a 
ternura reverente, expungindo-lhe as excrees que se lhe agarravam  epiderme 
ferida, acabou plantando no corao um sentimento novo. Enterneceu-se, 
transfigurou-se. Ouvia-o falar em Deus e, s vezes, identificava-lhe os dedos a lhe 
roarem a fronte, ao mesmo tempo que entremeava afagos e oraes... Num dos 
minutos comovedores em que ela cismava, sem atinar com os motivos daquela 
transformao, Flix aproximou-se... Acariciou-lhe paternalmente os cabelos em 
desalinho e disse, na convico de quem centralizava todas as energias, a fim de 
sugerir-lhe, com xito, a atitude aconselhvel: 

 Filha, perdoa, perdoa!... 
Ela registrou, emocionada, a voz desconhecida e recordou a mezinha que a 
deixara no bero. 
Sim  conclua , somente o amor materno voltaria do tmulo para inclinar-lhe 

o corao incendiado  fonte da indulgncia... 
Perdoar  monologou  que outra coisa lhe competia fazer diante da morte? 
Sim, devia partir olvidando mgoas e afrontas... Reconhecia-se na armadura dos 
ossos,  feio de pinto no ovo. Tnue pancada ou breve movimento conseguiria 
despej-la e deveria sair, conquanto no soubesse para onde... Por que no seguir, 
apagando as labaredas que lhe requeimavam os sentimentos?... 

Meditou naquelas mos que a despiam, enxugando-lhe a pele molhada para 
vesti-la outra vez, com o carinho apenas visto nas mes quando tocam, de manso, 
os filhinhos doentes, e concluiu que lhe cabia desculpar, esquecer... 

Compadeceu-se, ento, diante do pai irrefletido. Perdoar-lhe, sim!... Pensou 
nisso, com o jbilo de quem achara uma bno... Ele agora a respeitava, limpava-
a, orava... Viveria na Terra, talvez carregando amargas penas, enquanto que ela 
viajaria para regies que ignorava, apegando-se, porm,  confiana naquela voz 
que lhe impelia o esprito atribulado  calmaria do perdo... Rememorou-lhe o 
pranto da noite em que lhe declarara a paixo despropositada e tocou-se de entendimento. 
Pobre pai aquele que nunca desfrutava refgio no prprio lar!... Teria um 
crebro normal um homem assim, varado em casa, diariamente, qual se fosse um 


co infeliz? Quem poderia saber se ele se aproximara dela na condio de um 
enfermo buscando lenitivo que no sabia qualificar, na turvao dos prprios 
sentidos? Provavelmente havia recebido, na penso de Crescina, o assalto de um 
louco e no a injria de um homem!... Por que no justificar o pai que se dementara?... 
Reconstituiu-lhe, na memria, os gestos de brandura e de amor, nos 
brincos da infncia. Cludio lhe fora o nico amigo... Se chorava em pequenina, 
recolhia-se-lhe ao colo, buscando o regao de me que no tivera. Demorou-se a 
rev-lo nas telas da imaginao, transportando-a nos braos para que se distrasse, 
admirando os bichos do jardim zoolgico... Degustava, de novo, mentalmente, os 
sorvetes que ele lhe adquiria, prazeroso, nas tardes de vero... Recordava, 
recordava.... No, no!  bradava-lhe a conscincia, o pai no era perverso, era 
bom... Como recusar-lhe compaixo se Dona Mrcia o abandonava, se Marina lhe 
evitava a presena? Decerto, sofrera muito, antes de conturbar-se... Como no 
exculpar a loucura de uma noite, num benfeitor de vinte anos? Por que no morrer, 
abenoando semelhante dedicao? De que modo conden-lo, se ele, Cludio, 
prosseguia ali, paciente e abnegado, tolerando-a?... 

Recordou a me adotiva, imaginou-se  frente da irm e aspirou, em esprito,  
reconciliao com elas... Quem afirmaria que Dona Mrcia e Marina tambm no 
estivessem sob desequilbrios ocultos? quem diria com certeza que no fossem 
doentes? Naquele instante em que se harmonizava com Cludio, queria igualmente 
conciliar-se com ambas. Estavam perdoadas por todas as incompreenses e, no 
Intimo, pedia-lhes perdo por todos os dissabores que, involuntariamente, lhes 
tivesse causado!... No desfile das reminiscncias, Gilberto no faltou. A figura do 
rapaz surdiu-lhe na cabea, envolvida das doces vibraes do sonho que lhe 
constitura a luz da vida!... No conseguiria odiar a quem amava tanto!... Gilberto 
teria encontrado razes para afastar-se dela e tambm, naquelas reflexes graves e 
extremas, lhe aparecia na ternura revestido com a beleza de um companheiro 
amado e limpo!... 

Ao enunciar esses pensamentos, Marita sentiu-se mais leve, quase feliz!... 

Intentou movimentar-se, gritar ao pai que ela o considerava um homem de bem, 
que no detinha motivo algum para acus-lo, que os sucessos na moradia de 
Crescina tinham sido apenas um lamentvel engano, que ela realmente morreria, 
rogando-lhe, no entanto, viver e continuar a ser bom!... Contudo, s ao pensar no 
prprio soerguimento, teve a impresso de que se algemava a uma esttua. 
Nenhuma reao favorvel nos membros hirtos, nenhuma voz na garganta que lhe 
parecia de pedra; todavia, to grande e to herico se lhe externou o esforo da 
alma renovada, que bagas de pranto lhe rolaram dos olhos semimortos. 

Desde esse minuto solene de pacificao, comeou a distinguir, vagamente, 
vozes e formas do plano espiritual, entre alegre e amedrontada, qual se estivesse 
acordando num claro traspassado de bruma... 

Fitando-lhe o semblante orvalhado de lgrimas, Nogueira, reanimado, chamou o 
mdico. 

Aquilo no seria indcio de reao, de melhora? 

O facultativo, porm, meneou a cabea, circunspecto, e pediu mais tempo de 
observao, a fim de pronunciar-se, concluindo, no entanto, de si para consigo que 
a menina se achava em condio pr-agnica, transtornada, delirante... 

Clareado o dia que antecedeu a noite da desencarnao, o clnico prestimoso 
convidou Cludio a entendimento e comunicou-lhe, por fim, que a moa no mais 
viveria muitas horas. Para a Cincia, tudo terminava... Que ele, pai afetuoso e cren



te, orasse segundo a f que alimentava no corao, buscando foras... 

Nogueira baixou os olhos e agradeceu, humilde. Telefonou para Agostinho e 
Salomo, participando-lhes o aviso. 

Os amigos vieram  noitinha. 

Rogou orassem por ele, queria ser digno da f que aceitara. Pela primeira vez, 
pediu um passe em favor de si mesmo. Baixou os olhos e espalmou as mos para 
receb-lo, imitando o gesto de uma criana infeliz, suplicando uma esmola. 

O velho farmacutico e o negociante consolaram-no. No seria justo reter a 
menina padecente num corpo qual aquele, deprimido e irrecupervel; no entanto, ao 
se despedirem, achavam-se ambos engasgados de emoo. 

Cludio, mais desolado que nunca, s nove horas solicitou licena para trancar-
se. Queria estar s com a filha, dizer-lhe adeus. Ningum recusou aquele favor 
suplicado com humildade. 

Isolado  frente dela, Nogueira demorou-se a meditar... Recompunha o pretrito 
na memria, imaginando as estradas percorridas por runas das quais se via 
afastado para sempre. Entretanto, ao fixar a agonizante, pelo amor purificado que 
lhe passara a dedicar, simbolizava, na existncia junto dela, o futuro de que se via 
distante. Entre o passado que lhe inspirava repugnncia e o porvir na comunho 
espiritual com a filha querida, sentia-se esmagado, sozinho... 

Enternecia-nos as recnditas fibras da alma contemplar aquele homem vergado 
ao peso do suplcio moral, fugindo a recordaes para entrar em prece... Os gritos 
inarticulados do peito jugulado de angstia ao apelarem para Deus, no silncio do 
quarto, assemelhavam-se a cnticos de dor que as lgrimas sufocavam!... 

s onze, o irmo Flix e outros amigos, incluidos Neves e Perclia, estavam 
conosco. 

Em todos os semblantes, a expectativa discreta, com exceo de Moreira, que 
se agitava em pranto. 

O instrutor levantou-o num gesto de brandura, comunicando-lhe que a tarefa 
terminara. Que no se deveria vitalizar, por mais tempo, aqueles pulmes que a 
morte comeava a enregelar. O triste amigo obedeceu, em choro convulso. 

Em seguida, impondo as mos naquela cabea despenteada, Flix transmitiu-
lhe subitneo calor. 

Marita senhoreou inopinada agilidade mental. Supunha-se reviver, renascer. 
Escutava os rudos em derredor, com extrema acuidade auditiva... 

O benfeitor abeirou-se de Cludio e segredou-lhe algo. Certo, sugeria-lhe 
conversar, despedir-se. Ignorando-se tocado pelo mentor espiritual, vimo-lo 
revestido de estranha coragem. 

Nogueira ergueu-se, avanou dois passos e ajoelhou-se ao p da agonizante... 
Pousou a cabea rente ao corpo imvel, mas a intensa emotividade traiu-lhe as 
energias. O pranto abalava-lhe os membros, ao jeito de tempestade sacudindo os 
galhos de um tronco prestes a cair. 

Marita percebia-lhe o arfar do trax, na escala ascendente dos soluos, e 
desejou acarici-lo; contudo, os braos se lhe afiguraram parafusados cama. 

Amparado nas foras magnticas de Flix, que passou a apoi-lo inteiramente, 
Cludio cobrou nimo, recolheu o exemplar de O Evangelho segundo o 

Espiritismo, que deixara na cadeira prxima, e falou com voz trmula: 

 Filha do meu corao, se voc me escuta, atenda a seu pai, por piedade!... 
Perdoe-me!... 
No sei se voc sabe que estou transformado... Conheci Jesus, minha filha, e 


sei hoje que Deus misericrdia, que ningum morre, ningum... Sei que a 
justia est em ns mesmos, que sofremos pelos males que praticamos, mas Deus 
no nos recusa o resgate!... Compreendo o mal que fiz a voc, sou um criminoso, 
mais nada... Pense, minha filha, no remorso que carregarei pelo resto da vida!... 
Voc sabe que vou agora caminhar sem ningum, agentando a solido que 
mereo... Onde voc estiver, compadea-se de seu pai!... Confie em Jesus e nos 
bons Espritos!... 

Eles sabem que voc no se suicidou, sabem que sou um assassino... Ah! 
minha filha, pense nesta palavra assim to triste!... Assassino! Auxilie-me a lavar 
esta mancha da conscincia! Rogue por mim aos enviados do Cristo, para que eu 
tenha a fora de fazer o que devo fazer!... 

Cludio fez ligeira pausa, ao ver que o rosto da filha se cobria de lgrimas e, 
ansiando reconhec-la devolvida  prpria conscincia para que lhe assinalasse a 
renovao, guardou a ntima certeza de que ela o escutava, em plena lucidez, bendizendo-
lhe os votos de melhoria. Aflito e expectante, na convico de que estava 
sendo ouvido e entendido, continuou: 

 Apesar de tudo, filha querida, no fique triste com minha splica!... Sou um 
ru, mas tenho esperana! Veja a revelao de Jesus que eu achei!... 
Em seguida, com as mos trementes, num gesto de piedosa confiana, colocou-
lhe o livro na destra inerme. 
A filha desperta registrou a presena do volume sobre os dedos inteiriados e 
respondeu com o pranto mais vivo, mais copioso. 
Nogueira, encorajado por aquela manifestao de inteligncia, levantou a voz e 
rogou-lhe escutasse o que tinha a dizer... 
Declarando saber-se diante de amigos espirituais, que lhe testemunhariam a 
sinceridade, e certo de que empenhava a prpria alma nas afirmaes que se 
dispunha a formular, abriu-se  filha. 

Confessou ali, diante dela, todas as faltas de que se acusava; relatou-lhe o 
drama de Araclia; asseverou que sinceramente ignorava fosse ela filha dele, o que 
apenas viera a saber por informao de Mrcia, porqanto, leviano e inconseqente 
qual fora, na mocidade, admitia, erroneamente, que Araclia desempenhara o papel 
de companheira para vrios homens; participou-lhe que a esposa o chamara  
realidade, na noite horrvel em casa de Crescina; descreveu como se abatera, 
atormentado pelo arrependimento, desde que a vira prostrada, implorava-lhe perdo 
por hav-la induzido ao suicdio... Comunicou-lhe haver lido e aprendido muito sobre 
reencarnao, desde o primeiro dia de hospital, e asseverou-se persuadido de que 
ambos se achavam ligados, atravs de mltiplas existncias; disse que a paixo 
alimentada por ele teria sido fruto da invigilncia e da crueldade que ainda trazia no 
corao... Acrescentava, porm, ali, ante os padecimentos dela que lhe constituam 
sentena de dor inapelvel, que prometia regenerar-se, por mais spero o reajuste... 
Finda a longa exposio, que Marita assinalou, compungidamente, frase por frase, 
Nogueira retirou o livro da mo pequenina e descarnada, rematando em choro 
convulsivo: 

 Tenho orado e tenho recebido a misericrdia de Deus para mim, malfeitor... 
Mas se a Bondade Infinita me pode favorecer ainda com nova esmola, abenoe-me, 
filha querida, d-me um sinal de benevolncia, antes de partir... Se voc est 
ouvindo o ru que sou, acompanhe-me neste desejo... Ore tambm!... Rogue a 
Deus foras... Mova um dedo, um dedo s para que eu saiba que voc perdoou a 
seu pai!... No me deixe na incerteza, agora que vou recomear o destino, entregue 

s conseqncias de minhas prprias faltas!. 

Registrando os soluos paternos, que lhe revolviam a alma, a jovem associouse-
lhe aos votos. Desejou ansiosamente, veementemente, satisfazer-lhe o pedido... 

Perdo!... Perdo!... A palavra ressoava-lhe no esprito,  maneira de cntico 
que descesse do cu, ecoando nas paredes em torno!... Perdo!... Aquelas seis 
letras, enfileiradas em forma de sons, pareceram-lhe msica da eternidade, que 
estivesse sendo executada no firmamento, em trompas de estrelas, cujos brandos 
acentos lhe aliviavam o corao!... 

A pobre menina concentrou todas as energias num pensamento de confiana e 
de gratido a Deus e rogou, mentalmente:  Perdo, Senhor!... Perdo para meu 
pai, perdo para mim!... Perdo para todos os que erraram!... Perdo para todos os 
que caram!...  

Aguaram-se-lhe as percepes e sentiu-se como que banhada de alegria 
inefvel... Contemplou Cludio, distintamente agora, fitou Moreira em lgrimas e, 
alongando a ateno mais serenamente em derredor do leito, viu-nos a todos. Flix, 
em silncio, endereou-lhe eflvios magnticos a determinada rea cerebral, e 
Cludio, atnito, viu a destra inerme levantar-se... 

Agoniado e reconhecido, tomou avidamente aqueles pequenos dedos frios e 
quis dizer obrigado, meu Deus!, tentando, debalde, movimentar a garganta que 
os soluos embargavam; contudo, em lugar da palavra dele, foi a voz de Flix que 
se ergueu, de nosso lado, arrebatando nos em prece: 

 Senhor Jesus, ns te agradecemos a felicidade que nos concedeste na lio 
do sofrimento, nestes dias de trabalho e de expectao!... 
Obrigado, Senhor, pelas horas de aflio que nos clarearam a alma, pelos 
minutos de dor que nos despertaram as conscincias! Obrigado por estas duas 
semanas de lgrimas que realizaram por ns o que no nos foi possvel fazer em 
meio sculo de esperana!.. 

Em te alando nosso agradecimento e louvor pedimos ainda!... Lana, por 
misericrdia, a tua bno na irm que se despede e no companheiro que ficar. 
Transfunde-lhes o pesar em renovao, a mgoa em regozijo!... Recebe-lhes o 
pranto, como sendo a orao que te elevam, aguardando-te a paz no caminho!... 

Entretanto, Mestre, no te exoramos a piedade somente para eles, irmos bem-
amados, que consideramos filhos da prpria alma!... Suplicamos-te arrimo para 
todos os que resvalaram nos enganos do sexo desorientado, quando nos ofereceste 

o sexo por estrela de amor a brilhar, assegurando-nos a alegria de viver e 
garantindo-nos os recursos da existncia!... 
Consente, Senhor, possamos relacionar, diante de ti, aqueles irmos que as 
convenes terrestres tantas vezes se esquecem de nomear, quando te dirigem o 
corao. 

Abenoa os que se tresmalharam na insana ou no infortnio, em nome do amor 
que no chegaram a conhecer! 

Socorre nossas irms entregues  prostituio, j que todas nasceram para a 
felicidade do lar, e corrige com tua munificncia os que as impeliram para a viciao 
das foras gensicas; acolhe as vtimas do aborto, arrancadas violentamente ao 
claustro materno, dentro dos prostbulos ou em recintos que a impunidade acoberta, 
e retifica, sob teu auxlio, as mes que no vacilaram asfixiar-lhes ou degolar-lhes 
os corpos em formao; restaura as criaturas sacrificadas pelas deseres afetivas, 
que no souberam encontrar outro recurso seno o suicdio ou o manicmio para 
ocultarem o martrio moral que lhes transcendeu a capacidade de resistncia, e 


compadece-te de todos aqueles que lhes escarneceram da ternura, transformando-
se, quase sempre, em carrascos sorridentes e empedernidos; protege os 
que renasceram desajustados, no clima da inverso, suportando constrangedoras 
tarefas ou padecendo inibies regenerativas, e recupera os que se reencarnaram 
nessa prova, sem foras para sustentar as obrigaes assumidas, afogando a 
existncia em devassido; recolhe as crianas que foram seviciadas e renova, com 
a tua generosidade, os estupradores que se animalizaram, inconscientes; agasalha 
os que rolaram na desencarnao prematura, por efeito de golpes homicidas, nas 
tragdias da insatisfao e do desespero, e ampara os que se lhes tornaram os 
verdugos padecentes, vergastados pelo remorso, seja na liberdade atenazada de 
angstia ou no espao estreito dos calabouos!... 

Mestre, digna-te reconduzir ao caminho justo os homens e as mulheres, nossos 
irmos, que, dominados pela obsesso ou traidos pela prpria fraqueza, no 
conseguiram manter os compromissos de fidelidade ao tlamo domstico; 
reequilibra os que fazem da noite pasto  demncia; conforta os que exibem 
mutilaes e molstias resultantes dos excessos ou dos erros passionais que 
praticaram nesta ou em outras existncias; reabilita a cabea desvairada dos que 
exploram o filo de trevas do lenocnio; regenera o pensamento insensato dos que 
abusam da mocidade, propinando-lhe entorpecentes; e sustenta os que rogaram 
antes da reencarnao as lgrimas da solido afetiva e as receberam na Terra, por 
medida expiatria aos desmandos sexuais, a que se afeioaram, em outras vidas, e 
que, muitas vezes, sucumbem de inanio e desalento, em cativeiro familiar, sob o 
desprezo de parentes insensveis, a cuja felicidade consagraram a juventude!... 

Senhor, estende tambm a destra misericordiosa sobre os coraes retos e 
enobrecidos! 

Desperta os que repousam nos ajustes legais, acatados nas organizaes 
terrestres, e esclarece os que respiram em lares, revestidos pela dignidade que 
mereceram, a fim de que tratem com humanidade e compaixo os que ainda no 
podem guardar-lhes os princpios e imitar-lhes os bons exemplos!... Ilumina o 
sentimento das mulheres engrandecidas pelo sacrifcio e pelo trabalho, para que 
no desamparem aquelas outras que, at agora, ainda no conquistaram a 
maternidade premiada pelo respeito do mundo, e que, tantas vezes, lhes suportam 
a brutalidade dos filhos nos lupanares! Sensibiliza o raciocnio dos homens que 
encaneceram honrados e puros, de modo a que no abandonem os jovens 
desditosos e transviados!... 

Senhor, no consintas que a virtude se converta em fogo no tormento dos 
cados e nem permitas que a honestidade se faa gelo nos coraes!... 

Tu, que desceste s vielas do mundo para curar os enfermos, sabes que todos 
aqueles que jornadeiam na Terra, atormentados pela carncia de alimentao 
afetiva ou alucinados pelos distrbios do sexo, so doentes e infelizes, filhos de 
Deus, necessitados de tuas mos!... 

Inspira-nos em nossas relaes uns com os outros e clareia-nos o entendimento 
para que saibamos ser agradecidos  tua bondade, para sempre!... 

Quando Flix emudeceu, o compartimento demorava-se invadido pelo claro 
que se lhe exteriorizava do peito; contudo, no ramos somente ns, os 
comandados dele, que trazamos, ali, o esprito subjugado por intensa emoo!... 
Todas as entidades desencarnadas, em servio no estabelecimento, mesmo as que 
se vinculavam a outros cultos religiosos, se perfilavam  frente do acanhado recinto, 
discretas e atenciosas... Espritos ignorantes e vampirizadores, em trnsito nos 


stios adjacentes, acorreram para junto de ns, atraidos pelos jorros de luz solar 
que o aposento irradiava em todas as direes, e, muitos deles, a curta distncia, 
baixavam a fronte, emocionados e reverentes. 

Aquele quarto da venervel instituio socorrista, em plena noite, na rua do 
Resende, assemelhava-se a fulgurante corao de alvenaria, constelado de amor!... 

Cludio nada ouvia, mas, empolgado pelas vibraes balsmicas do ambiente, 
chorava, de manso, percebendo a mo glida que se colara s dele, afrouxando a 
presso do adeus. Agoniado, fitou o semblante da filha e notou que o palor da morte 
nele esboava o derradeiro sorriso... Levantou-se e cerrou, cuidadosamente, 
aquelas plpebras fatigadas, orvalhando-as de lgrimas; no entanto, renteando com 
ele, Moreira no continha os soluos. 

Telmo aplicava passes anestesiantes  jovem e um mdico espiritual, que se 
nos incorporara ao trabalho de equipe, cortou os ltimos ligamentos que ainda 
retinham a alma cativa ao corpo inerme. 

Quando viu Marita liberta e agasalhada nos braos de Flix, figurando-se uma 
criana cansada e adormecida, Moreira, na aflio e na humildade dos que se 
olvidam integralmente, para destacarem os que mais amam, indagou, desolado: 

 Irmo Flix, que farei doravante, intil como sou? 
 Moreira  respondeu o instrutor, abenoando-o com o olhar , somos uma 
famlia s. 
Muito em breve, ters o necessrio, de modo a retomar o convvio de Marita, 
que pede agora paz e refazimento; mas, antes, somos ns os companheiros que te 
pedem auxlio! Marina sofre... Precisamos libert-la. Contamos contigo como quem 
tudo espera de um amigo, de um irmo!... 

O ex-assessor de Cludio, ansiando patentear correta submisso, ps-se 
genuflexo e deixou pender a fronte, confundido ao reconhecer que o orientador lhe 
rogava sanar uma brecha que ele, Moreira, havia agravado, e prometeu, em pranto, 
atender  obrigao que se lhe indicava. Tudo o que anelava agora, acentuou, era 
aprender, auxiliar, dedicar-se ao bem, trabalhar, ....... 

Felizes da Terra! Quando passardes ao p dos leitos de quantos atravessam 
prolongada agonia, afastai do pensamento a idia de lhes acelerardes a morte!... 

Ladeando esses corpos amarrotados e por trs dessas bocas mudas, 
benfeitores do plano espiritual articulam providncias, executam encargos nobilitantes, 
pronunciam oraes ou estendem braos amigos! 

Ignorais, por agora, ovalor de alguns minutos de reconsiderao para o viajor 
que aspira a examinar os caminhos percorridos, antes do regresso ao aconchego do 
lar. 

Se no vos sentis capacitados a oferecer-lhes uma frase de consolao ou o 
socorro de uma prece, afastai-vos e deixai-os em paz!... As lgrimas que derramam 
so prolas de esperana com que as luzes de outras auroras lhes rociam a face!. 

Esses gemidos que se arrastam do peito aos lbios, semelhando soluos 
encarcerados no corao, quase sempre traduzem cnticos de alegria,  frente da 
imortalidade que lhes fulgura do Alm!... 

Companheiros do mundo, que ainda trazeis a viso limitada aos arcabouos da 
carne, por amor aos vossos sentimentos mais caros, dai consolo e silncio, simpatia 
e venerao aos que se abeiram do tmulo! Eles no so as mmias torturadas que 
os vossos olhos contemplam, destinadas  lousa que a poeira carcome... So filhos 
do Cu, preparando o retorno  Ptria, prestes a transpor o rio da Verdade, a cujas 


margens, um dia, tambm vs chegareis!... 

Ao entardecer, Agostinho e Salomo acompanharam Cludio e os despojos da 
filha at ao Caju. 

Cerimnia simples que a prece consagrou. 

De volta, Nogueira, acabrunhado, despediu-se dos amigos, na Cinelndia, e 
tomou txi para o Flamengo. 

Alcanou o prdio, subiu e, sequioso de companhia, abriu a porta. Vasculhou 
pea por pea e sentiu frio no corpo e na alma... 

No apartamento deserto no havia ningum. 


Captulo 8 

Satisfazendo a recomendaes de Flix, que nos esperava a cooperao, junto 
de Cludio e Marina demoramo-nos no Flamengo, ao p do amigo que a 
consternao abatia. 

Entregue a si mesmo, sem qualquer consolao humana, Nogueira refletiu e 
compreendeu. 

Havia lido bastante. Conversara o suficiente com Agostinho e Salomo. No lhe 
cabia escusar-se verdade. Recolhera a f por misericrdia da Bondade Divina; 
entretanto, a Divina Justia no poderia forr-lo  solido que ele mesmo plantara. 

Represava-se-lhe o corao de saudades da filha que o tmulo escondera. 
Aquela quinzena de hospital unira-os em esprito para sempre. Ao lado de Marita, 
obtivera a luz da renovao. Doa-lhe pensar que no mais experimentaria o 
conforto de carreg-la, sustent-la, socorr-la... 

Abatido, sentou-se e chorou. 

A noite avanava e Mrcia no aparecia. 

Telefonou, discreto, para vizinhos de Dona Justa. A servidora, chamada por 
obsquio  residncia de amigos, veio atender. Informou-se da desencarnao de 
Marita e lamentou no haver conseguido a notcia, antes, com o tempo necessrio 
para assistir-lhe ao funeral. Esclareceu que a madama subira a Petrpolis, sem 
precisar o regresso. Dona Mrcia alegara cansao, depois da internao de Marina 
para tratamento, e avisara-a de que pretendia passar alguns dias na serra, 
ganhando foras. Ela, Dona Justa, segundo o combinado, comparecia, pela manh, 
no apartamento, e folgava  tarde. 

Nogueira perguntou pelo estabelecimento, onde se achava a filha doente; no 
entanto, a servidora respondeu com sinceridade que no sabia. Dona Mrcia no 
lhe fornecera informaes. 

Alis, solicitava licena para inteir-lo, sem a menor inteno de afligi-lo, de que 
julgava a patroa tambm esgotada. Parecia nervosa, enferma. 

Cludio agradeceu e tomou o catlogo telefnico. 

Pediu, infrutiferamente, ligao para conhecida casa de repouso em Santa 
Teresa. E seguiu procurando pelo fio, at que na sexta pesquisa encontrou o que 
buscava. Enfermeira prestimosa, com quem Dona Mrcia deixara endereo, 
respondeu de uma casa de sade, localizada em Botafogo, notificando que Marina 
a se hospedava. As visitas, no entanto, mesmo para os familiares, estavam proibidas. 
A moa andava em crise, sob a ateno dos mdicos. 

Mesmo na condio de progenitor, que ele fizesse a gentileza de ouvir a 
administrao, antes de procurar pessoalmente avist-la. 

Cludio acolheu-se  poltrona, a fim de pensar. Restava a casa dos Torres. 
Gilberto, com certeza, poderia elucid-lo; entretanto, a figura do rapaz assomava-lhe 
 imaginao semelhante a bisturi que lhe retalhasse uma chaga mental. Rememorava 
a entrevista do Lido, em que lhe ilaqueara a boa-f, e envergonhava-se. 
Meditou, meditou. Examinou-se sem compaixo para consigo, e acabou inferindo 
que, se quisesse realmente apresentar personalidade nova, no lhe cabia isentar-se 
das conseqncias que as passadas faltas lhe propunham. 

Consolidado o raciocnio, no mais vacilou. 

Recorreu ao fone com escassa esperana de ouvir o rapaz, j que o relgio 
assinalava mais de nove da noite, mas o moo atendeu. 

No obstante acanhado, Cludio expressou-lhe o pesar pelo falecimento da 


genitora, ao mesmo tempo que lhe comunicava a perda de Marita. 

Figurou-se-lhe Gilberto deprimido, torturado. 

O filho de Nemsio confessava-lhe desconhecer, no s a extenso do acidente, 
mas tambm o bito. Decerto que, pelas provaes da famlia, com a lenta agonia 
de Dona Beatriz e com a enfermidade de Marina, que logo se lhe seguiu, no tivessem 
Dona Mrcia e a filha encontrado ocasio para referir-lhe a gravidade das 
ocorrncias. Lastimava o sucedido e enviava psames. 

Prezara sempre em Marita uma irm pelo corao. Consultado por Nogueira, 
explicou que Marina fora acometida por acessos de fria. O facultativo de confiana 
admitira demncia precoce, mas desistira da assistncia. Entregara o problema a 
psiquiatras. 

O dilogo prosseguiu. 

Antecipando justificativas, Gilberto anunciou haver assumido novas resolues, 
nos dias ltimos. Quando no encontro de ambos, em Copacabana, estava, sim, 
decidido a casar-se mais cedo, desposar Marina e recolher-se  tranqilidade do lar, 
mas, apreensivo ao ver a moa doente qual se achava, o pai, embora reconhecido 
aos servios que a jovem lhes prestara, impelira-o  mudana de rumo. O genitor, 
que se achava ausente em descanso restaurativo, usara franqueza. 

No aprovaria o casamento, no considerava Marina suficientemente habilitada 
para as responsabilidades do matrimnio. Alm disso, falara-lhe de certas coisas 
e aconselhara-o a sair do Rio. Sustent-lo-ia em outra cidade, onde pudesse 
recomear estudos interrompidos. Ele, porm, Gilberto, compreendia a vida de outro 
modo e,  face das imposies paternas, sentia-se acabrunhado, vencido... 

Cludio aceitou as alegaes com humildade e acentuou que ele era ainda 
muito jovem, que no devia opor contradita aos conselhos de Torres pai e sim 
continuar refletindo, de vez que casamento, em qualquer pessoa, reclama liberdade, 
conscincia... To sensatas e confortadoras observaes formulou, pacificando-lhe 

o intimo e clareando-lhe a compreenso para o trato com o prprio pai, que Gilberto 
se modificou, perante aquela brandura inesperada. Supunha ouvir um outro 
Nogueira, mais velho, mais amigo... Emocionado, agradeceu e chegou a pedir-lhe 
no o abandonasse. Verificava-se agora sozinho. O genitor era bom, generoso, mas 
homem de negcios. 
Cabea cheia. Sentia necessidade de algum que o inspirasse, que lhe estendesse 
as mos. 

Estimaria encontr-lo, ouvi-lo mais vezes. 

Percebeu que Cludio lhe falava em tom de lgrimas, agradecendo-lhe o 
apreo. Aquilo como que lhe insuflava confiana nova naquele homem com quem 
se entendera, dias antes, mas de modo imperfeito. 

Nogueira, submisso, consultou acerca de Mrcia. Provavelmente que, em se 
afastando para Ptrpolis, a esposa lhe teria deixado o telefone. Gilberto confirmou. 
Dona Mrcia, ao viajar, solicitara-lhe ateno para Marina. Se a menina piorasse, 
que fizesse o obsquio de cham-la, incontinenti. E ao expressar-lhe semelhante 
recomendao, declarara que lhe passava a incumbncia e no ao marido, por 
sab-lo ocupado no hospital. 

De posse das informaes, Cludio agradeceu de novo e reps o fone no 
gancho. Em seguida, confiou-se  meditao. Pelo tom da conversa, o rapaz se 
alterara de todo. Em tudo o que expusera, media as frases. Cerimonioso, 
desencantado. E que teria desejado dizer com aquelas duas palavras certas coisas? 
Ele, Nogueira, sentia-se renovado; entretanto, a experincia do pretrito constitua



lhe o fundo da grande transformao. No ignorava que a filha se arriscava a 
dualidade perigosa, na aventura afetiva. Convencia-se de que algo de muito grave 
teria ocorrido. 

Era bastante maduro para no desconfiar de que pai ou filho houvesse 
apanhado algum flagrante desagradvel. Deduzia que a jovem baqueara, caindo em 
abatimento, como quem achara nisso a desero de si mesma. Pensou nela e 
compadeceu-se. Afinal, no se fizera crente para censurar. Aspirava a compreender, 
servir. Sabia agora que a obsesso provocava tragdias. E ele mesmo, 
que nunca auxiliara a filha, na edificao da vida ntima, no podia queixar-se. 
Cismou, cismou e, depois das dez, chamou a esposa. 

Dona Mrcia respondeu. 

Interpelada, comunicou estar descansando, junto de pessoas amigas. Ciente da 
morte de Marita, confessou-se aliviada. No a desejava sobrevivendo ao desastre, 
deformada como a vira. 

Alinhou comentrios desairosos, fez chiste. 

Pela inflexo com que se manifestava, o esposo reconheceu-a num dos dias 
mais infelizes. 

Sarcasmo em cada slaba. Irritao  mostra. 

Cludio apequenou-se, rogou desculpas. No queria interromper-lhe a 
excurso. No conseguia, porm, sossegar-se quanto  filha doente. Se possvel, 
ensinasse a ele o melhor caminho de visit-la com urgncia. Solicitava-lhe o nome 
dos mdicos amigos. Esperava colher-lhes a opinio. 

A palavra dele deslizava to mansamente no fio que a interlocutora mudou de 
jeito. Amaciou-se. Informou que precisava completar informaes com amigas, que 
ele, Cludio, aguardasse um minutinho. 

Transcorridos instantes breves, voltou participando que viria ao Rio, na manh 
seguinte, a fim de conversarem. Guardava (certos assuntos para tratar com ele, 
mas preferia falar-lhe de boca a boca. Que ele a esperasse no Flamengo. Chegaria 
cedo, de automvel, apenas com o objetivo de v-lo e retornar ao hotel serrano em 
que repousava. 

Efetivamente, no dia imediato, antes das nove da manh, logo aps entender-se 
com Dona Justa, em matria caseira, viu-se o bancrio defrontado pela esposa. 

Dona Mrcia parecia regressar de outro pas. Adereada, sorridente. Os cabelos 
em penteado excntrico realavam-lhe a graa, remoando-a inteiramente. 
Harmonizava-se a maquilagem com o rseo do vestido novo. O porte se lhe erguia 
nos sapatos de salto alto, com a esbelteza da cegonha jovem, quando caminha 
descuidada em campo livre. Exibia cores, desfilava perfumes. 

Contudo, a flor humana em que se metamorfoseara no escondia para ns as 
larvas que a carcomiam. Jazia Dona Mrcia assessorada por pequena corte de 
vampirizadores desencarnados que lhe alteravam a cabea. 

Mesmo  nossa frente, que nos acostumramos a identific-la por matrona 
difcil, mas ajustada ao lugar que as convenincias lhe indicavam, surgia quase 
irreconhecvel. 

Metalizara-se-lhe a voz, o olhar fizera-se mais frio. 

De entrada, cumprimentou o marido e Dona Justa com ademanes de protetora 
complacente. 

Assustou-se Nogueira. No compreendia. Padeciam em casa a provao de 
uma filha morta e outra enferma... Por outro lado, Mrcia, pelo fio, anunciara-se 
esfalfada. De que maneira se amoldava a uma excurso, assim festiva? Instintiva



mente, recordou Gilberto preocupado com certas coisas e a prpria esposa 
prometendo-lhe (certos assuntos e, apreensivo, perguntava-Se que sucessos 
ocultos se lhe vedavam ao corao... 

A recm-chegada sentou-se, cruzando as pernas com desenvoltura juvenil, e, 
sem mais aquela, reportou-se  pressa que trazia. 

Nogueira indagou por Marina. 

Dona Mrcia, evidentemente interessada em outros problemas, sintetizou, 
quanto pde, a histria da enfermidade, indicou o psiquiatra que respondia pelo 
caso, aludiu ao conforto de que a filha se rodeava na casa de sade e exalou a 
generosidade do senhor Torres, que no calculava sacrifcios para que lhe 
sobejasse assistncia. Comentou largamente a nobreza do vivo de Dona Beatriz, 
cuja grandeza de alma apenas agora  dizia, entusiasmada , comeava a 
conhecer. E, finalmente, props um ajuste de providncias pelas quais se 
transferisse a menina para um sanatorio em So Paulo, onde estagiasse, no 
tratamento devido, por alguns meses. Bastava que ele, Cludio, concordasse. 
Nemsio, em sinal de gratido da firma pelos servios prestados por Marina, 
custearia todas as despesas. 

Cludio escutou, humilde, e obtemperou que a situao talvez no fosse to 
grave, que a palavra meses o alarmava. Acreditava que a filha, conjugando 
medicao do corpo e da alma, lograria recuperar-se em menos tempo. 

Argumentou, sensato. Demonstrou, sem afetao de virtude, que no lhes seria 
lcito abandon-la, destacou que a proteo dinheirosa significava muitssimo, 
principalmente naquela hora em que os cuidados exigidos por Marita lhe haviam 
esgotado as reservas, mas admitia que a filhinha conturbada reclamava deles 
carinho, dedicao. 

Aps enfileirar judiciosos apontamentos que a interlocutora recebia, contrafeita, 
levantou para ela os olhos splices -e convidou-a, com dignidade, a abraar, junto 
dele, uma existncia nova. 

Vida de harmonia, de construo recproca. Sincero, confiou-lhe todos os 
propsitos diferentes que edificara naqueles dias de luta, dos quais emergira transformado. 
Descerrava-lhe o ntimo. Fizera-se esprita-cristo. Sentia-se outro 
homem. Participou-lhe que, entre ele e o passado, erigia-se a f por barreira de luz. 
Aspirava, agora,  bno do lar, tranqilidade da famlia... 

Comprometia-se a adotar conduta reta, ser-lhe-ia companheiro leal. No lhe 
constrangeria o nimo a aceitar-lhe as idis; no entanto, anelava mostrar-lhe 
quanto a amava... Disse-lhe que vinha orando, desde a vspera, rogando a Jesus o 
inspirasse, no sentido de revelar-se a ela, abertamente, para que ela, Mrcia, lhe 
perdoasse e o compreendesse... Concedia-lhes Deus o futuro  frente. 

Penitenciar-se-ia quanto aos erros cometidos, dispunha-se a testemunhar-lhe 
fidelidade, afeio... 

A senhora, porm, aprumou-se de um salto, plantou as mos na cintura, numa 
risada de escrnio, e zombeteou: 

 Sim, senhor! o diabo, depois de velho, se fez ermito!. .. sempre a mesma 
histria!. 
E aditou com ar de troa: 

 Era s o que faltava! Voc esprita!... Eu logo vi!... Juro que no hospital voc 
j estava nessa baboseira. Aquele jeito de conversar, quando Nemsio e eu fomos 
l, aquele modo de tratar Marita!... Ora, ora!... quem teria hipnotizado voc dessa 
forma?... 

O marido, arrancado  esperana que alentava no sentido de se 
reconciliarem para uma experincia domstica respeitvel e batido na f que principiava 
a entesourar, objurgou, francamente ofendido: 

 Mas voc conhece o Espiritismo? 
Mrcia, obsidiada, com a disposio de quem procura deixar o carreiro, trilhado 
desde muito, para arrojar-se a outro caminho, revidou, irnica: 

 Perfeitamente, conheo sim! Quando Araclia morreu, andei conversando 
nisso com amigas e acabei desistindo. Espiritismo  um movimento de pessoas, 
querendo sentar cachorros no banco e apanhar estrelas como se fossem laranjas!. 
.. Bobagem! Ns todos no mundo somos canalhas!... Eu sou, voc , os outros 
so!... Os espritas me parecem ces querendo sentar na poltrona da falsa virtude. 
Asneira deles! Temos de rolar  no cho mesmo... 
 Eu no penso assim... 
 Pois se voc pensa de maneira diversa e se  verdade tudo o que voc me 
falou,  pena que a mudana chegue to tarde!... Venho de Petrpolis, justamente 
para dizer a voc que entre ns tudo est acabado... Agora, meu velho, faa a sua 
vida, que eu vou me arranjar... 
E continuou alegando que, depois de sofrer tantos anos, naquele apartamento 
que apelidava por minha gaiola, iria fazer ninho certo. Esperaria to-somente as 
melhoras de Marina, a fim de promover o desquite. Se ele, Cludio, no assinasse, 
que escolhesse rumo. Declarava-se farta. 

Queria liberdade, sossego, distncia... 

Nogueira escutava, triste. 

Repunha no pensamento as instrues de Agostinho e Salomo, lembrava 

Marita, reconstituia na memria os textos lidos. 
Sim, conclua mentalmente, aquele matrimnio destrudo era obra dele. Recolhia 

o que semeara. Uma filha morta, outra doente e a esposa obsessa... Seara de 
espinhos para quem os plantara Fitou Mrcia, aplicada ao sarcasmo, e reconheceu 
que ambos eram comparveis a dois nufragos na viagem do mundo, com a 
diferena de que ele aceitara refgio no salva-vidas da f, ao passo que ela preferia 
mergulhar no desconhecido. Por minutos amargos, ouviu-lhe, pacientemente, os 
remoques, at que o homem antigo ressurgiu nele. 
Impossvel agentar tanto insulto  monologou de si para consigo. A doutrina 
restauradora que abraara no se destinava a criar homens indignos. Doutrina de 
compreenso e benevolncia, mas tambm de limpeza e respeitabilidade. No se 
julgava habilitado a receber tanta injria sem revolta. Indignou-se. Quis reagir, 
esbravejar, espanc-la... Entretanto, ao querer deslocar a destra, a fim de agredi-la, 
a noo de responsabilidade acordou-se-lhe, de repente... Recordou o hospital e 
reviu na imaginao a pequena mo gelada que o saudava, num gesto de perdo, 
no momento do adeus... Os dedos submissos e frios da filha desencarnada estavam 
nas mos dele, relembrando-lhe que devia perdoar como tinha sido perdoado... 
Sbita calma lhe tomou o corao e entrou em lgrimas copiosas... 

Mrcia divertiu-se. Destacou que no faria falta a um marido que se efeminara, 
tornando-se poltro e choramingueiro. Afirmou que, mediante aquele espetculo de 
covardia, estava decidida a no contar com Marina, refeita. Tomaria atitude. Nada 
mais tinha a ver com aquela casa. Chamou Dona Justa e avisou com o indicador em 
riste que mandaria buscar todos os seus pertences para serem alojados em casa de 
Selma, a companheira de infncia que residia na Lapa. E, vociferando, colrica, 
estrondou a porta, atrs dos prprios passos, sem mais uma palavra para o esposo 


que permanecia na sala, esmagado de sofrimento. 

Demorou-se Nogueira em casa, durante algumas horas, refazendo foras.  
tarde, procurou Salomo, em Copacabana. Consolou-se ao v-lo. Palestraram por 
momentos. Da prpria farmcia, telefonou ao psiquiatra que a esposa nomeara. 

O especialista ouviu, corts. Sim, proporcionar-lhe-ia todas as facilidades para 
que se avistasse com a filha, no dia seguinte. 

Cludio agradeceu e, encerrando a ligeira conversao pelo fio, rogou a 
Salomo um minuto de entendimento em particular. Atendido, solicitou ao amigo 
para que o auxiliasse atravs da orao, em benefcio da outra filha, que supunha 
obsidiada, relacionando-lhe o problema de modo sucinto. 

Salomo confortou-o. Possua companheiros diversos, dedicados  
desobsesso. A todos solicitaria socorro, junto aos benfeitores que lhes supervisionavam 
as tarefas, no plano espiritual. A seu turno, consagrar-se-ia ao caso, imbuido 
da melhor confiana. Notando que o pai de Marita entremostrava o corao 
atenazado de angstia no semblante abatido, convidou-o ao caf e, sentados em 
recanto ameno, permutaram confidncias, observaes projetos, esperanas. 

Partilhariam atividades espirituais, seriam irmos no trabalho, no ideal. 

Nogueira retornou, aliviado, ao Flamengo, e, na manh imediata, estava a 
postos, em Botafogo. 

No horrio marcado, ganhou o recinto a que Marina foi trazida. 

Afligiu-se em lhe verificando a depresso. Emagrecera. Desfigurara-se. Por fora, 

o alheamento de si mesma; entretanto, atravs dos olhos, despedia a alma 
incendiada de angstia. 
Comovi-me, no apenas ao abra-la, mas tambm ao notar Moreira rente, 
esmerando-se na execuo do que prometera. 
Enquanto o amigo que se guindara  condio de enfermeiro me acolhia, 
fraterno, a jovem enleara-se ao pai numa exploso de lgrimas. 

Sentaram-se. 

A enfermeira deixou-os a ss e Marina perguntou pela mezinha. Por que no 
viera, por que a desprezava? por qu? por qu? 

Empenhou-se Nogueira em acalm-la e f-lo de tal modo que a menina, 
espantada, cobrou mais ampla lucidez. O pai dirigia-se a ela num tom que nunca 
ouvira. Vasculhava-lhe as fibras mais intimas, lenindo, ajustando... Falou-lhe de 
foras imponderveis  maioria das pessoas, reportou-se a Inteligncias 
desencarnadas que se imanizam s criaturas em perturbao, agravando-lhes os 
desequilbrios. Persuadiu-a quanto  obrigao de acatar as instrues mdicas, 
participou-lhe que fora iniciado nos jbilos da prece, desde o acidente que lhes 
arrebatara Marita, de cuja desencarnao a inteirou com afetuosa cautela. 
Transmitir-lhe-ia oportunamente as instrues que recebera de amigos, acerca da 
reencarnao, do sofrimento reparador, da obsesso e do intercmbio espiritual. 
Estudariam juntos e acrescentou, piedoso: Mesmo que Mrcia no quisesse. Que 
ela, Marina, guardasse pacincia, calma, inspirando confiana naqueles que a 
tratavam. Dissesse a ele, pai renovado pela f, o que mais a preocupava. Achava-
se ali para alent-la, entend-la. Que se desabafasse, para que ele soubesse por 
onde comear. Nada lhe ocultasse, nada temesse. Queria v-la robusta, feliz. Todas 
as palavras lhe escapavam da boca impregnadas de tanto carinho, e clareadas por 
tamanho amor, que ela se lhe aconchegou ao peito com mais devoo, lembrando 
algum que se agarrasse a inesperada raiz ao escorregar na direo de queda 
fatal... Perguntou ao pai se ele algum dia chegara a ouvir vozes estranhas, se j 


divisara vultos que ningum percebia. Cludio acariciou-a, assegurando que lhe 
explicaria semelhantes fenmenos to logo a visse refeita, insistindo, porm, para 
que o auxiliasse com as informaes de que carecia, a fim de prestar-lhe o apoio 
necessrio. 

Foi ento que a filha, implorando a ele no a condenasse e estimulada pelo 
sorriso bondoso com que era ouvida, descreveu para o genitor os caprichos 
femininos com que requestara Nemsio Torres. Ele, amadurecido, ela, quase 
criana; contudo, ensoberbecia-se ao reconhec-lo chefe e vassalo. A principio, os 
passeios alegres, o dinheiro a rodo, os afagos recprocos, aos quais ela se entregava 
muito mais pela vaidade de impression-lo que por motivos de atrao. 
Contou como Nemsio, cativo, deu para escraviz-la. Historiou a noite em que ele a 
embriagara de propsito, quando lhe despertou nos braos, dentro de uma casa 
rstica em So Conrado, que, at ento, no conhecia... Desde essa poca se lhe 
fizera companheira, entrando, a instncias dele, para o servio de Dona Beatriz, 
para que a tivesse sempre a mo... Apaixonara-se por ela, repetia-lhe declaraes, 
aspirava a despos-la, assim que a viuvez sobreviesse naturalmente. Mas Gilberto 
aparecera e, por mais lutasse contra si prpria, no conseguira controlar-se. Desde 

o primeiro encontro, adivinhou nele o homem com que sonhava... Pintando as 
emoes ao vivo, com todas as tintas de realismo que o delrio lhe punha nas 
palavras, confessou que o provocara, afastando-o, deliberadamente, da irm e, 
vingando-se de Nemsio, copiou-lhe a iniciativa... Numa noite de farra, impeliu-o a 
exceder-se no usque e, ao t-lo inflamado, conduziu-o, ela mesma, ao quarto de 
que dispunha no lar dos Torres, a ttulo de faz-lo descansar, para entregar-se a 
ele, sem qualquer noo de vigilncia ou censura... Ao acordar, induzira-o a crer-se 
responsvel pelo futuro... 
Passara, dessa forma, a dividir-se com habilidade entre um e outro, embora 
conservasse a indiferena por Nemsio transformada em averso. Quanto mais se 
comunicava com o filho, mais detestava o genitor, at que a morte de Dona Beatriz 
precipitara os acontecimentos. Observando o chefe positivamente decidido ao 
matrimnio, apegara-se-lhe ao filho com loucura, a ponto de ser surpreendida por 
Nemsio, em situao desconcertante... 

Nogueira escutava, compungido. 

Detinha a impresso de tomar contacto com os familiares pela primeira vez, em 
toda a vida. 

Machucado ainda pelas consideraes de Mrcia, ignorava agora quais as 
feridas que mais lhe doam na alma, se as que a insensibilidade da esposa lhe 
abrira no esprito, se as que lhe eram produzidas nos tecidos do corao pelos 
segredos da filha padecente. Enlaou-a, porm, com mais ternura, e Marina, 
encorajada, repetiu que anelava libertar-se de Torres pai, ansiando casar-se com 
Gilberto, ser-lhe a esposa no lar, compreend-lo, torn-lo feliz. Cludio prometeu 
cooperar, destacando, no entanto, a necessidade da sade primeiro... 

Contudo, o doloroso relatrio no terminara. Imprescindvel sorvesse o clice 
at  lia. 

Em frases entrecortadas de soluos, Marina cientificou-o de que fora visitada, ali 
mesmo, por Nemsio, quatro dias antes; acentuou que o chefe se prevalecera da 
intimidade e lhe asseverara que no a cederia ao filho de modo algum, que a esperaria 
para as segundas npcias e que manteria todos os compromissos 
formulados anteriormente, no sentido de enobrec-la no casamento e beneficiar-lhe 
toda a famlia, se ela abandonasse o rapaz, que ele, na qualidade de pai, pretendia 


remover para o sul... Porque respondesse claramente que no renunciaria a 
Gilberto, implorando-lhe perdo e que a tratasse por filha, revoltara-se, ameaando-
a... Se o preterisse, mat-la-ia. Ela chorara, suplicara compaixo, assegurando que 
no tinha coragem de continuar fingindo por mais tempo... Amava Gilberto, queria 
sarar, viver com ele e por ele... Nemsio rira, mordaz, acentuando que ela lhe 
pagaria a desconsiderao, que jamais lhe permitiria a felicidade junto daquele filho 
que passara a odiar e que, para humilh-la, acintosamente, conquistara as atenes 
de Mrcia, sem resistncia, decidindo-se a lev-la para Petrpolis, em substituio 
dela mesma... 

Cludio ambicionava crer que a jovem tresvariava, mas a lembrana da esposa 
transtornada comprovava o que ouvia e, quanto a mim, recolhia de Moreira a devida 
confirmao. O enfermeiro, em breves palavras, deixara-me saber que chusmas de 
Espritos perturbadores, aps a desencarnao de Beatriz, lhe haviam arrebatado o 
marido, explorando-lhe as energias gensicas. 

Nogueira percebeu a gravidade do problema; no entanto, ao trmino da 
entrevista, reconfortou a filha, descortinando-lhe paz e esperana  mente atormentada. 
Recomendou-lhe trabalho, confiana, pacincia e controle, a fim de 
recuperar-se, mais depressa, e garantiu-lhe que se entenderia com Mrcia e com 
ambos os Torres, para que os planos da felicidade futura fossem concretizados em 
harmonia. 

Marina recebeu-lhe a despedida, a sorrir confortada, patenteando sinais de 
melhora, mas, em se revendo na rua, Cludio entrou em prece, e, reconhecendo-se 
no preldio de provas amargas, comprimiu a destra de encontro ao peito alanceado, 
como quem trazia da visita espinhos de fogo a lhe requeimarem o corao. 


Captulo 9 

Rumei, junto de Neves, para o instituto de renovao que Flix dirigia na esfera 
espiritual. 

A caminho, reconfortava-me ouvindo o companheiro asserenado, contente. 
Acompanhava o restabelecimento de Dona Beatriz, nutrindo jbilos novos. Luzia-lhe 
o olhar povoado de sonhos. 

E contava-me as surpresas da filha recm-chegada ao plano superior. Afeies 
de outros tempos, familiares queridos chegavam de longe para felicit-la. Beatriz 
conclura nobre tarefa  dentre as muitas empresas admirveis cuja extenso  
avalivel apenas na ptria dos Espritos , a tarefa da renovao ntima, obtida  
custa de sacrifcios ignorados. As lgrimas vertidas no silncio e as dores annimas 
lhe haviam granjeado paz e luz. Mulher desconhecida no mundo, aparentemente escrava 
de um marido e de um filho que no a valorizavam, atingira realizaes 
sublimes em si prpria, entesourando no ntimo riquezas inalienveis para a 
imortalidade. Decerto no retornara alada glria anglica, mas, tanto quanto era 
possvel, na condio em que renascera, voltara triunfante. 

Regozijava-me igualmente com as impresses que ouvia e, de propsito, fiz 
quanto pude para no ser inquirido acerca dos Torres que, a meu ver, ainda 
estavam por aproveitar os merecimentos da missionria de abnegao que os 
servira. Receava embaciar o espelho de otimismo em que as esperanas do amigo 
se retratavam. Neves, talvez pelas mesmas razes, nada me perguntou, em torno 
do genro e do neto que, sem a guardi maternal, se viam agora entregues a si 
mesmos. 

Fomos defrontados pelo instituto que demandvamos, O Almas Irms, assim 
chamado pelos fundadores que o levantaram em socorro dos irmos necessitados 
de reeducao sexual, aps a desencarnao, exibia plano extenso de construes. 
Conjunto de linhas harmoniosas e simples, ocupando quatro quilmetros quadrados 
de edifcios e arruamentos, parques e jardins. Autntica cidade por si. 

Inalava-se tranqilidade, alegria. 

Das alias em verde repousante, flores tangidas pelo vento figuravam-se acenos 
de boas-vindas. 

Rostos sorridentes nos saudavam, de permeio com os semblantes circunspetos 
que nos lanavam olhares de simpatia. 

Todas as idades a se expressavam nos companheiros de ambos os sexos, com 
os quais rentevamos, satisfeitos. 

Bloco de casario sugeria universidades reunidas. 

Mas, longe de encontrar representantes da psicopatia ligada s perturbaes 
sexuais, eram criaturas de aparncia hgida as que nos acolhiam, afetuosas. 

Neves, que ali aportara dias antes, interpelado por minha curiosidade, 
esclareceu que a agremiao possua vasta dependncia reservada a enfermos; 
entretanto, que eu modificasse qualquer conceituao prvia, com respeito  obra 
ali desenvolvida, porqanto os verdadeiros alienados em conseqncia de 
alucinaes emotivas, trazidas da Terra, permaneciam reclusos em manicmios, 
sob tratamento indicado, sempre que apartados das falanges dementadas nas 
regies tenebrosas. Acrescentou que muitos daqueles que nos cumprimentavam, 
tranqUilos, remanesciam de tragdias passionais, intensamente vividas no mundo; 
todavia, revelavam-se agora pacificados e lcidos, quais as prprias personalidades 
humanas, depois de reprimir as crises de insnia, quando se rendem ao 


desequilbrio mental. 

As elucidaes, no entanto, se interromperam de brusco, porque atingramos o 
ponto em que nos cabia tomar contacto com Flix, antecipadamente avisado quanto 
 nossa presena. 

O instrutor, contudo, prevenia-nos da impossibilidade de abraar-nos, de pronto. 
Aguardarnos-ia, mais tarde, na prpria residncia. Enternecia-nos, entretanto, com 
grata surpresa. Belino Andrade, amigo que eu no via h precisamente dez anos, e 
com quem convivera, intimamente, em atividades outras, ali se achava a fim de 
iniciar-nos no conhecimento da casa. 

Abraou-nos, fraternal, e, como que retomando os esclarecimentos que Neves 
empreendera, comeou dizendo que pisvamos num hospital-escola de suma 
importncia para os candidatos  reencarnao, Os internados ou estudantes 
vinham, em maioria, de estncias purgatoriais, aps alijarem as conseqncias mais 
imediatas dos vcios e paixes aviltantes, por eles acalentados no plano fsico. 
Rigorosamente examinados, atendiam a critrio de seleo, nas paragens de 
angstia expiatria em que se demoravam, e somente depois de julgados dignos 
entravam naquele pouso de refazimento para estaes mais ou menos longas de 
estudo e meditao, pesquisando as causas e observando os efeitos das quedas de 
natureza afetiva em que se haviam precipitado... 

Enquanto nos detnhamos em caminhada agradvel, Belino prosseguia 
informando que todos eles, depois de suficientemente instrudos, so recambiados 
ao domiclio terrestre, onde reencarnam nos ambientes em que faliram e, tanto 
quanto possvel, nas equipes consangneas que lhes impuseram prejuzos ou que 
lhes sofreram os danos. 

No Almas Irms obtinham a lurea do conhecimento, na Terra volviam a apliclo, 
atravs das dificuldades e tentaes da faina material, que nos comprovam a 
assimilao das virtudes adquiridas. 

Apresentando-nos praas graciosas ou apreciando aspectos da paisagem, 
Belino comparou as finalidades do educandrio aos centros de cultura superior, 
existentes no mundo, que conferem ttulos acadmicos para o exerccio de funes 
determinadas, dentro da especializao profissional, e confrontou a arena terrestre 
com a esfera da prtica, em que os alunos diplomados so impelidos s 
experincias e aos encargos que lhes fixam o mrito ou o demrito. Ali, a mente se 
rearticulava, aprendia, refazia, restaurava, mas, de modo geral, sempre no objetivo 
de retornar ao mundo, a fim de incorporar em si mesma o valor das lies 
recebidas. Acrescentou que a no serem as reencarnaes compulsrias, por 
motivos prementes, o problema do regresso requeria consideraes especficas e 
preparaes adequadas, razo pela qual muitos companheiros do Almas Irms 
se corporificavam na Terra com programas domsticos preestabelecidos, de 
maneira a hospedarem com os seus prprios recursos gensicos os colegas afins. 
Dali, do estabelecimento, esses colegas, que se lhes indicavam na posio de filhos 
para o futuro, os resguardavam e defendiam, at a ocasio em que lhes fosse 
possvel mergulhar no bero terreno, constituindo-se, dessa forma, famlias inteiras, 
em edificaes e provas redentoras, que, no fundo, representavam, espiritualmente, 

o trabalho do instituto, entre os homens, qual ocorre a mltiplas organizaes 
congneres e a numerosas associaes outras, consagradas  regenerao e ao 
progresso da alma, nas esferas de ao espiritual que circundam a Terra. 
Aquele hospital-escola qualificava-se, dessa maneira, na condio de posto 
avanado da espiritualidade construtiva, sustentando permanente contacto com a 


vida humana. 

Cada individualidade reencarnada com vnculos no Almas Irms, ali se 
encontra convenientemente fichada, com todo o histrico do que est realizando na 
reencarnao obtida, no qual se lhes v o balano dos crditos conquistados e dos 
dbitos contrados, balano esse que  examinvel a qualquer momento, para efeito 
de auxlio maior ou menor aos interessados, segundo a lealdade que demonstrem 
na desincumbncia das obrigaes a que se empenharam e conforme o esforo 
espontneo que revelem na construo do bem geral. 

Indaguei de Belino se conhecia a mdia geral de aproveitamento na comunidade 
e ele informou que sim, acentuando que, em oitenta e dois anos de existncia, o 
Almas Irms, que detinha habitualmente uma populao oscilante de cinco a seis 
mil pessoas, apontava, no coeficiente de cada cem estudantes, dezoito vitoriosos 
nos compromissos da reencarnao, vinte e dois melhorados, vinte e seis muito 
imperfeitamente melhorados e trinta e quatro onerados por dvidas lamentveis e 
dolorosas. 

 minha nova inquirio sobre se os fracassados eram readmitidos, informou 
que ningum na Terra consegue avaliar a expectativa, a ternura, o esforo e o 
sacrifcio com que os amigos desencarnados torcem pelo triunfo ou pelo 
aprimoramento parcial dos afeioados, em servio no mundo, e nem imaginar a 
desolao que lhes sacode o nimo, quando nn logram abra-los de volta, mesmo 
ligeiramente renovados para o suspirado convvio. Noticiou que os 
companheiros em malogro positivo, aps a desencarnao, passam, automaticamente, 
s zonas inferiores, onde, por vezes, ainda se demoram, por muito tempo, 
em desequilbrio ou devassido, conquanto nunca percam o devotamento dos 
amigos ali domiciliados, que intercedem por eles, junto a colnias dedicadas a 
outros tipos de assistncia. Sabia, porm, de casos pertinentes a vrios 
rematriculados depois dessas refregas. Em compensao, exaltou os prmios 
atribudos aos vencedores. Os aprendizes que se laureiam, atravs do 
aproveitamento substancial dos recursos fornecidos pela organizao, ai se honram 
com admirveis oportunidades de trabalho, em estncias superiores, conforme os 
desejos que expressem. 

Atingramos, entretanto, comprido agregado de edifcios, nos quais Andrade 
informou estarem localizadas diversas atividades de instruo. 

Iniciamos vistoria afetuosa. 

Os sales de aula comoviam pelas revelaes, e os professores pela simpatia. 
O sexo, por tema central, merecendo o maior apreo. 

Os alunos contemplavam gravuras e croquis que configuravam implementos do 
sexo, com o interesse carinhoso de quem se enternece ante o colo maternal e com 
a ateno de quem agradece concesses divinas. 

Todos nos acolhiam denotando cordialidade, sem que a nossa passagem lhes 
alterasse a aplicao; contudo,  de salientar a emoo que me empolgava ao 
observar o crescendo de venerao com que o sexo era homenageado nas diversas 
faculdades de ensino, pesquisado e enobrecido em cadeiras diferentes. Matrias 
professadas em regime de especializao. Cada qual atendida em construo 
apropositada. Sexo e amor. Sexo e matrimnio. Sexo e maternidade. Sexo e 
estmulo. Sexo e equilbrio. Sexo e medicina. Sexo e evoluo. Sexo e penalogia. E 
outras discriminaes. 

Disse Andrade que todas as disciplinas so freqentadas por grande cpia de 
alunos, e, tentando saber em quais delas se inscrevia o nmero mais extenso, viera 


a saber que os assuntos de sexo e maternidade, e sexo e penalogia retinham 
proeminncia franca. O primeiro rene centenas de criaturas que se 
endeream aos ajustes de lar, na Terra, e o segundo enfeixa enorme quantidade de 
Espritos conscientes que examinam a melhor maneira de infligirem a si prprios 
determinadas inibies, para se corrigirem de hbitos deprimentes no curso da 
reencarnao a que se dirigem. Muitos chegam a deixar escritas nos arquivos da 
casa as sentenas que lavram contra si mesmos, antes de se envolverem nas 
provaes que consideram necessrias ao aperfeioamento e felicidade que 
demandam. 

Tornavam-se as elucidaes de Belino cada vez mais interessantes e refletia, de 
minha parte, na extenso das obras da cidade espiritual em que me achava, h 
quinze anos, longe de conhecer-lhe todos os monumentos de benemerncia e 
cultura, quando alcanamos a residncia do diretor. 

Flix, em companhia do Irmo Rgis, que nos apresentou por substituto 
eventual dele, acolheu-nos amavelmente. Admirei-me. 

No parecia o amigo que se apequenava no Rio para compartilhar-nos o 
trabalho. 

Reverenciado e querido, era ali distinguido dignitrio do conhecimento superior, 
a quem a administrao de (Nosso Lar delegara responsabilidades vultosas. Dirigente 
e comandante, pai e irmo. 

O ambiente no gabinete em que nos alojara, afetuoso, ressumava simplicidade 
sem negligncia, conforto sem luxo. 

Por trs da poltrona singela de que se servia, salientava-se tela de propores 
avantajadas, na qual a mo de pintor exmio gravara o retrato de nobre matrona em 
prece nas regies inferiores. A venervel mulher elevava os braos para o cu 
plmbeo, que filtrava revrberos de luz qual se lhe respondesse s rogativas e, em 
torno dela, magotes de Espritos conturbados a se rojarem no solo, taciturnos, entre 
consolados e estarrecidos. 

Registrando-nos o assombro, Flix explicou que conservava naquela obra de 
arte a lembrana de magnnima servidora do Cristo, desconhecida entre os 
homens, consagrada no mundo espiritual ao socorro de coraes mergulhados nas 
trevas. Visitava as furnas de expiaes pungentes, s vezes sozinha, e, de outras, 
acompanhada por equipes de colaboradores, amparando, reconfortando... Adotava 
criminosos desencarnados por filhos da alma, infundia-lhes o ideal da regenerao, 
levantando-os e instruindo-os. De quando em quando, ele, Flix, ia v-la no asilo 
maternal que, ainda hoje, a abnegada educadora sustenta nas regies sombrias por 
almenara de amor. Prosseguiu relatando que nesse abrigo permanecem, 
freqentemente, mais de mil hspedes, sempre substituidos, de vez que a benfeitora 
efetua o encaminhamento constante dos recolhidos a escolas benemritas, 
com vistas  reencarnao na Terra ou a estgios de retificao em outras 
paragens. E informou dever a ela, que nomeava por Irm Damiana, o primeiro 
contacto com a verdade, oitenta anos antes. Guardava aquele quadro, 
confeccionado a pedido dele prprio, para no se esquecer, nas horas de supremas 
decises, nas responsabilidades e encargos de que fora investido, da lama em que 
um dia se afundara e de que se vira arrebatado por aquela missionria engrandecida 
no Espao, a servio dos infelizes. 

Neves, porm, imprimiu novo rumo  palestra, colocando em relevo a satisfao 
de que nos sentamos possudos com a revista proveitosa nos rgos de ensino, 
que acabvamos de realizar, e os apontamentos se voltaram para as questes do 


sexo, que, no Almas Irms, assumiam aspectos inusitados. 

O Irmo Rgis explicou que tambm se surpreendera, a princpio, com o 
respeito profundo ali dedicado aos estudos do sexo, em vista da desconsiderao 
com que autoridades polticas, religiosas e sociais terrestre. habitualmente o 
menoscabam, ressalvadas as excees. E sublinhou, com humor, que ns, os 
homens, somos contraditrios quando reencarnados, porqanto estamos sempre 
vidos de consertar uma tomada em desajuste e queremos sonegar a Deus o direito 
de socorrer e reabilitar os seus filhos em desequilbrio emotivo. 

O anfitrio, explanando as idias que ns, os presentes, aventvamos, historiou, 
em sntese, que na Espiritualidade Superior o sexo no  considerado unicamente 
por baliza morfolgica do corpo de carne, distinguindo macho e fmea, definio 
unilateral que, na Terra, ainda se faz seguir de atitudes e exigncias tirnicas, 
herdadas do comportamento animal. Entre os Espritos desencarnados, a partir 
daqueles de evoluo mediana, o sexo  categorizado por atributo divino na individualidade 
humana, qual ocorre com a inteligncia, com o sentimento, com o 
raciocnio e com faculdades outras, at agora menos aplicadas nas tcnicas da 
experincia humana. Quanto mais se eleva a criatura, mais se capacita de que o 
uso do sexo demanda discernimento pelas responsabilidades que acarreta. 
Qualquer ligao sexual, instalada no campo emotivo, engendra sistemas de 
compensao vibratria, e o parceiro que lesa o outro, at o ponto em que suscitou 
os desastres morais conseqentes, passa a responder por dvida justa. Todo 
desmando sexual danificando conscincias reclama corrigenda, tanto quanto 
qualquer abuso do raciocnio. Homem que abandone a companheira sem razo ou 
mulher que assim proceda, gerando desregramentos passionais na vtima, cria certo 
nus crmico no prprio caminho, pois ningum causa prejuzo a outrem sem 
embaraar a si mesmo. Vaticinou que a Terra, a pouco e pouco, renovar princpios 
e conceitos, diretriz e legislao, em matria de sexo, sob a inspirao da Cincia, 
que situar o problema das relaes sexuais no lugar que lhe  prprio. Empenhou-
se a repetir que na Crosta 

Planetria os temas sexuais so levados em conta, na base dos sinais fsicos 
que diferenciam o homem da mulher e vice-versa; no entanto, ponderou que isso 
no define a realidade integral, porqanto, regendo esses marcos, permanece um 
Esprito imortal, com idade s vezes multimilenria, encerrando consigo a soma de 
experincias complexas, o que obriga a prpria Cincia terrena a proclamar, 
presentemente, que masculinidade e feminilidade totais so inexistentes na 
personalidade humana, do ponto de vista psicolgico. Homens e mulheres, em 
esprito, apresentam certa percentagem mais ou menos elevada de caractersticos 
virs e feminis em cada indivduo, o que no assegura possibilidades de 
comportamento ntimo normal para todos, segundo a conceituao de normalidade 
que a maioria dos homens estabeleceu para o meio social. 

Tendo Neves formulado consulta sobre os homossexuais, Flix demonstrou que 
inmeros Espritos reencarnam em condies inversivas, seja no domnio de lides 
expiatrias ou em obedincia a tarefas especficas, que exigem duras disciplinas por 
parte daqueles que as solicitam ou que as aceitam. Referiu ainda que homens e 
mulheres podem nascer homossexuais ou intersexos, como so suscetveis de 
retomar o veculo fsico na condio de mutilados ou inibidos em certos campos de 
manifestao, aditando que a alma reencarna, nessa ou naquela circunstncia, para 
melhorar e aperfeioar-se e nunca sob a destinao do mal, o que nos constrange a 
reconhecer que os delitos, sejam quais sejam, em quaisquer posies, correm por 


nossa conta.  vista disso, destacou que nos foros da Justia Divina, em todos 
os distritos da Espiritualidade Superior, as personalidades humanas tachadas por 
anormais so consideradas to carecentes de proteo quanto as outras que desfrutam 
a existncia garantida pelas regalias da normalidade, segundo a opinio dos 
homens, observando-se que as faltas cometidas pelas pessoas de psiquismo 
julgado anormal so examinadas no mesmo critrio aplicado s culpas de pessoas 
tidas por normais, notando-se, ainda, que, em muitos casos, os desatinos das 
pessoas supostas normais so consideravelmente agravados, por menos 
justificveis perante acomodaes e primazias que usufruem, no clima estvel da 
maioria. 

E  ligeira pergunta que arrisquei sobre preceitos e preconceitos vigentes na 
Terra, no que tange ao assunto, Flix ponderou, respeitoso, que os homens no 
podem efetivamente alterar, de chofre, as leis morais em que se regem, sob pena 
de precipitar a Humanidade na dissoluo, entendendo-se que os Espritos ainda 
ignorantes ou animalizados, por enquanto em maioria no seio de todas as naes 
terrestres, esto invariavelmente decididos a usurpar liberalidades prematuras para 
converter os valores sublimes do amor em criminalidade e devassido. Acrescentou, 
no entanto, que no mundo porvindouro os irmos reencarnados, tanto em condies 
normais quanto em condies julgadas anormais, sero tratados em p de 
igualdade, no mesmo nvel de dignidade humana, reparando-se as injustias 
assacadas, h sculos, contra aqueles que renascem sofrendo particularidades 
anmalas, porqanto a perseguio e a crueldade com que so batidos pela 
sociedade humana lhes impedem ou dificultam a execuo dos encargos que 
trazem  existncia fsica, quando no fazem deles criaturas hipcritas, com 
necessidade de mentir incessantemente para viver, sob o Sol que a Bondade Divina 
acendeu em benefcio de todos. 

A conversao era fascinante, mas um companheiro de servio veio avisar que 
Dona Beatriz se achava pronta a receber-nos. 

Demandamos o interior. 

O chefe apresentou-nos duas senhoras que lhe partilhavam o refgio domstico, 
Sara e Priscila, que lhe haviam sido irms consangneas na Terra. Ambas de 
cativante simpatia na lhaneza de trato. 

Notificou Flix que, a princpio, ali morava junto de colaboradores afeioados; no 
entanto, nos anos ltimos, conseguira que as duas manas, servindo em outros 
setores, se transferissem para o Almas Irms, a fim de trabalharem juntos, preparando 
o futuro. Remanesciam os trs de famlia cujos membros, em quase todo o 
conjunto, se achavam novamente domiciliados na esfera fsica, e, aparteando, Sara 
chasqueou, afianando que no se demoraria a tomar o mesmo rumo. 

Parando, de trecho a trecho, para conhecer minudncias do extenso trio que 
atravessvamos, fiquei sabendo que o instituto sustenta zonas residenciais, alm 
dos edifcios reservados  administrao, ao ensino,  subsistncia e  hospitalizao 
transitria. A se acomodam famlias inteiras, casais, Espritos em conjunes 
afetivas e repblicas de estudiosos que se visitam ou recebem amigos de outras 
organizaes e de outras plagas, efetuando excurses edificantes e recreativas ou 
atendendo a empresas artsticas e assistenciais, de permeio com as obrigaes de 
rotina. 

Satisfazendo-nos as inquiries, Flix informou que Marita se encontrava 
naquele mesmo stio, internada num parque destinado a convalescentes; todavia, 
no nos encorajou o impulso de rev-la, assim de imediato,  face de achar-se 


bastante traumatizada, conquanto tranqila. A desencarnao precoce 
acarretara-lhe prejuzos. Ele, porm, rogara de orientadores amigos as possveis 
concesses, a fim de que fosse reposta, com urgncia, no ambiente familiar do Rio, 
de modo a que se no perdessem medidas em andamento para o resgate do 
pretrito. O decesso prematuro representara fundo golpe no programa estabelecido 
ali, no Almas Irms, anos antes; contudo, nutria a esperana de reparar as 
brechas, restituindo-a ao convvio dos entes caros, pela reencarnao de emergncia. 
Dessa forma, aproveitaria oportunidade e clima de servio,  maneira de 
operrio que muda de mquina sem se afastar da oficina. O processo alusivo ao 
retorno tramitava, desde a vspera, nos rgos competentes, pelo que no julgava 
oportuno interess-la em assuntos suscetveis de lhe modificarem a mente, voltada 
para o reduto domstico. 

Neves abordou a tese referente ao dia determinado para a desencarnao, 
defendida por alguns religiosos na Terra, ao que Flix enunciou: 

 Sim, no nos  lcito desacreditar os ensinamentos religiosos. H planos 
prefixados e ocasies previstas com relativa exatido para o deperecimento do 
veculo fsico; no entanto, os interessados costumam alter-los, seja melhorando ou 
piorando a prpria situao. Tempo  comparvel a crdito que um estabelecimento 
bancrio empresta ou retira, segundo as atitudes e diretrizes do devedor. No 
podemos, assim, olvidar que a conscincia  livre para pensar e agir, tanto nas 
reas fsicas quanto nas espirituais, mesmo quando jungida s conseqncias do 
passado culposo... 
E, sorrindo, rematou: 

 Qualquer dia  dia de criar destino ou reconstituir destino, de vez que todos 
somos conscincias responsveis. 
Nesse nterim, fomos defrontados pelo aposento da senhora recmdesencarnada, 
a quem Sara e Priscila dispensavam cuidados especiais. 

Beatriz remoara. 

No semblante, a circunspeo que lhe conhecamos, mas nos olhos o claro 
juvenil da criatura que retoma aspiraes de h muito esmaecidas. 

Neves aproximou-me. Conversamos. Declarava-se encantada, agradecida aos 
hospedeiros. 

Falava como se estivesse num lar de pessoas desconhecidas, sem suspeitar 
das atenes que recebera de Flix, antes de liberar-se do corpo enfermio. 

A palestra deslizou sobre os patins da ternura recproca. Ela reconhecida e os 
anfitries satisfeitos. 

Assuntos numerosos vieram  baila. Notava-se que Flix se empenhava em 
distra-la, desentranhando-lhe o pensamento fincado no antigo lar. Todos nos 
esforvamos por induzi-la a esquecimento construtivo; entretanto, mesmo assim, 
adivinhando-nos na fase terminal do reencontro, aquele corao generoso de 
mulher no deixou de se patentear, lembrando a Neves que, at aquele momento, 
ainda no obtivera qualquer notcia da mezinha que os precedera no mundo 
espiritual, tantos anos antes, como tambm rogava para que os circunstantes a 
favorecessem com uma visita, na primeira oportunidade,  casa que ficara na Terra. 
Discpula aplicada do ambiente renovador em que se reconhecia, solicitou com os 
olhos marejados de pranto que lhe desculpssemos o apego  retaguarda, mas isso 
acontecia, acentuou com humildade e grandeza de alma, porque acreditava ter sido 
no mundo imensamente feliz, entre as mulheres mais felizes, ao lado de um esposo 
que, na apreciao dela, era dos companheiros mais leais do mundo e pai do 


melhor dos filhos... 

A noite avanara. 

Neves confortou-a, propiciando-lhe esperanas, e enquanto nos despedamos, 
demandando o repouso, refleti na transformao do amigo que aprendera a colocar 

o amor por cima de mgoas recalcadas, a enderear afetuoso sorriso para a filha 
confiante e adiando a verdade para momento oportuno. 

Captulo 10 

Precedendo o descanso, entendi-me a ss com Flix, que me aprovou o desejo 
de continuar prestando assistncia a Nogueira e  filha. 

Cientificara-se o instrutor de todos os sucessos em curso, mas solicitava 
minudncias. Ouviu-me a exposio, preocupado, e deduziu que as dificuldades de 
Cludio e Marina atingiam o climax. 

Necessrio apoi-los, socorr-los. Mediante os compromissos em que se 
emaranhavam, impossvel alinhar previses. 

O benfeitor falava sereno. Para mim, porm, muito fcil verificar-lhe o suplcio 
oculto. De quando em quando, lgrimas lhe umedeciam os olhos, que ele, padro 
de coragem, no chegava a derramar. 

Mesmo assim, contendo a emotividade, sugeriu providncias e articulou planos. 
Que eu voltasse, encetando a nova etapa de assistncia, junto de Marina, em 
Botafogo. Apreciava em 

Moreira um cooperador diligente que o tempo se incumbiria de valorizar; 
todavia, supunha trabalho complexo demais para ele sozinho o encargo de manter a 
jovem doente livre dos vampirizadores, cujo nmero aumentava com as atitudes 
inesperadas de Mrcia, estimulando Nemsio a uma aventura que ralava pela 
demncia. Que me reunisse, desse modo, a Moreira, alentasse Marina, estendesse 
os braos para Cludio e, quanto nos fosse possvel, amparasse Mrcia e os dois 
Torres, sempre que nos propiciassem os meios para isso. Prometeu que nos 
acompanharia, confiando na Bno do Senhor, que a tudo prev e prov nas horas 
justas. 

Compreendi. Flix sofria conformado. Chorava por dentro. 

Acatando-lhe as instrues, no dia seguinte dispus-me ao retorno. Antes, 
porm, de empreender o regresso, porque me interessasse pelos assuntos de sexo 
e penalogia, refletindo nas enfermidades obscuras que enxameiam na Terra, o prprio 
Flix conduziu-me, de passagem, a pequeno palcio, localizado no centro da 
instituio. Casa da Providncia, esse o nome com que o edifcio  designado. 
Curioso foro do Almas Irms, onde dois juizes funcionam, atendendo aos 
petitrios formulados pelos integrantes da comunidade, com respeito aos irmos 
reencarnados na esfera fsica. 

De entrada, faceando com dezenas de pessoas que iam e vinham, Flix, 
sempre cumprimentado com apreo por todos os passantes, explicou-me que ali 
somente se organizavam processos de auxlio e corrigenda, relacionados aos 
companheiros destinados  reencarnao e aos que j se achassem no estgio 
fsico, espiritualmente ligados aos interesses do instituto. 

Renascimentos, beros torturados, acidentes da infncia, delitos da juventude, 
dramas passionais, lares periclitantes, divrcios, deseres afetivas, certas 
modalidades de suicdio tanto quanto molstias e obsesses resultantes de abusos 
sexuais e uma infinidade de temas co-nexos so a examinados, segundo as 
rogativas e as queixas entregues aos pronunciamentos da justia. A Casa da 
Providncia apenas delibera em definitivo nos problemas que se limitem ao Almas 
Irms; contudo, os casos, em maioria, revelam derivaes para outros setores. 
Nessa hiptese, as questes so a discutidas, de comeo, seguindo para 
instncias superiores. Ainda assim, os dois magistrados amigos e ele mesmo, Flix, 
que  constrangido pela fora do cargo a estudar e informar todas as peas, uma 
por uma, no decidem s por si. Um conselho constitudo por dez orientadores, seis 


companheiros e quatro irms, com mritos suficientes perante a Governadoria 
da cidade, opina, atravs de assemblias semanais, em todas as recomendaes e 
diligncias, aprovando-as ou contrariando-as, a fim de que as decises no se 
comprometam em arbitrariedades. Alegou, talvez por humildade, que, em muitas 
aes, fora esclarecido muito mais pelos pareceres dos juizes e dos conselheiros 
que pelo prprio critrio, o que lhe fornecia dobradas razes para respeit-los. 
Clareando com mais segurana os informes iniciais, voltou a esclarecer que mais da 
metade dos autos tramitam na direo de autoridades do Ministrio da Regenerao 
e do Auxlio que, alis, primam pela rapidez nos despachos e provimentos. 

No corpo do edifcio, seguimos por vias interiores, no rumo do gabinete central. 

Flix, que se achava ali unicamente para favorecer-me, no se atribua o direito 
de penetrar, intempestivamente, no salo de audincias pblicas, onde a massa de 
requerentes e querelantes se acomodava. Alguns talvez lhe dirigissem apelos 
pessoais, no intuito, embora vo, de pressionar os julgadores, inconvenincia que 
era preciso evitar. 

Em recinto sbrio, o instrutor deu-me a satisfao de saudar o juiz Amantino, 
que se achava em servio, acompanhado de cinco auxiliares. Ambiente digno, em 
que a direo e a subalternidade no se confundem, conquanto reunidas pela cordialidade 
na base do acatamento recproco. 

A chegada de Flix provocou afetuoso tumulto que ele prprio suprimiu, 
avisando que se tratava de contacto ligeiro. Apenas uma vista de olhos. E frisou que 
eu voltaria, mais tarde, com tempo bastante para engolfar-me no estudo. 

Os colaboradores retornaram posio. Amantino, porm, pelo jeito, queria 
ofertar-nos alguns minutos de ateno, que era foroso receber. 

Sentamo-nos. 

Mais para corresponder  gentileza que pelo propsito de analisar de afogadilho 
os mecanismos da casa, que exigiam aturada considerao, perguntei pela 
percentagem dos companheiros que regressam, absolutamente irrepreensveis, da 
existncia terrestre, segundo as concluses daquele templo de justia, e o 
interpelado respondeu com humor que principivamos o interrogatrio manejando 
inesperada proposio. Elucidou, afirmando que em apontamentos fiscalizados de 
quase oitenta anos consecutivos, a mdia de irrepreensibilidade no excedia de 
cinco em mil, no obstante surgirem fichas honrosas de muitos que atingiam at 
mais de noventa por cem na matria de distino absoluta, o que, no Almas Irms, 
representa elevado grau de mrito. 

Articulando novas inquiries, Amantino aclarou que, apesar da eqidade nos 
julgamentos, prevalece o rigor no registro de todas as culpas e defeces dos 
reencarnados, para que no se afrouxe a disciplina; no entanto, os limites da 
tolerncia, na Espiritualidade Superior, so mais amplos. Isso porque os rbitros e 
mentores no se valem exclusivamente dos textos, mas tambm dos princpios de 
compreenso humana que lhes palpitam nas conscincias e, usando a prpria 
conscincia, o executor da lei no ignora as dificuldades que se antepem s 
criaturas para que se conduzam em medidas de correo integral, no ddalo dos 
prprios sentimentos, quase sempre ainda tisnados pela eiva da animalidade 
primitiva. 

Aproveitei o assunto e indaguei sobre o divrcio. 

O juiz atendeu. Em se reconhecendo que todos os matrimnios terrestres, entre 
as pessoas de evoluo respeitvel, se efetuam na base dos programas de 
trabalho, previamente estabelecidos, seja em questes de benefcio geral ou de 


provas legitimas, o divrcio  dificultado, nas esferas superiores, por todos os 
meios lcitos; contudo, em muitos casos,  permitido ou prestigiado, sob pena de 
transformar-se a justia em prepotncia contra vitimas de crueldades sociais que a 
legislao na Terra, por enquanto, no consegue remediar, nem prever. Surgido o 
problema, o companheiro ou a companheira, responsvel pela ruptura da confiana 
e da estabilidade da unio conjugal, passa  condio de julgado. A vtima  
induzida  generosidade e  benevolncia, atravs De recursos que a 
Espiritualidade Superior consiga veicular, a fim de que no se frustrem planos de 
servio, sempre importantes para a comunidade, compreendendo-se dentro dela os 
Espritos encarnados e os desencarnados, cujas vantagens so recprocas com a 
humildade e a benemerncia de qualquer dos seus membros. Em razo disso, 
alcanam a Ptria Espiritual, na condio de enobrecidos filhos de Deus, as grandes 
mulheres e os grandes homens, justificadamente considerados grandes, diante da 
Providncia, quando suportam, sem queixa, as infidelidades e as violncias do 
parceiro ou da parceira de reduto domstico, esquecendo incompreenses e ultrajes 
recebidos, por amor s tarefas que os Desgnios do Senhor lhes colocaram nos 
coraes e nas mos, seja no amparo moral  famlia consangnea ou na 
sustentao das boas obras, Os que possuem semelhante comportamento 
dignificam todos os grupos espirituais a que se entrosam e venham dessa ou 
daquela religio, desse ou daquele clima do mundo, so acolhidos sob galardes de 
heris verdadeiros, por haverem abraado sem revolta os que lhes espancavam a 
alma, sem repelir-lhes a afeio e a presena. No entanto, os que patenteiam 
incapacidade de perdoar as afrontas, conquanto se lhes lastime a ausncia de 
grandeza ntima, so igualmente amparados, no desejo de separao conjugal que 
revelem, adiando-se-lhes os dbitos para resgates futuros e concedendo-se-lhes as 
modificaes que requeiram. Chegados a esse ponto, o homem ou a mulher 
continuam recolhendo o apoio espiritual que lhes seja preciso, segundo o 
merecimento e a necessidade de cada um, atribuindo-se tanta liberdade e tanto 
respeito ao homem quanto  mulher, no que tange  renovao de companhia e 
caminho, com as responsabilidades naturais que lhes decorram das decises. 

Assim acontece, ajuntou Amantino compreensivo, porque a Divina Providncia 
manda exaltar as virtudes dos que amam sem egosmo, sem desconsiderar o 
acatamento que se deve s criaturas de vida reta espoliadas no patrimnio afetivo. 
Os Executores das Leis Universais, agindo em nome de Deus, no aprovam a 
escravido de ningum e, em qualquer stio csmico, se propem levantar 
conscincias livres e responsveis, que se elevem para a Suprema Sabedoria e 
para o Amor Supremo, veneradas e dignas, ainda mesmo que para isso escolham 
multimilenrias experincias de iluso e de dor. 

Impressionado, inquiri sobre a moral nos pases terrestres, onde um homem 
guarda o direito de possuir vrias esposas. Amantino, porm, destacou que a 
poligamia, mesmo aparentemente legalizada entre os homens,  uma herana 
animal que desaparecer da face do mundo e que, em nos achando numa estncia 
inspirada pelos ensinamentos do Cristo, no nos cabia olvidar que, perante o 
Evangelho, basta um homem para uma mulher e basta uma mulher para um 
homem. 

Ponderou que h provaes e circunstncias difceis em que o homem ou a 
mulher so chamados  absteno sexual, no interesse da tranqilidade e da 
elevao daqueles que os cercam, situao essa que no modificam sem alterar ou 
agravar os prprios compromissos. 


Perguntei se a Casa providenciava auxlio, conforme a extenso dos erros. 
Ele redargiu, bem 
-humorado, que o auxlio se verifica justamente pela extenso dos acertos. Quanto 
mais exato o Esprito reencarnado, na prtica dos deveres que lhe competem, mais 
amparo recolhe nos dias obscuros em que resvale no desatino. Qualquer pedido de 
ajuda ali formulado, antes de tramitar,  analisado  luz de contabilidade segura, 
pelo documentrio pertencente ao candidato para quem se requisita favor. Acertos 
como haveres, desacertos por dbitos. Somados uns e outros, verifica-se, de 
imediato, at que ponto ser possvel ou aconselhvel o atendimento, 
determinando-se a mdia do auxilio atribuvel a cada petitrio individual. Salientou, 
entretanto, que, nessa clara aplicao do direito, muitos requerimentos de socorro, 
nas diligncias empreendidas, se transformam, automaticamente, em provises de 
corrigenda, porque, se escasseassem crditos aos interessados, sobejando dvidas, 

o resguardo assumia a forma de emenda, o que, s vezes, irritava os solicitantes, 
sem que lhes fosse possvel modificar o curso da justia. Nesse sentido, as preces 
ou mesmo apenas as vibraes de alegria e reconhecimento de todas as criaturas 
encarnadas ou desencarnadas, beneficiadas pelos requeredores, funcionam  guisa 
de abonos e caues de significado muito importante para cada um, tanto ali quanto 
em qualquer lugar, sublinhou Amantino, convincente. Creia ou no na imortalidade, 
qualquer pessoa  alma eterna. Por isso, independentemente da prpria vontade, as 
leis da Criao marcam no caminho de todo Esprito os bens ou os males que 
pratique, devolvendo frutos na base da sementeira. Efetuando-se o aperfeioamento 
moral de etapa em etapa e compreendendo-se a existncia fsica por aprendizado 
da alma, entretecido de acertos e desacertos, com raras excees a individualidade, 
em qualquer plano da vida,  apreciada e sustentada, acima de tudo, pelo 
rendimento de utilidade com que se caracterize no bem comum. Isso, destacou o 
juiz,  princpio geral da Natureza. rvore benfeitora atrai a defesa imediata do 
pomicultor. Animal prestimoso recebe do dono cuidados especiais. 
Lcito que a pessoa, quanto mais valor demonstre para a coletividade, na Terra 
ou em outras paragens, mais devotamento receba das Esferas Superiores. 

De nossa parte nenhuma objeo. Todas as ponderaes articulavam-se ali em 
direito lqido, espontneo. 

Enunciei o propsito de saber como se operavam as audincias; todavia, diante 
da recusa de Flix, que no concordava em alterar o servio, Amantino props se 
ouvisse, pelo menos, um caso, ali mesmo no gabinete, para que mostra ligeira me 
fosse facultada. 

O instrutor anuiu, solicitando, porm, a presena de dois sentinelas, capazes de 
guarnecerem a entrada. 

Estranhei a exigncia do amigo, cuja simplicidade me habituara a venerar; no 
entanto, o inesperado se encarregaria de sossegar-me. 

Descerrada a passagem, uma senhora triste compareceu. 

Assinalando a presena de Flix, esqueceu-se da autoridade de que Amantino 
se achava revestido e precipitou-se na direo do instrutor, prosternando-se de 
joelhos. 

Flix acenou para os guardas e recomendou que a levantassem. 

Apenas a cheguei a entender que o mentor se preparara, de antemo, a rejeitar 

qualquer manifestao de idolatria, fugindo  lisonja que ele usualmente no 
suportava. 
A recm-chegada, no obstante contrafeita, foi constrangida a falar de p, 


mantida por aqueles que a sustentavam. 

 Instrutor, tenha compaixo de ns!  chorou a mulher, entregando-lhe os 
autos que trazia  roguei proteo para minha filha e veja o resultado... Manicmio, 
manicmio... Corao de me concorda com isso? Impossvel, impossvel... 
O benfeitor leu a pea e obtemperou: 

 Jovelina, sejamos fortes e razoveis. O despacho  justo. 
 Justo! pois o senhor no conhece minha filha? 
 Ah! sim  disse Flix com indefinvel tristeza a lhe velar o semblante.  Iria 
Veletri... Lembro-me de quando se ausentou, h trinta e seis anos... Casou-se aos 
dezoito e se desligou do marido, homem digno, aos vinte e seis, unicamente porque 
no pudesse o companheiro sustentar-lhe a vocao para o luxo desmesurado. Em 
oito anos de ligao conjugal, nunca se portou  altura dos compromissos e praticou 
seis abortos... Abandonando o lar e afundando-se em prostituio, foi convidada, 
indiretamente, e por vrias vezes, sob a inspirao de amigos daqui, para que se 
afastasse dos hbitos dissolutos, fazendo-se me respeitvel de filhos que, embora 
nascidos do sofrimento, se lhe transformariam, com o tempo, em tutores e 
companheiros abnegados... Diversos tentames foram empreendidos... Iria, no 
entanto, expulsou todos os filhinhos, arrancando-lhes do seio o corpo em 
formao... Seis abortos at agora e, at agora, nada fez que lhe recomende a 
permanncia do mundo... No lhe consta da ficha o mnimo gesto de bondade  
frente dos semelhantes... Ela prpria se entregou de bom grado aos vampirizadores 
que lhe desgastam as energias... E a nossa Casa no lhe ops contradita  vontade 
de viver assim obsidiada, para que no continue convertendo o claustro materno em 
antro da morte... 
E deixando entrever funda melancolia no olhar, rematou, enlaando-a com 
paterna solicitude: 

 Ah! Jovelina, Jovelina!... Quantos de ns aqui teremos filhos amados, nos 
hospcios da Terra... O manicmio  tambm refgio levantado pela Divina 
Providncia para expurgar nossas culpas... Volte aos afazeres e honre a filha, trabalhando 
e servindo mais... Seu amor de me ser junto de nossa Iria assim como a 
luz que remove as trevas!... 
A requerente fitou os olhos do instrutor, olhos que lhe falavam de recndito 
martrio moral, e 
agradeceu, engasgada de angstia, beijando-lhe a destra com humildade. 

A sala retomou a feio prpria, mas a entrevista no estimulou comentrios. 
Separei-me dos novos amigos e, a poucos passos, fora do edifcio, despedi-me 

tambm de Flix. 
Mais algumas horas e entrei na clnica de nervosos, em Botafogo. 
Marina, sob as atenes de Moreira, dormia, agitada. 


Captulo 11 

Na casa de sade, Marina exigia cuidado, vigilncia. Entre os bastidores da luta, 
empenhvamo-nos nisso, Moreira e ns, e, por fora, Cludio e Salomo 
entrelaavam energias, garantindo cooperao. 

O apoio espiritual, conjugado  Medicina, funcionava com segurana. 

Mesmo assim, complicavam-se os problemas em derredor. 

Nemsio e Mrcia, aps cinco semanas no clima da serra, retomaram ao Rio, 
algo modificados pela aventura. Ela interessada em ligao definitiva; ele, hesitante. 
Instado a patrocinar-lhe o desquite, recuara, de pronto. Tinha medo. No receava, 
porm, as gralhas do mundo social. Temia a si prprio. Aquele ms de folga, nos 
braos da mulher que no esperava, insuflara-lhe inquietao. No que Mrcia 
perdesse para ele os encantos com que o seduzira. 

Assustava-se consigo mesmo, junto dela. Nas excurses, chamava-lhe 
Marina. Acordava, alta noite, supondo-se com a jovem que aceitara por noiva, 
sonhava reencontr-la, qual se estivessem os dois na meninice, e, sonmbulo, costumava 
formular confisses de amor, como nos tempos em que Beatriz se derreava 
no leito. 

Por vrias vezes, fomos arranc-lo dessas crises. movimentando recursos 
magnticos, anotando-lhe as sensaes de alvio, ao verificar que Mrcia, experiente 
e maternal, sabia toler-lo, compreend-lo... 

A esposa de Cludio, a seu turno, no obstante se propusesse cativ-lo, 
reconhecia o obstculo. Percebia claramente que Nemsio trazia a menina fixada  
lembrana. O negociante amava-lhe a filha, pertencia-lhe pela alma, embora no lhe 
recusasse apreo e ternura. De comeo, quis estrilar. Em seguida, calculou, como 
de hbito, e concluiu que no se achava pessoalmente num caso de amor e sim 
numa transao, cujas vantagens no se dispunha a perder. No fundo, pouco lhe 
importava que ele adorasse a moa. Aspirava a prend-lo, ganhar-lhe a fortuna e a 
confiana. Para isso engenhava todos os modos de se fazer necessria. Ordens 
atendidas, refeies prediletas, gotas estimulantes na hora certa, chinelas a mo... 

Solicitado por ela a optar pelo casamento em pas que aprovasse o divrcio, 
Nemsio prometia satisfaz-la; entretanto, de volta ao Rio, preferiu mant-la em 
casa de Selma, a companheira que residia na Lapa, mencionando Gilberto. 
Importante no se reunissem de vez, at que lhe conseguisse a mudana. 
Organizava interesses comerciais em cidade do sul, para remov-lo. Que Mrcia 
aguardasse, e Mrcia esperava, apesar de se acharem ambos em conjuno 
incessante. Passeios, jantares, diverses, noitadas... 
Gilberto, no entanto, parecia a si mesmo desacorooado, abatido. Criana sem guia, 
navegante sem bssola. Sem o menor incentivo ao trabalho e sem ncoras de ideal 
que lhe governassem os sentimentos, esbanjava o dinheiro paterno. Farra e usque. 
Muita vez, embriagado, falava em suicdio, referindo-se a Marina, distante. Sentia-se 
derrotado, infeliz. Aqui e ali, ouvia apontamentos desairosos em torno do pai e de 
Dona Mrcia, atravs de amigos, mas trazia ainda uns restos de nobreza para 
rechaar aquilo que considerava invencionice e maledicncia. Sabia o genitor 
descansando e no ignorava que Dona Mrcia demandara igualmente o repouso. E, 
para defend-los, esbravejava frentico, quase sempre bbado e atuado por 
alcolatras desencarnados, que o manobravam facilmente como se maneja uma 
taa. 

Todavia, no centro das derrocadas, o Esprito Flix reconstruia... 


Aps dois meses de tratamento, Marina regressou ao Flamengo, 
resguardada pelo carinho paterno. 

Em horas breves, inteirou-se quanto  nova situao. 

Perdera a assistncia maternal e no desconhecia os empeos com que devia 
contar, a fim de reerguer-se na profisso. Informara-se, por intermdio de enfermos 
recuperados, que se tornava habitualmente muito difcil a obteno de emprego 
para egressos de hospcio. 

A princpio, alimentava complexos, sofria. 

Contudo, encontrara um pai cuja grandeza de corao at ali ignorara e uma f 
que lhe reabilitava a esperana. 

Cludio cercou-a de meiguice e bondade. Repletava-se o apartamento de 
mimos e flores, e os textos espiritas, lidos por vezes com lgrimas, lhe infundiam a 
consoladora certeza nas verdades e nas promessas do Cristo, que passara a 
aceitar por mestre da alma. Acolheu a amizade de Salomo, qual se lhe fosse filha, 
e inscreveu-se entre aqueles que constituam agora para Cludio a famlia espiritual. 
Interessou-se por singelo servio beneficente, mantido em favor de pequeninos 
desamparados, junto de senhoras consagradas ao socorro de irms infelizes. E 
quando o genitor convidou-a para que se afeioassem ao culto semanal do Evangelho 
no lar, recolheu, entusiasmada, a sugesto, rogando a Nogueira instalassem 
Dona Justa, viva e sozinha, em definitivo, junto deles em casa. A antiga servidora, 
contente, foi guindada  condio de governanta, com a segurana de parenta feliz. 

A vivenda ressumava tranqilidade, no obstante, Moreira e ns outros 
prosseguamos atentos na defensiva. 

Conversaes e leituras, tarefas e planos surgiam por flores auspiciosas que 
Flix, de quando em quando, vinha ver, encantado, partilhando-nos jbilos e 
oraes. 

Em torno de Nemsio e de Dona Mrcia, o silncio. Pai e filha empenhavam-se 
no propsito de olvid-los, mas Gilberto... 

Amigos solicitavam para ele compaixo e socorro, O rapaz afundava-se. 
Largado, abatido. 

Pileques, correrias. Se Cludio e Marina no pudessem proteg-lo, pelo menos 
lhe providenciassem a hospitalizao. 

Como negar-lhe apoio? 

Cludio notou que a filha ainda amava o rapaz enternecidamente, 
ardentemente, e decidiu-se a respeitar-lhe as decises. 

Aps entendimentos ponderosos, atendendo s indicaes de Marina, o 
bancrio escolheu a ocasio que lhe pareceu favorvel e abraou-o numa 
churrascaria do Leme. Partilharam lanche rpido e Nogueira convidou-o para jantar 
no dia seguinte. Ele e a filha esper-lo-iam em casa. 

Torres filho sorriu e comprometeu-se. 

Seis meses haviam corrido sobre a transformao de Cludio, e maio, ao 
entardecer, abanava o Rio com as brisas refrigerantes que desembocavam do mar. 

Gilberto compareceu no momento previsto. Tristonho, sbrio. De comeo at  
refeio, reportou-se a banalidades, sofrimentos, malogros. Confessava-se 
fracassado, deprimido. A pouco e pouco, no entanto, compenetrou-se de que se 
achava entre dois coraes que lhe aprumavam os sentimentos e elevou o nvel da 
palavra. 

O anfitrio interferia na conversa com a prudncia de um pai e a moa exprimia-
se com segurana, entremostrando nos olhos o amor e a esperana inextintos. 


O visitante experimentava-se reconfortado. Conjeturava-se mergulhado num 
banho de foras balsmicas. Imaginava-se de retorno ao lar antigo, refletia na 
mezinha que a morte arrebatara, e chorou... 

O chefe da famlia, comovido quanto Moreira e ns, diante daquela exploso de 
lgrimas, acariciou-lhe a cabea e perguntou por que lhes abandonara a amizade. 

Gilberto desabafou, noticiando que o genitor o chamara a contas. Denunciara-
lhe Marina por jovem desencaminhada. Asseverara-lhe que ele prprio, Nemsio, 
lhe desfrutara o carinho, descrevera-lhe intimidades, inteirara-o de que a escolhida 
se desmoralizara, que no servia para casar e ameaara-o, constrangendo-o, por 
fim, a alegar que desistia de futura ligao com ela, por sab-la doente... Afastara-
se por semelhantes razes, embora continuasse amando a moa, com quem, alis, 
no tinha a inteno de se reconciliar, levando em conta as acusaes havidas... 

Marina, acabrunhada, no confirmou, nem se defendeu. Restringiu-se a chorar 
discretamente, enquanto Cludio se esforava por harmonizar os dois coraes 
desavindos. 

Moreira, que assumira apaixonadamente a defesa da menina, perdeu a calma. 
Retomou a insolncia de que desertara e clamou para mim, em voz alta, que, 
apesar de possuir seis meses de Evangelho, sentia muita dificuldade para no 
reunir a turma dos companheiros de outro tempo a fim de punir o velho Dom Juan, 
com o rigor de meirinho implacvel. 

Apreensivo, roguei a ele se calasse por amor ao bem que nos propnhamos 
realizar. 

Moreira assustou-se ao me ouvir a recomendao incisiva. Expliquei-lhe que, 
nas imediaes, irmos infelizes teriam ouvido a inteno que ele formulara e 
quantos simpatizassem com a idia, com toda a certeza, demandariam a residncia 
dos Torres, sondando brechas. 

Vali-me do ensejo para transmitir-lhe avisos que me foram extremamente teis, 
nas minhas primeiras experincias de homem desencarnado em processo 
reeducativo. 

Disse-lhe que aprendera de vrios benfeitores que o mal no merece qualquer 
considerao alm daquela que se reporte  corrigenda. Entretanto, se ainda no 
conseguimos impedir-lhe o acesso ao corao, na forma de sentimento,  foroso 
no se pense nele; contudo, se no contamos com recursos para arred-lo 
imediatamente da cabea,  imperioso evit-lo na palavra, a fim de que a idia 
infeliz, j articulada, no se faa agente vivo de destruio, agindo por nossa conta 
e independentemente de ns. Salientei que o ambiente ali jazia limpo de influncias 
indesejveis; no entanto, ele, Moreira, falara abertamente e companheiros no 
distantes, interessados em nosso regresso  crueldade mental, teriam assinalado a 
sugesto... 

Gilberto despedira-se. 

Moreira, nos apuros do aprendiz que reconhece a prova errada, perguntava o 
que fazer, mas no tive dvida. Esclarecemos que habitvamos agora o plano 
espiritual, onde pensamento e verbo adquirem muito mais fora de expresso e de 
ao que no plano fsico, e que no nos restava outra alternativa seno seguir, ao 
lado de Torres filho, de maneira a observar at que ponto se alargara o perigo, a fim 
de remedi-lo. 

O amigo, inquieto, pela primeira vez, depois de muito tempo, deixou o lar dos 
Nogueiras e acompanhou-me. 

Ambos ns, de carro, faceando com o jovem, absorto... 


O rapaz entrou em casa, lembrando Marina modificada... Aqueles cabelos 
penteados com singeleza, o rosto tratado sem excessos, os modos e as frases 
sensatas e Cludio a informar, sem queixa, que Dona Mrcia, ultimamente, andava 
sempre fora para descanso, o clima domstico destilando tranqilidade... Tudo 
aquilo era para ele coisa nova, sensao nova... Sentia-se perturbado, experimentava 
remorsos pela franqueza de que se utilizara, sem saber se fora ciumento ou 
descorts. 

Instintivamente, tomou a direo do quarto que a jovem ocupara e onde a vira, 
desfalecente... 

Queria recordar-se, refletir. 

Seguamo-lo, obedecendo s disposies do tapete macio; entretanto, ao rodar, 
de leve, a maaneta, como quem no pretendia apartar-se do sonho, viu, 
assombrado, atravs da porta entreaberta, que o genitor e Dona Mrcia se beijavam 
e, em torno deles, sobressaa, para a nossa viso espiritual, a chusma dos amigos 
conturbados, para cujos servios Moreira apelara, inconscientemente... Aqueles 
vampirizadores, registrando a indireta, mostravam-se em atividade, 
metamorfoseando simples impulsos de afeto do par outonio em voluptuoso 
arrebatamento. 

Nemsio, de costas, foi visto sem ver, qual ocorrera com ele prprio, Gilberto, 
meses antes, e, como acontecera a Marina, Dona Mrcia, situada de frente, 
observou-lhe a chegada e o espanto que lhe terrificara a fisionomia. 

O rapaz afastou-se, na ponta dos ps, mordido de angstia. A dvida 
esmagava-o. O dolo paternal ruira de chofre. Teria realmente o pai razes 
verdadeiras para separ-lo da jovem que ainda amava? 

De nosso lado, porm, fazia-se indispensvel a colaborao em favor de 
Moreira, arrependido. O amigo avanara para a quadrilha que o complicava, 
supondo apraz-lo, oscilando entre a revolta e a pacincia. 

Interferi, rogando serenidade. Acatssemos Nemsio e a companheira, no 
tnhamos o direito de escarnec-los, escarment-los. 

O bando retirou-se e Moreira transferiu atenes para Dona Mrcia, que, 
suficientemente ladina para criar problemas, no desmaiou,  feio da filha. 
Raciocinando friamente, desligou-se de Torres pai sem alarde e afagou-lhe a testa, 
afirmando que viera da Lapa unicamente para v-lo, porqanto se afligira ao not-lo 
indisposto na vspera. No pretendia lesar-lhe a sade. Auxiliou-o a deitar-se no 
leito prximo, de onde evidentemente o amigo se levantara a fim de receb-la, e, 
aps dirigir-lhe conselhos afetuosos, afastou-se, pretextando a necessidade de se 
entender com empregadas. 

Fora, no corredor, perguntava a si prpria de que maneira contornar a 
dificuldade. Conquanto impassvel em se tratando de preservar interesses, ainda 
era me e pensava na filha. Seria justo azar-la, envenenando o nimo de Gilberto? 
nada fazer por Marina, reaproximando-os? No seria desmoralizar-se, de todo, 
permitindo que o moo a interpretasse por mulher sem escrpulos, j que talvez um 
dia viessem a ser madrasta e enteado? 

Moreira aproveitou aqueles minutos de reconsiderao e enlaou-a, respeitoso, 
pedindo-lhe piedade. Favorecesse Marina, apoiando Gilberto. Buscasse o rapaz, 
enquanto usufruia oportunidade, conversasse com ele, apaziguasse os jovens... 

Enternecido, aproximei-me tambm dela e supliquei-lhe a intercesso. Ela podia 
ajudar. No tencionava reconciliar-se com Cludio, queria efetivamente o desquite. 
Por que no praticar um ato de justia e caridade para com a filha doente, en



caminhando aquele menino entregue  decadncia moral ao matrimnio digno? 
Recolhera Marina nos braos de me, dera-lhe as cantigas do bero, orientara-lhe a 
infncia, preparara-lhe o sentimento para a felicidade... Como larg-la, assim, num 
momento em que o destino lhe facultava todos os recursos para estender-lhe as 
mos? A esposa de Cludio, ao impacto dos argumentos que assimilava em forma 
de reflexes, rememorou o passado e chorou. Naquele instante, o sentimento 
pulsava-lhe puro, como na noite em que a vramos, tomada de indignao e de dor, 
ao defender Marita em casa de Crescina. Entre a conscincia e o corao, no 
havia lugar para o clculo astucioso. No titubeou. Dirigiu-se ao aposento de 
Gilberto, entrou com a sem-cerimnia de me que assiste um filho, sentou-se  
beira da cama em que o rapaz se abatera, amuado, e falou-lhe, lacrimosa. Principiou, 
rogando-lhe desculpas. Em seguida, pediu-lhe permisso para confessar-lhe 
que ela e Nemsio se amavam, h tempos. E, num rasgo de generosidade que a 
elevava, mentiu pela felicidade da filha... Comunicou-lhe que, desde muito, se desligara 
de Cludio, cuja presena infelizmente no mais tolerava, e declarou que, 
antes do falecimento de Dona Beatriz, se tornara ntima de Nemsio, com quem se 
encontrava, amide, em lances clandestinos. Acentuou, com inflexo estudada para 
impressionar o interlocutor, que errara, lamentavelmente, ao consentir que a jovem 
se tornasse enfermeira da senhora Torres, porqanto, desde a, possuia razes 
para supor que o velho lhe cobiava a filha. 

Reconhecendo-o interessado nela, enciumara-se... Venerava, porm, a 
grandeza espiritual de Dona Beatriz, a quem estimava de longe, e tivera foras para 
aguardar-lhe a morte, antes de assumir qualquer atitude. Desfeito o impedimento, 
resolvera abandonar a casa, em definitivo, a ponto de no se incomodar com a 
menina doente e acompanhar Nemsio a Petrpolis, onde se demoraram juntos em 
deleitoso refgio. E continuou justificando, justificando... Agora que ele a surpreendera 
nos braos paternos, que lhe perdoasse como um filho, cujo apreo se 
esmeraria em conservar. No retornaria ao Flamengo. Desquitar-se-ia de Cludio, 
de qualquer modo, e, de qualquer modo, partilharia o destino de Nemsio, enquanto 
Nemsio o permitisse... Mesmo assim, era me e rogava-lhe por Marina. Se a 
amasse, que no lhe desse indiferena ou desprezo, num momento como aquele 
em que se refazia de dura perturbao. Que a protegesse, fazendo pela menina o 
que ela, Mrcia, no mais conseguiria... 

A senhora Nogueira finalizara, sinceramente comovida, e vimos sensibilizados 
os prodgios da compreenso e da bondade num corao juvenil. Olhos 
chamejantes de jbilo, o rapaz ergueu-se e ajoelhou-se diante daquela mulher que 
lhe sossegava o esprito, com a verso caridosa de que necessitava para 
reconstituir o caminho. 

Em lgrimas de alegria, osculou-lhe as mos e agradeceu-lhe em palavras 
quentes de carinho filial. Entendia, sim  comentou , que o pai, no obstante 
bondoso, teria obedecido a sugestes de despeito, a fim de apart-lo da escolhida. 
Procuraria Marina, prometia olvidar o passado, de modo a no ferir a dignidade 
maternal com que ela, Dona Mrcia, lhe patenteara a nobreza de sentimentos, 
torturada qual se achava entre a paixo de companheira e o devotamento de me. 

Informou que, na tarde daquele dia, estivera com Marina. Notara-lhe a 
sinceridade e a tristeza. Fora rude com ela, espezinhara-lhe o corao, mas voaria 
naquela mesma hora para o Flamengo e fariam as pazes. Quanto ao futuro, no 
tinha motivos para incompatibilizar-se com Cludio; entretanto, j que o desquite se 
fazia iminente, envidaria todos os esforos para que o genitor e Dona Mrcia se 


consorciassem num pas onde o divrcio merecesse aprovao legal. 

Da entrevista ao telefone e do telefone a novo encontro com Marina, foi para 
Gilberto questo de minutos. 

Perante os jovens reunidos, Nogueira enlevou-se, regozijando-se em 
preces de reconhecimento. Moreira e eu expedimos informaes para o 
irmo Flix, que veio, na noite do dia seguinte, compartilhar-nos as oraes de 
alegria. 

Depois de abraar Cludio e os dois namorados que demandavam 
Copacabana,  busca do convvio de Salomo, o benfeitor rumou para a Lapa, em 
nossa companhia. 

Mrcia, recostada num div, fumava cismando, na expectativa da chegada de 
Nemsio para jantarem na Cinelndia, com um filme subseqente, mas Flix, 
magnnimo como sempre, acercou-se dela, ignorando as baforadas, e beijou-lhe a 
fronte, mostrando lgrimas... 

No dispnhamos de estatura espiritual para auscultar-lhe os pensamentos 
sublimes. Observamos apenas que ele a contemplou, enlevado, como quem lhe 
agradecia a inesperada abnegao, e murmurou, ao despedir-se: 

 Louvado seja Deus! 
Do dia imediato em diante, azedou-se o intercmbio entre pai e filho. Nemsio, 
intrigado; Gilberto, arredio. E, decorridas algumas semanas, ao inteirar-se de que o 
rapaz e a menina Nogueira passeavam de relaes reatadas, o negociante viajou 
para o sul, em companhia de Mrcia, no intuito de situar o filho junto de antigos 
camaradas de juventude, residentes em Porto Alegre. Por l se deteve o par, 
semanas e semanas, trazendo, na volta, expressivo programa de servio e de 
estudo que Gilberto, convidado pelo genitor a entendimento, recusou, corts, 
desistindo das vantagens que lhe eram oferecidas. 

Presenciando-lhes o dilogo em ambiente fechado, consignamos a respeitosa 
ternura com que o jovem se dirigiu ao genitor, implorando-lhe auxlio. Tivesse a 
bondade de no transferi-lo, que o deixasse no Rio. Rogava desculpas se o magoava, 
mas reconhecia-se em maioridade e aspirava ao casamento com Marina, de 
quem se reaproximara. Desde cedo, acostumara-se a trabalhar com o pai. a 
colaborar com ele, na imobiliria. Aguardava-lhe, por isso, a proteo. 

Nemsio ouvia, ressentido, revoltado. Marina reconquistada pelo filho 
significava para ele bancarrota moral insuportvel. Nunca a amara tanto, quanto 
naquela hora em que se lhe esvaiam as esperanas. Entrevia-se calcado, vencido. 
A pouco e pouco se desinteressara de Mrcia, conquanto a conservasse. Marina 
significava-lhe mocidade, euforia, entusiasmo, improvisao. 

Justamente quando ruminava desgnios de recuperar-lhe o carinho, adiantava-
se o filho, frustrando-lhe os projetos. 

Certificando-se de que Gilberto conclura, vibrou rude golpe na mesa com uma 
rgua pesada e, enceguecido pela clera que o envolvia por juba de fogo, 
esbravejou: 

 Nunca!... Voc nunca se casar com essa... 
E multiplicou pejorativos e desaforos que o moo agentou, estonteado e ferido. 
Mesmo assim, depois da tirada de injrias, retorquindo aos apelos e intimaes de 
ltima instncia, assegurou que saberia tolerar todas as conseqncias, mas no 
renunciaria ao compromisso que assumira consigo prprio. 

O genitor, possesso, entregou-se s vias de fato, esmurrando-lhe o rosto. 
Gilberto rodou nos calcanhares e tombou no piso, para reerguer-se e cair de 


novo sob pancadaria grossa, at que Nemsio, semelhando fera solta, infligiu-
lhe tremendo chute, vociferando: 

 Rua, miservel!... Rua, rua!... Suma daqui! No me. aparea mais!... 
Acompanhamos o menino atnito, que alcanou a via pblica tentando estancar 
com o leno um filete de sangue a escorrer-lhe num dos cantos da boca. 

Da a quarenta minutos, um nibus despejava-nos no Flamengo. 

Os Nogueiras terminavam o almoo e, antes de rumar para o banco, Cludio 
recolheu, junto da filha, o relatrio doloroso. 

O trio machucado entendia perfeitamente a gravidade da situao. Nogueira, 
porm. ofereceu-se para ajudar. Diligenciaria obter para Gilberto um emprego no 
estabelecimento de crdito em que trabalhava. Considerava o dirigente por amigo. 
Solicitar-lhe-ia os bons ofcios. Que o rapaz esquecesse os agravos e aceitasse em 
Nemsio um enfermo da alma. 

Gilberto rememorou os segredos de Dona Mrcia, condoeu-se do interlocutor e 
entrou em lgrimas. Aquele homem, muito mais ofendido que ele mesmo pelo pai 
prepotente, aquele homem espoliado no corao, impetrava benevolncia para o 
seu prprio verdugo. 

Marina, que sazonara o entendimento da vida, exortava tambm  concrdia e 
ao olvido. E tanto se adestrava em renovao que, aps o curativo nos lbios de 
Gilberto, sugeriu ao pai fosse o rapaz conduzido sem delonga ao gerente. No se 
devia perder a oportunidade, nada de lamentar sobre o inevitvel. Ensaiou 
apontamentos de bom-humor, emprestou comicidade ao drama que lhes cabia viver, 
endereando o pensamento ao futuro, e inventou notas alegres para a 
dificuldade, qual se dependurasse guirlandas numa sala encrespada de espinhos, 
conseguindo que Torres filho, chorando e rindo, trincasse alguns pastis, antes de 
sair. 

O diretor de Nogueira acolheu o candidato com simpatia; no entanto, no 
relacionava meios para coloc-lo em regime de urgncia. Aguardasse um mes. No 
se admitiam aspirantes ao servio, sem provas de habilitao, previamente 
ordenadas, mas prometia entender-se com os chefes. Acreditava na possibilidade 
de aproveitar-lhe o concurso, em carter de interinidade. 

Gilberto agradeceu. 

A ss com o protetor, referiu-se com humildade ao problema de moradia. 

Afinal, sabia-se expulso de casa a pontaps. 

Cludio tranqilizou-o. 

Certo, no calhava, por enquanto, a presena dele no lar do Flamengo, embora 
julgasse a medida irrepreensvel. Competia-lhes, porm, imunizar Nemsio contra 
qualquer novo ataque de fria. Conhecia penso de estudantes corretos e pediu-lhe 
para que no lhe recusasse as garantias. 

Entre moos respeitveis, esperaria a convocao. Depois, resgataria os 
pequenos dbitos que viesse a contrair. Que no se vexasse. Acariciou a cabea do 
jovem e salientou que se achavam na condio de pai e filho e que, em razo disso, 

o dinheiro entre ambos deveria ser gasto em condomnio. 
O rapaz, no obstante constrangido, aquiesceu. 
Da a algumas horas, ciente de que o genitor se ocupava em servio, contratou 
caminho e colheu da residncia os pertences que julgou indispensveis, 
sossegando a dedicada governante com a informao de que se ausentava para 
trabalhar, durante algum tempo, com o pai de Marina, a fim de tentar a sorte. 

O comunicado surtiu efeitos imediatos. 


Dispensando a possvel assistncia ao nimo inquieto de Nogueira, vimos, 
no dia seguinte, quando Nemsio entrou no banco, s duas da tarde, a esbaforir-se. 
Enraivado, no centro de vasto grupo de Espritos galhofeiros, solicitou a presena 
de Nogueira em recinto particular. Um funcionrio acenou para o companheiro e 
Cludio veio; mas, pressentindo que seria intimado a rigoroso testemunho de 
tolerncia, preferiu atender no vestbulo, rente ao pblico. 

O visitante comeou dizendo que lhe exigia contas do filho, acentuando que no 
lhe permitiria influenci-lo. 

Cludio mobilizou todas as reservas de humildade e rogou licena para informar 
que o moo to-somente o tratava por amigo, sem, no entanto, abdicar do livre-
arbtrio; que no se via autorizado a responder por ele; que... 

O genro de Neves, todavia, interceptou-lhe a palavra e rugiu: 

 Cale-se, besta!... joo-ningum! paspalho! Tome l, seu esprita de meia-
tigela!... 
O punho do negociante batia no rosto de Cludio, arremessando-lhe pescoes 
violentos, enquanto a vitima procurava defender-se, debalde, escondendo a cabea 
entre as mos. 

A agresso fora rpida. 

Antes que os circunstantes se refizessem do 
choque, o bancrio jazia no pavimento e somente 
a cooperao de intercessores annimos impediu que 

o esmurrador asselvajado lhe pisasse o corpo em 
decbito. Contido  fora, berrava insultos, assessorado por Espritos infelizes. 
O injuriado ergueu-se disposto a revidar. Irado, contundido. Referviam-lhe no 
peito as dores acumuladas. Tomaria desforra. O comerciante audacioso conhecerlhe-
ia o desagravo. Massacrlo-ia naquele mesmo instante como se achata um 
verme. Num timo, contudo, ao levantar a destra para medir punhos com o 
adversrio, sentiu o reflexo de Marita. Aquela mo pequena e fria que se elevara da 
morte, a fim de abeno-lo, estava na dele. A menina atropelada surgia-lhe na 
memria, como a perguntar-lhe pelos votos de melhoria. Prometera-lhe renovar-se, 
ser outro homem... Impossvel quebrar o compromisso. Recordou-a padecente, o 
corpo recoberto de escaras dolorosas. No tinha sido ele o culpado? no fora a 
Divina Providncia suficientemente compassiva, deixando que a falta de que se 
acusava passasse despercebida,  frente dos homens? no recebera, acaso, o 
perdo da filha que amava? que diria ela, do Alm, se tambm no perdoasse ao 
carrasco que lhe seduzira a primognita e lhe furtara a mulher? Abraara princpios 
que lhe preceituavam clareza de raciocnio, a fim de que aprendesse a conjugar 
bondade e discernimento, justia e caridade... Cabia-lhe ver, nos inimigos gratuitos, 
enfermos exigindo socorro e benevolncia. De que modo condenar algum naquilo 
em que se inculpava? No trazia, porventura, o esprito endividado, em meio de 
falhas e tentaes? 

Afrouxou-se-lhe o brao antes reteso e, escutando os sarcasmos de Nemsio 
que se retirava, truculento, constrangido por pessoas que clamavam em alta voz 
pela interveno da rdio-patrulha, o marido de Dona Mrcia, encostado  parede, 
sob os olhares de simpatia de todo o auditrio, no se acanhava de libertar o pranto 
amargo e espesso a pingar-lhe do queixo escanhoado. 

O gerente assomou  cena, quando o autor das bofetadas ganhava o meio-fio, e 
indagou pela causa do tumulto. 
Um funcionrio emocionado apontou para o colega ofendido, falou no 


espancamento e aduziu: 

 Decerto, no reagiu porque ele hoje  religioso,  esprita.. 
O chefe comoveu-se. Desejando desfazer o clima geral de indignao, inquiriu, 
 porta: 

 Quem  esse brutamontes de jaula? 
Velhinha que esperava atendimento, de caderneta  mo, informou: 
Conheo.  Nemsio Torres, proprietrio de lotes e mais lotes... 
Tubaro!  comentou o recm-chegado com inflexo de menosprezo , 
onde pensa que estamos? 
E relanceando o olhar pelos clientes embasbacados, protestou: 

 Gente, ns estamos no Rio!... no Rio!... Como  que vocs soltam um 
criminoso desses? um caso assim,  polcia, corda, cavalaria, cadeia... 
Esbarrou, porm, com Cludio imvel e, recompondo-se, abraou-o para acabar 
conduzindo-o a saleta distante. A, ouviu do subordinado a histria da filha e do 
rapaz que lhe fora apresentado na vspera. Entre revoltado e condodo, autorizou o 
ingresso do moo no servio, acrescentando que lhe faria os possveis vencimentos 
at que lhe vissem a situao devidamente legalizada. 

Na reta final para o casamento, Gilberto conseguiu empregar-se, estimado de 
todos. 

Nemsio, contudo, acabrunhado e desgostoso, convidou Mrcia para uma 
excurso de seis meses em pases da Europa. Atravessariam Portugal e Espanha, 
Frana e Itlia, com alguma demora na Sua. Declarava-se infelicitado pelo 
destino, desde a morte de Beatriz. Caipora. Malogrado. Anelava mudana, 
refazimento. 

A senhora Nogueira, que cortara os telefonemas para a famlia, desde 
Petrpolis, deu-se pressa em comunicar o acontecimento  filha, atravs de um 
carto. Confessava-se esperanosa, encantada. Seguiria juntamente daquele a 
quem no trepidava em designar por futuro esposo e prometia enviar notcias de 
cada cidade que visitassem. 

Marina recolheu a mensagem com discrio, sem que o pai e o noivo 
soubessem de semelhantes frias, a no ser indiretamente pela boca de amigos. 

A ausncia do par traou, para o trio, bendito parntese, recheado de alegria e 
sossego, de ponta a ponta. 

O apartamento do Flamengo convertera-se em colmeia de paz e luz. E 
enquanto Moreira resguardava Marina com fidelidade incondicional, retomei estudos 
e experincias, junto de Flix, embora acompanhando com afetuoso interesse os 
amigos do Rio, a se prepararem, contentes, para o enlace feliz. 

A unio esponsalcia de Gilberto e Marina realizou-se precisamente no ltimo 
dia do ano que se seguiu  desencarnao de Marita. Solenidade marcada por 
flores e oraes, abraos e promessas. 

A ventura do novo casal atingiu-nos, igualmente, no Almas Irms, onde 
pequena equipe de companheiros se reuniu em prece pela segurana dos nubentes 
que se entregavam a novas responsabilidades e novas lutas. 

Destaquei, no entanto, com desagrado, a ausncia da filha de Araclia. A 
prpria Beatriz compartilhara os jbilos votivos, conquanto desconhecesse 
completamente o que sucedia, com referncia ao esposo. 

Flix, porm, ao registrar-me a estranheza, quanto quilo que eu imaginava 
como sendo preterio, elucidou que a menina, prestes a regressar para as lides 
terrenas, demandava cautelas especiais. E prosseguiu aclarando que obtivera 


permisso para que o processo regenerador do conjunto Nogueira-Torres fosse 
remodelado. Marita no lograra desposar Gilberto, por influncia da irm; contudo, 
voltaria a viver entre os dois, na condio de filha, para que a frao de tempo, 
concedida ao grupo para a existncia em comum, no plano fsico, viesse a ser 
aproveitada nos recursos possveis, sempre valiosos, por mnimos que fossem. Indiscutivelmente, 
no se tratava de reencarnao organizada a rigor e nem 
compulsria, por motivos judiciais. Medida, entretanto, de carter premente que ela 
seria impelida a aceitar, em favor de si mesma. Para esse fim, ela reveria o Rio, 
oportunamente, junto de ns, pela primeira vez, depois de quase onze meses de 
internao em parque de repouso, onde vivera apenas de saudade e recordao, 
para efeito indutivo. Abraaria to-s os que quisesse, atenderia exclusivamente a 
prpria vontade, para que se lhe avantajasse o impulso de voltar. Compreendendo-
se que Gilberto lhe constituiria o tema central das compensaes emotivas, 
sublinhava Flix que todos os nossos cuidados, na ocasio, se concentrariam nele. 
Seria necessrio que Marita o surpreendesse a ss, ignorando-lhe o matrimnio, 
porqanto os ressentimentos hauridos da convivncia com a irm ainda lhe doam 
na memria, quais chagas entreabertas. E, entendendo-se que ambas se 
reencontrariam, mais tarde, por me e filha, em conflito vibratrio, visando ao 
expurgo dos erros e averses recprocas que carregavam de remoto passado, era 
de todo indispensvel que a reencarnante dormisse para o renascimento fsico, sob 
a impresso de euforia perfeita. 

Aceitando a lgica das explicaes, fui avisado, dias transcorridos sobre a 
conversa, quanto  data escolhida para a excurso. 

No instante aprazado, participou-me Flix no s o envio de dois companheiros, 
incumbidos da preparao de ambiente junto ao filho de Beatriz, como tambm 
cientificou-me de que se valia do ensejo em andamento, por sab-lo em estudos, 
noite, na intimidade de vrios colegas, numa residncia da Glria, com vistas a 
concurso prximo para a efetivao no cargo que exercia no banco. 

Efetivamente, partimos com Marita, calculando o tempo necessrio para 
encontr-lo fora de casa, prevendo-se o trmino das tarefas noturnas para depois 
de zero hora, segundo notificaes recebidas. 

Cumpriu-se o programa com diminutas diferenas de horrio. 

Estimulvamos os jbilos de Marita, que descia conosco sobre a Guanabara 
ferica. De longe, os contrastes de luz, entre o morro do Leme e o casario da Urca, 
mais alm, a praia de Botafogo... 

Mais alguns instantes, a Avenida Beira Mar, diante de ns... Tocando o cho do 
Flamengo, a moa multiplicava interjeies de alegria, revendo a cidade que lhe 
senhoreava a ternura. 

Parados, diante das guas remansosas, assimilando energias nutrientes da 
Natureza, fomos inteirados pelos batedores amigos de que Gilberto descera de 
carro particular em esquina adjacente. 

Sem delonga, conduzimos a jovem ao ponto indicado, e, ao identific-lo, 
embriagada de ventura, chamou, ansiosa: 

 Gilberto!... Gilberto!... 
O interpelado no lhe registrou a voz com os tmpanos carnais; no entanto, 
assinalou-lhe a presena em forma de lembrana. Recordou, de inopino, aquela que 
ainda supunha como sendo pupila de Cladio e tomou direo oposta  que 
seguiria, parando, alm, a fim de refletir e contemplar a bala prateada de lua... Sim, 


ali, naquelas areias, jurara-lhe amor eterno, planeara o futuro... 

Meu Deus!  pensou  como a vida mudara!... 

Enlaado pela jovem desencarnada, desentranhava-lhe a imagem do 
pensamento, enxugando os olhos... 

Flix, contudo, apartou-a brandamente e perguntou-lhe o que mais desejava. 

 Viver com ele e para ele!... 
A resposta alcanava-nos como um grito de esperana, rebuado em soluos. 
O instrutor, que no aguardava outra coisa, dirigindo-se a ela de modo paternal, 
ponderou a convenincia de tornarmos ao domiclio. Empenhar-se-ia por assegurar-
lhe o regresso. Que se acalmasse. Retomaria a convivncia e a dedicao de 
Gilberto. No aconselhava, porm, se lhe dilatasse o arrebatamento, nocivo a 
ambos, mesmo porque, muito em breve, estariam juntos. 

A menina obedeceu, mas pousou sobre ns os olhos molhados, indagadores. 
Percebi-lhe no esprito os reflexos de Mrcia e Marina; todavia, afastou-lhes a figura 
do pensamento e inquiriu se lhe era facultado rever Cludio, acentuando que o pai 
lhe fora o derradeiro amigo, nas angstias do adeus.... 

O orientador anuiu, contente. 

Mais quinhentos metros de espao e atingimos o apartamento, acolhidos  
entrada por Moreira, vgil. O enfermeiro reconheceu Marita, sob emoo forte, mas 
eclipsou-se a um aceno de Flix, que desejava poup-la a divagaes. 

Atormentada, tremente, a moa, assistida por ns, penetrou no aposento 
paterno e, oh surpresa! 

 Nogueira, em esprito, rente ao corpo que ressonava de manso, como que lhe 
aguardava a presena, pois estendeu-lhe os braos e gritou, misturando enlevo e 
regozijo, na exaltao que passou a comandar-lhe todas as foras: 
 Minha filha!... minha filha!... 
A jovem rememorou os quadros que imaginara no hospital, o suplcio das horas 
lentas, as preces que lhe amenizavam as amarguras, a invarivel devoo daquele 
pai que se lhe redimira no conceito  custa de sofrimento, e ajoelhou-se, diante 
dele, procurando-lhe o regao, como quando em criana. 

Cludio, perplexo, no nos via, concentrava-se totalmente na viso a exercer 
sobre ele inigualvel fascnio. Afagou com a destra hesitante aqueles cabelos 
desnastrados que tanta vez alisara, na instituio dos acidentados, e relembrou 
Marita, nas atitudes da infncia, quando vinha da escola, e indagou: 

 Filha do meu corao, por que choras? 
A recm-chegada endereou-lhe um gesto splice e rogou: 
 Papai, no se aflija!... Estou feliz, mas quero Gilberto, quero voltar para a 
Terra!... Quero viver no Rio com o senhor, outra vez!... 
Patenteando carinho imculo, Nogueira conservou-a sob as mos que tremiam 
de jbilo e, levantando o olhar para o teto, com a nsia de quem se propunha 
romper o monte de alvenaria para dirigir-se a Jesus, diante do firmamento, clamou 
em lgrimas: 

 Senhor, esta  a filha querida que me ensinaste a amar com pureza!... Ela 
quer retornar ao mundo, para junto de ns!... Mestre, d-lhe, com a tua infinita 
bondade, uma nova existncia, um corpo novo!... Senhor, tu sabes que ela perdeu 
os sonhos de criana por minha causa... Se  possvel, amado Jesus, permite agora 
que lhe d minha vida! Senhor, deixa que eu oferea  filha de minha alma tudo o 
que eu tenho! Oh! Jesus, Jesus!... 
Flix considerou que a emotividade excessiva poderia abat-lo e recolheu 


Marita nos braos, recomendando que me atrasasse, no sentido de auxili-lo a 
reaver o envoltrio fsico enlanguescido. 

Retirou-se o instrutor carregando a menina paternalmente, ao passo que 
Moreira e eu investamos Cludio sobre a mquina orgnica em movimento de 
impulso. Depois de passe reconfortante, Nogueira acordou em choro convulso, 
guardando na memria todos os detalhes da ocorrncia. 

Da a instantes, ouvimos passos na sala. 

Gilberto entrava, de leve. O sogro intentou aprumar-se e cham-lo para narrar o 
acontecido; entretanto, assimilou-nos a exortao ao silncio, para colaborar com o 
futuro... 

Sim  concordou, qual se estivesse conversando consigo mesmo , a verdade 
da vida no deve brilhar para a maioria dos homens, seno por intermdio de 
sonhos vagos, para no confundir-lhes o raciocnio nascituro, assim como o 
Universo de Deus no pode fulgir para as criaturas da Terra, seno em forma de 
estrelas, semelhantes a pingos de luz nas trevas, de modo a lhes no arrasar a 
pequenez... 

Entretanto, a certeza de que Marita retornaria ao mundo, reencarnada, 
iluminava-lhe o pensamento e aquecia-lhe o corao. 


Captulo 12 

Atingira Marina o quinto ms de gestao. Entre o esposo e o pai, 
acompanhada pelo devotamento de Dona Justa, que a servia por me, transpirava 
regozijo, embora os estorvos naturais. 

Cludio seguia o acontecimento, enternecido. No ntimo, detinha a convico de 
que Marita se achava, junto da famlia, prestes a ressurgir em novo bero. Cada 
noite, oraes pela tranqilidade do Esprito que voltava, preces pela felicidade dos 
filhos. Visitas mensais ao mdico, prestando assistncia  filha. Passes de 
reconforto  gestante. Mimos para o beb. 

Demorvamo-nos, por vezes, a admirar-lhe a pacincia e a ternura, lendo para 
a filha, ao tric, pginas educativas de ginecologistas e pediatras, instruindo-a, 
asserenando-a. 

De permeio, Gilberto, feliz, na expectativa de um sucessor. 

Conjeturava-se, quanto ao sexo da criana, planejavam-se realizaes, 
endereavam-se ao porvir. Dona Justa repetia a histria do homem que carregava o 
cesto de ovos, sonhando com fazendas que lhe adviriam dos pintos improvveis. 

Riam-se. 

De nosso lado, resguardando Marita, quanto possvel, no processo 
reencarnatrio, junto da irm, partilhvamos o enlevo geral. 

Tudo esperana, sossego. 

A criana encomendada figurava-se no grupo familiar um sagrado penhor de 
reconciliao com a vida. A paz, aparentemente definitiva, entrara no lar do 
Flamengo, como se todos os pesares transcorridos estivessem para sempre 
arquivados nas gavetas do tempo. Entretanto, o passado palpitava naquele trato de 
ventura, como a raiz parcialmente enferma, escondida no solo, sustentando embora 

o tronco florido. 
Apareceu a tarde em que ambos os bancrios surpreenderam a jovem dona da 
casa em agoniado abatimento. 
De princpio, atribuiu-se a alterao ao problema orgnico, mas, agravada a 
ocorrncia, chamou-se o mdico, sem que o facultativo atinasse com a origem da 
queda sbita. 

Marina enlanguescia... 

Finda uma semana, valeu-se Cludio de ensejo para a conversao a ss e 
investigou-a. 

Suspirava por v-la recuperada, fortalecida. Receava complicaes. Exortou-a  
confiana e ao otimismo. Orasse, tivesse f. No conhecimento esprita, no ignorava 
que a criana, em vias de nascer, lhe reclamava descanso, alegria. Notando que a 
moa, em determinado ponto do entendimento, pendia a cabea, de leno aos 
olhos, fez-se mais persuasivo, rogando para que se abrisse com ele. No lhe opusesse 
reservas. Afligia-se, era pai. Excetuando Gilberto, que passara a bem-querer 
por filho, no dispunha, na Terra, de outra pessoa, seno dela, para incentivar-se ao 
trabalho. 

A interlocutora, comovida, levantou-se, demandou o quarto e trouxe-lhe um 
papel. Uma carta. Cludio leu-a, sem dissimular no rosto o assombro e o sofrimento. 
O escrito vinha de Nemsio. Participava o regresso ao Rio, aps seis meses de 
Europa. 
Confessava-se, desabrido. Afirmava-se entediado de tudo, menos dela, a quem 
amava ainda com inusitado calor. Informara-se do casamento; ao retornar, no 


entanto, jamais a consideraria por nora. O filho no passava de um tonto, de um 
espantalho, dizia ele, do qual se deveriam afastar para o cultivo da felicidade que 
ele mesmo, Nemsio, frustrara, abandonando-a sem maior considerao. Pedia escusas 
e aguardava-a. Conhecera pases novos, contemplara maravilhas que lhe 
afetaram os olhos, mas o corao quedava ermo, jungido a ela atravs do 
pensamento. 

At  metade do relatrio afetivo, reportava-se Torres pai a conceitos de 
compaixo e carinho, mas, na ltima parte, incidia na irreverncia. Sacudia-lhe a 
memria. Perguntava-lhe por lugares menos recomendveis. Acusava-se 
desajustado, saudoso. Pedia encontro. Dar-lhe-ia instrues para o desquite. 
Possua excelentes amigos no Foro. Que ela no o desapontasse, porque, de outro 
modo, uma bala na cabea ser-lhe-ia a soluo. No vacilaria entre a felicidade com 
ela e o suicdio. Que escolhesse. Punha-lhe o destino nas mos. 

O missivista no traava a menor referncia quanto a Mrcia. 

Nogueira analisou a gravidade da situao, pensando, pensando... Recordou, 
calado, o espancamento sofrido no banco, que no mencionara aos filhos, e 
deduziu que Nemsio era capaz de todas as violncias. Anteviu a tormenta que se 
esboava, mas tratou de consolar a filha. 

Desanuviou o semblante e sorriu, paternal. Aquilo tudo no passaria de 
momento infeliz. Que no se amofinasse. Procuraria o negociante em pessoa, a fim 
de rogar-lhe serenidade e reconsiderao, ao mesmo tempo que lhe participaria a 
chegada prxima da criancinha que seria para ele tambm, Nemsio, um sorriso de 
Deus. Impossvel que a notcia no lhe acordasse enternecimento. Que a filha no 
se afligisse. O sogro investir-se-ia na condio de av, antecipadamente, e olvidaria 

o passado, abraando a reconciliao com a famlia para a felicidade geral. 
Nos olhos da interlocutora, seduzida pelo magnetismo daquelas palavras, a 
esperana brilhou com a paz que o genitor lhe devolvia ao corao. 
Na manh seguinte, Cludio, discreto, ps-se em campo. Rogou a colaborao 
de amigos ntimos, a fim de que alguns dos corretores da imobiiria fossem ouvidos, 
e veio a saber que os turistas haviam regressado, semanas antes. O chefe, 
contudo, vira-se defrontado por notcias desagradveis e mostrara-se irritadio. O 
afastamento do filho desequilibrara a balana dos negcios, no somente porque 
isso golpeara os crditos morais de Nemsio, mas tambm pelo fato de a 
circunstncia encorajar abusos da parte de subordinados que no se revelaram  
altura da autoridade recebida. A longa viagem, numa poca de crise na 
organizao,  face da ausncia de Gilberto. atraira desastres financeiros, abrindo 
brechas dificilmente recuperveis. Amigos da firma haviam retirado,  pressa, 
capitais importantes, desistindo dos depsitos com que lhe garantiam a segurana. 
Prejudicado o movimento, onerara-se a imobiliria com dois vultosos emprstimos, 
para cujo resgate entregara Nemsio duas teras partes dos prprios bens. No 
detinha agora seno possibilidades estreitas para lastrear as operaes imediatas e 
evitar a falncia. E fosse por v-lo destitudo das propriedades que a fascinavam ou 
porque houvesse esgotado as reservas afetivas para com ele, Dona Mrcia 
abandonara-o e residia com Selma, planeando a formao de um restaurante. 

Nogueira recolheu todos os informes, apreensivo. Mesmo assim, aps o 
almoo, vencendo a prpria repugnncia com os recursos da orao, demandou a 
moradia dos Torres. 

Levava o esprito pressago, triste... 
Fez soar a campainha no vestbulo ajardinado; no entanto, o pai de Gilberto 



vira-o, de longe, quando apeava do nibus, e do terrao em que fumava,  sesta, 
expediu aviso. Um empregado, em nome dele, veio dizer a Cludio fizesse a 
gentileza de se considerar Indesejvel. No lhe receberia a visita naquela hora, nem 
noutras. 

Nogueira retirou-se, compreensivo. 

Intil o tentame. 

Voltou ao trabalho e rogou entendimento com o chefe que se lhe tornara mais 
amigo. Mostrou-lhe a carta que o conhecido agressor lhe dirigira  filha e ponderou, 
quanto  necessidade de proteg-la, sem parecer ao genro que assim procedia 
defendendo-a do sogro. 

O gerente, prestativo e humano, associou-se-lhe aos cuidados e sugeriu-lhe 
uma licena de seis meses. Nenhum impedimento para ele, antigo funcionrio com 
excelente folha de servio. 

Nessa frmula, apoiaria a moa e resguard-la-ia, desde a caixa do correio, 
impedindo que novas cartas lhe chegassem s mos, at a assistncia contnua em 
casa, hora a hora, para que se lhe garantisse a tranqilidade na gravidez. Incumbirse-
ia de comunicar a Gilberto e colegas que ouvira de mdicos amigos a 
recomendao de impor-lhe descanso indeterminado, e se entenderia, ele prprio, 
com os clnicos, que no lhe sonegariam a concesso. Que repousasse e 
atendesse a filha. 

Cludio agradeceu, confortado. 

Vinda a noite, entrou em conversao com a filha, sossegando-a. Afirmou 
possuir razes para acreditar que Nemsio no mais a molestaria. Esclareceu ter 
estado na residncia dos Torres; contudo, no-avanou alm de semelhante 
informe, dando a impresso de que o problema fora liquidado na origem. E 
interessados quais se achavam em apagar o pretrito, pai e filha se entretiveram no 
assunto da licena. Marina rejubilava-se. Ambos se devotariam a trabalhos diversos. 
Juntos, construiriam o bero do nen. Dariam nova disposio ao apartamento. 

Diferentes decoraes. Cludio fez humor. Salientou que Gilberto e ele se 
empenhavam em apostas. O genro aguardava um prncipe. Ele contava com uma 
princesa. De qualquer forma, era preciso organizar o palcio. Dizia-lhe o corao 
que a neta se achava em caminho... Por isso, concordava em renovar os mveis e 
pintar as paredes, mas exigia que todo o servio fosse feito com predominncia de 
rosa. Gracejaram. Aprovando os planos, Marina solicitou-lhe o concurso na 
organizao de um lbum que andava formando para o beb, enquanto esperavam 
por Gilberto, que prosseguia estudando  noite, com vistas  melhoria. 

Demandando, por fim, o leito, Cludio sensibilizava-nos com oportunas 
reflexes, permeadas de preces ardentes. Previa, inquieto, que doravante seria 
compelido a novos encargos. Acautelaria Marina e, conseqentemente, Marita, de 
cuja reencarnao guardava a certeza. A carta de Nemsio, ressumando 
inconformidade, e a rudeza com que lhe havia cerrado a porta, no lhe conferiam 
margem a dvidas. Teria conflitos e injrias  frente; no entanto, nada razovel 
desanimar. Orava, implorando recursos aos Espritos amigos. Que o no deixassem 
confiado a si mesmo, que lhe impedissem as manifestaes de fraqueza, que lhe 
frustrassem qualquer propsito de revide. Identificava-se num teste. 
Indiscutivelmente prejudicar Nemsio Torres em outras existncias. Devia pagar. 
Somente ao claro da lgica esprita destrinava a meada dolorosa. 

Aquele homem castigara-o na alma e na carne, transformara-se para ele em cobrador 
do destino. A conscincia determinava-lhe aceitar os desafios com 


humildade. Se bem no se sentisse em condies de se acomodar com a virtude, 
anelava solver os dbitos contrados, ainda que isso lhe custasse a existncia. 
Por essa razo, suplicava o apoio do Cristo, a fim de esquecer-se, de maneira a 
seguir caminho afora, segundo as Leis Divinas... 

Efetivamente, conhecendo o horrio aproximado de recepo do Correio, no 
prdio, Nogueira desceu, no dia seguinte, com a desculpa de obter po mais fresco 
e recolheu nova carta de Nemsio, endereada a Marina, cuja identidade 
estabeleceu para logo, atravs da letra. Abriu-a. Era coleo de recados, sabendo a 
fel. Misturava declaraes e libelos, alegava dificuldades, crises. Dizia precisar dela 
para recompor as finanas. Restaurar-se-ia em reduzido tempo, se o atendesse. 
No obstante os prejuzos que experimentara, ainda era suficientemente abastado 
para faz-la feliz. Reclamava resposta. Ameaava. 

Nogueira, reservado, queimou o papel. 

A ocorrncia, no entanto, se repetiu diariamente, por dois meses. 

Minuciosa ou sinttica, a missiva chegava, pontualmente. Cada texto mais 
inconveniente que o outro. Por vezes, relatava as andanas a que se entregava no 
Flamengo, tentando rev-la. Noutras ocasies, depois de frases melfluas, exigia 
pronunciamentos descabidos, sob pena de estourar o crnio, deixando queixa  
Polcia contra ela, com o fim de arruin-la. Em bilhetes comprometedores, proibialhe 
dar filhos a Gilberto. Preferia mat-la ou matar-se a receber netos do lar que 
haviam formado. Referia-se ao revlver, qual se lhe fosse companheiro incessante. 

Dia a dia, o negociante se figurava ao leitor paciente mais contraditrio e menos 
lcido. Cada vez que entregava os manuscritos ao fogo, Cludio percebia que o 
redator de tantos aleives se atascava, sempre mais, em loucura e obsesso, sem 
que lhe fosse facultado assumir qualquer providncia, entre o genro feliz e a filha 
gestante. Cumpria-lhe tudo amargar, sem dividir com pessoa alguma a dor que o 
espicaava. E para que a filha no pudesse penetrar os motivos de tamanha 
solicitude, ele se lhe convertera no pajem de todo instante. 

No encontro ltimo de consultrio, indicara o mdico ligeiros exerccios fsicos. 
Nenhuma ginstica. Algo suave. Bastariam marchas diminutas a p. Realizasse  
noitinha curto passeio at  praia, em esforo dirio, enquanto lhe fosse possvel. 
Nada mais que isso. A gestante obedeceu e, como era de esperar, Nogueira se lhe 
erigiu em guarda-costas, sustentando o corao repassado de inquietude. No se 
lhe oferecia ensejo de opor embargos  prescrio. Para a filha, aquela primeira 
manifestao de Nemsio, pelo servio postal, fora varrida do pensamento. 

Marina, enlaada ao pai, largava o prdio, efetuando breve percurso, para 
sentar-se, junto dele, nunca por mais de meia hora, ao p do mar. A se entretinham 
habitualmente nos temas caseiros, quando no se internavam em assuntos do 
esprito. 

Escorridos seis dias sobre as excurses aconselhadas, o registro de Torres pai 
veio diferente. 

Acompanhando Nogueira, analisamos a alterao. A letra modificada, 
configurando insultos, revelava superexcitao fronteira  demncia. Comunicava  
esposa de Gilberto t-la visto, por fim, na praia, em companhia daquele pai, que 
crivava de pejorativos e ofensas, e verificara que ela, afinal, se engravidara contra 
as ordens que lhe ditara em observaes anteriores. Acreditava-se o mais 
desmoralizado de todos os homens desmoralizados. Enojava-se da paixo que 
nutrira por ela, preferia morrer. Confessava-se falido. Escasseava-lhe tudo. 
Acabara-se o dinheiro, desertavam amigos. Restava-lhe de seu, to-s, a moradia, 


assim mesmo hipotecada. Esperara por ela, pelas decises dela. Se juntos, 
contaria com a possibilidade de se reerguer. Entretanto, a gravidez apontada 
desiludira-o. Plantaria uma bala na cabea. Despedia-se dela e do mundo com 
repugnncia. Que visse nos borres freqentes daquelas pginas com que encerrava 
a existncia as marcas das lgrimas que chorava. Lgrimas de revolta, 
desprezo, repulso. Finalizava, alinhando obscenidades e informando estar 
assinando o nome pela ltima vez. 

Nogueira, assustado, leu e releu o documento e, antes de reduzi-lo a cinzas, 
insulou-se no quarto e orou por aquele homem que, pelo jeito, se afundava em 
pavoroso desespero. 

Compadeceu-se. Impraticvel, todavia, colocar o genro ao corrente da situao. 
Nemsio delirava. Mais justo que o filho aguardasse noticias do tresloucado genitor 
por outras fontes. 

Impressionou-se, contudo, de tal forma com a mensagem recolhida que, aps o 
almoo, demandou, com discrio, algumas das organizaes policiais e 
hospitalares que lhe pareciam suscetveis de fornecer alguma pista, com referncia 
ao suicdio anunciado, mas em vo. Nenhum vestgio. Depois da caminhada, junto 
da filha, repousou mais cedo. Sentia fome de meditao mais prolongada. 
Concentrando-se em pensamentos de benevolncia e de f, rogava a Jesus pelo 
adversrio. Que os mensageiros do Cristo se apiedassem de Nemsio, amparando


o. Se ainda estivesse no corpo carnal, que se lhe estendesse o socorro preciso para 
que no resvalasse em desero; se houvesse forado irrefletidamente as portas da 
vida espiritual, que fosse bafejado pela proteo dos Emissrios Divinos... 
Enquanto Moreira e eu lhe acompanhvamos a splica, Perclia entrou. 

Esperou o momento oportuno e comunicou-nos que vinha da parte do irmo 
Flix, a fim de colaborar conosco. Os apelos de Cludio, durante todo o dia, 
transmitidos para o Almas Irms, tinham impelido vrios amigos a rogar auxlio em 
benefcio dele. Chegara no objetivo de ser til. E ns. que lhe admirvamos a 
bondade silenciosa, enternecemo-nos ao observar a devoo com que se instalou 
no aposento, qual enfermeira afetuosamente consagrada a doente querido. 

Mais quatro dias transcorreram sem episdios especiais, a no ser a extrema 
dedicao de Perclia que, diante de Cludio, era anloga ao amor de Cludio para 
com a filha. 

Entre sete e oito da noite, descemos do prdio e demandamos os stios 
conhecidos... 

Os Nogueiras conversavam tranqilamente, em torno de assuntos triviais,  
frente das guas mansas, to mansas que refletiam prateadas faixas do firmamento, 
a constelar-se de luz. 

A aragem soprava, aliviando a tenso do dia. Novembro seguia, clido. Aqui e 
ali, na paisagem, transeuntes encarnados e desencarnados, sem novidades que 
chamassem ateno... 

Aps o descanso, a volta. 

Pai e filha,  beira da pista asfaltada, esperavam vez, notando os carros que 
desfilavam, velozes. 

Locomovia-se Marina, pesadamente; em razo disso, reconhecido o sinal de 
passagem livre, iniciaram a travessia com vagar; no entanto, o imprevisto 
aconteceu. 

Automvel a deslocar-se de longe, com lentido, adquiriu estranho movimento, 
qual se perdesse todos os controles e, quebrando as regras do trnsito, precipitou



se sobre pai e filha, em tremenda impulso. Nogueira, rpido, disps 
simplesmente de um segundo para arredar a filha e foi arremessado a distncia, 
depois de sofrer o impacto da mquina  altura do tronco... 

Perclia, Moreira e eu, assombrados, vimos Nemsio ao volante, com a 
fisionomia de louco, mantendo o auto, qual avio em decolagem, desnorteando 
guardas e populares, que, debalde, se dispunham a segui-lo. 

Marina, em gritos, foi imediatamente escorada por senhoras que acudiram, 
emocionadas. 

Sobre-veio a agitao. Motociclistas dispararam no encalo do agressor. 
Funcionaram telefones prximos para o socorro urgente. O bolo crescia, em torno 
de Nogueira, que tombara em decbito ventral. Bradava-se contra choferes 
desalmados, contra jovens inconscientes... 

Cludio, tonto a princpio, recuperou os sentidos e virou-se com dificuldade. 
Superando a resistncia do corpo que se tornara rgido, conseguiu sentar-se, 
apoiando-se nos dois braos a se retesarem, forando as mos espalmadas no 
solo. 

A filha!... Ansiava enxerg-la, sab-la viva, salva!... O sangue pingava-lhe da 
boca, mas, sobrepondo-se  curiosidade dos circunstantes, perguntou por ela. 
Marina, firmando-se em benfeitoras annimas, arrastou-se at ele. No sofrera 
sequer um arranho; todavia, aturdira-se. 

Receava desfalecer. No entanto, fitando o genitor a dominar-se para insuflar-lhe 
segurana, cobrou foras. Cludio ensaiou um sorriso quase alegre, que o sangue 
entristecia, e rogou-lhe calma. Ferira-se um pouco. Apenas isso, explicava. 
Problema simples que a hospitalizao de algumas horas viria resolver. Afligia-se 
to-somente por ela. Ficasse boazinha, suplicou. Confiasse em Deus. Tudo terminaria 
bem. Solicitou a presena do genro, que um dos cavalheiros presentes se 
prontificou a buscar, no endereo da Glria, que ele mesmo forneceu. Intentou 
prosseguir conversando, para consolo da filha, mas notou que as energias lhe 
escapavam... 

Perclia, acomodada no cho, resguardava-o em lgrimas. Desencarnados 
amigos que procediam das vizinhanas, satisfazendo-nos o apelo, protegiam a 
gestante, dispensando-lhe auxilio. Moreira e eu diligencivamos fortific-lo, 
conjugando recursos magnticos. 

Em derredor, a balbrdia... 

O acidentado, contudo, alheou-se, em reflexo. 

Novembro... Lembrava-se de que dois anos jaziam transcorridos sobre o 
desastre no qual supunha haver Marita procurado a morte. Ela tombara perto do 
mar, ele tambm... Ambos atropelados por automvel. Contemplou o cu e recordou 
que a filha cara quando as estrelas se apagavam, ele, quando as estrelas se 
acendiam... Fixou Marina que chorava, baixinho, e verificou que as lgrimas 
represadas lhe constringiam a garganta. Queria tanto viver para aquela filha, 
aguardava com tanta ternura a criancinha por nascer!... Nisso, sentiu que se lhe 
reconstituia na mente a viso em que se reconhecera visitado por Marita, e as palavras 
da prece que formulara lhe vieram, uma a uma, ao dito da memria. 
Senhor, tu sabes que ela perdeu os sonhos de criana por minha causa... Se  
possvel, amado Jesus, permite agora que lhe d minha vida!... Senhor, deixa que 
eu oferea,  filha de minha alma, tudo o que eu tenho!... Quando esses trechos da 
orao se lhe rearticularam no pensamento, sorriu e compreendeu. Sim, considerou 
intimamente, devia regozijar-se. Acreditava que Marina e Marita ali se achavam 


juntas... juntas... Por que no dar alegremente a vida para que a filhinha 
prematuramente desencarnada, por culpa dele, viesse a refazer a existncia? por 
que no agradecer ao Senhor o bendito instante em que pudera acautelar Marina 
contra o carro homicida? No seria aquela hora, para ele, Esprito endividado, a 
maior manifestao da bondade de Deus? Impelira a filha para a morte, incriminarase 
sem que a justia da Terra lhe infligisse punies. Nas preces costumeiras, 
rogava aos amigos espirituais o ajudassem no resgate da falta cometida. Se lhe 
competia encetar o pagamento do dbito assumido, apenas no curso de existncias 
porvindouras, por que no inici-lo, mesmo ali, entre os rostos desconhecidos que 
Marita, igualmente, fora constrangida a defrontar?... 

Soberana tranqilidade se lhe instalou no esprito. 

Diante da ambulncia que chegara, pediu a prpria internao no Hospital dos 
Acidentados. 

Que o servio policial o favorecesse. Carregado por braos generosos, 
despediu-se da filha, a recomendar-lhe otimismo, serenidade. Esperasse por Gilberto 
e lhe participasse o acontecido, sem exagerar as impresses. Nada de 
alarmes. Se necessrio, pediria o concurso de algum para dar noticias ao telefone. 
Que no se apoquentasse por sustos. 

Dentro do carro, enquanto Nogueira pensava em Marita, ao viajar num carro 
igual quele, nas mesmas circunstncias, Perclia, que o aconchegava de encontro 
ao colo, se desfazia em pranto copioso. Concluindo, porm, que Moreira e eu nos 
desassossegvamos, ao v-la assim, aquela criatura, comumente silenciosa, falou, 
submissa: 

 Irmos, perdoai-me a comoo excessiva!... Cludio  meu filho... No choro 
de dor ao ver-lhe o corpo cado, mas sim de alegria por abraar-lhe o esprito 
levantado!... Choro, irmos, ao reconhecer que eu, mulher prostituda no mundo, 
hoje em servio de minha regenerao depois de provas rduas, posso aproximarme 
do filho que Deus me confiou, a fim de pedir-lhe perdo pelos maus exemplos 
que lhe dei... 
Diante daquele testemunho de humildade, Moreira e eu baixamos a fronte, 
envergonhados... 

Quem deveria ali penitenciar-se por maus exemplos seno eu? Que no teria 
padecido aquela corajosa mulher, cujos laos de parentesco terrestre com Nogueira 
eu desconhecia at ento, para expressar-se assim? Que martrios amargara na 
Terra e depois da desencarnaO para senhorear a serenidade com que se 
acusava, ela, que eu aprendera a venerar, como sendo minha prpria me, em dois 
anos de trabalho constante, invariavelmente interessada em compreender e servir? 
No podia auscultar os sentimentos de Moreira. A emotividade sufocava-me. Sei 
apenas que ele e eu, num movimento instintivo de respeitosa afeio, inclinamos as 
cabeas, ao mesmo tempo, sobre a destra maternal que afagava o ferido, 
osculando-a com reverncia... 

Mais alguns minutos de expectativa e dvamos entrada no estabelecimento que 
nos era familiar. 

O mdico que se responsabilizara, de mais perto, pela assistncia a Marita, a 
pedido de Nogueira foi chamado pelo fio. Atendeu sem delonga. 

Expedamos mensagem para irmo Flix; entretanto, no acabvamos a 
transmisso e o benfeitor, com a naturalidade de quem j sabia de tudo, surgiu 
rente a ns. 

Informou que chegara ao Rio, minutos antes, mas, no desconhecendo que 


Nemsio se mantinha relegado ao prprio infortnio, decidira-se a examin-lo, 
de imediato, para considerar que espcie de socorro seria capaz de receber. 

De minha parte, quis perguntar se Torres pai enlouquecera; entretanto, o olhar 
do instrutor, naquela hora, no encorajava indagaes. 

Ativou-se-nos o trabalho socorrista, em colaborao com a medicina terrestre. 
Apesar disso, Flix inteirou-nos de que Nogueira se achava prestes a desligar-se do 
corpo. Nenhuma providncia humana conseguiria sustar a hemorragia interna em 
efuso crescente, O mdico dedicado improvisava medidas de salvao, que 
redundavam infrutferas. 

Nogueira esmorecia. Diligenciava mentalizar a figura de Marita, reconhecer 
lugares, mas a cabea no se aprumava. Aguou-se-lhe a ateno para o 
desequilbrio e, inteligente, sondou o nimo do facultativo, perguntando-lhe se 
julgava oportuno algum chamamento aos filhos, O interpelado concordou e, pelo 
olhar profundo que lhe dirigiu, adivinhou que o fim da atividade orgnica se aproximava... 
Rememorou as noites de viglia, nas quais se agasalhava no apoio de 
Agostinho e Salomo. Reportou-se de leve a isso. Agostinho demandara o mundo 
espiritual, semanas antes, mas, se possvel, estimaria abraar o amigo de 
Copacabana... 

O mdico entendeu e comunicou-se com Gilberto e Salomo, pelo fio. Viessem 
com urgncia. 

Sensibilizando-nos, Cludio, em prece, rogava foras. Desejava apelar para o 
genro e para a filha, invocar-lhes a benevolncia para Mrcia e Nemsio... 

Flix redobrou esforos para sustar o fluxo hemorrgico, ainda que por minutos, 
e, colaborando intensamente com o mdico, obteve o que procurava. 

O ferido ganhou inesperada melhora. Raciocinava com firmeza, conseguia 
comandar-se. 

Lcido, viu quando Gilberto e Marina entraram, compungidos. Da a momentos, 
verificou a chegada de Salomo. Declarou-se reanimado e alegre, cunhando as 
palavras com a serenidade possvel. Olhou, de maneira acariciante, para a filha 
ansiosa e avisou, com um sorriso forado, que talvez fosse compelido a efetuar 
grande viagem para tratamento mais amplo. 

Marina compreendeu a significao do gracejo e caiu em choro. O genitor, no 
entanto, advertiu-a com doura. Onde a f que cultivavam? como no confiar em 
Deus que renova o Sol cada manh, para que a vida permanea triunfante? 
Tencionava falar-lhes de assunto srio... 

Marejaram-se-lhe os olhos de pranto e, com inflexo de splica, rogou-lhes 
bondade e entendimento para Nemsio e Mrcia. Desconhecia o paradeiro de um e 
outro; contudo, quando a oportunidade aparecesse, que o lar do Flamengo se mantivesse 
repleto de carinho para eles, tanto quanto fora farto de amor para ele, 
Cludio, que se aproveitava do momento para agradecer-lhes a abnegao 
incessante... Confessou que Mrcia era excelente companheira, que ele, tosomente, 
devia ser culpado pela separao... Acentuou que no detinha qualquer 
motivo para malquerer Nemsio, que o considerava um irmo, pessoa da famlia, 
com credenciais para ser acatado e compreendido em qualquer circunstncia... 

Entrementes, passou a respirar com dificuldade. 

 Mas, meu sogro  tartamudeou Gilberto, sopitando as lgrimas , como 
quer o senhor largar-nos assim?... 
Ajustando o punho ao trax, como para conter-se, aditou: 

 E seu neto? 

O agonizante esboou uma expresso quase risonha e ponderou: 

 Minha neta... 
E acrescentou, reticencioso: 
 Um esprita no aposta... Mas... se eu tiver vantagem... na teima... peo uma 
coisa. Peo... para que a menina... tenha o nome de Marita... prometam... 

Agravaram-se-lhe a palidez, o cansao. 

Desfazia-se, por fim, o efeito das foras magnticas concentradas. Nogueira 
ainda pde solicitar ao amigo uma prece, um passe... O farmacutico orou, trmulo, 
e administrou-lhe o benefcio. Logo aps, o agonizante recordou o adeus de Marita 
e teve a impresso de que algum lhe tocava os dedos. Era Perclia que o 
acariciava, maternalmente. Alongou a destra, na direo da filha, fixando nela o 
derradeiro olhar. Guiada por Flix, Marina estendeu-lhe a mo pequena que ele 
apertou, fortemente, at que, em se lhe relaxando a tenso, deu a perceber que 
repousara. 

Cludio entrou em coma, qual se dormisse, e durante quatro horas o corao 
vigoroso pulsou no tronco inerte, apesar do nosso empenho em libert-lo. 

Manhzinha, sempre assistido pelos filhos e por Salomo, que velavam 
conosco, Flix ergueu-se em prece e, com o amparo de outros amigos da Esfera 
Superior, a cujos prstimos recorrramos, afastou-o finalmente do veculo fatigado, 
depondo-lhe a cabea nos braos de Perclia, para a caminhada que nos cabia 
empreender... 

O Sol fulgia, renascente, e, contemplando-lhe os raios, coroando aquela me 
amorosa, que conchegava o filho ao colo, tive a idia de que o Pai de Infinita 
Bondade, ao v-los renovados, queria mandar busc-los da Terra para os Cus, 
num carro de ouro. 


Captulo 13 

Recolhido  organizao assistencial vinculada aos nossos servios, nas 
adjacncias do Rio, Nogueira desencarnado refazia-se. 

Flix, que no sossegou enquanto no lhe admitiu o reequilbrio perfeito, no-lo 
entregou aos cuidados, sem retornar a v-lo. 

Desperto agora, Cludio nos recebia as manifestaes de amizade e apreo, 
vexado, confundido. Momento a momento, acusava-se, denotando excessivo apego 
a complexos de culpa. 

Empregamos todos os meios justos para dissuadi-lo. 

Aproveitssemos os erros por lies, anotando-os nos cadernos do passado, 
para a consulta no ensejo prprio. Arvores alijam folhas mortas, no obstante lhes 
sirvam de adubo s razes. As Leis Divinas preceituam esquecimento do mal a fim 
de que o bem se nos incorpore  individualidade, gerando automatismos de 
elevao. Tambm ns atravessramos crises semelhantes; contudo, acabramos 
descobrindo no servio o remdio para as enfermidades do sentimento. Somos 
todos obrigados a prevenir-nos contra a agitao constante de sedimentos dos 
vcios e transgresses do pretrito, no vaso da alma, sob pena de frustrarmos as 
possibilidades do presente para melhorar o futuro, conquanto a vida nos recomende 
jamais esquecer a nossa pouqidade, visto que, conscincias endividadas que 
ainda somos, por muito tempo ainda, aonde formos, estaremos carregando no 
esprito o bagao de velhas imperfeies. Cultivasse pacincia, que ningum logra 
aperfeioar-se sem pacincia, at mesmo consigo prprio. Contava com amigos no 
Almas Irms, de onde havia descido s lides da reencarnao. Andava 
transitoriamente esquecido, sob o efeito natural das experincias a que se 
condicionara no plano fsico; entretanto, oportunamente recuperaria mais amplos 
potenciais da memria, rejubilando-se com reencontros abenoados. Referimo-nos 
ao irmo Flix, que mostrava para com ele devotamento particular, se nos fosse 
facultado descortinar inclinaes especiais naquele Esprito aberto a todos os 
apelos da fraternidade sublime. 

O companheiro reconfortava-se, esperanado. No quarto dia, aps o transe, 

comoveu-nos 
com um pedido. Reconhecia-se amparado por muitos benfeitores, porque, somente 
 custa de muitos favores  opinava humilde , pudera acordar, antes da morte, 
para as realidades da alma... Envergonhava-se, porm, de procurar-lhes imediatamente 
o convvio, que aspirava a merecer, no porvir. Se a Divina Providncia, por 
amigos to dedicados, lhe pudesse conceder novas esmolas, a ele que se 
categorizava por mendigo de luz, anelava permisso para continuar trabalhando, 
mesmo desencarnado, no seio da famlia, sem ausentar-se do Rio. Amava os filhos, 
considerava-os ainda moos e inexperientes, ambicionava converter-se para eles 
num servidor. 

Mas no era s... Duas criaturas deixara, junto das quais se reconhecia devedor, 
Nemsio e Mrcia. No pretendia largar a oficina terrestre na condio de 
insolvente. Alm de suspirar. por se redimir, diante dos credores, sonhava auxililos 
e am-los. No lhe competia devotar-se ao bem dos outros e, sobretudo,  felicidade 
daqueles dois associados do destino, praticando os ensinamentos espritascristos 
que teoricamente havia aprendido? 

Decerto, por discrio e respeito, na considerao Intima do passado, no fez 
referncias a Marita, cuja imagem se lhe retratava no espelho da mente... 


Acrescentou Nogueira que, se atendido, obedeceria lealmente aos 
programas de ao que lhe fossem traados, no cobiava outra coisa seno 
instruir-se, melhorar-se, compreender e ser til... 

A petio enternecia-nos; entretanto, no detnhamos competncia para decidir. 

Autoridades do estabelecimento que nos albergava acolheram o assunto com 
simpatia e ofereceram medida bsica  soluo do impasse. Desde que se munisse 
de aprovao, Nogueira residiria ali mesmo, apesar de se manter em atividade na 
proteo aos parentes. 

Agradecemos, felizes, e quase que na mesma hora Perclia partiu, com 
atribuies de mensageira. Advogaria a causa no Almas Irms, convicta de que 
Flix lhe emprestaria prestgio e patrocnio. 

Com efeito, no dia imediato, regressou com o requerimento referendado. 

Permitia-se a Cludio o perodo de dez anos de servio ao p dos familiares, 
antes de se elevar aos crculos imediatos da Espiritualidade para julgamento da 
existncia transcorrida, reservando-se  Casa da Providncia o direito de corrigir a 
conesso, fosse dilatando o tempo, se o interessado demonstrasse aplicao ao 
cumprimento das promessas que formulava, ou cassando a licena, na hiptese de 
se revelar indigno dela. 

O requerente, satisfeito, exultou. Estimulado pelo apoio que recebia, rogou 
colaborao para voltar ao Flamengo. SentIa-se fraco, vacilante. Pssaro implume, 
ansiando despencar-se do ninho... Mesmo assim, queria sair de si mesmo, 
trabalhar, trabalhar... 

Ajustaram-se providncias. 

Moreira, que se mantinha com funes definidas ao lado de Marina, auxili-lo-ia. 
Admirei sem palavras o mecanismo de amor da Bondade Divina. Aquele que lhe 
fora assessor no desequilbrio, ser-lhe-ia, e muito compreensivelmente, o arrimo nas 
tarefas do reajuste. 

Seis dias sobre o acidente que levara Nogueira  desencarnao. Amanhecia, 
quando pisamos nas areias do Flamengo, reconduzindo-o ao lar. 

Certificamo-los de que o amigo se reiniciava confiante. De propsito, 
atravessamos com ele a pista de asfalto, no stio em que tombara; no entanto, no 
fez o mnimo apontamento, com relao ao desastre. Apoiando-se em Perclia, junto 
de mim, penetrou em casa, acolhido por Moreira que nos precedera, cauteloso. 
Demandou o aposento em que se instalara, observando que os filhos conservavamno 
intacto. Sentou-se no leito a refletir. 

O despertador anunciou as seis horas, quando Marina se ergueu. Isolou-se no 
banheiro por instantes, preparou-se e, antes de se entender com Dona Justa, sobre 

o lanche matinal do marido, penetrou no recinto em que nos achvamos e, em 
pensamento, dirigiu-se a Jesus, rogando-lhe abenoasse o genitor desencarnado, 
onde estivesse. Enlevados, ouvimo-la, palavra a palavra, no clima dos pensamentos 
harmnicos em que nos entrelavamos, conquanto a jovem senhora exorasse o 
amparo do Senhor em silncio. 
Levantou-se Cludio, abeirou-se dela. Ao toc-la, fremente de jbilo, percebeu 
que a filha trazia no corpo e na alma a doce presena de Marita nascitura... Deu um 
passo  retaguarda, parecendo-nos receoso. Temia conspurcar a excelsitude do 
quadro sublime que o defrontava. 

Figurou-se-lhe Marina uma planta luminosa, modelada na carne, encerrando 
uma flor quase a desabrochar. 
A idia de Cludio relampeOu na orao. Suplicava a Deus no lhe permitisse 


alar caprichos acima de obrigaes... Em seguida, reaproximou-se dela, 
abraou-a brandamente e apelou: 

 Minha filha!... Minha filha!... que  feito de Nemsio? Procuremos Nemsio!  
preciso ampar-lo!... Ampar-lo!... 
A moa, expectante, no assinalou a advertncia com os sentidos fsicos, mas, 
sem que pudesse explicar a si mesma a razo disso, rememorou a solicitao 
paterna de ltima hora... 

Nemsio, sim...  concluiu mentalmente. Ela e o esposo tinham recebido 
notcias ao telefone, principalmente da parte de Olmpia. O mdico da famlia 
procurara Gilberto no banco. As informaes eram alarmantes; entretanto, 
hesitavam... Ela, sobretudo, angustiava-se ao imaginar-se no reencontro. 
Comentava-se, porm, que o sogro jazia enfermo, em estado grave... Rearticulou, 
na memria, a rogativa de Cludio, ao partir, e decidiu-se em esprito. Olvidaria o 
passado e ajudaria o doente no que lhe fosse possvel. Inclinaria Gilberto  
reconciliao. No adiariam por mais tempo a visita. 

Os compromissos caseiros, no entanto, povovam-lhe a mente e afastou-se, 
conservando, todavia, na forma de inteno consolidada, o pedido que Nogueira lhe 
insuflara. 

Ao caf, sugeriu ao esposo as primeiras medidas atinentes ao caso. Cludio 
que observava, atento, entrou, direto, em servio. Alimentou as disposies 
favorveis do casal. Que no recuassem. Atendessem. Nemsio era tambm pai. 
Marina propunha, Gilberto ponderava. Por fim, o marido concordou. Telefonaria do 
banco, sondando o mdico. Se a doena fosse mesmo grave, embora os constrangimentos 
da companheira, na gravidez avanada, tomariam txi  noite, para 
v-lo. 

Deixando Perclia, Cludio e Moreira entregues  atividade, busquei a vivenda 
dos Torres, no encalo de Nemsio, que eu no mais vira, desde o trgico instante 
do carro em disparada. 

Entrei. 

Silncio vazio nas peas principais. 

Espantado, procurei-lhe o quarto, o quarto espaoso em que lhe conhecera a 
esposa doente. 

Junto dele, hemiplgico e afsico no leito, apenas Amaro, o fiel amigo espiritual 
que velara por Dona Beatriz. 

Mobilizei compreenso e resistncia para no sensibilizar-me em demasia, 
prejudicando, ao invs de auxiliar. 

Perplexo, ouvi do enfermeiro o resumo da tragdia em que se envolvera aquele 
homem, dantes to bajulado e to rico. 

Cedendo  paixo que lhe empolgava os sentidos e excitado pelos obsessores 
que o abandonaram to logo lhe viram o corpo arruinado e intil, Torres pai se 
decidira a exterminar Marina e suicidar-se em seguida. Ao praticar o crime, porm, 
verificou que atropelara Nogueira e no a filha, entrando em desespero e esse 
desespero lhe cresceu tanto no esprito que o corpo doente no resistira. Sobreviera 

o derrame. Ele, Amaro, avisado por amigos, fora encontr-lo semiparaltico e sem 
fala, no automvel, parado longe do local em que se desenrolara o delito. 
Parecia prestes a desencarnar, mas Flix aparecera de improviso e requisitara 

o apoio de todos os rgos espirituais de assistncia, situados nas imediaes, 
acumulando fatores de interveno em favor dele. Orara, suplicando aos Poderes 
Divinos no lhe permitissem a sada do plano fsico sem aproveitar o benefcio da 

enfermidade no veculo carnal, que se desarranjara sem probabilidades de 
conserto. O diretor do Almas Irms advogara para ele as vantagens da dor, que 
reputava santas, e o processo desencarnatrio tinha sido imediatamente sustado. 
Quem era ele, Amaro, para censurar as decises do irmo Flix  alegava o amigo, 
confidencioso ; no entanto, indagava a si mesmo se valia continuar um homem 
ativo e inteligente, qual Nemsio, atado a um corpo desajustado assim... Desde a 
intercesso de Flix, o velho Torres era aquilo que eu via, um farrapo de gente, 
largado  cama A casa fora devassada pelos credores e empregados desonestos 
haviam fugido carregando copioso fruto de saque. BaixeIas, pratarias, cristais, 
porcelanas, roupas, telas, pequenos tesouros dos ascendentes das famlias Neves 
e Torres e at mesmo o piano e as jias de Dona Beatriz jaziam perdidos na 
voragem. Apenas Olimpia, antiga companheira, vinha at ali duas vezes por dia, a 
fim de prestar ligeira assistncia ao enfermo, que, embora perfeitamente lcido, no 
conseguia articular palavra, em vista das alteraes nos centros nervosos. E isso 
tudo  rematava o informante, desencantado  h menos de uma semana... 

Condodo, ali aguardei a noite. 

Vi quando Gilberto e Marina atravessaram o vestbulo, seguidos de Percilia, 
Moreira e Cludio, tomados de surpresa dolorosa. 

Imaginando-se sozinhos, o jovem bancrio e a esposa no conseguiam dominar 
as exclamaes de assombro, at que  frente do leito, cuja solido o lustre ferico 
parecia exagerar, se prosternaram em lgrimas. Nemsio reconheceu-os. Debalde 
intentou soerguer a carcaa dorida. Quis falar, mas no pde, apesar do supremo 
esforo despenddo. 

 Pois  o senhor que encontramos assim, papai?  arfou Gilberto em 
desconsolo. 
Cabea trmula, o interpelado apenas engrolava: 

 Ah, ah, ah, ah, ah!... 
Para os dois circunstantes, a terrvel confisso paterna era simplesmente longa 
srie de interjeies sem sentido. 
Vimos ento que Nogueira avanava realmente para o bem que se 
comprometera a dignificar. 
Somente naquela hora vinha a saber quem fora o autor do atentado que lhe 
impusera a morte... Longe, porm, de pedir-nos orientaes ou conselhos, recordou, 
instintivamente, outra noite, alm daquela em que perdera a existncia... A noite na 
penso de Crescina, cujas sombras lhe haviam acobertado os ultrajes  filha, 
compelindo-a ao desastre fatal... Viu Marina, ajoelhada, e, obedecendo aos ditames 
da prpria alma, caiu genuflexo, abraando-se a ela e, qual se ocupasse o ntimo da 
jovem senhora, atenazada de sofrimento moral, f-la buscar a destra de Nemsio 
para beij-la com a reverncia que os filhos devem aos pais. 

O enfermo, tocado no corao por semelhante gesto de respeitosa ternura, 
tartameleava sons ininteligveis, implorando mentalmente:  (Perdo!... perdo!.. 
Cludio, testemunhando corajosa humildade, levantou-se, de sbito, e, 
erguendo os olhos para o alto, clamou em pranto: 

 Deus de Imensa Bondade, perdo para mim tambm!... 
Naquela mesma noite, uma ambulncia atendia  hospitalizao de Nemsio 
que, aps alguns dias de tratamento, sempre custodiado pelos filhos, subia, em 
cadeira de rodas, no prdio do Flamengo, onde passou a habitar, mudo e inerme, 
sob os desvelos da nora e incessantemente amparado por Nogueira, no aposento 
que pertencera quele que perseguira por rival e que se lhe erigia agora por 


denodado guardio. 

Os xitos morais de Cludio, comentados com admirao por alguns amigos no 
Almas Irms, estabeleceram para o irmo Flix um problema grave, embora sem 
qualquer importncia na feio exterior. Dona Beatriz, ciente de que o genitor de 
Marina, j desencarnado, obtivera licena para se demorar ao p dos familiares em 
misso de auxilio, queria tambm, pelo menos, rever o esposo e o filho. Cientificarase, 
de maneira superficial, quanto aos acontecimentos desagradveis em que se 
envolviam os entes queridos. Muito longe, porm, de abranger-lhes toda a extenso, 
alegava essa circunstncia para reforar o propsito. Pea viva na engrenagem 
domstica, no devia alhear-se, argumentava. Se Marina desposara Gilberto, 
aceitava-a por filha, e se os pais mantinham contendas, que no conhecia em todos 
os pormenores, nada mais justo que partilhar as dificuldades, oferecendo mediao. 

Estabelecida a pretenso, negou-se Flix a atender. 

Dona Beatriz recorreu a Neves, mobilizou a afeio de Sara e Priscila e voltou  
carga; entretanto, o diretor se conservou irredutvel. Neves, porm, que no se 
curara, de todo, da impulsividade, destacava o carter aparentemente razovel do 
pedido, e colocou tantas relaes e tantos empenhos no assunto, que o instrutor 
no encontrou outra alternativa seno aderir. 

Conquanto preocupado, determinou providncias para que se efetuasse a 
excurso. Instado a prestigiar Dona Beatriz com a sua presena, escusou-se, 
delicado, conferindo, quele que lhe fora genitor, ampla liberdade de ao e tempo. 
Particularmente, todavia, recomendou-me fizesse companhia aos dois viajantes, pai 
e filha. Que eu cooperasse com Neves na soluo de qualquer emergncia. 
Pressentia obstculos, receava riscos. 
Dona Beatriz, entusiasmada na contemplao do Rio, embora soubesse que 
Nemsio passara a residir com o filho, no apenas ansiava por abra-lo, como 
tambm suspirava reavistar a antiga moradia. Queria sorver o perfume da felicidade 
que tivera, exclamava, contente. E o pai, satisfeito, incentivava-lhe todos os 
programas. Acompanhando a dupla, no me permitia opor embargos. 

Demandei o Flamengo, ouvindo a senhora Torres e admirando as reservas de 
sensibilidade e meiguice que lhe vibravam na alma de escol. Exteriorizava o jbilo 
de ave recm-liberta. Entretanto, logo aps recebidos por Moreira e Cludio, ao 
divisar o marido desfigurado na postura dos paralticos, empalideceu, debruandose 
na cadeira de rodas que o albergava. Enleou-se a ele, que lhe no assinalava as 
carcias, a criv-lo de perguntas lastimosas... Por que mudara tanto em dois anos 
apenas? que lhe acontecera para se relegar a semelhante runa fsica? que fizera? 
por que? por qu?... 

Escutando to-somente o rudo de Marina e Dona Justa, nas atividades 
rotineiras, experimentava-se Nemsio tocado de fundas reminiscncias... No 
conseguia explicar a si mesmo a razo das idias que lhe borbulhavam da cabea, 
mas pensava em Beatriz. Reconstituia-lhe a imagem no imo do ser. A esposa!... Ah! 

 refletia o doente, em cujo esprito a afasia requintara a vida interior  se os 
mortos pudessem amparar os vivos, segundo a crena de tantos, certamente que a 
velha companheira se compadeceria dele, estendendo-lhe as mos!... 
Rememorava-lhe a compreenso silenciosa, a dignidade irrepreensvel, a bondade, 
a tolerncia!... 
Ignorando que respondia, mecanicamente, s inquiries da esposa, amarrotada 
de angstia, ali colada a ele, revisou todos os acontecimentos posteriores  
desencarnao dela, como que a lhe prestar severas contas. Gilberto, Marina, 


Mrcia e Cludio eram os protagonistas principais daquelas cenas que a 
memria perfeitamente lcida lhe traava nos painis relampagueantes da aura, 
exibindo para a companheira e para ns outros, qual num filme pujante, a verdade 
toda, at o instante em que se precipitara no crime. Se Beatriz estivesse no mundo 

 conclua . estaria isento de aflies e tentaes. Junto dela, teria recolhido 
defesa, orientao. Profundas saudades lhe acicatavam a alma... Recompunha na 
imaginao os sonhos da juventude, o casamento, os projetos de ventura concentrados 
em Gilberto pequenino... Movimentou dificilmente a mo esquerda para 
enxugar o pranto que lhe encharcava o rosto, sem saber que a esposa o auxiliava, 
soluando... 
Neves, apreensivo, tentou soerguer a filha que se estirara no pavimento,  
maneira de me torturada, incapaz de alijar do peito um filho semimorto. Em vo 
pronuncIou palavras de encorajamento, exortaes  pacincia, conceitos 
evanglicos, promessas de futuro melhor... A filha magoada respondeu que amava 
Nemsio, que preferia ser amarrada num catre, ao lado dele, a separar-se de novo. 
Agradecia o devotamento de que andara cercada no Almas Irms; entretanto, 
pedia vnia para considerar que o esposo sofria. Como descansar, lembrando-lhe 
os suplcios? Jesus tambm  ponderava chorosa , carregara a cruz por amor 
Humanidade... 

Como fugir de suportar diminutas contrariedades na Terra, amenizando o 
martrio do homem a quem adorava? A doutrina crist ensinara-lhe que Deus  um 
pai compassivo e um pai compassivo no aprovaria ingratido e abandono. 

O genitor, que no contava com a imprevista resistncia, disse-me  socapa 
que Torres pai nada fizera para merecer semelhante abnegao e inclinava-se ao 
estouro, mas sugeri-lhe calma. 

Censuras agravariam a situao sem proveito. 

Interferi. 

Salientei para a senhora Torres que o filho se preparava a dar-lhe uma neta, 
que a conformidade da parte dela, no tocante s provaes do marido, ser-nos-ia 
uma bno. 

Acatando-me a solicitao, ergueu-se, contrafeita, acompanhou-nos at Marina, 
cuja histria real na famlia passara a conhecer pelas memorizaes do enfermo... 
Alma generosa, porm, compreendeu as ligaes havidas e, fitando Cludio, que 
lhe perdoara ao esposo tantas injrias, beijou-lhe a filha com enternecimento de 
me. Abraou Dona Justa, com simpatia, e, em seguida, retornou em nossa 
companhia ao quarto de Nemsio, onde nos compartilhou a orao e o trabalho de 
socorro magntico. Pareceu reconfortar-se, sobremodo, quando viu Gilberto em 
casa para o jantar, encantando-se ao notar que o filho buscara o doente para a refeio, 
aps afagar-lhe a testa, acompanhando o gesto afetuoso com expresses de 
bom nimo e carinho; entretanto, quando Neves falou em regressar, a devotada 
mulher enrodilhou-se ao marido e, desligada por ns, quase  fora, revelava sinais 
de alienao comeante. 

Beatriz desceu do prdio abatida, muda. No intuito louvvel de reaquecer-lhe o 
corao, Neves, que conhecia somente por alto a bancarrota comercial do genro, 
prope se lhe realizasse naquela hora o desejo de uma visita, ainda que rpida, 
antiga moradia. A filha, agora aptica, no contestou. Obedeceu, 
automaticamente. 

A noite cara de todo, quando abordamos a vivenda que se reduzira a um 
casaro s escuras. 


A Lua plena assemelhava-se a uma lmpada enorme que estivesse 
conscientemente recolhida a distncia, envergonhada de apresentar  dona do palacete 
uma viso assim funesta. 

O genitor, arrependido da instigao infeliz, diligenciou recuar, mas no pde... 

Dolorosamente magnetizada pelas prprias recordaes, Beatriz avanou 
apressada,  procura dos tesouros domsticos; todavia, no encontrou, nos 
lgubres recintos, seno poeira e sombra do osis familiar que construra... Alm de 
tudo, o elegante domicilio, condenado a leilo, transformara-se em valhacouto de 
malfeitores desencarnados, aos quais se reconhecia absolutamente sem foras 
para expulsar... A desesperada criatura correu de pea em pea, de susto em susto, 
de grito em grito, at que se rojou de borco, nos tacos da espaosa cmara que lhe 
merecia a preferncia, pronunciando frases desconexas... 

Beatriz enlouquecera. 

Postei-me de vigia, asserenando-a, enquanto Neves, desolado, recorria aos 
servios de amparo urgente, ligados ao Almas Irms, em local no distante. 

O auxilio no tardou. 

No dia seguinte, enfermeiras especializadas colaboraram conosco, por 
determinao de Flix; mas, somente depois de quatro dias sobre o incidente, 
logramos reentrar no instituto, reconduzindo-a, dementada. 

Duas semanas de trabalho vigoroso e ateno constante se esvaram, 
infrutiferamente, no lar de Flix, at que um dos orientadores da equipe mdica 
recomendou a internao da enferma em hospital adequado, a fim de que se lhe 
apllcasse a sonoterapia, com algum exerccio de narco-anlise, para que se lhe 
exumassem as recordaes possveis da existncia anterior, com a cautela devida, 
de modo a que se no precipitasse em mergulhos de memria, alusivos a perodos 
precedentes. 

O parecer foi acatado. 

Flix convidou-nos, a Neves e a mim, comparecer, junto dele e do irmo Rgis, 
no gabinete em que se efetuaria a pesquisa. 

No momento indicado, ao p de Beatriz, que dormia num leito, cujo travesseiro 
se achava munido de recursos eletromagnticos especiais, permanecamos, Flix, o 
irmo Rgis, o distinguido psiquiatra que aventara a medida, acompanhado de dois 
assistentes, o chefe de arquivo do Almas Irms, Neves e eu, ao todo, oito 
companheiros observando a paciente, sendo foroso explicar que as autoridades ali 
reunidas dispunham de aperfeioado sistema de comunicao, para consulta rpida 
s reparties a que se mantinham vinculadas. 

Flix circunspecto, Neves sob nervosismo, os mdicos diligentes e ns outros 
em expectao... 

Iniciada a experincia, Beatriz, denotando voz e maneiras diversas das que lhe 
eram habituais, revelou-se num ponto indeterminado de existncia anterior, 
reclamando contra uma certa Brites Castanheira, mulher  qual imputava os 
infortnios que lhe devastavam a alma... Pelas consideraes amargas, via-se que 

o analista esbarrara com expressivo foco de exacerbao, facultando-lhe fcil 
penetrao nos domnios recnditos da mente. Prevalecendo-se disso, o mdico 
indagou onde conhecera Brites, em que poca e em que circunstncias. Beatriz, 
sempre em sono provocado, replicou que para isso precisaria lembrar a juventude e, 
devidamente estimulada, elucidou que nascera no Rio, em 1792, e se chamava 
Leonor da Fonseca Teles, nome que lhe adviera do homem com quem se 
consorciara em segundas npcias. Informou haver nascido na rua de Matacavalos, 

numa casa singela em que vivera descuidosa meninice. Em 1810, porm, 
modificara-se-lhe o destino. Desposara um rapaz portugus, de nome Domingos de 
Aguiar e Silva, que se demorava no Brasil, em servio do Duque de Cadaval, na 
Corte de D. Joo VI. Dessa unio tivera um filhinho, que recebera o nome de lvaro, 
em 1812. O marido, no entanto, falecera prematuramente no Caminho do Boqueiro 
da Glria, quando se responsabilizava pela conduo de alguns potros bravos, 
adquiridos para as cocheiras reais. Referiu-se com gratido s manifestaes de 
estima com que se vira brindada por personalidades influentes da poca e s 
promessas articuladas em favor do pequenino que ficara rfo. Viva aos vinte e 
dois de idade, foi reqestada por rico ourives, que montara estabelecimento na rua 
Direita, Justiniano da Fonseca Teles, moo mais velho que ela apenas trs anos, 
cuja proposta de casamento aceitou. Alegrara-se por verificar enteado e padrasto 
em abenoada camaradagem. 

lvaro cresceu afetuoso e inteligente e, como no possuia rebentos do segundo 
matrimnio, a criana se levantara entre ela e o esposo por lao de luz e amor. 
Ainda assim, aos quinze de idade, em 1827, o menino embarcara no rumo da 
Europa, sob o patrocnio de fidalgos amigos do pai, tendo realizado estudos 
brilhantes em Lisboa e Paris... 

A magnetizada narrava sucessos da poca, exteriorizando impresses, acerca 
de pessoas, coisas, realizaes e ocorrncias, qual se trouxesse a imaginao 
recheada de crnicas vivas. 

Confidenciou que o filho regressara em 1834. Para ela e Justiniano, a casa 
transformara-se, de novo, num mar de rosas, at que certa noite... 

Diante das reticncias, o irmo Flix, visivelmente comovido, solicitou que o 
servio de anlise se detivesse nas possveis recordaes da noite mencionada. 

O orientador da pesquisa atendeu. 

Beatriz franziu a testa, patenteando o sofrimento de quem esbarrava com uma 
ferida no prprio corpo, sem meios de extirp-la, e respondeu, descontente: 

 Devo explicar que Brites era casada com Teodoro Castanheira, rico 
negociante que morava na rua da Valinha. Ambos moos, com uma filha nica, 
Virgnia, pequenota de onze anos... 
Embora eu tivesse ultrapassado os quarenta, junto de Brites que ainda no 
alcanara os trinta, queriamo-nos intensamente, enquanto que nossos maridos nos 
copiavam a afeio, com a mesma diferena de idade... Eles unidos pelos negcios 
e ns pelos sonhos caseiros... 

E continuou: 

 Na noite que comecei a mencionar, meu esposo e eu apresentvamos 
lvaro  sociedade, num sarau do Comendador Joo Batista Moreira, na Pedreira 
da Glria... Senti horrveis pressentimentos quando lvaro e Brites se cumprimentaram, 
parando extticos, de olhos um no outro, para ouvir as sonatinas... Debalde 
inventei motivos para retirar-nos cedo... Voltamos tarde com o rapaz, devaneando. 
Supunha impossvel que ela fosse casada e me de uma filha... Parecera-lhe 
simples menina de salo na graa de que se enfeitava. Fiz quanto pude para evitar 
o desastre, mas o destino... Ambos tomados de paixo recproca, iniciaram-se em 
passeios... Voltas pelo Mangrulho e brincadeiras na praia de Botafogo, excurses 
de calea para a Fazenda do Capo, passeios para l da Muda da Tijuca... Isso 
tudo acontecia pacificamente, at que Teodoro os descobriu juntos num quarto do 
Hotel Pharoux. Escandalizado, o marido desinteressou-se da mulher, embora no 
se retirasse do lar por amor  filha... Mas, mesmo nessa posio, cortejou a menina 

Mariana de Castro, a que chamvamos Naninha, jovem de bons costumes, que 
residia com os pais na rua do Cano... Brites, longe de se magoar, at mesmo 
facilitou quanto pde a ligao, para ver-se livre... Naninha acabou cedendo s 
escondidas, mas enjeitou dois filhos do comerciante nas portas da Misericrdia, 
como  do conhecimento pblico... 

A senhora Torres entrou em crise de lgrimas e seguiu contando que o filho, 
depois de quatro anos, se enfadou de Brites e s ento comunicou  famlia que 
deixara uma prometida em Lisboa... 

Suspirava por voltar, mas receava que a amante se despenhasse no suicdio. 
Depois de muitas negaas em vo para retirar-se, arquitetou um plano 
maquiavlico, de que resultara para ela, me amorosa, a infelicidade irremedivel. 
Percebendo, a pouco e pouco, a fraqueza de Brites pelas jias, insinuou ao 
padrasto que ela ansiava possuir-lhe a dedicao, fantasiando recados e amando 
embustes. Justiniano, vencido pelas sugestes do enteado, ps-se em ao, 
conseguindo impressionar Entes com presentes raros, at que no primeiro encontro, 
forjado pelo prprio lvaro, interferiu ele na cena, assumindo o papel de 
companheiro ultrajado, afastando-se, enfim, para Portugal, deixando vrias tragdias 
em andamento. 

O golpe infundira na senhora Castanheira uma nova personalidade. Converterase 
em pavorosa mulher, calculista, cruel. Nunca mais se lhe vira um gesto de 
piedade. Metamorfoseara Justiniano num homem de sexualidade pervertida, 
extorquindo-lhe dinheiro e mais dinheiro, at ao ponto de entregar-lhe a prpria filha, 
Virgnia, que atravessara os quinze de idade, vendendo-a ao amante, homem j 
velho, para senhorear terras e haveres. Ainda assim, no contente com os prprios 
desvarios, desencaminhava moas de nobre formao, atirando-as no prostbulo, 
estimulava infidelidades, vcios, crimes, abortos... 

Virgnia, com quem Justiniano passara a viver, em definitivo, abandonando a 
esposa, transfigurara-se em pomo de discrdia entre o senhor de Fonseca Teles e 
Teodoro Castanheira, que se atormentaram mutuamente em onze anos de conflitos 
inteis, at que o marido de Dona Brites, ento vivendo maritalmente com Naninha 
de Castro, desde muito, aparecera morto a punhaladas, na rua da Cadeia, 
atribuindo-se o homicdio a escravos foragidos. Naninha, porm, no ignorava que 
Justiniano fora o mandante e tramou desforo. Uniu-se a outro homem, em cujo 
esprito insuflou despeito e dio contra o ourives da rua Direita, e os dois, ento 
morando num recanto da praia de Botafogo, planejaram assassin-lo num suposto 
acidente. Justiniano, j idoso e enfermo, adquirira o hbito da visita domingueira  
Bica da Rainha, no Cosme Velho. Quando regressava de uma dessas jornadas, 
noitinha, guiando o carrocim em que se fazia conduzir, Naninha e o companheiro, 
ocultos na sombra, crivaram o cavalo de pedras revestidas de farpas, depois de 
escolherem local que favorecesse o desastre... O animal desembestado arrojou-se 
ladeira abaixo, rebentando freios e arremessando o velho do cimo de um barranco 
sobre um monte de lajes que se empilhavam em baixo, onde Justiniano encontrara 
a morte, quase que instantnea. 

E Dona Beatriz rematou, lacrimosa: 

 Ah! meu Deus, tudo por nada, porque lvaro, de retorno a Portugal, achou a 
prometida casada com outro, por imposio dos pais, regressando, mais tarde, ao 
Brasil, onde acabou na condio de professor solteiro... Ah! meu filho, meu filho!... 
Por que te fizeste o autor de tantas calamidades?... 
Nesse tpico das revelaes, o irmo Flix solicitou dos cientistas um intervalo 


para explicaes, antes de se retirar. 

A doente foi restituda ao sono e o instrutor pediu ao chefe do Arquivo a certido 
da sada de Beatriz, j que se ausentara dali mesmo, quase cinqenta anos antes, 
para a reencarnao no Rio. 

O interpelado, atento ao caso em exame, trouxera consigo a ficha de Dona 
Beatriz Neves Torres. 

Sim, precedendo-lhe o nome atual, aparecia o de Leonor da Fonseca Teles, que 
desencarnara no Rio, estivera, por algum tempo, em regies inferiores, morara por 
vinte e oito anos em colnia espiritual de reeducao no distante, e passara 
apenas dois meses no Almas Irms, em 1906, por solicitao do prprio irmo 
Flix, que lhe patrocinara o renascimento no lar de Pedro Neves, ali presente. 

Flix, porm, rogou as informaes possveis, acerca de personalidades 
referidas por Beatriz, que estivessem vinculadas ao Instituto. 

Aparelhos funcionaram e o Arquivo respondeu com presteza. Justiniano da 
Fonseca Teles, Teodoro Castanheira, Virgnia Castanheira e Naninha de Castro 
estavam reencarnados no Rio. Todos com certido de sada do Almas Irms. 
Justiniano era Nemsio Torres, negociante, com dbitos agravados; Teodoro 
Castanheira apresentava-se com o nome de Cludio Nogueira, j desencarnado, 
mas ainda em servio na Terra, com melhoras sensveis; Virgnia Castanheira 
respondia agora por Marina Nogueira Torres, com ndices promissores de reforma 
ntima; Naninha de Castro fora Marita Nogueira, que estivera recentemente 
desencarnada num dos parques de repouso da organizao, e que se achava em 
processo de novo renascimento no plano fsico, por pedido expresso do prprio 
diretor do Instituto, enquanto que Brites Castanheira envergava na Terra o nome de 
Mrcia Nogueira, cuja ficha era desoladora. O registro dessa mulher somava longa 
srie de abortos e deseres do dever, alm de vrios compromissos indiretos em 
lares destruidos e existncias sacrificadas. Anotaes das piores nas piores 
anotaes da instituio. 

Um dos mdicos presentes, talvez empolgado com o depoimento de Beatriz, 
indagou por notcias de lvaro. O Arquivo elucidou que Alvaro de Aguiar e Silva no 
possua atestado de sada para a reencarnao pelo Almas Irms. Achava-se 
apenas cadastrado no departamento de queixas. Leonor, que lhe fora me carnal, 
Justiniano, o padrasto, e a prpria Brites Castanheira, antes do regresso a novas 
lides terrenas, haviam inscrito se-veras acusaes contra ele, embora os dois 
ltimos tivessem estado, apenas de modo ligeiro, no Instituto, ao sarem de colnia 
penal. 

O irmo Flix perguntou se constava dos apontamentos de Mrcia algum gesto 
nobre, por onde se ensaiasse eficiente auxilio a ela. Constava, sim, aclarou a 
repartio competente. Um dia, empenhara-se, com os melhores impulsos 
maternais, a garantir casamento digno  filha enferma. 

O instrutor, ento, conjugando dignidade e modstia, levantou-se, e, arrasandonos 
com a valorosa humildade de que dava testemunho, participou-nos que lvaro 
de Aguiar e Silva e ele eram a mesma pessoa, o mesmo Esprito, que ali se erguia 
diante de Deus e diante de ns, num julgamento em que a conscincia lhe exigia 
implorar, voluntariamente, a reencarnao, a fim de se colocar ao encontro de 
Brites, ento na personalidade da viva Nogueira... Esforar-se-ia na regenerao 
de si mesmo e dar-lhe-ia a existncia, j que se reconhecia o verdugo, 
categorizando-a por vtima. 

Um raio no nos fulminaria com tanta fora. 


Os mdicos jaziam cabisbaixos, o irmo Rgis tinha lgrimas, Neves 
empalidecera e eu mal conseguia respirar... 

Corajoso, Flix continuou elucidando que a Misericrdia Divina,  medida que o 
Esprito se esclarece, entrega ao tribunal da conscincia o dever de se corrigir e de 
se harmonizar com as leis do Eterno Equilbrio, sem necessidade do apelo a disposies 
compulsrias, e que, em razo disso, daquela hora em diante tornaria 
pblica a deciso de se recolher aos trabalhos preparatrios do renascimento na 
arena fsica. 

Confessou que a delinqncia sexual gerara para ele responsabilidades 
semelhantes s de um malfeitor que dilapidasse um edifcio ou uma cidade, atravs 
de exploses em cadeia. Lesando os sentimentos de Brites Castanheira, mulher 
respeitvel at  ocasio em que lhe transtornara o corao e o crebro, 
identificava-se, diante dos princpios de causa e efeito, culpado, at certo ponto, por 
todos os delitos de natureza emotiva por ela cometidos, de vez que aps abandonla, 
impelindo-a deliberadamente  deslealdade e  aventura, podia compar-la a 
uma bomba, por ele preparada na direo de quantos a pobre criatura prejudicara, 
como querendo vingar no prximo o duro revs que lhe infligira. 

Rogava-nos, ele, a quem devamos tanta felicidade, apoio fraterno para que se 
lhe conseguisse um lugar de filho no lar de Gilberto, assim que Marina restaurasse o 
claustro materno, aps o renascimento de Marita. Idealizara encontrar-se com 
Mrcia, na ternura de um neto... Ser-lhe-ia o companheiro nos tempos ridos da 
velhice corprea, recolher-lhe-ia o amor puro, sofreriam juntos, dar-lhe-ia o corao. 
No lhe competia a indiferena, persuadido qual se achava de que a Infinita Bondade 
de Deus poderia conceder  viva de Cludio um valoroso resto de tempo na 
estncia fsica... Se o Senhor lhe facultasse o favor que impetrava, que o 
auxilissemos a ser fiel nos compromissos, desde o raciocnio infantil; que o 
amparssemos nos dias de tentaes e fraquezas, que lhe perdossemos as 
rebeldias e as faltas, e que, por amor confiana que ali nos congregava, no lhe 
patrocinssemos, em tempo algum, qualquer mergulho em facilidades nocivas, a 
ttulo de amizade... 

Austero e doce, dirigiu-se particularmente ao irmo Rgis, inteirando-o de que 
ambas as irms, Priscila e Sara, se achavam em preparativos para o retorno  
Terra, que partiriam antes dele, que contava com a possibilidade de se retirar da 
direo do Instituto, dentro de aproximadamente seis meses, a fim de aprontar-se, e 
que no anelava outra coisa que no fosse a experincia e a felicidade do 
companheiro  frente da organizao. 

Nenhum de ns, contudo, dispunha de energias para largar o silncio. Os 
mdicos requisitaram substitutos que assegurassem o descanso de Beatriz; Rgis, 
mudo, afastou-se dando o brao ao chefe do Arquivo; Neves abeirou-se da filha 
inerte, dando a idia de quem ansiava esconder-se para meditar na lio. Vi-me s 
diante do instrutor. Alando para ele os olhos, como na primeira vez que o fitara, na 
residncia de Nemsio, procurei recompor-me, ao fixar-lhe o rosto imperturbvel. 
Era o mesmo homem que eu no saberia dizer se amava como sendo meu pai ou 
meu irmo. Ele me percebeu o estado de alma e abraou-me. Atravs daquele olhar 
firme e percuciente, compreendi que no me desejava sensibilizado, e tentei reequilibrar-
me. Apesar disso, incapaz de controle total, pus a cabea, que a emoo 
desgovernava, naquele ombro que me habituara a venerar, mas, antes que eu 
chorasse, senti-lhe a destra a me afagar, de leve, os cabelos, ao mesmo tempo que 
me perguntava pela aula de fluidoterapia, de que no me seria lcito ausentar. 


Samos juntos. 

L fora, ao v-lo caminhar erecto e calmo, tive a impresso de que o Sol 
rutilando nos cus era uma advertncia da Sabedoria Divina a que sustentssemos 
lealdade na marcha constante para a Luz. 


Captulo 14 

Obtendo a dilao de prazo para mais amplos estudos no Almas Irms, 
acompanhei o irmo Flix at que se retirasse da chefia para entregar-se  
preparao das novas tarefas. 

O instrutor escolhera a Casa da Providncia para se despedir da comunidade. 

Na data prefixada, desde cedo, as portas do edifcio jaziam abertas para 
quantos quisessem dizer adeus ao querido orientador, que todos os residentes no 
Instituto consideravam heri. 

Ministros da cidade, admiradores situados em lugares vizinhos, comisses de 
vrios rgos de servio, todas as autoridades da organizao, amigos, discpulos, 
beneficirios e companheiros outros, que procediam de longe, ali se reuniam, 
irmanados numa s vibrao de agradecimento e de amor. 

Informara-se Rgis de que o chefe estimaria rever os doentes nas ltimas horas 
de ao administrativa, mas, convencido de que no conseguiria ele satisfazer a 
esse propsito, por escassez de tempo, recomendou-nos selecionar, nos setores de 
irmos hospitalizados, aqueles que se evidenciassem capazes de comparecer  
transmisso de poderes, sem dano para as atividades em pauta. 

Alinhamos, para logo, duzentos que no criariam problemas e, aspirando a 
salientar a dedicao incessante de Flix para com os menos felizes, determinou 
Rgis fossem acomodados na primeira fila do auditrio, como homenagem 
silenciosa quele que os amava tanto... Destacavam-se, quase todos eles 
enfraquecidos e trmulos, simbolizando vanguarda de saudade e sofrimento na 
assemblia, portando ramalhetes nas mos... Contemplava-os, enternecido, quando 
Flix chegou, por fim, denotando a firmeza e a serenidade que lhe marcavam as 
atitudes. Instalou-se, tranqilo, entre o Ministro da Regenerao, que representava 

o Governador, e o irmo Rgis, que o substituiria; contudo, ao relancear os olhos 
pelos milhares de circunstantes que repletavam entradas, sadas, escadas e 
galerias, com os enfermos  frente, estampou no semblante abalo inexprimvel. 
Quinhentas vozes infantis, de antemo preparadas por irms reconhecidas, 
cantaram em coro dois hinos que nos arrebataram a culminncias de sentimento, O 
primeiro deles se intitulava Deus te abenoe, executado por oferenda dos companheiros 
mais velhos, e o outro se subordinava  expressiva legenda Volta breve, 
amado amigo!, preito de reverncia endereado ao instrutor pelos mais jovens. 
Emudecidos os derradeiros acordes da orquestra, que imprimira ignota beleza s 
melodias, os duzentos enfermos desfilaram diante de Flix, em nome do Almas 
Irms, que delegava aos companheiros menos afortunados o jbilo de apertar-lhe 
as mos, ofertando-lhe flores. 

A transferncia de autoridade foi simples, com a exposio e leitura respectiva 
de um termo referente  modificao. Cumprido o preceito, o Ministro da 
Regenerao abraou, em nome do Governador, o irmo que partia e empossou 
Rgis que ficava. 

O novo diretor, com a voz de quem chorava por dentro, expressou-se, breve, 
suplicando ao Senhor abenoasse o companheiro de regresso  reencarnao, 
hipotecando-lhe, simultaneamente, votos de triunfo nas lides que esposava. 
Confundido e humilde, acabou convidando Flix no s a usar da palavra, como 
tambm a prosseguir exercendo o comando daquela Casa, por direito que ele, 
Rgis, julgava imprescritvel. 

Intensamente comovido, o interpelado levantou-se e, qual se nada mais tivesse 


a ditar quela instituio que lhe recolhera mais de meio sculo de trabalho, 
alou a fala em prece: 

 Senhor Jesus, que te poderia rogar, quando tudo me deste no carinho dos 
amigos que me cercam na luz do amor que no mereo? Entretanto, Mestre, em 
nos colocando sob tua bno, temos algo ainda a implorar-te, confiante!... Agora 
que novas realizaes me chamam na Terra, auxilia-me, por piedade, para que eu 
seja digno do devotamento e da confiana desta casa, onde, por mais de meio 
sculo, recebi a magnanimidade e a tolerncia de todos!... Diante da alternativa de 
tomar novo corpo, no plano fsico, a fim de resgatar dbitos contrados e curar as 
velhas chagas interiores que carrego por doloroso rescaldo de minhas 
transgresses, induze, por misericrdia, os amigos que me escutam a me 
socorrerem com a benevolncia de que sempre me cercaram, para que eu no 
resvale em novas quedas!... Senhor, abenoa-nos e s glorificado para sempre!... 
Flix pronunciara as ltimas palavras, sobrestando, dificilmente, a emotividade 
que o traa, mas, como se o firmamento lhe respondesse, de imediato,  apelao, 
amigos das esferas superiores ali presentes, conquanto se nos mantivessem inacessveis 
ao olhar, valendo-se das foras espirituais de todo o auditrio, 
positivamente orientadas numa s direo, materializaram farta chuva de ptalas 
luminosas, que desciam do teto a se desfazerem, to logo nos tocavam a fronte, em 
vagas de perfume inesquecvel. 

A expectao prosseguia por instantes de jubiloso silncio, quando um carro 
estacou,  porta do foro repleto, e, logo aps, certa mulher penetrou o recinto, 
revestida de luz. 

Num timo, todos os circunstantes se levantaram, inclusive o Ministro da 
Regenerao, que a envolveu, para logo, num olhar de fundo respeito. 

Hesitei um momento s. Reconheci-a, feliz. Era a Irm Damiana, que integra em 
Nosso Lar o quadro de campees da caridade, nas regies das trevas, de quem 
conservava Flix o retrato e a quem se ligava por entranhados laos de afeto... A 
benfeitora, que revelava imensa modstia, trajara-se de esplendor  daquele 
esplendor que, decerto, tantos sacrifcios lhe custara , to-s para mostrar o 
regozijo com que vinha receber e aprontar para novo renascimento aquele a quem 
amava por filho do corao!... 

Quatro anos passaram, celeremente. 

Esperana, esforo, trabalho, renovao... 

Embora nunca me esquecesse de Flix, vrios instrutores nos haviam 
recomendado o afastamento temporrio da nova incumbncia de que se investia, 
para no sermos tentados a prejudic-lo por excesso de mimos. No entanto, quando 
menos esperava, o irmo Rgis enviou-me fraterna mensagem, avisando que 
cessara o impedimento. Flix vencera todas as lutas no ajustamento ao veculo 
fsico. Alguns dias depois, Cludio, Perclia e Moreira, em servio no Rio, 
convidaram-me, em memorando afetuoso, a rever o inolvidvel amigo, que todo o 
Almas Irms at hoje cerca de infatigvel carinho. 

Revivendo comovedoras lembranas, tornei ao Flamengo; contudo, o tempo 
tudo alterara. Famlia diversa ocupava o apartamento que se me vinculava s 
recordaes. Um amigo desencarnado, por solicitao de Moreira, que o cientificara 
de minha visita eventual, me forneceu, prestativo, o novo endereo, explicando que 
Gilberto e Marina se viram na contingncia de vender a moradia, a fim de 
atenderem a questes de inventrio, meses aps a desencarnao de Cludio. 


A famlia morava agora em Botafogo, para onde me dirigi, ansiosamente. 

Nenhuma frase terrestre para delinear a ventura do reencontro. Cludio e 
Perclia estavam l. Moreira, ausente em servio, chegaria mais tarde. Enleado nas 
vibraes balsmicas do acolhimento de meus anfitries espirituais, revi o casal em 
palestra com Dona Justa, reavistei Marita, na forma de menina bonita e chorona... 
Profundamente sensibilizado, contemplei Flix, que passara a chamar-se Srgio 
Cludio, na rsea ternura dos quatro anos de idade. Temperamento visceralmente 
diverso da irmzinha, j entremostrava serenidade e lucidez nos pensamentos e nas 
palavras. Quedara-me impressionado, ignorando como externar a alegria... Era ele 
mesmo!... 

Encantado, divisava novamente a chama daqueles olhos inesquecveis, 
conquanto brilhasse num corpo de criana despreocupada... 

Cludio e Percilia informaram-me que Nemsio fora conduzido ao plano 
espiritual, um ano antes, em seguida a escabrosos padecimentos. Contaram que 
verdadeiras maltas de obsessores ameaavam o apartamento de Botafogo, quando 
o pobre companheiro se achava prestes a partir. Percilia, porm, acompanhara o 
movimento intercessrio que se levantara em favor dele, no Almas Irms. Amigos 
devotados interpunham recursos, deprecando caridade e misericrdia, quando se 
soube que a Justia, no Instituto, o considerava incurso em definitivo banimento. 
Antigos companheiros, em apelos calorosos, mencionavam os gestos de beneficncia 
que praticara, ao tempo de Dona Beatriz, somados ao trinio de 
enfermidade e paralisia que suportara, resignado. Diante dos empenhos multiplicados, 
de que o prprio Irmo Rgis partilhava, j que, seguindo a orientao 
administrativa de Flix, inclinava o poder  benevolncia, os magistrados permitiram 
a reabertura do processo para debates amplos. Reposto o assunto em exame, a 
Casa da Providncia enviara dois notrios a Botafogo, para instruir com segurana 
as peties que se adensavam; todavia, os serventurios tinham chegado 
exatamente na ocasio em que Nemsio, parcialmente desencarnado, 
enlouquecera ao descobrir, em derredor do refgio domstico, a presena das 
companhias infelizes que irrefletidamente cultivara. Verificando-se o inesperado, os 
juizes, por esprito de eqidade, recomendaram se lhe conservasse a demncia por 
benefcio, no que, alis, tinham sido referendados pelo Irmo Rgis, porqanto essa 
era a nica frmula pela qual se lhe podia dar uma guarda conveniente, de modo a 
subtrai-lo  sanha de malfeitores desencarnados, que anelavam possuir-lhe o 
concurso em vilezas, to logo alijasse o corpo destrambelhado. Em vista dessa 
bno, obtivera a internao num manicmio respeitvel, mantido pelo Almas 
Irms em regio purgatorial de trabalho restaurativo, onde continuava em 
tratamento vagaroso, incapaz de assumir compromissos novos com as Inteligncias 
das trevas. 

Quanto a Mrcia, andava doente, mas arredia. Nunca mais retornara ao 
convvio familiar, no obstante o interesse incansvel de Gilberto e Marina para 
reaver-lhe a confiana. Dizia detestar parentes. Apesar de enferma, bebia e jogava 
com desatino. Cludio acentuava, porm, que os filhos espreitavam ensejo, a fim de 
apresentar-lhe os netos. E Perclia aditava que eu chegara justamente na vspera 
de tentativa promissora. Naquele sbado, pela manh, o casal se inteirava de que 
ela freqentava diariamente a praia de Copacabana, descansando na areia a fim de 
inalar os ares puros do mar alto, a conselho mdico. No dia imediato, domingo, 
Gilberto e a companheira contavam com tempo bastante para nova investida  
conquista da suspirada reconciliao. Estava convidado a cooperar. Descansasse 


ali, junto deles. Aguardasse. 

Entretivemo-nos largo tempo, em torno das maravilhas da vida. Percilia 
comparou a experincia terrestre a um tapete precioso, de que o Espirito 
reencarnado, tecelo do prprio destino, somente conhece o lado avesso. 

Noite avanada, apareceu Moreira, acrescentando-nos a cordialidade 
reconfortante. 

Recolhido, por fim, ao repouso, aspirei a aproximar-me de Srgio Cludio, para 
auscultar-lhe a posio espiritual naquela fase da infncia, mas sufoquei o impulso. 
Prometera, de minha parte, no Almas Irms, nada praticar, em nome do amor, que 
lhe arriscasse o desenvolvimento tranquilo. 

Vali-me dos momentos de calmaria para estudar, refletir, recordar... 

Manhzinha, achvamo-nos a postos. 

Marina, madrugadora, movimentou-se s seis e, s oito horas, sob os desvelos 
de Dona Justa, a famlia se reunia  mesa, em ligeiro repasto, prelibando os 
divertimentos da praia. Marita queria o mai verde e a lata de bolo. Srgio Cludio 
preferia sorvete. 

Antes da sada, a esposa de Gilberto, revelando admirvel madureza, pensou 
na misso que demandavam, lembrou-se de Cludio, sentindo-se espiritualmente 
assistida por ele, e pediu aos dois garotos orassem juntos. 

O pequeno empertigou-se no meio da sala e recitou a prece dominical, seguido 
pela irmzinha que, embora mais taluda, gaguejava numa ou noutra expresso. 

Em seguida, Marina solicitou ao pequerrucho: 

 Meu filho, recorde em voz alta a orao que ensinei a voc ontem... 
 Esqueci, mezinha... 
 Comecemos outra vez. 
E, erguendo a fronte para o Alto, na atitude reverente que lhe conhecamos, o 
menino repetiu, uma a uma, as palavras que ouvia dos lbios maternos: 

 Amado Jesus... ns pedimos ao senhor trazer vovozinha... para morar... 
conosco... 
A pequena caravana, acompanhada por ns, desceu do nibus nas adjacncias 
da praia. Nove da manh. Sol esplndido. ramos quatro companheiros 
desencarnados, junto aos quatro. 

Para que Dona Mrcia no lhes prejulgasse as intenes, Gilberto e Marina 
resolveram mergulhar, imitando as crianas. Em torno, milhares de banhistas que 
compartilhavam, risonhos, a festa permanente da Natureza. O bancrio e a mulher, 
a se entreolharem, de maneira significativa, vasculhavam recantos, aqui e acol... 
Pesquisaram, at que enxergaram Dona Mrcia, em mai, estirada sob tenda 
acolhedora. Parecia cansada, triste, conquanto sorrisse para o bando lacre das 
amigas. 

Cludio, emocionado, ponderou que dispnhamos da possibilidade de envolvla 
em reminiscncias edificantes. 

Acercamo-nos dela, enquanto Gilberto e Marina, com os rebentos, se 
aproximavam, guardando aparente despreocupao. 

Sob nossa influncia, a viva Nogueira comeou, inexplicavelmente para ela, a 
pensar na filha... 

Marina! Onde estaria Marina? Que saudades! Como lhe doa agora a 
separao!... Como lhe tinha sido espinhoso o caminho!... Rememorava o lar, de 
nimo opresso, revia o princpio... 

Cludio, Araclia, as filhas e Nemsio rearticulavam-se-lhe na imaginao, 


reintegrando quadros de amor e dor que jamais pudera esquecer!... Tanta 
amargura seria a vida? E indagava-se, de alma inquieta, se teria valido a pena 
existir para alcanar a velhice em tamanha solido... 

Nisso, percebe que a turma se avizinha, ergue-se, assustada, e reconhece o 
grupo, observando-se apanhada de surpresa. Atnita, fixou Marina, Gilberto e 
Marita, de relance; entretanto, ao esbarrar com os olhos de Srgio Cludio, que-dou 
enlevada!... Oh! Deus, que estranha e linda criana!...  monologou no ntimo. 

O menino largou, apressado, a destra materna, aps lhe haver Marina 
cochichado algo aos ouvidos, e atirou-se a ela, gritando, comovedoramente: 

-Ah! vov! Vovozinha!... Vovozinha!... 

Mrcia estendeu maquinalmente os braos para acolher aqueles braos 
diminutos que a enlaavam... O minsculo corao, que passou a bater de encontro 
ao dela, figurou-se-lhe um pssaro de luz que descia dos cus a pousar-lhe no trax 
abatido. Fez meno de oscular o pequenino, mas recnditas impresses de 
felicidade e de angstia lhe infundiam sensaes de amor e medo. Por que lhe 
despertava o netinho to contraditrios pensamentos? Antes, porm, que se 
decidisse a acarici-lo, Srgio Cludio levantou a cabea que lhe entregara por 
momentos ao ombro nu, e cobriu-lhe o rosto de beijos... No houve mecha de 
cabelos que no alisasse com dedos ternos e nem ruga que no afagasse com os 
lbios enternecidos. Enleada, Mrcia recolheu as saudaes dos filhos, abraou a 
menina, que via igualmente pela primeira vez, referiu-se  sade e, quando entrou a 
comentar, quanto  vivacidade dos netos, Marina recomendou ao filhinho 
declamasse a prece da vovozinha, que pronunciara em casa, antes de sair. 

Srgio, com a noo inata do respeito que se deve  orao, despencou-se do 
regao a que se agarrara, perfilou-se diante de Dona Mrcia. fincando os ps 
rechonchudos na areia... E, cerrando os olhos, em laboriosa diligncia de 
imaginao para ofertar de si mesmo aquela manifestao de carinho, repetiu, 
firme: 

 Amado Jesus, ns pedimos ao senhor trazer vovozinha para morar 
conosco... 
Dona Mrcia prorrompeu em lgrimas copiosas, enquanto o pequenino se lhe 
asilava, de novo, nos braos que tremiam de jbilo... 

 Que  isso, mame? a senhora chorando? 
 Inquiriu Marina, carinhosa. 
 Ah! minha filha!  respondeu Dona Mrcia, aconchegando o neto ao peito  
estou ficando velha!... 
Logo aps, despedia-se das companheiras, avisando que naquele domingo 
almoaria em Botafogo, mas, intimamente, estava persuadida de que no mais 
largaria a residncia da filha em Botafogo, nunca mais... 

O menino prendera-lhe o corao. 

Acompanhei o grupo at o asfalto. Gilberto, feliz, chamou um txi. Cludio, 
Perclia e Moreira, que seguiriam, de volta, me abraaram em festa. Contemplei o 
carro que deslizou na direo do Lido, para seguir adiante... 

Sozinho em esprito, diante da multido, confiei-me s lgrimas de 
enternecimento e regozijo. 
Ansiei abraar aquela gente generosa e espontnea, que brincava entre o 
banho e a peteca, ensaiando a fraternidade por famlia de Deus... 
Cambaleando de emoo, tornei ao local em que Mrcia e o neto tinham fruido 

o reencontro sublime, a simbolizarem para mim o passado e o presente, urdindo o 

futuro na luz do amor que nunca morre. Osculei o cho que haviam pisado e 
orei, rogando ao Senhor os abenoasse pelos ensinamentos de que me 
enriqueciam... Dos milhares de companheiros reencarnados, em risonha agitao, 
nenhum me assinalou, de leve, o culto de reconhecimento e de saudade. O mar, 
entretanto, qual se me visse, compadecido, o gesto medroso, arremessou extenso 
vu de espuma sobre o trato de areia que eu beijara, como se quisesse guardar a 
nota apagada de minha gratido e reverncia, na pauta das ondas, incorporando-a 
 sinfonia imponente com que no cessa de louvar a beleza sem-fim. 

Fim 


